4 Hero é uma dupla londrina composta pelos DJ’s e produtores Dennis McFarlane (Dego) e Mark Clair (Marc Mac). O projeto foi criado ao final da década de 80, quando a Grã-Bretanha vivia o auge da cultura rave e do Acid House. O grupo ficou conhecido por incorporar na sua sonoridade elementos da house, techno, breakbeat, jazz e hiphop. Lançaram o primeiro 12 polegadas em 1990 e o disco de estréia, In Rough Territory, em 1991. Mas foi apenas com o segundo LP, Parallel Universe, que o duo começou a namorar com o drum ‘n’ bass, mesma época em que o gênero deslanchou. Os dois também criaram o selo Reinforced Records, que foi abrigo para os lançamentos tanto do 4 Hero quanto dos projetos paralelos de Dego e Marc Mac, o Tek 9 e o Manix, respectivamente. (TF)
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Mesmo não sendo o inventor do drum ‘n’ bass, uma das maiores forças e inovações estéticas da música eletrônica (e da música, em geral) da década de noventa, a dupla de produtores ingleses do 4 Hero fez de Parallel Universe um dos discos mais engenhosos e qualificados desse estilo. O álbum é quase uma oficina de batidas e de todas suas possíveis variações: techno, breakbeat, jungle, house; um estudo sobre suas infinitas formas e tempos. Não só isso: a dupla também fez experimentos com texturas de timbres de bateria eletrônica. Trata-se de um disco que sabe explorar como poucos a qualidade estereofônica do compact disc moderno; cheio de nuances, de baixos profundos, econômicos e usados nos momentos certos. Um LP, que se ouvido em fones de ouvido, impressiona pela equalização, mixagem, gravação e produção. Dego e Marc Mac são praticamente artesãos da música eletrônica; mestres na arte de criar batidas e minúcia-las nas suas mais variadas possibilidades de sons e efeitos.
Um dos grandes triunfos dos grandes discos é o poder que estes detêm de transportar o ouvinte para um universo paralelo. E foi assim que o 4 hero nomeou seu segundo disco. Ou seja, não há escapatória, senão adentrar no universo paralelo de Deco e Marc Mac. Todavia, a música do 4 Hero não trabalha apenas com o imaginário, com a possibilidade de um mundo distante, movido de batidas quebradas, sintetizadores futurísticos e vozes proféticas. A música de Parallel Universe é também do mundo físico. Seu ritmo acelerado lembra aquele das grandes cidades, das confluências urbanas, dos centros cosmopolitas, de pessoas entrando e saindo de estações de trem, de ônibus circulando pelas vias arteriais, da correria do dia-a-dia; enfim, de toda a movimentação de seres humanos em grandes metrópoles. Mais: um álbum notivo, feito igualmente para ser tocado à noite, para cobrir seu silêncio e sua falta de agitação. Seus acordes prolongados de teclados representam toda aquela imensidão do espaço vazio das madrugadas e suas batidas frenéticas e alternadas estão lá para preencher os mesmos espaços vazios, assim como as vozes funcionam como ecos da própria noite, ou do além.
As influências de Derrick May e do Detroit Techno, em geral, são bem notáveis. Não somente pelo uso dos teclados, que nos fazem pensar em um futuro longínquo, mas na utilização das vozes e das batidas, que, por vezes, não se diferem muito daquelas características da década de oitenta. E, na verdade, o drum ‘n’ bass é um sucessor dessa geração. Assim como o techno, é uma música criada em centros urbanos e feita para servir de trilha sonora dos mesmos (posição hoje ocupada pelo dubstep, tendo Burial como a maior eminência). Em dados momentos, o tribalismo de Parallel Universe chega a lembrar alguns de nossos conterrâneos e contemporâneos ao 4 Hero, como o Olodum e a sua complexidade de ritmos e variedade de instrumentos de percussão. Alguns anos após Parallel Universe, o drum ‘n’ bass não teria outra escolha senão encaretar de vez ou virar um gênero de fórmulas fáceis. Não é pra tanto: o 4 Hero esgotou todas as possibilidades em um só disco. (Thiago Filardi)
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Reapreciar qualquer objeto com o qual não temos contato há muito tempo é sempre causa de estranhamento. Especialmente nos casos onde antes éramos entusiastas de determinada forma de expressão e isto não perdura. No caso da música eletrônica, o meio dos anos 90 foi minha porta de entrada, e em sendo assim, o entusiasmo com o novo substituía a perspectiva histórica e o senso crítico. Depois de algum tempo, favoritos foram abandonados e o gosto apurado, mas nada disto superou completamente aquele entusiasmo inicial que se transforma em afeição.
Uma de minhas primeiras obsessões foi o jungle/drum’n'bass, com suas batidas quebradas e ritmo acelerado, era diferente de tudo que havia disponível e além de tudo era novo, o gênero estava sendo criado naquele momento em festas londrinas underground, transpirando a época em que era produzido e o estado da música eletrônica, com sua busca midiática de popularização. Isto talvez tenha resultado na sensação que tenho de que o drum’n'bass é um gênero que, apesar de continuar a ser produzido com algum vigor, parece datado, pertencente a um período específico no miolo dos anos 90.
No caso da música eletrônica talvez isso fique em geral mais saliente pela identificação do equipamento/software utilizado. A evolução da música eletrônica é sempre pontuada pelos meios de produção do som com gêneros e períodos identificados com um único equipamento. O que teria diminuído nos últimos anos com a aceleração das mudanças, quando a todo momento surgem novas ferramentas e pelo crescente movimento de criadores que dão preferência ao equipamento tradicional, ou mesmo o tido por obsoleto.
Dentro deste panorama, o drum’n'bass, com sua marcação específica e um verdadeiro cânone de procedimentos, caiu rapidamente na mesmice, alguns poucos inovadores criaram as bases e em pouco tempo o gênero pareceu esgotado. Tornar a ouvir o 4 Hero depois de tanto tempo causa a sensação de que ouço mais um clichê do drum’n'bass e isto seria verdadeiro caso não fossem eles um dos fundadores do gênero e o Parallel Universe não fosse tido como o primeiro álbum identificado como tal e também um dos mais inovadores em qualquer perspectiva.
Por se tratar de um álbum fundador, aqui ainda ouvimos resquícios de outros gêneros, como a forte influência do tecno de Detroit, que era mais presente em lançamentos anteriores do 4 Hero, mas que ainda aqui infla algumas faixas.
Uma das grandes inovações do 4 Hero foi a integração das batidas aceleradas com os vocais soul e maior ‘organicidade’ na construção das bases, sem abandonar um certo ‘futurismo’ comum ao gênero. Aqui talvez tenhamos o principal motivo de sobrevida do álbum, além de ser um dos primeiros lançamentos amplamente identificados do drum’n'bass, ele já representa a refinação e virada do gênero, que depois seria seguido por nomes como Goldie e Roni Size, que apesar de já produzirem, ainda não haviam lançado álbuns.
Faixas como ‘Talk Around Town’ lançou base para o cânone do drum’n'bass e ‘No Imitation’, com suas constantes mudanças de velocidade e batidas criou um descompasso que elevou a música ao patamar das melhores criadas no estilo, ou na época. Nos momentos de sucesso, a produção mantém a qualidade e o interesse apesar da longa duração.
A duração talvez seja um dos grandes problemas do álbum que ultrapassa os 70 minutos, e caso não estivéssemos na gênese de um movimento e um pouco de indulgência não fosse imprescindível para não limitar a ousadia e a capacidade de criação, poderíamos dizer que existiu pouco esforço em filtrar o melhor. A capacidade de concisão apenas ressaltaria as qualidades, que correm o risco de ser ignoradas pelo cansaço da audição infindável. Outro problema é a inserção dos vocais em algumas faixas, em especial quando letras rasas de cunho nova-erístico são identificáveis e não se adequam à precisão da música.
No fim resta as lembranças de sons que marcaram, a memória afetiva de algo que ficou datado na predileção e no lugar de desaparecer, sempre nos remetem momentos caros. (Marcus Martins)
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Quem ouvisse o 4 Hero em seus primórdios dificilmente acreditaria que eles seriam pioneiros de alguma coisa. Os singles iniciais do grupo, “Mr. Kirk’ s Nightmare” ou “Combat Dance”, se inscrevem perfeitamente numa certa linhagem de dance music britânica que teria no Foxbase Alpha do St. Etienne seu mais influente (e melhor) representante. Um pouco mais à frente, no disco In Rough Territory (1991) e nos singles seguintes, eles se alinham com o breakbeat/hardcore de grupos como The Prodigy (fase primeiro disco) e Acen, incorporando tanto as vozes aceleradas que deixam com timbre de criança quanto a batida que hoje chamamos big beats. Bacana, mas sem traço individualizante. E qual não é a surpresa quando Parallel Universe começa e o breakbeat sai limpo, lapidado, e, o que é mais importante, provocando uma profusão de batidas que mina os tempos pares do andamento provocando um desenho cubista das células rítmicas das faixas. Não é só o breakbeat complexificado e ainda mais aumentado em velocidade: os bumbos tendem a deixar os sons da percussão, deixando plena liberdade para os sons mais agudos de caixa e contratempo construir a ritmo de forma labiríntica. Junte-se a esse padrão teclados atmosféricos, algo tributários da house music e principalmente ao que LTJ Bukem vinha fazendo, e vozes R&B femininas e se tem Parallel Universe. Sonoridade como essa, nesse período, só se encontra em Goldie, que já tinha lançado em 1992 uma faixa que já apresentava seu som característico, “Terminator”, mas que só faria sua estréia em álbum com Timeless em 1995.
O forte de Parallel Universe é sua programação de bateria. Faixas como “No Imitation” e “Talk Around” são verdadeiras oficinas de batidas, mostrando tanto virulência em alguns ataques quanto sutilezas de construção nos momentos certos. O fraco do disco é que em matéria de composição falta um toque mais individualizante a cada faixa, e se por vezes eles flertam com a crueza do som do breakbeat de seus primórdios (“Wrinkles in Time”), em outros eles abusam da sacarina das vozes de R&B e/ou de camas de teclado que por vezes soam bem pegajosas, cheias de excessos cafonas (“People Always Criticize Us”, “Sounds From the Black Hole”). A duração de mais de 70 minutos também prejudica, porque o disco não organiza suas variações de forma suficiente a preencher toda sua duração com dados inventivos ou interessantes, ou levar o som de A para B. Mas ainda que essas deficiências existam, Parallel Universe é um disco suntuoso, investigativo, interessado em fazer surgir novas formas e experimentá-las. E tudo isso faz dele audição recomendada para quem quiser entender os rumos da eletrônica contemporânea.
[Aliás, falando nisso, há muitos pontos de contato possíveis entre Parallel Universe e as faixas do Shackleton lançadas em Soundboy Punishments e recentemente comentadas nessa camarilha há mês e pouquinho]. (Ruy Gardnier)
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Advindos do contexto musical do breakbeat, do tecno e de subgêneros que derivaram, entre outros, o dubstep, o 4Hero estreou na seara do drum’n'bass com este Parallel Universe. São muitas as conexões e afluências que fazem do grupo uma espécie de centro integrado de produção e experimentação de música para dançar, característica da cultura rave que se delineia no fim dos anos 80 – impulsionando inclusive a onda eletrônica que assolou o planeta em meados dos anos 90. 4Hero foi o primeiro coletivo a representar o tal intelligent drum’n'bass, aquela parcela de artistas que, sem abandonar os elementos africanos e caribenhos característicos do jungle, passaram a explorar as potencialidades rítimicas que os programas de edição digital e o sampler propiciavam, levando a timbragem do gênero a um alto nível de experimentação. São, portanto, precursores e arquitetos de um movimento cuja expressão mais bem acabada e surpreendente é o álbum Timeless, de Goldie, parcialmente produzido por Dego e Marc Mac (membros do 4Hero), divisor de águas não só no que diz respeito ao drum’n'bass, mas em relação a toda música que se fazia na época (Björk que o diga…).
Como a própria posição do coletivo neste cenário, entre a experimentação subjetiva e fruição objetiva, Parallel Universe é um disco que tem na ambiguidade suas maiores qualidades. Representa a cultura rave, mas não é feito para tocar em festa: às vezes lento demais para o ritmo da pista, excessivamente rico em efeitos e quebradas, bastante melódico… É experimental no que diz respeito às estruturas rítmicas, mas comporta uma dimensão pop representada por vozes femininas de primeira linha e arranjos de teclados jazzísticos. De quebra ainda se pode dizer que o drum’n'bass do 4Hero certamente alimentou toda uma concepção de música eletrônica que não se esgotava no mesmo drum’n'bass, influenciando também o techno, o big beat, o UK Garage, o 2step, entre outros.
De certo modo, Parallel Universe não se parece com um álbum “pensado”, estruturado para dar um recado específico, mas, ao contrário, sugere um amontoado de “produções”, muitas delas geniais, outras nem tanto… Como documento de época, atesta fielmente duas características que marcam a trajetória do 4Hero: abundância e heterogeneidade. (Bernardo Oliveira)

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