20
Mar
08

João Gilberto – “Aos Pés da Cruz” (1959; Odeon, Brasil)

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Em 1959, João Gilberto gravou esta canção de Marino Pinto e Zé da Zilda (ou Zé com Fome, mangueirense notório, compositor do clássico carnavalesco “Saca Rolha”), até hoje a mais bela e contundente pérola da bossa nova. Samba perfeito, com melodia triste e letra inspirada, anti-cartesiana (“o coração tem razões que a própria razão desconhece…”), “Aos pés da cruz” foi gravada até por Miles Davis, mas destaco a versão de um grande cantor, afeito a uma interpretação espalhafatosa (e genial): Orlando Silva. Supostamente contrária, em tom e intenção, a interpretação de João Gilberto prima pela emissão de voz enxuta, interpretação sinuosa e violão eficaz, sem o qual a bossa nova não seria mais do que uma revisão jazzística do samba-canção. E é sintomático que tenha adquirido sua forma mais arrojada na reinterpretação de um samba do passado, o que nos sugere uma “tese”, talvez não observada pelos brigões do passado e do presente: que a bossa, antes de se configurar como um gênero isolado – uma ruptura – está em conformidade com as modulações formais que marcam a história do samba. Consciente disso, João Gilberto se diferencia da grande maioria dos nomes ligados ao fenômeno, bem como de seus adoradores e detratores. As discussões acerca do estatuto da bossa nova, por ocasião de seu qüinquagésimo aniversário, representam a continuidade de uma polêmica interminável, em que, infelizmente, falta argúcia aos dois pontos de vista. A bossa nova não deve ser nem super nem subestimada: a ela devemos dar o que merece de acordo com o testemunho de suas obras mais significativas. (Bernardo Oliveira)

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Grande sucesso em 1941 na voz de Orlando Silva – tendo rendido até mesmo uma canção-resposta, “Quem Mente Perde a Razão”, composta pelo mesmo Zé da Zilda e interpretada por Nélson Gonçalves –, “Aos Pés da Cruz” era uma canção totalmente estabelecida no repertório tradicional quando lançada em 1959 pelo primeiro disco de João Gilberto, Chega de Saudade. Ao lado de “Morena Boca de Ouro”, de Ary Barroso, compõe a parte mais fincada na tradição do disco – as duas outras de compositores pré-bossa nova, de Ary Barroso e Dorival Caymmi, foram compostas poucos anos antes. Não por acaso, as quatro estão no lado b. Mas talvez seja “Aos Pés da Cruz” mesmo a que dá o recado entre o que se retém e o que se muda. João Gilberto propõe uma negociação: ao mesmo tempo que se afirma como inserido dentro de uma tradição que ele conhece e acolhe, também sugere a essa tradição um outro caminho, sem estrelismos e excessos vocais, arranjo mais integrado à voz e uma certa noção de design no acompanhamento. A evidência de que ela se integra perfeitamente ao disco dá claras indicações de que esse “assunto novo”, na acepção de seu maior criador, era apenas uma maneira de interpretar a tradição e renová-la. (Ruy Gardnier)


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