Na minha opinião, “Loose” é uma das faixas mais eletrizantes do mais eletrizante dos álbuns de rock’n’roll de todos tempos. O efeito hiperlativo desta frase pode até sugerir ao leitor que no fundo pretendo aqui justificar meu gosto, mas a idéia é outra. À parte a absoluta genialidade de disco e faixa, gostaria de enfocar uma questão espinhosa. Na questão “rock inglês ou rock americano”, para mim é muito claro que o rock americano é mais vigoroso, poderoso e criativo. Mas obviamente, nenhum argumento que eu utilize demoverá o partidário do rock inglês de sua posição. Enfim, em meio a esses papos meio nerds, meio inúteis, lancei o seguinte argumento: o rock americano é mais negro, e por isso, mais suingado e pulsante. Objetar-me-ão que o rock inglês também possui uma influência negra, visto que muitos ídolos de Mick Jagger, Pete Townshend e Eric Clapton são negros, e a música no qual seus respectivos grupos se baseiam é profundamente influenciada pelo blues e pelo soul. Objetar-me-ão que a música não tem cor, não tem raça, e mesmo o conceito de raça já se encontra defasado há pelo menos cinqüenta anos. Ok, a argumentação é lícita, mas eu discordo que a questão se dissolva diante de uma argumentação chapa branca como essa…
Os contextos políticos e sociais no qual se desenvolveram os dois “rocks” são muito diferentes: enquanto nos Estados Unidos o negro americano é ator efetivo da construção musical, na Inglaterra ele é apenas um mito, uma meta a ser atingida. A participação da influência negra, sintetizada à cultura anglo-saxã, produziu uma sonoridade e uma articulação percussiva diferenciada. Quero dizer: a constituição do rock americano possui um aspecto histórico determinado e, portanto, um sentido de execução muito específico. Radamés Gnattali dizia que a bossa nova foi inventada para que a classe média pudesse tocar samba, visto que o 2/4, marcado no tempo fraco, não era adequadamente executado a não ser pela “intuição rítmica” dos negros; da mesma forma, Tinhorão referia-se a “incapacidade dos moços da bossa nova de sentir, na própria pele, a assimetria característica do ritmo dos negros”, “representado pela correspondência entre a percussão e uma competente reação neuromuscular” [Tinhorão, 1962]. Há, portanto, o elemento fundamentalmente negro na composição harmônica e melódica, mas sobretudo na concepção e execução rítmica, elemento este irrepresentável, mas facilmente “sentido” quando se compara, por exemplo, o ritmo de um grupo formado por “brancos” como o Casuarina com o de um grupo “negro” como o Fundo de Quintal. Não se trata de cor ou de “raça”, mas de procedência e contexto, diferenças talvez imperceptíveis para ouvidos menos atentos.
Mas o que “Loose” tem a ver com tudo isso? Uma faixa composta e tocada por meninos brancos, o que teria a nos dizer neste sentido? Pode-se dizer que os Stooges restituiram um swing “negro” ao rock’n’roll, já que o gênero, tomado pela presença branca, passou a ser executado de uma forma mais burocrática e “dura”. Apesar de executada por brancos, “Loose” contém um balanço negro matador e genial, que nos leva a cogitar a hipótese de que, mesmo identificando o swing à negritude do instrumentista, ainda assim ele pode ser apreendido por quem quer que seja. Ok, isso é fato. Mas daí a apagar as peculiaridades étnico-culturais em nome de um nivelamento multiculturalista, me parece sinal de ingenuidade e niilismo. (Bernardo Oliveira)
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À menção do nome Stooges imediatamente me vem à cabeça a idéia de vibração, de energia, de uma agressividade irremediável. A imagem é de um fio desencapado, uma violência que precisa mais que velocidade, volume e pancadaria pra fazer (haja vista a enorme profusão de grupos de hardcore, punk ou congêneres muito mais velozes e esporrentos que nem chegam perto da intensidade dos Stooges), que traduz em música uma sensação de rebeldia, ao mesmo tempo sexual e irreverente. Mas, de Fun House, as músicas que mais me impactam nesse sentido são, na ordem, “1970″, “T.V. Eye” e “Down in the Street”. É claro que “Loose” não está muito atrás: como todas as outras, é nitroglicerina pura, é pesada, sexual e perigosa… Ainda que seja tão carregada quanto as outras, o falsete dado por Iggy Pop quando canta “I’ll stick it deep inside” cria uma zona de conforto melódico – relativo, ressalte-se – que destoa um pouco do resto. Essa doçura sulfúrica, Iggy Pop trataria melhor no disco seguinte, Raw Power. Mas não que “Loose” deixe barato: é uma faixa que capta toda a força de um dos mais energéticos grupos de rock de todos os tempos. (Ruy Gardnier)

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