19
Jul
08

Guns N’ Roses – “Paradise City” (1987; Geffen, EUA)

Sendo jovem e tentando criar minha identidade emulando os gostos e hábitos alheios tive minha fase “metal”. Na verdade eu tive uma fase Guns N’ Roses. Um dos funcionários de minha mãe igualmente obcecado por Michael Jackson e Axl Rose (sim, ele usa bandana e óculos espelhados). Crescer em Salvador não era a forma mais propícia de cultivar o gosto pelo rock, e pior ainda quando se tratava de suas vertentes mais pesadas. Digo que tratou-se de uma fase pela qual que posteriormente o interesse evanesceu e ficou apenas como a marca de um período. Ainda assim, quando agora em 2008, passei a ter que ouvir “Paradise City” quase que semanalmente, eu quase que fui obrigado a renovar contato com aquelas músicas e voltar a ouvir Appetite for Destruction. A experiência, depois de muitos anos, foi no mínimo arrebatadora; nem falo das óbvias “Sweet Child O’ Mine” ou “Welcome to the Jungle”, falo justamente da música de letra tola que se desenvolve para um dos ápices mais catárticos da história do rock. Se havia um apetite pela destruição, nenhum outra faixa o captou melhor. Construída em torno do rife de guitarra e dos vocais passionais de Axl, a faixa poderia ser apenas mais uma boa faixa em meio a tantas do disco, nem podendo ser qualificada estritamente como hard rock, mas é do meio para o final onde algo único acontece: a faixa aos poucos vai perdendo forma, como se implodida por dentro – o ritmo dobra, multiplica. Uma força entrópica que no lugar de gerar indulgência resulta em uma das mais perfeitas representações do caos que timidamente a letra tenta refletir e por isso mesmo o refrão genérico transforma-se no grito do afogado na tal selva urbana. Esse talvez o grande testamento de uma banda que se perdeu pelo caminho entre o paraíso e a democracia chinesa. (Marcus Martins)


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