23
Ago
08

AFX – “Wabby Legs” (1995; Warp Records, Inglaterra)

Dentro da aphexologia, o EP duplo Hangable Auto Bulb representa um marco redefinidor na carreira de Richard D. James. É o momento em que o artista abraça de vez os breakbeats mais insanos e abrasivos, fazendo com que eles desorganizassem e reorganizassem as límpidas (ou nem tanto) melodias de seus primeiros anos de carreira. Espécie de protótipo ou de criação de terreno para as sandices de The Richard D. James Album ou Come To Daddy, Hangable Auto Bulb mantém contudo todo o charme acid e o poder insidioso de suas calorosas melodias ambient. “Wabby Legs” termina a parte 1 do EP (a parte 2, com “Every Day” e “Arched Maid via RDJ”, é igualmente preciosa, e talvez só seja igualável em qualidade e poder de proposição ao single Windowlicker) e começa de forma introspectiva, a batida como que tentando se descobrir. Aos poucos se padroniza uma pulsação insistente de prato e uma deliciosa melodia que domina a primeira metade da faixa. Ali pelos três minutos, tudo muda: é a bateria em conversação consigo mesma, utilizando os beats quebrados do jungle e do db (a febre do underground inglês naquele momento) menos para chacoalhar do que para explorar as possibilidades das variações rítmicas e complexificar mais ainda as descobertas dos artistas seus contemporâneos de breakbeat. E, aos poucos, a melodia inicial da faixa volta, como que a dar um amparo “clássico” ao equilíbrio da composição. O resto é história: Aphex Twin como possivelmente o mais influente artista musical dos anos 90, a criação – e o subseqüente esquecimento – do termo drill’n'bass para designar as explorações menos orientadas para pista de dança do breakbeat, a “cena” em torno do rótulo: Squarepusher, µ-Ziq, Venetian Snares, etc. Hoje, escondido atrás do nome The Tuss ou com sua ambiciosa caixa de singles Analord, Richard D. james pode ter saído dos holofotes do hype, mas ainda é um dos artistas mais decisivos e talentosos da música contemporânea, estendendo sua influência da música erudita (Philip Glass) ao hip-hop (Prefuse 73), do jazz (The Bad Plus) à indietrônica (múm), passando naturalmente pelo rock (Radiohead). (Ruy Gardnier)


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