
Boom Bip é Bryan Hollow, um produtor de hip-hop vindo de Cincinatti, Ohio, que desenvolve carreira solo com discos aclamados de hip-hop instrumental como Seed to Sun (2002), Blue Eyed in the Red Room (2005) e Sacchrilege (2007). Dose One (ou Doseone) é Adam Drucker, rapper prolífico com uma dezena de projetos diferentes, além de também lançar discos solo. Entre seus projetos com outros artistas estão os celebrados cLOUDDEAD, 13 & God e Subtle (este último seu atual grupo, que acaba de lançar o irregular Exiting Arm), além de outros menos conhecidos, como Them, Themselves, Presage, Deep Puddle Dynamics e Greenthink. (RG)
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Para onde foi a onda de hip-hop underground que dominou boa parte de nosso interesse no começo dessa década? Em 2008, ainda que ainda existam alguns artistas interessados em alargar os limites do hip-hop produzindo discos de qualidade variável, aparentemente o assunto se cristalizou, teve seu instante ao sol e foi desaparecendo à medida que a sensação de coletivos de músicos (os da Anticon, os da Def Jux) em esforço colaborativo ia desaparecendo em prol do estabelecimento das carreiras individuais. E hoje, o que herdamos disso? Ainda que alguns nomes se mantenham como figuras de eterno interesse (El-P, Why?, os projetos de Dose One como o atual Subtle), o certo é que nenhum deles chegou ao patamar de mestre incontestável de sua arte – nada relativamente comparável ao Radiohead no rock, Aphex Twin no eletrônico ou Jay-Z no hip-hop convencional. Mas se as reputações jamais se instituíram, não devemos adicionar isso à conta do talento, mas atribuir o dado ao próprio percurso errático e experimentador desses artistas, tanto produtores quanto rappers, mais interessados em projetos específicos do que um solidez a longo prazo. Alguns anos passados, fazer o balanço do hip-hop underground do começo dos 00s seria acima de tudo listar os grandes discos produzidos no período, Fantastic Damage de El-P, o homônimo cLOUDDEAD, In the Vein do Cannibal Ox, A Personal Journal de Sage Francis, e listar algumas geniais coletâneas, Music for the Advancement of Hip-Hop, Definitive Jux Presents II, The Anticon Giga SIngle, e mostrar como eles serviram para alargar sensibilidades e apresentar novos sons e conceitos para o universo do hip-hop num momento em que este já passava pela ressaca do gangsta, da figura do rapper como hustler, pela tiração de onda com carros e mulheres, etc. Mas, se todos os discos listados acima já ganharam seus devidos reconhecimento, um deles permanece apenas como objeto de culto de alguns, e talvez seja de todos o mais irreverente, inovador e brilhante álbum caído sobre o rótulo de hip-hop underground: Circle (ou simplesmente o desenho de um círculo), de Boom Bip & Dose One.
Cartão de apresentação tanto de um produtor como de um rapper, o disco toma todas as liberdades possíveis em relação à maneira tradicional de se vocalizar sobre batidas (ou sem batidas), em relação a que sons utilizar e, talvez principalmente, no tênue limites entre o rap, o canto e a fala simples. Por vezes, mesmo, ele até parece se distanciar da idéia de disco de música, assemelhando-se ao disco spoken word ou a discos de contos infantis, em faixas que seria redutor chamar de vinhetas. Na verdade, em 29 faixas, quase todas têm seu lado vinheta, pois mesmo aquelas que circulam entre os 4 minutos (ou seja, a duração presumida de uma faixa convencional) volta e meia apresentam várias passagens totalmente diferentes. Essa estrutura solta e eclética de Circle faz com que o disco só às vezes pareça um disco de rap “de verdade”, com o swing da produção e a força vocal que geralmente se espera das músicas do gênero.
É como se Boom Bip & Dose One quisessem pegar um divisor de águas do hip-hop do final dos anos 80, 3 Feet High and Rising, do De La Soul, e elevá-lo à enésima potência de alopração, colocando mesmo em risco à adesão ao gênero. Mas uma analogia mais precisa seria o Freak Out!, dos Mothers of invention de Frank Zappa, em sua maneira de distilar uma nova sensibilidade a partir de uma irreverência indiscriminada ao repertório de base (no caso, baladas, rocks e pops). O sentimento de soltura e frouxidão, balançando entre música e não-música, guarda até certa semelhança com “The Return of the Son of Monster Magnet”, última faixa do disco da estréia de Zappa.
Em Circle, Dose One parece rapear sobre tudo, usando sua enorme destreza em modular sua voz, construindo ritmos inauditos em velocidades impressionantes (a ver “Slight”, no meio do disco, em que a voz acompanha uma bateria aparentemente saída de uma faixa de speed metal) e criando delírios líricos tão bobos quanto geniais sobre temas prosaicos como ir dormir, ficar barrado numa sessão lotada de Star Wars ou mesmo dar vazão a uma série de raciocínios desconexos misturados com apresentação de programa de variedades (“Questions Over Coffee”). Dose One sabe usar sua voz irritantemente aguda de forma casual, ou mesmo viajante, criando um nexo de intimidade com o ouvinte pelo clima de improvisação e pelo teor das letras.
Apesar do alto nível de produção das faixas instrumentais (“Town Crier’s Walk” em especial), o destaque vai para as faixas dominadas pelo vocal insano de Dose One, e pela enorme liberdade proporcionada pelo flow do rapper e pela astúcia em inventar mil maneiras em cima do feijão de arroz do métier que é rapear sobre batidas – que, naturalmente, precisam ter como correlato um produtor de cabeça tão aberta quanto Boom Bip para produzir suas faixas de maneira tão livre quanto. Objeto excessivo e extravagante, Circle pode não ser o disco mais perfeito de um momento de reinvenção do hip-hop, mas é certamente aquele que melhor exprime todas as qualidades dele. (Ruy Gardnier)
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1. O que será do hip hop no futuro? Mesmo sem fazer muito sentido, é curioso observar como esta pergunta determina não só a avaliação, como a produção do hip hop dos últimos dez anos. Ora, mas somente aos tolos interessa pertencer ao futuro: para quem produz agora, importam as “flores em vida”, importa sobretudo ser consumido e digerido aqui e agora.
2. Quando uma atitude ou comportamento é nocivo para o convívio social, suspende-se estrategicamente o direito de ir e vir do infrator, elimina-se qualquer possibilidade de que ele venha a pertencer a um futuro onde suas ações se prolonguem. Mas na arte é diferente: quanto mais intempestivo e desestabilizador, mais “visionário” será considerado o artista. Quanto mais ele investe em algo que não vende, impossibilitando tanto a indústria quanto a economia libidinal dos consumidores, mais será isolado no “futuro”, isto é, num local bem distante do momento presente.
3. Um olho encara o ouvinte. O que ele quer? O que espera? Será que espera algo? Ou simplesmente olha através do círculo? Será que olha pro futuro ou para o passado? Seu raio de visão se adequa as suas aspirações? Estará satisfeito? Alimenta ingenuamente ideologias e bandeiras, ou, pelo contrário, adotou para si um niilismo estratégico, condizente com seu ambiente, suas distrações, seus hábitos? O futuro não importa e essas perguntas sao inúteis: o olho simplesmente… olha.
4. Se o hip hop é a rima, então que esta rima se vincule logo a toda a gama de rimas possíveis (por isso, tantas alusões à poesia…); se o hip hop é o ritmo, então cabe desestabilizá-lo, buscá-lo fora do 4/4 convencional; se o hip hop, como idéia, é a rima e a poesia, que se expanda então o campo de possibilidades: field recordings, rock, funk, jazz, faixas sem ritmo, apenas com vozes e sons, atestando uma inflexão vanguardista que denota cultura universitária, para o bem e para o mal. Contudo, esse olhar possui a virtude de se saber perspectivo, parcial, fragmentário. Por isso olha “para” e nao “pelo” buraco, isto é, nao aprecia passivamente, mas corta, cola e recorta, tal como de fato se constitui a matriz do hip hop.
5. Confesso que sempre impliquei um pouco com o hip hop à moda da Anticon, e isso por motivos que, confesso, são relativamente bobos: é que o trabalho desses rappers brancos e cultos, experimentando o conceito do hip hop como um método de criação, acaba por se precipitar em excessos um tanto quanto juvenis. Afinal, depois de John Cage, o que leva um artista a criar uma faixa com cinco gratuitos minutos de silêncio, ou com um telefone tocando durante vinte segundos, se não um misto de excesso de cultura e puerilidade?
6. Mas Circle é como um manifesto, um marco inaugural. Ele traz virtudes e defeitos de uma forma tão incisiva e alucinada que mesmo a implicância se desmancha diante da segurança com que Boom Bip e Doseone constróem cada experimento, cada passagem de uma faixa à outra, cada clima que percorre todo o disco. E é claro que esta segurança é algo presente, vinculado ao aqui e agora, e não prospectiva como se pensava em 2000, quando Circle representava o futuro do hip hop.
7. E aí, fica a questão: Circle soa datado porque oito anos de Anticon nos acostumou aos seus trejeitos iconoclastas e sua sede por representar o futuro? Ou pelo contrário, documenta fielmente o processo de individuação do estilo Anticon? Opto pela segunda, já que, no frigir dos ovos, o álbum apresenta momentos realmente inspirados, além de demonstrar uma altivez criativa digna de todos os aplausos. (Bernardo Oliveira)
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Boom Bip e DoseOne foram dos fundadores de uma certa tendência de intercessão entre o hip-hop e diversas outras vertentes musicais, todos misturados ao mesmo tempo, sem ater-se a modelos convencionais e principalmente, sem medo de errar; o que ao mesmo tempo dava a idéia de liberdade, frescor e inventividade contra o gangsta-rap/neo-soul dominantes, mas também abria espaço para acusações de falta de foco, de não dominarem bem qualquer um dos meios abordados, esquizofrenia mesmo.
De qualquer sorte, foram responsáveis por projetos que consolidaram o que veio a se chamar de hip-hop underground, alternativo, de vanguarda. Menos ligados à ‘mensagem’, suas letras constituem colagens e digressões que refletem adequadamente a colagem musical.
Circle é dos álbuns que melhor identificam estas características, repleto de passagens geniais, faixas que contém mais criatividade e qualidades de produção que muitos álbuns inteiros, mas também é uma coletânea que muito forçosamente se coaduna em um álbum, através de 29 faixas no curso de cerca de 70 minutos, são idéias demais perdidas em faixas pouco buriladas, rascunhos, alusões a diversas possibilidades, faixas que justificam sua existência por um humor que nas poucas vezes que realmente divertem, não se sustentam por muitas audições, menos ainda após quase uma década. Aliás, a fraqueza dos interlúdios é muito semelhante àquela que infesta álbum de hip-hop ‘comercial’ desde os anos ‘90. Não seria difícil, com alguma boa vontade e edição, diminuir o álbum para uns 50 minutos de alegre proeza. De qualquer modo, mesmo os momentos mais obtusos pecam por tudo menos pela imposição de barreiras entre o que se constrói e aquele que ouve; ainda que em alguns momentos não seja possível distinguir as letras, ou mesmo as entender, sempre existe um sentido superficial que conduz a audição; mesmo que as referências musicais sejam obscuras, o efeito almejado é facilmente identificável, o que serve de resposta a muitos críticos que, à época, torciam o nariz para o pouco interesse em aproximação com o público, o que é falso, o interesse sempre esteve ali, junto a um convite para uma aventura alucinante, que nem todos toparam encarar.
Tudo isto, sem diminuir o valor do álbum, aliás, estes defeitos são mais perceptíveis hoje, quando o entusiasmo inicial arrefeceu e deu lugar à admiração, inclusive à suas corajosas imperfeições; mesmo não atingindo o nível de um cLOUDDEAD ou de um The Cold Vein, temos um disco vibrante e repleto de possibilidades que, na realidade vieram a ser pouco desenvolvidas, quando os membros do Anticon e correlatos, ou desapareceram, ou dedicaram-se a projetos diferentes, ou simplesmente acomodaram-se em pastiches do que fizeram anteriormente.
O disco não envelheceu bem, ou envelheceu e ficou mais excitante? Nada disso, ficou o reflexo de seus sucessos e fracassos; ora anacrônico, ora revelador – absorvendo seus erros e criando uma obra que se peca pela coesão, triunfa por ser visionário. (Marcus Martins)
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Dose One é daqueles artistas capazes de trazer uma unicidade em tudo o que participam. Não é diferente em Circle, seu álbum em conjunto com o produtor Boom Bip. Sua voz fanha, sua rima rápida, seu jeito de rapear excêntrico, suas falas descontraídas entre cada faixa e seu flow impecável apenas tornam Circle um disco de poucos parâmetros no hiphop. Aliás, este parece ser o álbum que abriu as portas para todos os artistas mais undeground do gênero que instalar-se-iam e solidificar-se-iam nos anos seguintes. Pode até ser entendido como o anteprojeto do cLOUDDEAD, grupo que Dose One formaria logo em seguida e que viria a lançar seu disco homônimo no ano posterior (um dos melhores do gênero a serem lançados nessa década). As diferenças na sonoridade do cLOUDDEAD residem nas suas camadas eletrônicas mais ambient e escapistas e no alongamento de cada faixa, enquanto Circle, apesar de prolixo, trabalha com faixas mais curtas e sintéticas.
Circle, todavia, não é um disco desprovido de antecedentes. Para a formação de sua linguagem ímpar, Boom Bip utiliza-se de vários recursos e truques típicos do hiphop clássico. As batidas tradicionais, os samples, os scratches, o som chiado do vinil, a produção refinada e os diálogos presentes no meio das faixas estão todos presentes no disco. O que Boom Bip faz é pegar todos esses elementos e rearranjá-los à sua própria maneira. Ele coloca uns sons diferentes aqui, adiciona umas batidas mais rebuscadas ali e tudo sob a tutela de Dose One, que, com seus vocais, não permite que música alguma seja ordinária. Circle pode não se igualar a um disco tão bem acabado, produzido e inspirado como o primeiro do cLOUDDEAD, mas serve como um laboratório do hiphop, que viria a dar as indicações para que rumos o gênero deveria tomar futuramente. Imperdível. (Thiago Filardi)