Astral Social Club é um projeto solo de Neil Campbell, líder do Vibracathedral Orchestra. Este projeto tem se caracterizado por uma enxurrada de lançamentos (especialmente em cd-rs, que já ultrapassam as duas dezenas) que aos poucos vão definindo uma peculiaridade em seu som, distanciando-se do VO. São caóticas faixas instrumentais onde a música eletrônica, seja o techno ou o ambient mistura-se das formas mais livres ao noise, ao krautrock e tudo o mais que Campbell encontra pelo caminho, sendo a marca mais peculiar seu aparente desejo de não deixar nada pelo caminho: tudo é engolido e regogitado.
O trabalho de Campbell tem daquelas dificuldades de muitos nomes da música experimental, uma quantidade desesperadora de lançamentos em edições restritas que tornam impossível a adequada absorção de sua produção. E como bem apontou Matthew Wuethrichem (de forma interessante mas também equivocada) em sua resenha de um disco de Kawabata Makoto, são artistas que apostam na obra como processo; trabalhos desenvolvidos e rascunhos são postos quase no mesmo destaque, sem hierarquia. O Astral Social Club, junto a nomes como Machinefabriek, encampou tal ímpeto e também por isso a iniciação em sua obra não é das mais fáceis. “Monster Mittens” não é exatamente uma obra característica, fazendo mais sentido referir-se como um produto que, dentro de certo contexto, representa um desvio no processo de construção da obra. Talvez inicialmente fosse benéfico buscar álbuns como a coletânea auto-intitulada que é muito eficiente em captar o som inicial do projeto, dando grande atenção aos lps de 2007, em especial Star Guzzlers e Super Grease, para quem sabe depois se arriscar no delírio da série de cd-rs auto-intitulados e numerados que já chegou, pelo menos, ao número 17!
“Monster Mittens” é o lado A de um sete polegadas construído com o auxílio do barulhento Karl Bauer do Axolotl (vide o colossal Memory Theatre) e como não podia ser diferente na união de nomes tão dedicados a experimentações completamente liberadas de forma. “Monster Mittens” é um turbilhão digital que seria uma das mais efetivas respostas da música eletrônica do séc. XXI para como fazer algo que beba da fonte do krautrock sem macaquear os feitos de Neu!, Faust e companhia. Toneladas de efeitos digitais (inclusive de pequenos trechos vocais) junto a drones e loops que constroem uma massa sonora digna de um dos momentos mais “livres” de Albert Ayler (um dos heróis de Campbell)- exemplo de abandono extremo no caos e no barulho impenetrável, agora imagine isso processado, triturado até um beco sem saída de psicodelismo e motorik kraut. Um dos possíveis pontos de comparação do trabalho de Campbell neste vinil, além do próprio Axolotl é imaginar uma versão hardcore do Black Dice, mas onde esse desconstrói canções e formatos, o Astral Social Club parece já partir da negação de formas, aproximando-se aqui do trabalho da turma japonesa mais psicodélica. Isso poderia resultar em música “fria” ou de pouco impacto, mas o que ouvimos são faixas jubilosas que nunca perdem de foco tanto a investigação sonora quanto sua verve sensorial. (Marcus Martins)

0 Respostas para “Astral Social Club – “Monster Mittens” (2008; Dirty Knobby Industries, EUA)”