Entre o primeiro álbum homônimo de Paulinho da Viola e o segundo, Foi um Rio Que Passou em Minha Vida, observam-se mudanças profundas no trabalho do artista. Primeiro, uma economia consideravelmente maior nos arranjos, mais especificamente nas orquestrações dirigidas por Maestro Gaya: elas não configuram a espinha dorsal do disco, como no caso do primeiro álbum, mas salpicam elegantemente as canções. Percebe-se também um amadurecimento do intérprete Paulinho: a entonação, a dicção, a descontração, tudo contribui para reforçar aquele estilo tão característico, aquela voz mansa e segura que se reconhece ao longe. Depois, uma projeção mais desenvolta do compositor Paulinho, que no segundo álbum concedeu somente duas músicas a amigos e parceiros: “Meu Pecado”, de Zé Kéti e “Lamentação”, de Mauro Duarte. Mas há uma quarta característica, pela qual Paulinho é reconhecido, mas que infelizmente não se fala muito por aí: a consolidação de seu espírito experimentador, que marcaria decisivamente os discos da década de setenta, sobretudo Dança da Solidão e Nervos de Aço. “Lamentação” é um finíssimo exemplo desta necessidade de explorar outras roupagens para o samba.
Com o arranjo de Lyrio Panicali, e, arrisco, a contribuição de Paulinho, a bela canção do grande Mauro Duarte (autor de “Lama”, sucesso na voz de Clara Nunes) é alçada ao patamar de obra-prima. A gravação começa por um conjunto de flautas sobre a base de percussão e violão. Assim que Paulinho começa a cantar, permanecem o violão e a percussão e um sino faz a marcação, evocando um profundo sentimento de solidão. O sino se vai e, na segunda estrofe, algo próximo de um repique cria desenhos rítmicos aleatórios, até que Paulinho profere algumas palavras mágicas: “mas carnaval são três dias apenas”. A música pára, a harmonia é suspensa e um naipe de metais executa toda a melodia da música em andamento mais lento. A canção retorna, recortada por desenhos melódicos dos sopros, até eclodir na repetição do tema pelos metais, e encerrar com um discretíssimo e minucioso ataque das flautas do inicio. Bravo!, grita o espírito crítico dentro de nós…
A música termina e, estupefatos, divagamos: será que o samba no Brasil conseguirá retomar essa desenvoltura, essa ousadia? Ou será que amargaremos os mesmos velhos arranjos, ora inspirados em Rildo Hora, ora em uma pureza infundada, em uma profusão de pandeiros de couro e cordas gravadas da mesmíssima forma? Não tenho nada contra o Rildo, muito pelo contrário, respeito-o profundamente. Mas o respeito não pode virar prerrogativa para a preguiça e o receio com que se produzem arranjos de samba no Brasil hoje. Às antípodas deste processo, o jovem Paulinho e sua “Lamentação” mostram que é possível ater-se à mais profunda tradição, renovando-a. (Bernardo Oliveira)

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