04
Ago
08

São Paulo Underground – The Principle of Intrusive Relationships (2008; Submarine Records, Brasil)

O São Paulo Underground começou a partir do encontro de Rob Mazurek, cornetista e manipulador de eletrônicos de Chicago, EUA, e Maurício Takara, baterista e percussionista paulista que lidera o grupo Hurtmold e tem carreira solo, além de integrar outros projetos e colaborar com músicos (Joe Lally, Damo Suzuki, Naná Vasconcelos) em outros projetos. O SPU inspirou-se num projeto anterior de Mazurek, Chicago Underground Orchestra, de trabalhar com um coletivo de músicos paulistanos e manter a formação fluida. A estréia em disco aconteceu em 2006 com Sauna: Um, Dois, Três. Para o sgundo disco, Principle of Intrusive Relationships, lançado em maio de 2008, eles adicionaram Guilherme Granado (percussão, eletrônicos) e Richard Ribeiro (bateria) à formação-base do grupo. (RG)

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Principle of Intrusive Relationships começa um pouco como o último (e excelente) disco do Hurtmold, homônimo: os instrumentos brincam e tateiam formas, cacofonia, bateria quebrando tudo, corneta jogando sons e os eletrônicos fazendo casa com graves fortes. Com dois minutos e pouco, do informe surge o groove. Uma levada de bateria insinuante, pontuada por leves toques de teclado, serve de base para as cornetadas free de Rob Mazurek. “Final Feliz”, de certa forma, exemplifica os procedimentos e o espectro musical que o disco cobre, alternando as demolições dos momentos free com andamentos de downtempo/lounge, que, claro, conviverão (e recompensarão o ouvinte que decidir ser guiado junto) com camadas de barulho e dissonâncias.

“Barulho de Ponteiro 1″ segue, com climão dub fornecido pelos graves eletrônicos e pelo andamento lento, sob o qual se constroem melodias de xilofone e intervenções percussivas – incluindo, naturalmente, o barulho que dá título à faixa. Aos poucos, um som eletrônico abrasivo sobe, a bateria se cala e o noise conduz à terceira faixa, espécie de continuação chamada “Barulho de Ponteiro 2″. O que de início chama a atenção na faixa é o trabalho eletrônico em cima de algumas células da bateria, retirando as reverberações. Algumas melodias se insinuam, de órgão, de baixo. Mas novamente há uma pausa e a faixa recomeça, com andamento mais lento e momentos inspirados de bateria e eletrônicos. Segue “Pulmões”, que retoma mais ou menos a mesma lógica, criando uma primeira metade de disco que evoca ao mesmo tempo o rock instrumental à Tortoise ou Battles, o soul-jazz pelas levadas de bateria, o noise pelas paredes de barulho ocasionalmente criadas e o jazz contemporâneo (leia-se o pessoal em volta da Thirsty Ear) pela dinâmica criada entre os instrumentistas e pela incorporação da eletrônica à improvisação livre.

O prosseguimento do disco altera um pouco esse equilíbrio, abdicando dos grooves mais sensuais de bateria. “Entre um Chão e Outro” pode até evocar “Barulho de Ponteiro 1″ pelo flerte com o dub, mas a atmosfera criada é totalmente distinta. O que conduz a faixa é uma melodia de grave, à qual os outros instrumentos vão contribuindo às suas maneiras, e sem progressão. Econômica porém incisiva, talvez seja a faixa que mais se destaca no disco.

“Cosmogonia” começa com um daqueles sons de sintetizadores saturados que a gente costuma ouvir no M83, e ele também serve como elemento de estruturação da faixa, que se desenvolve de forma bem mais livre que as anteriores (ao menos em relação aos padrões rítmicos). “Imã” é uma microfaixa de continuação, e o álbum deságua na faixa final, “Só por Precaução”, que começa com sons de alienígenas de filmes dos anos 50 e transforma-se numa experiência de corneta com timbres agudos, além de profusão de sonoridades eletrônicas esquisitas.

Resulta um álbum extremamente rico, propositivo dentro do cenário internacional (e, por extensão, naturalmente no nosso particular, brasileiro) na maneira de buscar caminhos dentro da confluência dos gêneros, das tradições e das sonoridades, e pelo soberbo dom de incorporar os eletrônicos no seio de uma pesquisa jazzística que mantém o tempo inteiro uma pegada de rock. E que isso seja feito aqui perto, nos undergrounds de São Paulo, é ainda mais interessante. (Ruy Gardnier)

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Para o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, a tragédia grega era resultado da comunhão entre dois princípios: Apolo e Dionísio. O primeiro se caracterizava pela unidade individual, pela capacidade de contemplar a vida como um todo. O segundo ocorria quando esta individualidade era ultrapassada pela dinâmica monstruosa da vida, pelo caos, por assim dizer. A grandeza da tragédia, para ele, resultava do modo como ela afirmava o sentido da vida através dos dois aspectos. Se a Apolo, o herói, se atribuía o vigor da perspectiva e da unidade, ao coro era dada a capacidade de dissolver as individualidades e mergulhar nas profundezas indistintas do real. Assim, mundo e existência se vêem justificados como fenômeno estético, pois é através de uma transformação extática que cada indivíduo se percebe dissolvido numa realidade mais ampla que a do sujeito. Nem a individualidade apolínea, nem a dissolução dionisíaca, muito menos a síntese dos dois princípios. Trata-se de uma dupla afirmação, radical, que açambarca a dor e o prazer, que aceita a vida com todos os seus percalços, sem lancar mão dos argumentos benévolos e frágeis da religião ou do consumo dócil. Mas que também é capaz de trazer à tona o seguinte problema: excessivamente técnica e racional, não teria se tornado nossa cultura desproporcionalmente apolínea? E, às antípodas deste processo, não teria se tornado a música mais dionisíaca, através do jazz, das experiências eruditas pós-serialistas e do fortalecimento da música eletrônica criada para a pista de dança e para o transe? Não haveria um desequilíbrio entre as duas forças que propiciaria uma separação entre a arte e outros ramos da vida e que, por conseqüência, teria tornado a vida menos trágica? Em contrapartida, arrolada à dinâmica do capitalismo, não teria a música sido tomada por um princípio excessivamente dionisíaco, visando a mera e simplória satisfação dos sentidos, sem que depreenda nenhuma inflexão própria? Na contramão desse processo, me parece que a música do São Paulo Underground pode ser analisada perfeitamente dentro de uma perspectiva efetivamente trágica.

Preenchido pelo caos, mas rigorosamente composto como um projeto, The principle of intrusive relationships desafia os rótulos, as classificações e até mesmo a perspectiva que temos da música, configurando-se como um dos grandes lançamentos do ano. Do caos dionisíaco, mantém a capacidade de proporcionar não somente uma saudável confusão mental, ocasionada pela sonoridade polirrítmica e polifônica, mas também por reportar a outras “vozes”: o Coltrane de Meditations, o Ornette de Free Jazz, o Miles Davis de Bitches brew e o highlife de E.T. Mensah, especificamente condensados na irônica “Final feliz”, que abre o disco – inclusive, o aspecto dionisíaco se torna ainda mais patente quando percebemos que o álbum pode ser escutado como uma grande faixa de 45 minutos. Já do heroísmo apolíneo, percebe-se a sagacidade, a capacidade de manipulação, a perspectiva culta, que vê a música com abrangência e perspicácia, que apesar de se saber dissolvida numa individualidade mais abrangente, sabe impor sua própria dinâmica criativa. Assim, admira muito o trabalho que M. Takara e Rob Mazurek operam não somente na execução instrumental das faixas, mas sobretudo pela manipulação digital realizada após a gravação. Em “Barulho de ponteiro 2”, por exemplo, podemos ouvir que o suingue desconjuntado criado pela dupla é posteriormente manipulado por computador, adicionado de pequenos “estragos” e reproduzindo um teor de abrasividade sonora tão incômodo quanto fascinante.

A propósito, incômodo e fascínio definem bem a música da dupla. Trágica por definição, caótica por impulso, mas concebida como uma obra aberta aos mais diversos olhares. (Bernardo Oliveira)

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A internet e as novas mídias como o mp3 mudaram a forma como se ouve música e um dos pontos de maior crítica negativa é a perda do contexto e o consumo desatento e supostamente “frio”. Mas apenas chamo atenção para esse tipo de coisa por ter ouvido pelo primeira vez o som do São Paulo Underground por recomendação de um amigo alemão. Ele não sabia me fornecer maiores informações e ouvi o disco sem saber quem eram os integrantes do projeto e nem mesmo sabia que eram brasileiros. Apenas posteriormente, tendo gostado do disco fui descobrir que tratava-se de projeto do qual participavam os amigos Maurício Takara e Rob Mazurek. Curioso que minha experiência inicial continuou como regra, as vezes em que eu ouvia menção ao projeto, assim como a coisas do Takara e seu Hutmold foram de fonte estrangeira e a recepção nacional sempre pareceu eco – olha, os gringos gostam disso.

Isso para dizer que o SP Underground não revolucionou a música experimental, improvisada, nem a mistura jazz/eletrônico. Eles nem mesmo trouxeram algo de novo a esses procedimentos, uma vez que todos os músicos envolvidos já trabalhavam em parâmetros parecidos. A grande peculiaridade do SPU seria a vontade que esses músicos tinham a algum tempo em trabalhar juntos e dar vazão coletiva a afinidades descobertas. Mazurek a muito era colaborador, tendo dividido sete polegadas e feito algumas participações.

Desde o primeiro disco era óbvia a influência do Chicago Underground Orchestra no projeto(talvez menos até em sonoridade que na forma de trabalhar), mas isso não serviu de entrave à fluência da colaboração e posso afirmar que Principle of Intrusive Relationships consiste em evolução ao apresentado em Sauna: Um, Dois, Três. Não por existir grande ruptura de forma ou procedimento, mas pela execução apresentar maior densidade e ser notável a constatação que dentro de toda a cacofonia e caos que o som apresenta, cada músico sabe o seu papel e como ocupar e abrir espaço para seus companheiros. Tal observação é relevante em especial observando que o título do disco remete a um princípio da geologia(veja aqui) que trata da intrusão de rochas ígneas(jovens) em rochas sedimentares(antigas). Na prática isso ajuda a saber a idade do solo e o modo como esse se formou. Justamente a forma como músicos jovens que tinham Mazurek como referência, passam a interagir com a produção dele, deixando evidente suas marcas e criando um “solo” comum. E poderíamos continuar no campo da análise de terreno para perceber que o material resultante de tal trabalho dialoga de forma importante com a produção contemporânea de música improvisada (não necessariamente chamada de jazz) praticada em especial pelos escandinavos da Rune Gramaphon (Supersilent, Humcrush) e pelo coletivo de músicos que colaboram nos lançamentos da Thirsty Ear, aí podendo ser inclusos toda a leva de músicos que desde os anos 70 aproximam o jazz daquilo que seus detratores chamavam de barulho (vide Coltrane, Ayler) e os escultores de ruído dos anos 90 que muitas vezes passaram a colaborar com músicos de outras áreas como o jazz (como Jim O’Rourke).

Em seus pouco mais de 44 minutos, Principles parece continuar a cartografia sonora do caos urbano de São Paulo iniciado em Sauna. O disco já começa caótico e dissonante e apesar do destaque para a corneta de Mazurek, o som parece um sólido bloco que apenas após o segundo minuto toma forma melódica, mas ainda funcionando como um vórtex que suga toda a música que passa ao alcance. Em diversos momentos parece que vamos ouvir uma menção a samba, forró, maracatu e outros ritmos brasileiros (mas também um pouco de noise, dub, drone), pare esses logo serem sugados e triturados. “Barulho de Ponteiro 1″ começa mais calma, calcada em tons eletrônicos e percussão e investindo mais em timbres que na densidade sonora da primeira faixa. E é na manipulação eletrônica dos timbres e a forma como os samplers e field recordings são introduzidos que o SPU ganha uma organicidade que muitas vezes falta a projetos mais festejados como algumas colaborações da Thirsty Ear onde parece que ouvimos uma jam que ganhou um colorido eletrônico. “Barulho de Ponteiro 2″ seria uma faixa de jazz convencional e groovada processada com ruídos e filtros, para adquirir o aspecto de que está sendo ouvida em um rádio velho mal sintonizado até passar a um estágio que assemelha-se aos momentos mais calmos do Supersilent com uma percussão mais “brasileira”. Aliás, seria interessante ver uma colaboração desses caras com Helge Sten (Deathprod, Supersilent). As faixas seguintes continuam na mesma toada, impregnadas por música contagiante e a cada momento as possibilidades são renovadas. Curioso é que muitos desses improvisos que utilizam instrumentação pouco convencional terminam por recorrer a um padrão onde passam a misturar o som. Isso não ocorre aqui, a cada instante as faixas são acrescidas de elementos novos, passando mesmo por guinadas que a transformam em coisa diferente daquilo que iniciaram. Quer dizer, uma mutação constante e rica que nunca é reduzida ao hermetismo ou recorre à acessibilidade fácil. Uma pequena ilha, daquelas surgidas em movimentos geológicos, que sinaliza possibilidade de vida nesse modorrento panorama brasileiro. (Marcus Martins)

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Rob Mazurek, artista multifacetado dos Estados Unidos, já tinha mostrado suas credenciais no projeto Chicago Underground. Mas, ao vir para o Brasil e desmembrar sua carreira no São Paulo Underground, um movimento chama a atenção, especialmente neste Principle of Intrusive Relationships. Ao incorporar dois percussionistas à formação original que ele compôs com outro percussionista (Maurício Takara), indica que encontrou no Brasil novas potencialidades dos instrumentos rítmicos. Uma força que se abre para intenções jazzísticas aliadas aos sons eletrônicos, e que aposta na subversão da idéia de que o lugar da percussão e da bateria é na cozinha, o pano de fundo. É bem o que se ouve no álbum: um bocado de Mazurek, com sua corneta alucinada e seus efeitos eletrônicos; e muita quebradeira rítmica.
O disco já é assim nos seus primeiros segundos, em que se introduz uma mistura de corneta, percussão e efeitos, formando uma cacofonia que dá o tom do que está por vir. “Final Feliz” só se “ordena” lá pela marca de 2min25s, mas isso é apenas para dar vazão às improvisações jazzísticas que fazem nascer um som urbano que, portanto, em certos momentos é caótico, em outros, ordenado; em certos momentos, sujo; em outros, limpo; mas sempre múltiplo. A coisa vai mais adiante na dupla “Barulho de ponteiro 1″ e “Barulho de ponteiro 2″. A engrenagem sonora que é montada é parte constitutiva de uma máquina maior e surpreendente, em que a melodia ocasionalmente surge para armar a base para que a percussão se solte mais em improvisos de resultado instigante.
De “Pulmões” em diante, a exploração ganha mais e mais contornos eletrônicos. Têm força especial “Cosmogonia” e sua distorção; e “Só por Precaução”, em que se tem a sensação de que computador central ganhou vida própria, e lentamente começa a emergir de um sono profundo para ganhar consciência e tomar controle da nave. Um dia, quem sabe. Por enquanto, só na festa de Principle of Intrusive Relationships. (Tiago Campante)

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