
Paavoharju é um coletivo finlandês que produz música inclassificável e que alcançou razoável reconhecimento internacional com o lançamento de seu primeiro álbum, Yhä Hämärää. Nesse ano lança seu segundo disco, denominado Laulu Laakson Kukista. (MM)
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Eu não sei como as coisas andam na Dinamarca, mas certamente há algo de podre na Finlândia. Podridão das mais curiosas. Não sei exatamente de onde isso surgiu, mas a música ali produzida nesta década é das mais esquisitas. Lanados para o mundo através do sempre excelente selo Fonal, temos artistas como Islaja, que talvez seja a exportação mais conhecida, mas quando nos deparamos com entidades tão excêntricas e extraordinárias quanto Es (projeto de Sami Sänpäkkilä, fundador do Fonal), Shogun Kunitoki, Kemialliset Ystävät, Lau Nau e o Paavoharju, temos certeza de que algo único ali acontece; não apenas pela elevada qualidade da produção, mas pelas características que não tem semelhantes. Claro, não falamos de grande inovação, mas do uso de influências e elementos díspares e inusitados com resultado orgânico e emotivo. Talvez esse seja um dos grandes trunfos dessa nova onda finlandesa; apesar de tratar-se de música experimental e sempre manter uma distância saudável das facilidades pop, nunca é perdida uma certa acessibilidade, um desejo de comunicar emoções a despeito da barreira provocada pela língua.
O Paavoharju recebeu maior atenção em 2005 ao lançar o excelente Yhä Hämärää. Constituído por um coletivo de cristãos renascidos e que não possui um número fechado de integrantes (tendo como núcleo central os irmãos Lauri e Olli Ainala), o Paavoharju é conhecido por seus hábitos reclusos e pela pouca vontade de fornecer mais informações além de sua música. O que talvez seja bom, porque apesar da música ser informada por suas convicções religiosas, temos um grupo com extraordinária capacidade criadora e que, agora, com o lançamento de Laulu Laakson Kukista, apenas confirma sua posição na ponta da música experimental, com um disco que, se não for um dos melhores do ano, é dos mais peculiares. Misturando faixas folk, com sons ambient e esquisitices que podem incluir sons de video games, música indiana, música concreta e todo tipo de vanguarda. Melhor, o resultado é sempre arrebatador; não parece haver barreira entre o sintético e o orgânico, entre o instrumental e o processado, o analógico e o digital. Mesmo com toda a aura de ermitões saídos das florestas finlandesas, o som deles está distante de trilha sonoras para sabás de bruxas escandinavas ou acampamentos em volta de fogueiras. A música que ouvimos possui nuances e alternativas suficientes para que evitemos qualquer imagem simplista, até mesmo afastando o incômodo de admitir gostar da obra de artistas ligados à religião de tal origem. Mais um dos desafios desse grupo que, ao ser apresentado a um amigo, em 2005, o mesmo pensou que ouvia algum tipo de música indiana com elementos eletrônicos. Ainda assim, um dos grandes méritos do grupo é ser refratário a tais classificações, que, possivelmente, dizem mais sobre quem o qualifica que sobre a música; diz bastante sobre nossa capacidade de lidar com o estranho, o outro. Muitas vezes a música é corroída por ruídos e drones e ainda assim o resultado é vibrante e colorido.
Tal tiremos daí o grande mérito de Laulu Laakson Kukista: nos manter em constante estado de instabilidade uma vez que sua música evoca ao mesmo tempo a alteridade e o familiar. Nos levando para as profundezas da floresta para nos mostrar que ali a vida funciona como em qualquer outro lugar, apenas com características próprias. Temos algo como uma psicodelia às avessas, em que os elementos mais díspares funcionam com uma coerência interna insuspeita, como se não pudessem existir de outra forma. Se existe alguma queixa é a curta duração do álbum com seus trinta e cinco minutos de rara beleza. Um êxito prodigioso – a música que não apenas encanta como se faz necessária. (Marcus Martins)
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O mundo é um lugar tão interessante hoje em dia que a obra de um grupo originário de Savonlinna, uma cidade finlandesa de 27 mil habitantes (é menos do que a população do Andaraí) tem repercussão mundial e é resenhada no Brasil poucas semanas depois do lançamento. O que é algo a se ter em perspectiva para começar a conversa sobre Laulu Laakson Kukista. Isso porque a beleza do segundo disco de Paavoharju tem um caráter um tanto contraditório. Em certos momentos, soa diferente e distante, algo que seria perfeitamente justificável dada a diferença cultural e a distância física que separam um ouvinte brasileiro de artistas escandinavos. Ainda mais que os artistas em questão são cristãos ascéticos que evocam sonoridades de música sacra sobre estalidos e chiados que reforçam a impressão de que se está ouvindo um som de outras eras, tempos em que um canto em tom de murmúrio é quase como uma prece acompanhada pelo som de um cravo, como no arremate de “Pimeänkarkelo”.
Mas, paralelamente, a música de Laulu Laakson Kukista vai em outra direção do espaço-tempo. Incorpora desde drones delicados a levadas dance como a de “Kevätrumpu” e sua sensualidade européia. Ou então a simplicidade rascante de “Italialaisella Laivalla”. Sempre que se tem a impressão de pisar em terra firme, Paavoharju nos arremessa para outro lugar, numa dinâmica de movimentos surpreendentes, sem repouso prolongado. Talvez seja um instantâneo da própria Europa ocidental deste 2008, um lugar em que mesmo o vilarejo mais simples pode ser solo rico em termos de meios de produção e pode ser fértil para a criação. Um lugar em que culturas de passado milenar se encontram com um futuro que é desafiador. Uma imagem que é um pouco o que evoca a canção “Tuoksu Tarttuu Meihin”, que pinta o retrato de uma caixinha de música conectada a um iMac, ou um tocador de realejo ligado a um computador através de um cabo USB. (Tiago Campante)
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É extremamente charmoso gostar do Paavoharju. A capa do disco é sensacional, o disco apresenta variações imprevisíveis e maluquetes, e eles são finlandeses, ou seja, estão na mesma cena de artistas talentosos como Kemialliset Ystavat e Islaja. E, para melhorar tudo, eles exibem certa sensibilidade e feeling para compor algumas melodias cativantes e não muito óbvias. Mas as razões para gostar do grupo, me parece, não vão muito além disso. Existe uma solenidade geral do projeto, uma tentação a fazer coisa séria que faz desandar o recheio. Solfejos etéreos de voz feminina (daqueles “tipo Enya”), pianinho e sons de passarinho na faixa inicial; a faixa seguinte acrescenta tons de pop sofisticado à maneira do Saint Etienne à mistura; vento, piano e voz falada na faixa seguinte, e uma canção folk cantada por um homem com timbre e os tons de auto-importância de menestrel de um Belchior. E eles desfilam uma coleção de influências de tudo o que é bacana hoje: os “cabeçudos” registros de campo, glitches, drones, sons de vinil velho, mas também o cancioneiro popular, a dance music, o aspecto mais palatável do espectro sonoro. A mistura sai até com desenvoltura, mas apesar de uma espécie de simpatia solar (porém gélida… também, é Finlândia…), o disco transita por searas tão trendy, resguardando sempre o curto período de atenção, que Laulu Laakson Kukista acaba mais parecendo um showroom de influências díspares do que propriamente um disco de sensibilidade própria. Mas é claro que todos aqueles dispostos a aplicar dimensões mundiais ao termo freak folk (um nome que encompassa grupos e propostas tão diferentes entre si – Animal Collective e Joanna Newsom? – pode ser de fato relevante?) devem encampar e reforçar o hype. (Ruy Gardnier)
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Etérea, vaporosa, evocativa: talvez estas sejam, na medida das palavras, as mais adequadas para definir a belíssima música do Paavoharju. Composta por retalhos de canções finlandesas, experimentações eletrônicas, ritmos diversos, entre outros elementos, o grupo tem seu maior trunfo no modo inteligente com que une abrasividade e delicadeza no mesmo passo. Mais etéreo e vaporoso ainda que seu último álbum, Yhä hämmärää, o novo disco do grupo finlandês chega para indicar um processo de suposto enriquecimento desta vibração meditativa. Observa-se em Laulu laakson kukista a mesma delicadeza na composição das névoas de som que perpassam suas músicas, num verdadeiro trabalho de relojoaria. Nos álbuns anteriores, as faixas eram construídas a partir de operações mais soltas e descompromissadas com a estrutura da canções, trazendo uma constante sensação de ausência, como se configurassem um lapso no tempo. No entanto, me parece que, amadurecendo, o Paavoharju perdeu um pouco da gratuidade abstrata que caracterizava tanto o primeiro LP, quanto o EP Tuote-akatemia / Unien Savonlinna, dando vazão a outras possibilidades sonoras, o que é sempre bem-vindo. As estáticas de “Italialaisella Laivalla” e a tal névoa sonora a que me referi acima em “Sumuvirsi” se assemelham a esse período. Mas nesse novo álbum, ocorre uma contradição curiosa: faixas como “Kevätrumpu” e “Uskalan”, privilegiam um outro aspecto, o mais adocicado das canções pop advindas daquelas bandas de lá – lembrem-se dos noruegueses do A-Ha… Pode ser somente uma impressão, que realmente não vale substituir pelas surpresas que o disco traz, mas que certamente devemos notar. (Bernardo Oliveira)
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