Os Residents são demais. Poucos como eles – e não só no registro musical – conseguiram de forma tão completa aplicar os princípios de deslocamento dos objetos culturais e reapropriação de outras obras para criar sentidos que ao mesmo tempo constituem, através da colagem e do rearranjo, formas novas de criação e interpretações algo terroristas, algo paródicas, em todo caso irreverentes e inconformadas, das obras e dos contextos de base. Zombando de uma série de segmentos musicais e indo do mais convencional ao mais erudito, da indústria musical baseada em ganchos fáceis e reiteração até a etnomusicologia, passando naturalmente pelos ícones da cultura pop, os Residents são tão imprevisíveis quanto únicos em seu humor agressivo.
Os Beatles, como não poderia deixar de ser, exercem um interesse especial para o grupo. Meet the Residents (1973), primeiro álbum do grupo, já referenciava o quarteto de Liverpool tanto no nome quanto na capa, deformando os rostos dos fab four na foto de Meet the Beatles! A sandice aumentaria e ganharia níveis artísticos surpreendentes nos anos seguintes, em que eles aproximariam nazismo e música pop (The Third Reich’n'Roll, 1976, absolutamente obrigatório), e lançariam um single intitulado The Beatles Play The Residents and The Residents Play The Beatles. O lado A, “Beyond the Valley of A Day in the Life”, é uma colagem de músicas dos Beatles, e o lado B é “Flying”, escolhida entre todas as faixas dos Beatles por ser a única composição atribuída a todos os quatro.
Mas é o lado A que aqui nos interessa. Os primeiros sons que ouvimos são do fim de “A Day in the Life”, as notas finais após o famoso crescendo de cordas. Uma percussão insidiosa serve de base para um turbilhão de trechos de faixas dos Beatles e vozes dos cantores, em especial Lennon cantando “Don’t believe in Beatles” em “God” e Paul McCartney se desculpando (“Please everybody, if we haven’t done everything we could have done we tried”). As duas frases reaparecem com uma insistência incômoda, e contrastam com instantes pinçados de faixas conhecidas do grupo, dando a elas um tom mórbido e jocoso (e nada menos que genial). Depois, loop na bateria de “Tell Me Why”, sons de cordas de “I Am the Walrus” e nova profusão de microinstantes da carreira musical do grupo. O terceiro movimento se inicia com a cítara de “Love You Too”, e depois utiliza o riff de “Hey Bulldog” e o yeah yeah yeah de “She Loves You” de forma repetitiva de modo a novamente criar o desconforto com o próprio grude, aqui amplificado, até atingir um crescendo, que ocasionalmente pode até remeter à faixa referenciada no título.
Duchamp, dada, fluxus e outros, a relevância dos processos de apropriação e colagem (ou, em alguns casos, montagem) reside no tamanho da diferença que se consegue fazer a partir da matéria prima original (e, em alguns casos, no tamanho de provocação que essa diferença proporciona). Aqui, “Beyond the Valley of A Day in the Life” atinge a perfeição por sua plurissignificação (pode ser visto ao mesmo tempo como um epitáfio sobre os Beatles e um comentário sobre o processo social mais amplo da cultura de massa, de fãs histéricas à onipresença massacrante na imagem pública), pela mestria na orquestração dos segmentos, pelo artesanato (a observar a minuciosa distorção no começo dos yeah yeah yeahs, conseguida através de alteração de velocidade de fita ou vinil) e pela argúcia na construção conceitual da faixa, que cria humor mas não se esgota nele, propondo diversas camadas de questionamentos. (Ruy Gardnier)

Os the residents são a minha banda preferida, além de outras, já os vi ao vivo, parabens pelo vosso trabalho, que é muito bom, exemplar,eu não sou tou bom a escrever,fico-me pelo bom gosto…..e por gostar muito de arte- cultura….