19
Jun
08

Crystal Antlers – “Arcturus” (2008; produção independente, EUA)

Como os mananciais que secam naturalmente, por simples desgaste e anos de serviço, parece que o rock’n'roll, assim como o blues e o jazz, vem perdendo aos poucos o seu vigor, dando sinais claros de cansaço e esgotamento. Rumo ao fim, ele se resumiria agora a bandinhas emulatórias, que ora celebram um passado glorioso, ora chafurdam nas referências mais banais… Aposto que se pensava assim antes do primeiro disco dos Ramones, do Cure, dos Pixies, do Nirvana, do Mudhoney, do Radiohead, etc. É que, infelizmente, um dos cânones culturais da “sociedade do espetáculo” é o senso histórico aguçado, que traz a seus contemporâneos uma sensação de impotência, uma convicção de que nada pode ser feito para honrar o passado se não a mera adulação estéril. Por outro lado, as bandas emanam um niilismo flagrante, reforçando o pessimismo: Franz Ferdinand, Strokes, Babyshambles, entre outras, não passam de repetições pouco inspiradas de grandes bandas do passado, como Talking Heads, Velvet Underground, etc.

Em meio a esses pensamentos, me surpreendi ouvindo o EP do Crystal Antlers, novíssima banda de Long Beach, California: “mais uma aposta da Pitchfork Media, que denuncia seu irrevogável caráter indie“, julgou o niilista. Ledo engano. Como aquele corpo moribundo que há anos permanece estirado na cama, vi o rock levantar e fazer um barulho dos infernos. Mas não só barulho: o Crystal Antlers evoca certas linhagens do rock dos anos 60, 70 e 80, surpreendendo pela instrumentação louca, que conta com os órgãos e as percussões mais improváveis; pela força melódica das canções, curiosamente setentista, às vezes “clássica”; por uma mixagem onde todos os elementos são dispostos de forma concentrada e onde a alagazarra é alçada ao nível de estratégia.

A surpresa me levou a considerar que, de uns 20 anos pra cá, em todas as vezes que o rock’n'roll ofereceu algo de novo a seus ouvintes, isso ocorreu pelas mãos da balbúrdia, da guitarra distorcida e de um certo talento pop para situar os refrões, sem prejuízo da cacofonia. “Arcturus”, penúltima faixa do EP homônimo, representa perfeitamente o que o Crystal Antlers é capaz: melodia direta, vocal gritado estilo Mudhoney, baixo e guitarra distorcidos, dinâmica perfeita e equilibrada… E aquela zoeira que nos acostumamos a identificar ao melhor que o rock’n'roll pode oferecer. (Bernardo Oliveira)

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Ao longo dos últimos dez dias, se passasse pela lista de pastas do meu tocador de mp3 e batesse na letra “c”, batata, tinha que ouvir o ep desses Crystal Antlers dos quais desconheço tudo. Tudo, menos o som: um baterista insano que adora usar seus pratos de ataque como se fosse o contratempo, uma guitarra tão barulhenta e estridente que dá a impressão que o Merzbow está tocando com eles, um vocal gritado que faz lembrar imediatamente Mark Arm e seu Mudhoney, ritmos que ora evocam marchinhas de carnaval ora rituais tribais, e freqüentemente uma trip de hard rock setentista à Blue Oyster Cult. A notar a forte presença do órgão nos arranjos. “Arcturus” talvez seja o exemplo mais completo até agora do poder sônico, com seus dois minutos e pouquinho e uma equalização tão cheia que parece que está tudo embolado. Mas basta algumas audições para descobrir que a confusão é apenas uma aparência e que tudo está lá milimetricamente onde deve estar – os rapazes são vândalos preciosistas. O momento, ali pelo meio da canção, em que o órgão repete a melodia-riff do baixo, guia da faixa, é um destaque particular. O recém auto-lançado ep da banda ainda guarda outras atrações, talvez superiores, como “A Thousand Eyes” e “Vexation”, mas “Arcturus” é a que mostra o lado mais incendiário desses viciantes Crystal Antlers. (Ruy Gardnier)


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