
Busdriver é Regan John Farquhar, um rapper de Los Angeles nascido em 1978. Faz rap desde criança, participando de grupos e torneios de MCs. Começou a gravar como Busdriver no começo da década, com o compacto Busdriver/Legion, em 2000, e o álbum em CD-R Memoirs of the Elephantman, em 2001. Seu primeiro disco de distribuição mais ampla foi Temporary Forever, de 2002. Seguiram-se The Weather (Mush, 2003), com Radioinactive e Daedelus, Cosmic Cleavage (Big Dada, 2004), Fear of a Black Tangent (Mush, 2005) e RoadKillOvercoat (Epitaph, 2007), além de diversos singles e CD-R’s. Jhelli Beam, seu primeiro álbum pela gravadora Anti-, foi lançado em junho de 2009.
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…E já vai fazendo uma década de underground hip-hop. Uma década que coincide mais ou menos com a própria década, já que a coisa começou no final dos 90 (o primeiro lançamento da Anticon, gravadora-símbolo do movimento, é de 1999) mas causou estardalhaço mesmo nos dois primeiros anos da década. Criou sensação e não serviu apenas para combater ou contrabalançar um cenário de hip-hop dominado seja pelo gangsta rap, seja pela tiração de onda de mulheres e dólares, totalmente dominantes lá como aqui. Serviu acima de tudo para trazer novos caminhos e fraseados novos aos moldes convencionais do gênero e solapar dogmas musicais e de postura: por que sempre rapear sobre batidas funk ou eletrofunk? por que manter a pose de machão insensível? por que não aproveitar os interstícios entre rap e canto, ou entre rap e fala comum? por que a necessidade de manter discursos coerentes e passar mensagens quando a própria literatura já é trabalhada no limite da irracionalidade e dos fluxos de consciência há um século, passando por Joyce, Faulkner e Burroughs? Tudo isso gente como Dose One, Why?, Odd Nosdam, Sole, Aesop Rock, Sage Francis, Buck 65, Atsmosphere etc. afrontou com dedo em riste, trazendo um sopro de vitalidade incomum não só no hip-hop, mas em todo panorama da música pop do período. E Busdriver, apesar de ter sido percebido um pouquinho depois, estava nessa também.
Hoje, 2009, e a linha parece ter sido perdida. Perdida, de um lado, pela mesma razão que fez com que o De La Soul voltasse atrás de seu primeiro disco e, taxado de frouxo pela defesa do flower power, começasse a jogar (ainda que com talento e qualidade) no time da casa. Com Sage Francis não foi diferente. Curiosamente, os discos que provocaram as críticas e ocasionaram a guinada de postura vão também ser aqueles que eternizarão ambos artistas (3 Feet High and Risin’ e Personal Journals, caso alguém queira saber). Mas a balança também pode pender para o outro lado, e é o que vem acontecendo com Why? e com o grupo de Dose One, o Subtle: abandonar definitivamente o hip-hop em nome de um pop experimental que pode render tanto joias raras (os primeiros do Subtle) quanto bobagem sem identidade (o resto). E onde está Busdriver nisso tudo? Fazendo talvez o mais vibrante e tresloucado disco de hip-hop de vanguarda em um bom tempo. Jhelli Beam é tudo que se espera de um iconoclasta do hip-hop.
Mas talvez o tempo em que a iconoclastia no hip-hop era vista como algo interessante tenha passado. A julgar pelo que o Allmusic falou de Jhelli Beam, a disposição é a inversa, e o controle se restabelece remetendo todo gênero a sua faceta mais midiática e/ou tradicional. Num cenário em que todos ocupam posições claras e oficiais, o que resta a um iconoclasta? Nada menos que ser bobo-da-corte. E naquilo que ele representa simbolicamente: é a figura de que todos riem, mas cujas observações – pela exterioridade provocada por sua não-posição – definem melhor que todos os outros o estado de fato.
E é exatamente a posição que Busdriver decide assumir. Primeira frase falada: “Conscious rap has failed us”. Música final: “Sorry, Fuckers”, faixa com uma intro dizendo que todo mundo hoje espera do hip-hop “hinos de pista-de-dança” (club anthems) e que ele não vai fazer um, mas “vai tentar” (gonna give it a go), claro, intencionalmente não conseguindo. Farpas sobre o mundo do hip-hop pululam no disco. O deboche, nas mãos de quem sabe, pode ser uma precisa forma de crítica, e Busdriver é um desses que sabem. Mas, em se tratando de Busdriver, a gente sabe que o mais importante não é o dissing, mas o vertiginoso estilo de seu rap, num inacreditável uso de palavras incomuns disparadas a toda velocidade, em tom meio fanho e autoparódico (por vezes lembrando bastante Dose One). Ele, que já tinha feito tantas proezas, como mais poderia impressionar? Conseguiu: rapeou sobre o Rondo Alla Turca da Sonata em Lá Maior, nº11, de Mozart, pontuando cada uma das notas e fazendo referência a sua música mais famosa, “Imaginary Places”, que fazia basicamente o mesmo com a Badinerie de Bach; a frugalidade da melodia de Mozart, no entanto, faz tudo parecer mais absurdo. A música é “Me-Time”. Mas é apenas o caso mais patente da destreza e da ousadia de um rapper que se empenha mais em surpreender do que em criar refrões ganchudos, mais em propor bases inusitadas (”World Agape”, genial, é quase apenas uma bateria solando) do que redundar nos mesmos beats pulsantes que fazem os subwoofers gritar. Jhelli Beam está cheio de momentos altos, e mesmo que possa cansar pela exaustão vez ou outra, é sem dúvida um dos mais significativos lançamentos de hip-hop no ano, até agora só comparável a Doom e a Mos Def. Ouça com ouvidos livres. (Ruy Gardnier)
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Tanto do ponto de vista formal, como histórico, o termo “hip hop underground” carrega inúmeras contradições internas, e não me refiro simplesmente a pluralidade de manifestações que marcam o gênero. Mesmo porque a condição primeira do hip hop, como música de gueto dada à diversão e à improvisação, não nos ajuda nesse caso, visto que se encontra há muito abandonada. De um modo ou de outro, o hip hop underground foi assumido por correntes que vão desde a Costa Leste americana, com a contribuição precípua do selo Anticon, a Costa Oeste, com o trabalho de J. Dilla, Madlib e do selo Stones Throw. Pulsações desta vertente também soaram no coração da Georgia, onde Guillermo Scott Herren capitaneou uma de suas mais interessantes facetas. O que primeiro causa intriga, no entanto, é o fato de que, no fim das contas, podemos substituir o underground pelo termo “experimental”. E aí talvez resida a mais óbvia e gritante contradição interna do hip hop underground: se ele se caracteriza pela liberdade da experimentação, então a expressão não faz mais sentido, já que até mesmo no mainstream do hip hop podemos encontrar experimentadores muitas vezes mais radicais que os artistas inseridos na seara do underground. Ou Timbaland, Kanye West e Pharrell Williams são menos inventivos que EL-P, Doseone e este Busdriver, que acaba de lançar seu quinto álbum, Jheli Beam? Não creio que alguém em sã consciência e ouvidos abertos possa afirmar que sim. De forma que o que define, ao menos em parte, este hip hop underground é a experimentação num âmbito em que ela mesma é central, introjetada e alardeada por um círculo, um grupo ou mesmo um selo.
Uma outra questão que me faço ao completar a terceira audição de Jheli Beam. Se se pode considerar o hip hop como a arte do cut and paste e da improvisação, é preciso também reconhecer que pelo menos duas modalidades de “corta e cola” são possíveis, mesmo que uma não exclua a outra. A primeira, mais objetiva, se define pelo ato de recortar trechos de faixas pré-existentes para formar um terceiro elemento. É o que chamamos sampler. Mas uma vertente que foi explorada por alguns representantes do hip hop underground, e que talvez possa fornecer uma definição mais complexa e interessante do termo, é o sampler de culturas, estilos, formas de pensar a arte e particularmente a música. Talvez seja nesse registro do corta e cola que se concentre de forma incisiva o que é especificamente característicos do trabalho daqueles que se arrogam o dever de expandir os limites do hip hop. Penso que Busdriver se encaixa com muita propriedade na segunda modalidade de cut and paste. Jheli Beam é fiel representante de um hip hop repleto de referências internas e externas, ácido, culto ao extremo e autocrítico.
Há pouco mais de um ano atrás, quando a Camarilha resenhou o clássico álbum de Boom Bip e Dosenoe, Circle, eu escrevia que considerava positiva a radicalidade do trabalho, devido sobretudo a urgência vertiginosa com que a dupla costurava cada trecho, cada referência, cada momento do álbum. Por mais que para mim soasse como um bolo de noiva pretensioso e, por vezes, demasiado açucarado, Circle constituía um marco, algo que definiria o futuro e a sonoridade de muitos grupos e projetos. Mas a sensação com Jheli Beam é de que esta sonoridade envelheceu. Me refiro a sonoridade Anticon, com seus rappers de flows truncados e flertes com o rock e o techno. Claro que “Me-Time (With The Pulmonary Palimpsest)” leva à gargalhada (mesmo com esse subtítulo…) e “Least Favorite Rapper” tem uma letra muito bacana. Também não se pode considerar um álbum fraco ou ruim. Pelo contrário, é muito bem produzido, tem graça. Mas faixas como “Quebec And Back”, “World Agape” e “I’ve Always Known” soam mais reiterativas que inovadoras. Diante do rótulo e da pretensão, me sinto impelido a cobrar mais, a esperar mais… Fato é que nada que se pode ouvir nesse álbum é mais surpreendente do que “Bang”, faixa de Rye Rye com M.I.A., “D.O.A. (Death of autotune)”, de Jay-Z com produção de Kanye West e “Hold the Line”, do Major Lazer. E isto porque ainda não saiu o novo dos Beastie Boys… (Bernardo Oliveira)









