Arquivo para Fevereiro, 2008

29
Fev
08

Gnarls Barkley – “Run” (2008; Downtown, Inglaterra)

gnarls.jpg

Cee-lo grita “yeah its still the same”, e, receosos, concordamos: o ideal seria um disco surpreendente, inovador, que contivesse todos aqueles elementos de soul, psicodelia e hip hop reprocessados numa outra perspectiva… Mas vejamos o que diz essa “Run”, que já corre solta nos P2Ps da vida: aspecto sonoro de vinil no melhor estilo “fritando bife”; bateria frenética, à la soulpower; melodia agressiva, delicadamente gritada por este que é um dos grandes cantores da cena; produção extraordinaire deste que é um dos produtores mais debochados do momento (geniais as vozes que gritam “Run”, marcam o ritmo e supostamente foram gravadas por crianças); e, last but not least, esse potencial pop, sem prejuízo da novidade, que poucos conseguem realizar hoje com tanta destreza. E mais: o clipe tem a participação de Justin Timberlake. Sem maiores apreciações, uma faixa deliciosa! E que venha o álbum para confirmá-la… (Bernardo Oliveira)

24
Fev
08

Vários artistas – Soundboy Punishments (2007; Skull Disco, Inglaterra)

soundboypunishments2.jpg

Djs e produtores, os ingleses Shackleton e Appleblim dirigem o selo Skull Disco e, desde 2004, produzem dubstep de ponta. Em 2007, a dupla lançou esta compilação, contendo faixas do período de 2004 a 2007. O disco não é uma coletânea de singles, mas um primeiro disco da gravadora que mistura faixas novas a algumas já lançadas em anos anteriores.

“* # *”

Lemos e ouvimos por aí algumas opiniões generalizantes e preconceituosas sobre o assunto “música”. Com uma ingenuidade medonha, alguns dizem: “música eletrônica”, “música isso”, “música aquilo”… Penso que não é nem possível nem proveitoso distinguir e identificar a música em termos ‘genéricos” como, por exemplo, “acústico”, “eletro-acústico” ou mesmo “eletrônico”… Pois o que ela nos oferece são experiências-forma, experiências-timbre, experiências-idéia, todas acontecendo ao mesmo tempo agora, de forma instável… E isso tanto em relação ao criador, quanto ao fruidor… É por essas e outras que, na modesta opinião de quem escreve, esta coletânea capitaneada por Shackleton e Appleblim é o melhor disco de 2007. Mas o que significa escolher como o melhor disco de 2007 uma compilação com faixas de anos anteriores? Enquanto Burial, Pinch e Kode9 arquitetam o dubstep, a dupla já o desconstrói, imprimindo uma dinâmica absolutamente diversa (e arrepiante!) a esta combinação de 2step, técnicas de dubbing e experimentação rítmica e timbrística. Basicamente, o disco exibe uma arte rara da transfiguração, sonora e intelectualmente arrojada, em que se percebe que toda a estrutura clássica da música (a trinca melodia-harmonia-ritmo) é posta em questão. O que ouvimos são melodias rítmicas (como em “Stalker”), ritmos melódicos (como em “Naked”, ou “Girder”), e assim sucessivamente. Mas, sendo esse um caráter mais ou menos geral da música de hoje, cabe ressaltar que a força do som de Shackleton e Appleblim reside na forma com que eles trabalham suas batucadas digitais, complexas e entrelaçadas camadas preenchidas por dinâmicas sonoras e detalhes que fazem a diferença. Reparem na “melodia” de “I Am a Animal”, como tem uma força “percussiva” peculiar. Nesse sentido, destaco também o tratamento dado às vozes em “Blood in my hands”. Seguindo este método rítmico-transfigurador, Shackleton e Appleblim apontam para o futuro de um gênero que, em pleno 2008, ainda esboça seus primeiros clichês. (Bernardo Oliveira)

“*#*”

Dubstep é um ritmo genuinamente londrino, vindo mais especificamente do sul, onde o choque de culturas e raças é maior que em qualquer outra região da cidade. E é dessa diversidade que surgiram as maiores tendências musicais da música eletrônica dos últimos anos: o trip hop, drum‘n’bass, house e techno (EUA). No caso do dubstep seus principais pilares são o 2step garage, do qual se apropriou das batidas quebradas e o dub, que lhe emprestou um baixo profundo, rarefeito.

Soundboy Punishments já denota uma evolução no gênero e o fato de ser uma compilação de vinis 12 polegadas não tira seu frescor. Intercalando faixas, os produtores e DJs Shackleton e Appleblim trabalham com as mais diversas formas de dubstep e eletrônica: Shackleton, com suas batidas tribais e polirítmicas, às vezes beirando o funk carioca, como “Tin Foil Sky”; e Appleblim, com faixas carregadas de sintetizadores. É um tipo de dubstep oposto ao de Burial, que prioriza diferentes texturas de batidas e sons componentes. Se Burial pode parecer um pouco pueril e retrógrado no uso de vocais femininos e na construção de um clima urbano, os artistas da Skull Disco são mais diretos nas programações de bateria e na utilização de vozes, que quando feita, é de maneira assombrosa e futurística, como em “Blood on My Hands”, que encerra o primeiro disco.

A própria “Blood on My Hands” é a faixa que abre o segundo disco, em versão remixada por Ricardo Villalobos. Por longos 18 minutos, toda sua exuberância é sentida através do incansável e inigualável 4/4 de Ricardo Villalobos. Inevitavelmente se distinguindo como um dos destaques da coletânea, o mix Apocalypso Now de “Blood on My Hands” é composto também por uma camada eletrônica ambiente e por um drone grave e agonizante, que adquire a função do baixo. É notório que esse seja o primeiro encontro do dubstep com o techno minimal, estilo que se desenvolveu na Alemanha e é a marca de Villalobos. Essa colisão nos faz rememorar o final da década de 60, quando exatamente um ritmo britânico, ou pelo menos predominantemente (o rock) se cruzou com a vanguarda alemã e daí originou-se a música eletrônica. O que ainda há de vir depois desse encontro? (Thiago Filardi)

“*#*”

A principal dificuldade em acompanhar o desenvolvimento dos produtores envolvidos com o dubstep é que apesar de existirem belos álbuns em muitas variações do gênero, a verdadeira riqueza está nos singles e eps. Quem ouviu Ghost Hardware não teve tanta surpresa com o precioso Untrue, ou quem ouviu a faixa “Punisher”, sabia do talento do cometedor de Underwater Dancehall (um dos melhores discos esquecidos de 2007).

Resta a dificuldade em acompanhar, toda semana sempre tem um vinilzinho do Skream, Peverelist, Kode9, Benga e outros que passam ao largo do radar. Sempre terminei por esperar as curadorias, coletâneas que guiassem o ouvido para o que importava.

Apesar de reunir muito material, no fim, apenas ouvia muito pouco, principalmente o Burial e algumas coletâneas, já era trabalhoso absorver aquilo. Até que lembro de um dia, saia de casa para encontrar um amigo, tomar uma cerveja depois de um dia chato. Resolvi tentar “I Want To Eat You” (talvez pelo nome). Ouvi a faixa repetidamente até chegar ao local. Ali deveria ligar para o amigo, para dizer que havia chegado e ele aparecer. Esqueci de ligar por algum tempo, querendo entender por que aquela faixa era do caralho. Era daquelas músicas que foram feitas para os headphones, para andar na rua – parecia mudar a geografia.

Depois disto passei a sistematicamente buscar outros lançamentos do Shackleton, descobri a Skull Disco, o Appleblim e tudo o mais. Apesar de suas mais de duas horas, aqui não tem furo. Não vou sentir culpa em riscar o Appleblim, boas faixas, baixo tão espesso que dá para cortar à faca. Mas é meio constrangedora sua falta de nuance e estatura perto do Shackleton. O que não elimina as qualidades das cinco faixas que ele assina, sempre concisas e brutais, a mais longo com pouco mais de cinco minutos. Se Shackleton opta por buscar cores entre o cinza da cidade, Appleblim apenas enxerga/ouve opressão e terra arrasada. Gatekeeper e sua única faixa vai pelo caminho do baixo proeminente, batida forte, sample vocal ecoando.

Falta lugar para falar da remix do Villalobos para “Blood In My Hands”, faixa já superlativa, a felicidade que é sua redução dos elementos originais e o investimento em maior complexidade percussiva. Na original, existe a convivência entre certa melancolia e a esterilidade urbana que torna tudo parecido, a criação de algo terno, apesar de tudo. As faixas respiram. Se um personagem de Cloverfield ouvisse, certamente diria: It’s Alive!

Em suas faixas estão a produção sofisticada, intrincada, baixo às vezes preenchendo por completo a banda sonora, à vezes sensual, jogando com uma percussão que parece desestabilizar uma imaginária busca de Shackleton por construir pequenos universos, onde o Oriente Médio, a Índia, os EUA e Londres são uma só rua, anomalias mergulhadas no caos e reorganizadas nos ouvidos. Vida longa à Skull Disco. (Marcus Martins)

“*#*”

O primeiro desafio que Soundboy Punishments coloca é seu estatuto. Porque o disco não é exatamente uma coletânea, e tampouco um disco individual, ainda que das 19 faixas 13 sejam do Shackleton. Metodologia, então? Fechar o olho e deixar a música falar por si mesma. Certo, mas ainda assim fica clara uma separação de propósitos e sonoridades: Appleblim repetidamente constrói suas faixas em função dos tempos fortes do andamento e como que para fazer casa às outras sonoridades não-rítmicas (pra não dizer “melodiosas”, o que nem sempre é o caso), ao passo que o Shackleton está muito mais interessado em criar especialmente para a batida, e para deslocar as células rítmicas num jogo intrincado de sons de caixas, atabaques, pratos e tudo mais que vier à frente, evocando algumas coisas de funks cariocas (os guiados por atabaque), muita música africana e até o Autechre em sua fase mais cerebral, pela exuberância erudita da composição, mas só que aqui o negócio é groove – ainda que só dançável em alguma pista de dança de nossos sonhos…A coisa que mais me faz falta em Soundboy Punishments é essa sensação de que a ordem das faixas não leva o disco a nenhum lugar em especial, só adiciona uma faixa em seguida à outra, conduzindo quase que obrigatoriamente à apreciação faixa por faixa. Mesmo porque algumas brilham de exuberância ao passo que outras, em número reduzido, fazem apenas volume. Das faixas de destaque, o Shackleton dá de goleada, apresentando alguns matadores (“Hamas Rule”, “Majestic Visions”, “Hypno Angel”), enquanto o Appleblim, mais tradicional no manejo do dubstep, solta a ganhadora “Mystical Warrior” mas em geral me parece ainda remoer algumas intervenções vocais e alguns graves que já foram bem esgotados pelo drum’n'bass (aliás mais padrinho do dubstep do que se costuma comentar, sobretudo na versão mais selvagem e underground do jungle). O destaque absoluto do disco, no entanto, são as duas versões de “Blood on My Hands” tanto a de Shackleton que fecha o disco 1 quanto o remix de Ricardo Villalobos que abre o disco 2. O soturno do vocal, a letra historicamente serena sobre a queda das Torres Gêmeas, os momentos de explosão e acima de tudo a força dos atabaques repetitivos transforma a faixa numa das melhores coisas entre aquilo que se faz hoje. O remix de Villalobos? Consegue dar uma camada ainda suplementar de genial desconforto, tocando a batida original por um metrônomo que fica lá no fundo enquanto ele fica alternando volume, velocidade e timbre de um sonzinho de ping-pong que se transforma no protagonista da faixa, criando uma desorientação rítmica de se tirar o chapéu. Ainda que o todo não acresça à soma das partes, o primeiro long play da Skull Disco é obrigatório para quem se preocupa em correr atrás de música de artistas que desbravam novos caminhos. (Ruy Gardnier)
24
Fev
08

Black Future – Eu Sou o Rio (1988; BMG/Plug, Brasil)

black-future-1988-eu-sou-o-rio.jpg

Formado por Márcio “Satanésio”, Tantão, Olmar e Edinho em meados da década de 80, o grupo carioca Black Future lançou “Eu sou o rio” em 1988, considerado um dos melhores discos do ano pela crítica especializada. O disco conta com as participações especiais de Edgar Scandurra (Ira!), Paulo Miklos (Titãs), Edu K (De Falla) e Alex Antunes (Akira S e as Garotas que erraram).

“*#*”

Na década de 80, o bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, ainda não era a meca do samba e das casas noturnas, mas um aglomerado disforme caindo aos pedaços, habitado por uma fauna sui generis… Quando comecei a freqüentar este ambiente propício também a jovens leitores de William Burroughs, meus parentes me perguntavam, incrédulos e preocupados: “Você vai para a Lapa?!!! Fazer o quê?” Bom, eu ia simplesmente beber cerveja no Bar Arco-Íris, eventualmente entrar num “boite”, ou visitar um pagode improvisado na Rua Joaquim Silva… Algumas vezes, vinha a notícia: caiu um! mataram um! Morria-se de faca e tiro na lapa do início dos 90’s… O cenário, como se percebe, era propício às mais profundas inflexões do espírito poético, inclusive sob sua forma mais ordinária, comezinha… Posso dizer com franqueza: em muitos desses passeios noturno, dei de cara com Tantão e Márcio “Satanésio”, figuras emblemáticas de uma Lapa ainda desglamourizada, ainda corroída pelo descaso e pela difamação, sofrendo as mazelas de sua décadence… O Black Future encontrou nesse cenário o ambiente ideal para criar seu mosaico de samba, hip hop, Artaud, The Cure, Sérgio Malandro, PIL, tecnopop, Cartola… Márcio “Satanésio” destila as poesias mais bem humoradas e ácidas do rock nacional, declamadas idiossincrática e debochadamente contra a igreja, a vida medíocre, a família e a propriedade. Muito interessante também o despojamento irresponsável com que o grupo lida com o tema da utilização das drogas ilícitas: em tempo de criminalização de seu consumo, de institucionalização radical das políticas públicas contra este suposto mal, o Black Future funciona como lembrete e contra-argumento definitivo à pasmaceira política e cultural pela qual passa esse malfadado Rio de Cesar… (Bernardo Oliveira)

“*#*”

Que 1988 se supõe um pouco tardio para a estética do Black Future, não nos resta dúvidas. Mas as questões a serem levadas em conta são outras: por exemplo, quanto tempo levou para o rock brasileiro assimilar toda a explosão da música do final dos anos 70 e início dos 80? Ou melhor, em que momento abriu-se espaço para o desenvolvimento de gêneros menos comerciais do rock? Se a assimilação do pós-punk e do gótico pelas bandas brasileiras foi lenta e gradativa, a new wave foi quase que instantaneamente acolhida pelos roqueiros daqui. Grupos que revitalizaram a cena musical brasileira como Blitz, Kid Abelha & os Abóboras Selvagens e Gang 90 & as Absurdettes trouxeram tudo o que havia de mais bem-humorado e descontraído da nova onda estrangeira. Somente após a conquista desse novo território, foi possível que bandas como Titãs, Legião Urbana, Akira S & as Garotas que Erraram e Fellini propagassem o lado mais obscuro da new wave: o pós punk. De B-52’s, Blondie e Kid Creole & the Coconuts passou-se a ser Gang of Four, The Cure e The Comsat Angels.

Black Future surgiu desse ensejo e, em 1988, lançou “Eu Sou o Rio”, um disco que marcou o fim de uma era da música brasileira. O álbum possui um tom apocalíptico que só tem precedentes no rock brasileiro no clássico “Loki?”, de Arnaldo Baptista. Mas enquanto “Loki?” é o disco-símbolo da decadência do rock (não só brasileiro, mas mundial), “Eu Sou o Rio” é a mais pura imagem de declínio de uma sociedade que vivia um momento de pós-esperança esvaecida. Era o Brasil da recessão econômica, da era-Sarney. Era o Rio de Janeiro permeado por dois governos brizolenses, e a Lapa, principal reduto da boemia e de atividades culturais, em estado de degradação.

Ao longo do disco o vocalista Marcos “Satanésio” Bandeira, com uma dislexia que se assemelha a de Cazuza e em exaltações angustiadas, que sugerem John Lydon do PiL, questiona ironicamente valores sociais, morais e religiosos da época. “Piada”, de crítica dirigida à igreja, pode parecer até um pouco ingênua aos ouvidos atuais, se comparada a mais sólida e contundente “Igreja”, dos Titãs. A faixa-título é, sem dúvida, um dos destaques, pois é a única a trazer elementos da música brasileira para uma sonoridade dominada por signos do pós-punk e do rock gótico. “No nights”, com seu swing lento de bateria, guitarra melódica e baixo proeminente até parece uma canção extraída do álbum Closer, do Joy Division. Seja PiL, Joy Division, The Cure, Siouxsie & the Banshees ou Echo & the Bunnymen: a cada instante o Black Future lembra alguma banda estrangeira da década de 80. Isso, porém, não tira o mérito do disco, que, há 20 anos, lançou uma profecia: o futuro seria negro – um ano depois viria a era-Collor e a explosão do sertanejo; dois anos depois, a morte do maior ídolo de rock do país daquela década, Cazuza. E as coisas só pioraram. (Thiago Filardi)

“*#*”

As anomalias que surgem em lugares inesperados, quando se pensa no “roque brasileiro” dos anos 80, raramente os nomes elencados na coletânea Não Wave: Brazil Post-Punk 1982-1988 não são dos primeiros a serem lembrados. Talvez, Fellini, As Mercenárias. Na verdade apenas ouvi falar deste disco quando soube da existência desta coletânea.

Sobre o disco, não restam dúvidas sobre a matriz post-punk e os músicos dão conta de não deixar muito a dever a bons exemplos do gênero. Mas aí surge o problema – incontornável – os vocais são muito ruins, quase tive vontade de abandonar e dizer que não consegui ouvir, abrir mão de escrever o texto, ainda mais com o cara falando muita bobagem grandiloqüente. Melhor que, por baixo da histeria tinha algo, sólida composição de guitarra-baixo-bateria.

A faixa Reflexão diz bem o melhor/pior da banda, uma base muito boa, com um piano curioso, mas um vocal exagerado, que não vai a lugar nenhum que não seja tirar espaço das qualidades instrumentais da faixa. O histrionismo lembra o pior do metal. Também, ser conhecido como Satanésio não ajuda. A faixa Piada, com sua igreja imperialista, igreja machista, é o nadir, esse cara é uma piada.

A melhor, a faixa-título tem base muito diferente e é a única onde se pode identificar o tal samba-rock da banda, os vocais estão menos gritados e irritantes. Uma certa ambigüidade entre parecer celebrar o Rio e falar das muitas desgraças. Em música anterior eles descem o pau na igreja, mas não perdem a oportunidade de notar que nestes lugares tem muita bicha… e eles são ameças a que?

No Nights é mais funk. É uma pena que, não tendo acesso a encarte, não sei quem, por exemplo toca uma ótima guitarra nesta faixa. A batalha entre metais e bateria no final da faixa é das melhores coisas no disco. Aqui e em Eu Sou o Rio aparece uma possibilidade de frescor, de alguma contribuição para um gênero, sem que se limite a criar versões próprias para idéias já exaustas, mesmo à época. Em outros lugares, pequenas intervenções como os ruídos eletrônicos em Eu Quero Tocar a Lapa.

Ao vivo deve ter sido muito mais divertido, imagino algo bem teatral e insano, quem sabe pequenas transcendências. Talvez eu tenha perdido o momento, a piada. Mas uma versão instrumental seria a glória. (Marcus Martins)

“*#*”

E vinte anos se passam… Não sei francamente qual é o estatuto desse disco do Black Future hoje, se é um clássico maldito ou uma curiosidade com valor, mas sei que foi a capa de uma das primeiras Bizz que eu comprei, e do Black Future eu só conhecia o show que eu vi na Bunker, há uns oito anos. A impressão ao finalmente ouvir esse Eu Sou o Rio já com a devida distância histórica é mais ou menos a mesma que a do show: de um lado, “Eu Sou o Rio”, de outro, um coquetel meio homogêneo de The Cure fase Pornography, Einstürzende Neubauten, The Fall e outros grupos que flutuavam entre o industrial e o dark, declamações em cima de uma parede sonora às vezes intensa, às vezes não, mas nunca especialmente brilhante ou notável na composição.De um ponto de vista histórico, é um disco de incrível valor, porque ainda que musicalmente não acrescente ao panorama dos sons que o influenciaram, ele serve como registro único no Brasil de um grupo que assimilou o pós-punk da maneira específica que eles assimilaram e a misturou à tradição poética marginal brasileira, em especial carioca, de inspiração beat dos anos 70. Eventualmente, o grupo cria certas inflexões que podaríamos aproximar de outras bandas da época, como Picassos Falsos ou mesmo a Zero.O que ressalta como fator limitador do disco, no entanto, é a falta de características individualizantes tanto nas letras quanto na declamação delas, o que fica mais perceptível em “Cartas do Absurdo” e “Piada”, que não são muito além daqueles poemas de poeta de botequim que aproveita sempre um microfone aberto para assustar as pessoas com suas intervenções.

Mas se quando filosofa ou tenta achar palavras bonitas e intensas o vocalista/letrista Satanésio só redunda em poesia vagabunda, quando ele decide fazer suas odes a inspiração surge e todas as palavras que ele evoca passam a ser palpáveis, criando um mosaico de personagens, lugares e comportamentos bem poderoso, o que acontece em “Eu Sou o Rio” e na bonus track “Eu Quero Tocar a Lapa”. “Eu Sou o Rio” é o anti-hino, ou melhor, o hino dos malditos, com essa base eletrônica extremamente irônica em relação ao samba como imagem clichê do Rio, com uma entrega autêntica ao inverso do cartão postal da sociedade. “Reflexão”, pelo instrumental carregado, e “No Nights”, pelo swing desajeitado, são destaques menores.

Mas nada me tira da cabeça que, se fossem vinte ou trinta as bandas de pós-punk brasileiro e setenta o número de discos lançados, o valor do disco seria pronunciadamente menor. “Eu Sou o Rio”, em todo caso, paira acima. (Ruy Gardnier)

19
Fev
08

Vampire Weekend – Vampire Weekend (2008; XL Recordings, EUA)

Vampire Weekend

Formado por Ezra Koenig (voz e guitarra), Rostam Batmanglij (teclados), Chris Tomson (bateria) e Chris Baio (baixo), o Vampire Weekend é um grupo novaiorquino de pop/rock com influências de música africana. Revelado com alguns singles e um ep ao longo de 2007, o grupo lançou seu primeiro álbum, epônimo, em janeiro de 2008. (RG)

* # *

Não é tantas vezes que um disco consegue ter uma audição tão direta e ainda assim as faixas encantarem por seu mistério. Mistério, sim, porque por trás do liquidificador de rock indie à Strokes com guitarrinha & percussão de pop africano existe um charme irredutível à fórmula, uma simplicidade que contagia (ou, mais corretamente, vicia) pela percepção de que em algum lugar essa música já existia, pairando à volta do universo pop, só ainda não tinha tido a casualidade de assumir a forma material, sonora. O rock anda desgastado? Então, para onde ir, diagonal para baixo e direita? A África fornece mais do que uma ou duas sonoridades de empréstimo, ela oferece acima de tudo uma disposição para a frontalidade, para a jovialidade e para o fulgor da resolução sem firulas.

É claro que a banda bebe bastante dos Strokes, seja pelo back to basics, seja por algumas soluções de escrita da música. Isso é facilmente perceptível em “Campus”, em “Oxford Comma”, sobretudo na maneira como a bateria acompanha os refrões ou tempos fortes. Mas dentro dessa herança eles conseguiram encontrar um som realmente próprio e, mais do que isso, eles conseguiram fazer com que esse som fosse mais do que uma fórmula. Aliás, desde a primeira audição se percebe que cada canção obedece a fórmulas diferentes. Arranjos, timbres, ritmos: faixa a faixa, a equação varia e ainda assim o conjunto se mantém coeso.

Na verdade, as coisas que o Vampire Weekend me lembra são Supergrass e o primeiro disco do Talking Heads. Desses últimos, percebo o mesmo anseio por um som limpo de guitarra que carregasse um swing meio bizarro, e, claro, toda a evocação de escola de arte e universidade. Do Supergrass, a menção à deliciosa e obrigatória “Walcott” já diz mais que a metade: melodias ganchudas, andamento rápido e celebração do feelgood juvenil. Mais que celebração: tradução disso em música.

Mas essa energia nada seria se não estivesse associada à idéia de concisão. O que mais encanta nesse primeiro disco é que tudo tem sua função precisa e direta, dos violinos à percussão afro, tudo parece ter sido esculpido com a finalidade de deixar tudo acessório de fora. Excesso de bagagem diminui a desenvoltura. Essa lição eles aprenderam com rigor, e fizeram um álbum que dá esse gostinho de moda antiga, de gente como os Specials ou o Jam, que se aprumavam todos para despejar toda sua energia em pérolas pop de 3 minutos cada. Em Vampire Weekend temos 11 delas. Cada uma com gosto especial. (Ruy Gardnier)

* # *

Os fissurados em música que, em busca de informação, experimentaram a vida dura dos anos 80, sabem que o advento do mp3 promoveu a emergência de compositores, músicos e instrumentistas antes negligenciados pela dinâmica de um mercado limitado e bilateral. O mp3 reforçou a “cultura do culto” e facilitou algumas trocas inusitadas entre artistas e público, mas também entre artistas e artistas. Toda gama de informação antes considerada periférica, emerge e se estabelece como “matriz”, ainda que provisória… nesse sentido, um dos discos mais interessantes do último mês é o homônimo do Vampire Weekend, curioso afro-pop novaiorquino. Observo entretanto que as inserções das células elaboradas a partir do rock africano, parecem absolutamente descompromissadas com a fidedignidade e o “culto”, mas, de outro modo, aproximam-se de um processo de instrumentalização de elementos isolados da música africana. Nada contra, pelo contrário. Mas que se registre: o burburinho em torno do vampire weekend relaciona-se mais à inclusão tímida dos elementos africanos, do que com o que o grupo propriamente tem a dar: melodias, harmonia e ritmos absolutamente afinados com o que se convencionou chamar indie rock… Por este motivo, destaco aqui as faixas “Mansard Roof”, “Cape Cod Kwassa Kwassa” e “Bryn”, capazes de ferir os paradigmas que caracterizam a vulgata do gênero 4/4, guitarras e roupas largadas, cara de entediado… Me parece de um pessimismo atroz afirmar que esse disco possa chegar entre os melhores do ano, mas, com a fissura em dia, vale encará-lo com otimismo. (Bernardo Oliveira)

* # *

O Vampire Weekend é mais uma banda que dá continuidade aos novos parâmetros do indie pop, estabelecidos por nomes como Arcade Fire, The Shins e Of Montreal. Existe todo um truque de produção por parte de Rostam Batmanglij (que parece ser o líder do grupo) para mascarar a falta de criatividade das composições. Incapaz de trazer uma linguagem nova para o pop ou para sua própria banda, Rostam investe em canções de arranjos mais complexos, com orquestrações e diferentes usos de órgão, mellotron e sintetizador (instrumentos operados por ele mesmo). A sonoridade do Vampire Weekend segue todos os modismos do indie pop atual: a referência ao pós-punk e new wave (nas guitarras de timbres mais agudos, ou na afetação vocálica byrne-iana, o que irremediavelmente os aproxima do Clap Your Hands Say Yeah); nos vocais melodramáticos (algo cultivado por Win Butler do Arcade Fire); e a transformação do kitsch em atrativo. Mas enquanto bandas anteriores e influentes ao Vampire Weekend, como o Of Montreal, são kitsch pelo simples fato de ser kitsch, o Vampire Weekend mostra-se menos kitsch que cool – a vontade de soar moderno é maior que qualquer outra coisa. Há músicas a serem salvas, como a agradável faixa de abertura, “Mansard Roof”, e a pós-punk moderna “Walcott”. “A-Punk”, com sua levada ska, e “Cape Cod Kwassa Kwassa”, com guitarras caribenhas, parecem canções perdidas dos Paralamas do Sucesso da década de 80. Tem sido dito que a banda é uma mistura de Afro Pop com a fase Graceland de Paul Simon. Infelizmente, eles estão mais para um pop barroco de canções insípidas, que para o pop tingido de world music de Graceland. Quem dera se eles tivessem o mínimo de talento de Paul Simon. Daí, talvez, pudesse ser exalado qualquer vestígio de originalidade, ao contrário de parecerem tão derivativos de tudo que já conhecemos. Vampire Weekend é apenas (mais) uma (triste) amostra da esterilidade do pop contemporâneo. (Thiago Filardi)

* # *

Parece que a banda foi muito comentada em muitos blogs antes de lançar um disco, parece que antes mesmo de lançar o primeiro ep. Ah, agora parece que os blogs os detestam. A síndrome do “ouvi primeiro”, Strokes, Clap Your Hands Say Yeah!. Chato. Nem vale a pena perder tempo.

Não consegui ouvir nada de especial/novo/arrebatador no disco, vocais e arranjos vocais medianos, melodias que lembram A Música dos Outros. Mas aí o problema vem na forma como tudo é arranjado – estrutura indie convencional, arranjos estranhos e inesperados misturados a grooves de afro-pop, obsessões geográficas, name-dropping, letras com referências à vida universitária – e com tudo isto, contrariando as regras, eles parecem “sinceros”. Não consigo comprar o cinismo que muitos conseguiram ver ali, ou melhor, os cínicos não podem ser sinceros? É possível conciliar isto com um quebra-cabeça de referências e citações? E depois de montado, o que temos ali?

Além de tudo, como não rir de: “Who gives a fuck about an oxford comma?/I’ve seen those english dramas too/They’re cruel”. Ou de uma faixa que cita Louis Vuitton, a marca Benneton (tão old fashion), Peter Gabriel (tão esquecido), Cape Cod e o ritmo Kwassa Kwassa? O que posso dizer é que gostei do disco, muito. Não sei quanto tempo ele vai durar, mas por enquanto, ele continua a tocar, divertir e intrigar. É a sutil diferença entre brincar de “oh, tenho tantas referências” e simplesmente as vestir como segunda pele, sem deixar de ser meninos de boas famílias, recém-saídos da universidade, querendo se divertir. But the kids don’t stand a chance.

No fim, a curta duração do disco ajuda. O frescor que parece trazer algo novo, mas aos poucos percebemos que tudo já estava lá – em Paul Simon, nos Belle & Sebastian, nos Strokes e mesmo assim, o disco é leve, e agradável, como universitários americanos de férias em uma savana africana, tentando aprender a tocar kwassa kwassa. (Marcus Martins)

19
Fev
08

Matthew Shipp, John Medeski – Scotty Hard’s Radical Reconstructive Surgery (2006; Thirsty Ear, EUA)

Scotty Hard’s Radical Reconstructive Surgery

Scotty Hard’s Radical Reconstructive Surgery é um dos projetos da Blue Series, esforço contínuo do pianista Matthew Shipp em ampliar os limites do jazz, propondo encontros de artistas de hip-hop e música eletrônica com músicos de jazz. Pela Blue Series já passaram El-P, Antipop Consortium, DJ Spooky e Spring Heel Jack, entre outros. Nesse disco, o produtor Scotty Hard “produziu e arranjou”, como dizem os créditos, a música tocada por Matthew Shipp (piano) e John Medeski (órgão), com acompanhamento de William Parker (baixo), Nasheet Waits (bateria), DJ Olive (eletrônicos) e o brasileiro Maurício Takara (bateria adicional). (RG)

* # *

A primeira coisa que chama a atenção em Scotty Hard’s Radical Reconstructive Surgery é a pulsação e o swing da bateria, que em momentos até nos levam a crer tratar-se de injustiça o disco ser creditado somente aos artistas das teclas brancas e pretas. Em vários momentos do disco, é o que está em evidência, pela pegada, pela aproximação com o universo do hip-hop e pela “reconstrução” da batida eletrônica, uma vez que o aparente loop nada mais é que desempenho ao vivo, com sutis mudanças nas células rítmicas e, conseqüentemente, aumento na vibração e na criatividade da música executada.

“Chance Operation”, a segunda faixa, dá um pouco a chave de decifração do disco. Em seguida a uma apresentação com barulhinhos vindos de samples, do baixo, do piano, a música se inicia com um violento ataque de bateria, com o baixo e os eletrônicos vindo logo em seguida.
Mas é só quando os pianos chegam que percebemos a grandeza do que estamos ouvindo. Porque, mais do que estabelecer melodia ou fluência de improviso, os dois sujeitos que assinam o disco parecem construir pequenos haikais de timbre que criam camadas de sonoridade, fazendo com que nossa percepção flutue sobre os diferentes sons que nos são apresentados pelas teclas de Shipp e Medeski junto com os eletrônicos de Olive e Scotty Hard. E o melhor do disco acontece quando as camadas se sobrepõem, quando ao mesmo tempo esses sujeitos decidem encher o som ao mesmo tempo.

É meio redundante dizer que um disco da Blue Series ao mesmo tempo é e não é jazz, mas essa edição com Scotty Hard consegue ser assim por razões bastante diferentes dos outros. Claro, as intervenções dos músicos é pontual e não há muita coisa aqui que possamos chamar de solos, mas ainda assim o disco ouve-se com esse senso de urgência e aventura que só um grande disco de jazz tem, desse flerte com o imediato que só a noção de improvisação ocasiona.

É necessário chamar a atenção para a diversidade de instrumentos utilizados por Medeski e Shipp: wurlitzer, moog, piano, órgão, mellotron, clavieta. É um verdadeiro workshop de sonoridades extraíveis e associáveis, que ganham mais relevo à medida que as músicas e as intervenções de cada músico não dão sentido de progressão, mas servem quase sempre para dar senso de coesão à atmosfera do conjunto. Ainda que por momentos o disco faça lembrar dois clássicos discos de Miles Davis, In a Silent Way pelos teclados sobrepostos em camadas e On the Corner pelo incrível trabalho rítmico e pela repetição, fica claro que tanto pela estrutura quanto pela pesquisa de sons que a cirurgia reconstrutiva radical da Blue Series aponta mais para o futuro que para o passado. (Ruy Gardnier)

* # *

Tenho pra mim que rótulos como melting pot, crossover, funk’o’metal carregam uma intenção didática, qual seja, indicar que um ou dois gêneros musicais consolidados se misturaram, e formaram um terceiro elemento que confunde jornalistas e estudiosos, desafia os marketeiros e, geralmente, deliciam o público. No entanto, mesmo o jazz, o soul, o samba e outros “gêneros” aparentemente consolidados… Ora, eles também são constituídos a partir de fragmentos sem rótulo, de pequenas e preciosas singularidades que, por ocasião de condições e opiniões diversas, acabam se cristalizando. Me parece que a música é, por definição, “misturada”, cacos de procedimentos, pesquisas, formações esquecidas… A “mistura” tão apregoada hoje pelo mundo musical mais delimita um período de histeria coletiva do que propriamente um ritmo, ou um gênero… O mercado influi nesse processo de forma decisiva, às vezes nociva, mas não definitiva. A riqueza e a vivacidade da música hoje residem na demonstração e confirmação de como o “gênero” não é nem desejável e até mesmo, desconfio, possível. A mistura criada por Scotty Hard mostra que a música hoje está mais viva do que nunca, e isso num sentido muito específico: sua produção escapa do gênero não por obra de um “niilismo” (a explicação corriqueira), mas sobretudo porque, ao que parece, a música hoje é, de fato, supra-nacional, apátrida… Talvez por este motivo esta cirurgia seja operada justamente por indivíduos que, em seus respectivos trabalhos, ampliam a indeterminação na música contemporânea. Scotty Hard’s Radical Reconstructive Surgery não se posiciona como “sintoma”, mas causa. Um disco que não define o futuro ou o passado, mas, com rigor e sagacidade, um delicioso, insuportável e profundo “agora”. (Bernardo Oliveira)

* # *

Desde a aparição do hip-hop como movimento cultural e urbano, no início da década de 80, houve sempre uma coexistência com o jazz, um gênero de origens semelhantes ao hip-hop, mas de estrutura musical completamente diversa. Em 1993, com o disco Jazzmatazz, o rapper Guru trouxe a primeira justaposição integral dos dois gêneros em um mesmo álbum. O problema é que em Jazzmatazz sentia-se que, apesar de estarem próximos, o jazz e o hip-hop não se fundiam a ponto de formar uma unidade só. Existia apenas a convivência entre os dois gêneros. Na década de noventa essa fusão se desenvolveu e, hoje, já existem nomes que levam esse “subgênero” ao extremo, como Beans do Antipop Consortium, o projeto Yesterdays New Quintet de Madlib, e os próprios discos da Blues Series. Em Radical Reconstructive Surgery, Scotty Hard, como bom produtor de hip-hop, dá ênfase às batidas. Em quase todas as faixas, a produção favorece a bateria, que mesmo trabalhando com ritmos quebrados, pouco sai do 4/4. O piano de Matthew Shipp preenche todos os espaços vazios entre a bateria e o baixo, assim como o órgão de John Medeski, que incrementa o groove das improvisações e acompanha as marcações da bateria. O surgery do nome conota a função individual dos instrumentos, que são tangidos de forma minuciosa, como se lembrassem uma cirurgia. A produção é extremamente bem acabada e não é à toa que um dos melhores discos produzidos da Nação Zumbi, Futura, seja creditado a Scotty Hard. A presença de DJ Olive apenas enriquece o conjunto, com a adição de barulhos sombrios e climáticos. Os pontos altos do disco são “St. Claire’s Hospital” e “The General”, nos quais há uma mudança abrupta na textura e ritmo das batidas, ainda assim dando incrível coerência ao andamento das músicas. Como no Yesterdays New Quintet e nos lançamentos solos de Beans, há quase uma simbiose entre os dois gêneros. Às vezes não é possível identificar se o que está sendo tocado é jazz ou hip-hop. Sabe-se que existe um pouco dos dois ali. O lado B é um pouco inferior ao lado A e o momento mais fraco do disco é “Eclipse”, na qual a progressão dos acordes lembra muito In a Silent Way, de Miles Davis, tornando a música previsível e pouco original. Contudo, Radical Reconstructive Surgery é envolvente desde os primeiros momentos, e ao final se configura como uma audição intensa e memorável. (Thiago Filardi)

* # *

Confesso ter deixado de acompanhar os lançamentos da Thirsty Ear há algum tempo e se desde já admito que este disco pouco me tocou, também foi agradável voltar a ter contato com os artistas aqui listados, pois fora o DJ Olive, há muito não presto atenção no trabalho de nenhum deles.

Mas o disco: é fácil perceber como estes músicos estão à vontade tocando juntos, passando desde os motivos jazzísticos a momentos abstratos sem movimentos abruptos. Tenho pouca idéia de como ocorreu a construção do álbum, a participação dos músicos e como foi dividido o papel entre o Hard, produtor, e o DJ Olive, que aparece listado como audio janitor.

É complicado falar de um álbum com o qual passei pouco tempo, quatro ou cinco audições são insuficientes para perceber todas as nuances, as (re/des)construções e as interferências do produtor (o que talvez seja o grande mérito da Thirsty Ear, que no lugar de ficar exumando cadáveres (lindos cadáveres), aceita a possibilidade do erro, do desgaste).

A variedade sonora criou certa barreira, não conseguir ler o que une as faixas, além de determinados músicos, que possuem história de colaborações tocando juntos dentro de certas condições, com seus trabalhos manipulados por um mesmo produtor. Não apenas são vários músicos, mas uma pletora de instrumentos e abordagens.

Do que restou após as audições, o que me atraiu em especial talvez seja o que está por baixo da base musical, as pequenas alterações, as distorções, e talvez por isto prefira as faixas menos funky, onde o trabalho do William Parker e da bateria aparecem menos, ou são menos proeminentes, onde o lado atmosférico ou caótico predominam, como a curta “Primary Humor”, “Noonday Demon”, “The General” e a última “Round 2”. Mesmo não sendo dos meus discos favoritos, poucas intervenções sonoras se parecem com esta cirurgia anômala. (Marcus Martins)

10
Fev
08

começando…

“a camarilha dos quatro” é um grupo de pessoas com o intuito de divulgar, compartilhar informações e discutir música interessante. Semanalmente, um de nossos conspiradores propõe dois discos, um necessariamente recente (digamos, lançado num período de mais ou menos 8 meses) e outro totalmente livre, novo, mais antigo, clássico, obscuro, maravilhoso, péssimo, pouco importa, o que importa é o desejo de colocar certos discos na roda de conversa. Os discos da próxima semana, escolhidos pelo Ruy, são o homônimo disco de lançamento do Vampire Weekend e o disco da Blue Series que tem como convidado Scotty Hard, intitulado Scotty Hard’s Radical Reconstructive Surgery. Até a semana!