Alguns artistas de ponta se tornaram mais populares e reconhecidos nos últimos anos pelo esforço daqueles que se influenciaram por seus trabalhos. Por exemplo, Mike Watt, graças ao Red Hot Chili Peppers e Tom Zé, pelas mãos de David Byrne. Há também artistas nem tão geniais que são redescobertos por obra de determinados contextos: Gary Numan e o Human League do primeiro álbum, revalorizados por utilizarem pioneiramente os aparelhos eletrônicos tão em voga nos dias de hoje. Ex-membro do The Pop Group, um dos grupos mais intrigantes dos anos 80, o inglês Mark Stewart não participa nem do primeiro, nem do segundo grupo, mas representa algo entre a invenção e o pastiche sem relevo. Sua redescoberta se deu tanto por conta da reabilitação crítica de seu grupo pregresso, quanto por um grau de pioneirismo contextual que marca seu trabalho solo – que conta com a participação de Adrian Sherwood na produção, membro da Maffia, grupo que o acompanha. Variando da síntese eletrônica da música negra, sobretudo o hip hop, do reggae e do dub, até o world pop no estilo Peter Gabriel, politizado até a medula, Stewart confirma, com seu último álbum, Edit, a tendência a uma concepção musical mais próxima do melting pot que vigora atualmente na Europa, do que propriamente dos saltos mais ousados que marcaram a breve carreira do Pop Group. Apesar de suas simpáticas viradinhas de tabla e da melodia proto-oriental, “Strange Cargo” se resume ao world pop mais descarado, adornado por estranhos arranjos vocais e letra politicamente correta. Aqui, nem contexto, nem genialidade marcam presença; mais parece que o autor parou no tempo, tamanha semelhança com a vertente mais piegas do pop europeu. Me faz indagar se não se trata da busca por um novo caminho para as Índias: no frigir dos ovos, na hora em que a criatividade resvala na falta de assunto, o que o europeu “antenado” faz se não se (re)aproximar do oriente? Nenhum problema, se privilegiarmos o ponto de vista da arte e da política, pois não está em poder dos governos administrar as trocas culturais entre povos e contextos. Mas do ponto de vista da fruição, parece que alguns europeus permanecerão reféns do bem-estar e da culpa, produzindo, mesmo ao nível de uma música pretensamente nova, artefatos melosos e auto-indulgentes como esta “Strange Cargo”. (Bernardo Oliveira)
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