Saxofonista, produtor e arranjador, João Theodoro Meirelles, conhecido como J.T. Meirelles, foi decisivo na construção do estilo que se convencionou chamar “samba-jazz”. Meirelles foi um dos representantes do Beco das Garrafas, juntamente com uma geração de ouro formada por Sérgio Mendes, Luiz Eça, Dom Salvador, Tenório Jr., Raul de Souza, Paulo Moura, Edison Machado, Airto Moreira, Wilson das Neves, entre outros. Em 1964, no mesmo ano em que escreveria o arranjo do sucesso “Mas que nada”, de Jorge Ben, Meirelles reuniu Manuel Gusmão (baixo), Luiz Carlos Vinhas (piano), Dom Um Romão (bateria) e Pedro Paulo (trumpete) e formou o conjunto Copa 5. Com ele, produziu o álbum O Som que, juntamente como Edison Machado É Samba Novo, representou uma espécie de guinada desses instrumentistas em relação à bossa nova. Meirelles faleceu no último dia 3 de junho, aos 67 anos.
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Já passou da hora de discernir o samba-jazz da bossa nova. E nesse caso, é preciso considerar alguns critérios históricos e formais, para não confundir, como se vê por aí, alhos com bugalhos. São contextos bastante diferentes, e discografias idem. Pena que algumas reavaliações como esta se iniciem somente através de enviesadas interpretações estrangeiras, como foi, por exemplo, com o funk carioca e o metal do Sepultura. No caso do samba-jazz, foram os djs ingleses que primeiro se renderam ao vigor da música intrumental brasileira da década de 60, levando-a para a pista de dança, o espaço anti-bossa nova por excelência. E embora o célebre Beco das Garrafas concentrasse boa parte dos artistas ligados aos dois movimentos, existem diferenças radicais entre eles.
Por exemplo, considerando a economia do instrumental e da interpretação um fator precípuo na constituição formal da bossa nova, evita-se a confusão entre ela e o samba-jazz. Pois economia não designa adequadamente a música de Dom Salvador, Tenório Jr., Raul de Souza, Paulo Moura, Airto Moreira, Wilson das Neves, Pedro Paulo, entre outros. Pelo contrário. Edison Machado até cunhou um termo distintivo, o “samba no prato”, para designar o som que produziam: muitas vezes barulhento, dinâmico, aberto aos improvisos, lembrava mais os ataques da Orquestra Tabajara, do que as sutilezas harmônicas dos arranjos de Tom Jobim e Roberto Menescal. Portanto, o samba-jazz não é “filho indireto da bossa nova”, mas uma espécie de desenvolvimento de vertentes instrumentais da música brasileira: os lundus alucinados da música de barbeiros, os choros da banda do corpo de bombeiros de Anacleto de Medeiros, as orquestrações de Radamés, Maestro Gaya, e a já citada orquestra de Severino Araújo. Trata-se, portanto, de depreender o ingrediente secreto que diferencia o samba-jazz da bossa nova, o torna uma corrente autônoma, e até mesmo contrária, embora contígüa em muitos aspectos (sentir-se à vontade no paradoxo é fundamental para compreender o mundo, dizia o geógrafo Milton Santos…).
O som não é o disco-marco do samba-jazz; esse título cabe a Edison Machado é samba novo, realizado um ano antes, com arranjos de Moacir Santos. Mas pode ser abordado literalmente como um disco de perfeita síntese do samba com o jazz. Do samba, a levada em 2/4 maliciosamente marcada no tempo fraco, que torna o improviso uma tarefa para iniciados. Do jazz, a liberdade harmônica, o espaço para o improviso e a estrutura de arranjo. Este aspecto sintético pode ser conferido nas seis faixas do disco, todas compostas por Meirelles. No entanto, O som faz algo mais do que a mera síntese: ele cria um vocabulário de tramas, texturas e dinâmicas que, por sua variedade, se distancia da regularidade com que se construía o arranjo dos discos de bossa nova (os de primeira hora, claro…). E ai, percebe-se mais uma diferença: enquanto a bossa era influenciada pela suavidade enxuta do cool jazz, o samba-jazz estava mais antenado no bebop e no hard bop de Miles, Coltrane, Mingus… O enfoque é, obviamente, mais concentrado nas cores e no improviso do que na canção propriamente. Na cozinha, por exemplo, o diálogo entre Dom um Romão e Manuel Gusmão admira pelas variações contínuas, mesmo quando se trata de repetir o tema principal. O piano de Vinhas cria desenhos melódicos e harmônicos com uma liberdade jamais experimentada (e desejada) pelos bossanovistas, variando do balanço marcado até os arroubos dissonantes mais inesperados. Meirelles e Pedro Paulo também variam conforme o clima, ora conferindo estabilidade aos temas, ora criando solos mais agressivos e “expressionistas” (como, por exemplo, no primeiro solo de Meirelles em “Solitude”). Esta combinação de inflexões apolíneas e dionisíacas, criada por músicos conscientes das possibilidades de seus respectivos instrumentos, confere ao samba-jazz uma singularidade inalienável na história da música feita no Brasil.
Tomar O som como exemplo é apenas uma homenagem ao recém-falecido J.T. Meirelles, pois poderíamos nos referir também ao já citado Edison Machado É Samba Novo, a Embalo de Tenório Jr., a Impacto de Hector Costita, a Rio 65 Trio e muitas outras obras-primas da mesma época. Em todos eles, a segurança na execução, a ousadia nas harmonias e no improviso, um balanço indescritível, uma concepção de arranjo e dinâmica absolutamente originais, que não descartava a produção de uma massa sonora, muitas vezes ruidosa e dissonante. Absolutamente divergente da suavidade descartável, ainda hoje praticada e, pelo visto, eternamente identificada à bossa nova. (Bernardo Oliveira)
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A posição da bossa-nova no cânone brasileiro é inconteste porém muitas vezes incômoda; discografias ricas e poderosas são colocadas de lado para privilegiar um único idioma que não reflete a pluralidade da música que foi produzida na época áurea da bossa; pior, o que comumente se celebra como a fina flor do gênero, apesar de justo, nem mesmo esgota o gênero e para ser mais específico, apenas a bossa no formato canção alcança hoje o reconhecimento por seus méritos. O que dizer então de um gênero que muita vezes nem é reconhecido, ou relegado a mero adendo, curiosidade. Mesmo que a avaliação do samba-jazz não seja tão limitada, não podemos deixar de perceber que sua recepção flutua entre a adaptação tropical do jazz e a versão instrumental da bossa-nova.
Apesar de saudado pela crítica especializada no gênero como um dos grandes nomes da bossa nova /samba-jazz e de sua capacidade de criar surpresas em um gênero que sempre trabalhou dentro de limitações específicas, o já saudoso J. T. Meirelles nunca recebeu os louros aos quais fazia e ainda faz jus. Suas composições junto a sua banda Meirelles e Os Copa 5 são o que há de melhor e mais sofisticados na produção do período. O som, de 1964, fica par a par não apenas com o melhor da bossa-nova como também nada deve ao que se produzia no jazz americano à época, sendo um dos ápices do samba-jazz. Meirelles soube criar seu próprio espaço, criando composições que, apesar da leveza, são complexas e repletas de harmonias ricas. A estrutura das faixas raramente é repetida, seja pelas diferentes tonalidades adotadas, seja pela referência ao trabalho de outros músicos (Bill Evans, John Coltrane, Moacir Santos) que servem mais de “guia espiritual” que de modelo propriamente dito.
Nas notas à reedição de 2003 o próprio Meirelles admitiria uma influência de Thelonious Monk em “Solitude”. Ainda nas notas, Meirelles fala de uma certa “nostalgia das caatingas áridas do Nordeste”, apesar de não entender bem o motivo de notalgia por um ambiente tão inóspito, talvez aí esteja uma das chaves para uma identificação, ainda que superficial entre este álbum e o Sketches of Spain de Miles Davis e Gil Evans, apesar do estilo de Meirelles recordar mais o Davis de Miles Smiles. Aliás, Davis é um bom parâmetro para Meirelles, por ser não apenas um grande virtuoso e criador, mas também um aglutinador que soube, com rara felicidade, unir um naipe invejável de músicos que trouxeram contribuições indeléveis a sua música. Sendo um dos grandes trunfos a fluidez das faixas, onde o que é composto e o que é improvisado perde-se na naturalidade da execução, como se não pudesse ser diferente. Meirelles fala do desejo de criação de um repertório próprio dos instrumentistas, algo que fosse novo e refletisse suas ambições, a lamentar que as novas gerações limitem-se a macaquear tal repertório e assuma poses de grande importância.
Como os grandes álbuns instrumentais de sua época, O Som é complexo e acessível; ligado à tradição das grandes bandas mas identificado com a vanguarda; leve e brincalhão sem perder o rumo, cheio de balanço mas de pulso firme; cada músico sabe bem a que veio e se permite inovar. Um deleite, um assombro. (Marcus Martins)
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Se O Som é um marco da música brasileira ou do samba-jazz, eu não sei e isso pouco me importa. Pra falar a verdade, o jazz elegante e com um leve gingado do samba de J.T. Meirelles não me impressiona muito. Provoca em mim o mesmo efeito que outros discos tidos como seminais do samba-jazz, como o primeiro do Zimbo Trio, os grupos de Eumir Deodato, entre outros, são capazes: um efeito quase nulo. Ouço com carinho e certa admiração, mas há um quê de desinteresse de minha parte. Explico por quê: é inegável que O Som seja um disco de samba-jazz, mas acho que está muito mais para o jazz, digamos assim, que para o samba. Ou seja, a influência estrangeira ainda é maior e predominante. Escuto muito mais Bill Evans, Gil Evans e Dave Brubeck em O Som do que Noel Rosa, Ismael Silva ou Cartola. O quinteto de Meirelles ainda estava totalmente vinculado ao cool jazz americano, a um jeito de fazer música todo elegante e cheio de pompa e, que se demasiadamente associado à música brasileira, passa a me incomodar. Não é como o mestre e gênio Moacir Santos, o verdadeiro inventor de tudo isso que podemos chamar de samba-jazz e o criador de uma linguagem jazzística totalmente original e brasileira. Foi ele quem trouxe melodias riquíssimas, mas, ao mesmo tempo, extremamente grudentas e marcantes, harmonias intricadas, porém sempre dispostas a favorecer o andamento da música e da melodia, e, principalmente, um ritmo pesado, que falava mais forte que tudo. São suas composições, por sinal, que fazem diferença em discos como Edison Machado É Samba Novo e Você Ainda Não Ouviu Nada, do Sérgio Mendes e Bossa Rio. Não tiremos totalmente o mérito de Meirelles, que com seu quinteto, fez um primeiro disco muito bonito e de audição prazerosa. Talvez lhe faltasse apenas arriscar um pouco mais, o que, infelizmente, impede que O Som alcance vôos muito altos. (Thiago Filardi)
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Apesar dos muitos exemplos que provam o contrário, não é fácil criar fusão entre ritmos e tradições distintas. Ao menos, não a ponto de as duas (ou mais) se juntarem e formarem um todo distinto que, bebendo igualmente dos gêneros que referencia, alcança tamanha simbiose que transforma-se noutra coisa. Simbiose é a palavra certa para caracterizar a operação de integração do samba ao jazz realizada por músicos como J. T. Meirelles, Edison Machado e outros, que conseguiram com extremo apuro compreender exatamente onde o jazz ajuda o samba a vibrar e onde o samba ajuda o jazz a gingar.
A princípio, poderíamos acreditar que é simplesmente uma questão de adequação da bateria ao ritmo do samba. E, de fato, a bateria é responsável por grande parte do brilho desses discos, e os bateristas contam entre alguns dos melhores que a empunharam as baquetas no Brasil: Edison Machado, Dom Um Romão, Wilson das Neves. Mas é preciso ressaltar que a pulsação do baixo, ainda que discreta, fazendo o papel do bumbo, e o uso rítmico do piano dão ao som dos Copa 5 a devida e lendária junção do samba com o jazz.
Em O Som, o trabalho de bateria é realizado por Dom Um Romão, que não só destila um suingue absurdo nas faixas como ainda pontua certos climas com a sutileza que só se espera de um mestre. Nos solos, temos J. T. Meirelles em seu saxofone e Luiz Carlos Vinhas no piano com as improvisações mais freqüentes. Meirelles em geral opta pelo lirismo à frente do ritmo, em intervenções tipicamente jazzy. Vinhas, por outro lado, trabalha as teclas de forma a complexificar o ritmo construído pela cozinha, aproveitando-se do ritmo do samba para criar solos soberbamente suingados, originando um colorido próprio ao solo de samba-jazz.
Todas as faixas do disco são fortemente ancoradas nos temas, geralmente longos numa época em que o jazz vinha progressivamente restringindo o tema a uma função pequena na estrutura da composição e deixando longo espaço aos solos. Em O Som, os temas são prodigiosos em sua maneira de evocar tanto soirées jazz de cidade grande americana quanto gafieiras autenticamente cariocas. “Quintessência”, a que abre o disco, é possivelmente o tema mais importante do samba-jazz (ao menos, está em dois dos discos mais importantes, esse e Edison Machado É Samba Novo). “Blue Bottle’s” e “Nordeste” completam as devastadoras de andamento rápido. “Solitude” e “Tânia” são temas lentos que adquirem gingado nos solos. De todas, “Contemplação” é a mais destacada: lenta, climática e moderada nas notas, é também a faixa em que o tema não é dado pelos metais, mas pelo piano (além de contar com solo de baixo seguido de trompete, instrumentos menos ativos no disco).
Arejado, vibrante, coeso, equacionando elegância com uma incrível pressão rítmica – pressão que é uma obrigação em se tratando tanto de hard bop como de samba –, O Som é uma jóia da produção instrumental brasileira, e uma mostra perfeita da comunicabilidade das tradições. (Ruy Gardnier)

A recente morte de JT Meirelles me fez ouvir novamente “O Som” não apenas como uma espécie de homenagem, mas como um encontro com um disco singular de um artista fascinante. Um artista que morreu quase incógnito no seu próprio país, embora tenha contribuído de forma inequívoca com o patrimônio musical brasileiro e tenha estado, durante o auge da carreira, no Beco das Garrafas, espécie de olho do furacão da Bossa Nova, gênero consagrado e festejado este ano, no cinqüentenário.
Talvez valha a pena perguntar como foi possível ao autor de “O Som” morrer de forma silenciosa em plena celebração da Bossa Nova. Bem verdade que ele não foi um artista DA Bossa Nova. Participou do Samba Jazz e teve o mesmo destino incógnito de outros gigantes, como Edison Machado e Moacyr Santos, que também viveram e morreram no relativo anonimato, embora tenham estado tão perto de artistas consagrados em verso, prosa, concertos e até documentários cinematográficos.
Dos artistas do Samba Jazz, restou a música. E que música. “O Som” é um belo exemplar. Um encontro de instrumentistas jovens, na casa dos 20 anos, mas já sábios no que se refere ao domínio de seus instrumentos. Como tudo no Samba Jazz, a bola começa a rolar na cozinha, na síncope bem casada da bateria de Dom Um e do baixo de Manuel Gusmão. No piano, Luiz Carlos Vinhas dita a harmonia explorando terrenos sonoros com ousadia. E os improvisos de Pedro Paulo (trumpete) e JT Meirelles arrematam com muita categoria um belo disco.
Sim, “Edison Machado é Samba Novo” é o disco-monolito do Samba Jazz, a obra- afirmação.
Mas aqui cabe o tributo ao autor de canções monumentais como “Quintessência” e “Aboio”. Ao fim e ao cabo, de JT Meirelles restou “O Som” (com duplo sentido, por favor).
“Não é como o mestre e gênio Moacir Santos, o verdadeiro inventor de tudo isso que podemos chamar de samba-jazz e o criador de uma linguagem jazzística totalmente original e brasileira.”
Moacir Santos só é jazz pra tuas negas, Filardi.
bj