18
Mai
08

Flying Lotus – Los Angeles (2008; Warp, EUA)

Flying Lotus (Steven Ellison) é produtor e dj de hip hop, conhecido por compor as vinhetas do Adult Swim, e por ser sobrinho de Alice e John Coltrane. Seu primeiro álbum, 1983, foi lançado em 2006 pelo selo Plug Research. Em 2007, migrou para a Warp, onde lançou o EP Reset. Los Angeles é seu segundo álbum.

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Dentre as possíveis interpretações para a música de Flying Lotus, duas me parecem inescapáveis. A primeira e mais óbvia, inscreve seu trabalho num contexto de desconstrução radical do hip hop, no qual se destacam Madlib e, sobretudo, Guillermo Scott Herren. Inclusive, refinando esta primeira percepção, se pode até dizer que o trabalho de Flying Lotus quase “padece” da comparação com o Prefuse 73, tamanha a semelhança dos cuts e colagens com os quais ambos desafiam a estrutura do hip hop, enfatizando mais a decomposição rítmica do que o suingue, operando mais através da manipulação das timbragens do que do respeito pela unidade sonora e identificável do sampler. Ainda nesta chave de interpretação, poderíamos atribuir ampla dimensão intelectual à música desta turma, já que, combinando revisão epistemológica com pesquisa vertiginosa, alçariam a linguagem do hip hop a um nível de elaboração jamais experimentado pelo gênero. Vamos dizer que Flying Lotus, Madlib, Scott Herren e os recém-chegados Food for Animals, por exemplo, representam não tanto os Beatles do gênero, ficando este papel a cargo de Jay Z e Kanye West, mas algo próximo de Frank Zappa e David Bowie. Mas aí, eu me pergunto se o fato destas experiências já terem sido relativamente difundidas e, num certo sentido, cristalizadas, não põe em xeque o trabalho de Flying Lotus, pois, de certo modo, ele acabaria por constituir um experimentalismo redundante, ainda preso às contribuições de seus precursores. Seguindo por este caminho, Los Angeles até é um bom disco, mas traria consigo a marca de uma empreitada incompleta, desprovida de uma linguagem própria que pudesse fornecer um sentido efetivo à sua sede de originalidade.

Felizmente, para o bem e para o mal, o pensamento caracteriza-se pela possibilidade de simulação: por mais que a força de um argumento pareça incontornável, ainda assim podemos programar o cérebro para superá-lo. Pois embora eu não disponha de muitos argumentos para desinscrever Los Angeles do contexto acima, há algo nele que encerra uma assinatura, uma sonoridade característica, um passo à frente de 1983 e mesmo do excelente EP Reset, de 2007. Assim, poderíamos passar a considerar o álbum na perspectiva de um processo de amadurecimento, no qual as texturas percussivas e sonoridades peculiares criadas pelo produtor adquirem um sentido próprio. Talvez por ser grande demais, Los Angeles não mantém uma regularidade satisfatória, o que nos leva a cogitar a hipótese de que a música de Flying Lotus se adequa melhor ao formato de EP. Mas, por outro lado, pode-se dizer que alguns dos momentos mais interessantes do ano nesta seara se encontram aqui. A o que me refiro? Primeiro, à preponderância da percussão, e mais especificamente da percussão “eletrônica”, na composição das batidas, sobretudo em “GNG BNG”, “Melt” – reparem nos toques percussivos de “vidro” de “Camel”; na diversificação vertiginosa das texturas, alternando ora timbres estridentes, glitch, ora seqüências mais jazzísticas e harmônicas, como em “SexSlaveShip” e “Breathe . Something/Stellar ST”; e também na excelente disposição e consecução das faixas, que muitas vezes remete a uma experiência conceitual.

Mas o grande destaque entre as faixas de Los Angeles são duas das três canções, “Roberta Flack” e “Testament”, cantadas respectivamente por Dolly e pela voz feminina do excepcional Gonja Sufi, um cantor com trejeitos vocais semelhantes aos de Sarah Vaughan. As duas se caracterizam por belas melodias jazzy, que no entanto contrastam com a sobreposição variada de texturas abrasivas e polirrítmicas. Nota-se, entretanto, que a abrasividade e a polirritmia presentes tanto no riff distorcido que pontua o final de “Roberta Flack”, como no cluster ligetiano que inicia “Testament”, não representam elementos ornamentais, mas constituem a própria natureza conflituosa do som de Flying Lotus. É no embate entre os sons, e não no cultivo de sua carga histórica, que Los Angeles se desembaraça do legado desconstrutivo de Madlib e Scott Herren. Não que sua música careça ou se ressinta disso, mas talvez Los Angeles demonstre, ao menos parcialmente, uma vontade bem sucedida de seguir outros caminhos. (Bernardo Oliveira)

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Há algumas semanas, neste mesmo blog, eu mostrava insatisfação com os caminhos que Guillermo Scott-Herren vinha tomando com seu Prefuse 73; isso para dizer que sim, existem ecos de Scott-Herren na música do Flying Lotus, do início do Prefuse 73, diga-se, mas não muito mais que isso: ecos. Uma das maiores afinidades que ambos os projetos compartilham é o fato de caírem no balaio do hip-hop instrumental, mas tal afiliação apenas pode ser aplicada tangencialmente, ali estão elementos identificadores do gênero, mas esses apenas servem como ponto de partida, para onde cada um toma rumos próprios.

Los Angeles é um ótimo disco, e apesar de não romper barreiras como os primeiros discos do Prefuse 73, é das audições mais sólidas do ano – inventivo e divertido, melancólico e ágil. Seu mérito está menos na inovação ou pesquisa que no uso de experimentos que não foram exauridos – para ser claro e continuar no paralelo ao Prefuse 73: após os dois bombásticos primeiros discos, Scott-Herren nem mesmo soube virar um diluidor de sua própria criação, caindo muito mais no pastiche com momentos de iluminação. Assim, o Flying Lotus seria o produtor com ótimo ouvido e timing, sacou o que vinha sendo produzido e buscou seu próprio caminho, algo semelhante ao que o Massive Attack fez com o som de Bristol, apenas faltando ao Flying Lotus criar o seu Blue Lines, ou o seu Mezzanine…. em suma, não apenas sua técnica e de cortar e colar, desconstruir padrões como também é de filtrar e adequar; aqui se aproximando do saudoso Jay Dee e do craque Madlib. Suas composições não se afastam completamente do formato da canção e talvez aí esteja um de seus maiores trunfos (o próprio Scott-Herren deu várias derrapadas quando tentou conter seu virtuosismo dentro das limitações da canção e servir de base para outros músicos).

Talvez o maior defeito seja um déficit de atenção, ele não para muito tempo em um lugar, cada faixa aponta uma direção diferente. não consigo ver o álbum como longo, mas como mal distribuído, faixas que poderiam ter sido cortadas e outras que necessitavam de melhor desenvolvimento, o que o diferencia do Prefuse 73, pois onde aqui existem idéias demais, aqui temos talvez um número menor de variações mais pouca coesão e evolução. no Prefuse 73 a mudança constante se coadunava ao ritmo frenético e em constante movimento, o que não combina com o andar mais cadenciado do Flyning Lotus. uma faixa como GNG BNG com seus ritmos do oriente médio e baixo gordo e pulsante, poderia ter sido melhor desenvolvida, ficou o gosto de uma boa idéia que logo foi posta de lado, para dar espaço a um groove mais agressivo que também não toca por tempo o suficiente para marcar como poderia.

O disco inicia com uma vinheta que vale mais que discos de muitos queridinhos do hip-hop instrumental, com um sintetizador que domina a cena, mas não reflete o que está por vir – para o bem e para o mal, Los Angeles é cheio de falsas promessas, caminhos abandonados, ou mudanças desconcertantes. Na segunda faixa já temos algo mais característico do funcionamento de uma faixa do Flying Lotus: elementos são sobrepostos e a entrada de um novo pode alterar a progressão da música; assim, temos vozes distantes que criam a base melódica que são acompanhados por blips e outros efeitos sonoros até a entrada a percussão e das batidas eletrônicas quebradas. Esta batida muda cada cada faixa, sendo sempre seca mas pronunciada, mixada à frente dos outros elementos, sem com isso impedir que uma faixa como Camel possa ter como destaque o uso primoroso dos vocais femininos, onde pequenos fragmentos de origem diversa cria um clima sensual e intimista, sem apelar para estruturas tradicionais do R&B ou do soul. Algumas melodias, como a de Golden Diva assemelham-se ao trabalho do Boards of Canada, que pode ser notado como “influência submersa” em especial na posição de alguns glitchs e linhas de baixo. A bela Testament, com suas cordas jazzísticas e vocais sedutores de Gonja Sufi que lembra um Antony Hegarty em versão contida, é outro ponto altíssimo.

Deixei para o fim por que nem há muito o que dizer, se o mundo fosse justo (oh!) Roberta Flack seria um hit; talvez não na proporção de Touch My Body, mas como aquela musiquinha infecciosa que faz você querer… Ok, séria candidata a música para tocar antes/durante/depois de uma transa.

Los Angeles é fruto imaginativo rico e pessoal, bem à maneira da Los Angeles dos filmes de David Lynch, que possuem a mesma geografia da cidade do estado da Califórnia, mas não corresponde exatamente à cidade que seus moradores conhecessem. Flyning Lotus trabalha com o hip-hop instrumental, reflete o trabalho de muitos que lhe precederam, mas apesar da familiaridade das ferramentas e procedimentos, o resultado é peculiar e por momentos anula a sensação de reconhecimento.

É certo que Flying Lotus não é tão virtuoso quanto Scott-Herren, nem tão preciso e inventivo quanto Madlib ou Jay-Dee, muito menos tão melodioso e afetivo quanto o Boards of Canada, mas estamos falando de nomes que tiveram enorme impacto na música contemporânea, e apesar de suas inovações tiveram ecos no mainstream; Flying Lotus está apenas começando e criando seu espaço, vai ser gostoso acompanhar a construção de cidades imaginárias como Los Angeles. (Marcus Martins)

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Steven Ellison (AKA Flying Lotus) é um dos produtores de hiphop mais distintos da atualidade. Ponto. Qualidade notável desde seu impressionante LP de estréia, 1983, em Los Angeles, ele consegue atingir uma sonoridade ainda mais peculiar e de enorme coesão estética. A primeira influência que vem à minha cabeça é o synth-pop dos anos 80 de bandas/artistas como New Order, John Foxx, OMD, Associates, Simple Minds, Heaven 17 e, até de grupos mais seminais, como Gary Numan, seu Tubeway Army e Human League. Essa paixão pela sonoridade oitentista de Ellison não está somente evidenciada no título de seu primeiro disco, mas impregnada em Los Angeles. Basta ouvir “Brainfeeder”, com sua introdução pesada e climática de sintetizador típica de álbuns grandiosos da década de oitenta.

É nesse sentido que a música de Flying Lotus pode enganar o ouvinte que procura uma referência mais óbvia e contemporânea. Pois toda a particularidade sonora de Los Angeles não é fruto de audições intensivas de produtores mais recentes como Madlib, J Dilla, Kieran Hebden e Guillermo Scott Herren. O que faz de Ellison um produtor tão proeminente é exatamente essa influência oitentista tão bem assimilada. Ellison não precisa se utilizar de inúmeros samples e colagens para mostrar o quanto é eclético. Em vez disso, ele confia na sua palheta sonora que, mesmo com referências múltiplas, é capaz de criar uma estética extremamente coesa, com uma textura linear e ritmos tão bem atrelados. A batidinha de samba de “Breathe . Something/Stellar Star” é apenas um eixo de ligação com o resto do disco. Porque, afinal, não importa se a batida é samba, hiphop, techno, ou de música indiana. O importante é a maneira com a qual Ellison conjuga tais sonoridades, com um senso de ritmo inigualável e em meio a uma produção tão bem unificada, que a todo momento acrescenta texturas atraentes e sons intrigantes. É por essa e outras que Los Angeles é um dos discos mais fascinantes do ano e o melhor (e mais distinto, nunca esquecendo) de hiphop até então. Imprescindível. (Thiago Filardi)

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Desde que ouvi pela primeira vez o EP Reset e o minidisco 1983, alguns meses atrás, fiquei de pé atrás com o som de Steven Ellison, vulgo Flying Lotus. Não que a música apresentada não fosse interessante, mas ela parecia inteiramente saída de um dos dois primeiros discos do Prefuse 73, em sua utilização de camadas de ruído, na maneira de adaptar os beats experimentais, quebrados e complexos da eletrônica nefastamente intitulada IDM (Squarepusher, Aphex Twin, Autechre) ao hip-hop e sobretudo na estética de corte e colagem operada com precisão nos primeiros discos do projeto de Scott Herren. Como o Standing On a Hummingbird de Mark Templeton fez com a obra de Fennesz, o Flying Lotus parece trabalhar com um universo sonoro já todo inventado e levado à perfeição por outros (além de Prefuse 73, a quem o disco faz referência dezenas de vezes, sentimos um bocado de Four Tet, Dabrye, Blockhead, DJ Shadow, Madlib…).

Los Angeles não altera o raciocínio anterior. Se faz alguma coisa, é reavaliar o vigor dos empréstimos. Porque é muito difícil, mesmo reconhecendo todas as dívidas do artista para com os pioneiros, subsumir todo o frescor matador da batida de “Beginners Falafel” ou a precisa estridência percussiva de “Camel” ao trabalho de precursores. Na verdade, ouvindo Los Angeles, percebemos outros interesses, não exatamente de ser igual a esses músicos que ele definitivamente adora, mas de realizar uma operação qualitativa em cima do repertório de sonoridades e procedimentos por eles criado e aperfeiçoado.

E essa operação, diria, é semelhante à feita pelo Boards of Canada, goste-se ou não, com o universo sonoro do “IDM”. O BoC se apropriou de todas aquelas coisas e deu um upgrade de palatabilidade e de frontalidade aos sons abrasivos de então. Music Has the Right to Children e Geogaddi chegam a dar raiva de tão precisos em sua composição, mas ao memo tempo tão confortáveis na maneira de não precisar ir muito fundo em nada. Los Angeles se ouve de forma bastante parecida: existe uma lapidação na parte mais caótica desse hip-hop experimental/abstrato, e as melodias e os ganchos passam a ser muito mais certeiros, mais diretos ao ponto.

É também um disco pensado como um todo, no qual as faixas são quase vinhetas que, mais do que evoluírem a idéia de partida, servem para dar prosseguimento a outras faixas (conceito que, de certa forma, constitui um dos charmes do disco). Aliado ao preciso senso de unir ruído a swing e melodia, e amparado numa pesquisa de timbres impressionante – terrenos em que Kieran Hebden é rei com seu Four Tet –, é o que faz a graça de ouvir a Los Angeles. “Riot” talvez seja a faixa que mostra isso com mais categoria: graves de db, várias camadas de ruído e uma melodia que repete uma mesma nota intermitentemente, construindo minuciosamente um conjunto quase desconjuntado.

Ainda que deixe na boca um gosto de sedimentação mais do que de invenção, e de jogar para a galera de forma um pouco excessiva, Los Angeles é um disco que se ouve com admiração e alguns momentos de brilhantismo (além das já citadas, adicionaria “GNG BNG” à lista, com seus baixos pesados e sua melodia indiana). (Ruy Gardnier)


1 Resposta para “Flying Lotus – Los Angeles (2008; Warp, EUA)”


  1. Maio 21, 2008 às 4:04 pm

    bernardo, meu querido.
    eu ia entrar aqui no seu blog (e dos seus outros três amigos, incluindo o “papa” ruy gardnier), para dar uma simples conferida e tal.
    porém, essa visita não iria sair impune.
    essa sua resenha sobre o flying lotus tá muito foda.
    eu já estava propenso a não fazer mais resenhas e sim contar histórias minhas que tivessem a ver com a banda ou artista do qual eu estivesse falando.
    depois desse “flying lotus”, tomei uma decisão: resenhas nunca mais.
    e tenho dito.
    um grande abraço, bicho!


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