25
Ago
08

Alva Noto – Unitxt (2008; Raster-Noton, Alemanha)

alva noto é Carsten Nicolai, artista alemão que, sob este pseudônimo e outros como Aleph-1 e Noto, expõe sua música através de performances visuais e instalações. É o fundador do noton. archiv für ton und nichtton, que em 1999 se juntou ao rastermusic de Olaf Bender e Frank Bretschneider para dar à luz o raster-noton, um dos selos mais importantes de música eletrônica experimental da atualidade. Seus dois primeiros discos foram lançados pelo extinto Mille Plateaux. unitxt foi feito a partir de dados do Word, Excel e PowerPoint que foram convertidos para arquivos sonoros. (TF)

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Há uma corrente muito forte na música contemporânea concernente à captação de signos e ruídos a priori não-musicais, que passam por uma recontextualização utilitária e depois são editados e transformados em material sonoro-musical. Dentre lançamentos recentes, podemos destacar alguns, quase todos da raster-noton: Test Pattern de Ryoji Ikeda, seguindo o mesmo preceito de unitxt, utiliza um sistema de conversão que transforma dados quaisquer (textos, sons, fotos, filmes, etc) em arquivos digitais. Ikeda selecionou trechos desta transformação e os editou, nos permitindo ouvir os ruídos dos fluxos dos dados no momento exato da conversão; outro exemplo notório é Radioland de Stephan Mathieu, que capta ondas transmissoras de rádio e as transforma em material bruto para sua música. Situado em uma esfera menos tecnológica, mas utilizando um processo parecido, está o disco Coh Plays Cosey, colaboração mútua de Ivan Pavlov da raster-noton e Cosey Fanni Tutti do Throbbing Gristle. O disco é baseado em gravações de voz feitas por Fanni Tutti enviadas a Pavlov, que somente com estas compôs todo o álbum. unitxt, de alva noto, naturalmente está inserido neste fluxo vanguardista e é um dos exemplos mais proeminentes e representativos do mesmo, pois conduz questionamentos direcionados à música, à tecnologia, ao mundo digitalizado, etc. Diferentemente de Ikeda, que nos expõe a transformação dos dados no seu estado puro, Nicolai se preocupa em manejar cada ruído, cada molécula sonora em estrutura rítmico-musical.

unitxt é dividido em duas partes: a primeira é inteiramente editada, ritmada e repleta de batidas do início ao fim, beirando quase o dançante – o que já se diferencia de todo o resto da obra de Nicolai. Há também a participação do poeta Anne-James Chaton nas faixas “u_07” e “u_08-1”, dizendo rapidamente no idioma francês números aleatórios e algumas palavras, das discerníveis “Carsten Nicolai”. A primeira parte, portanto, é onde está situado o trabalho principal do autor e para quem não pesquisou sobre a obra, unitxt pode até parecer um disco “legítimo” de techno, com alguns glitches. Na faixa 11 há uma interseção silenciosa de mais de três minutos e fica claro que algo acontece ali (ou termina: o lançamento em vinil duplo do disco é comprimido à primeira parte). Uma ruptura se dá e agora o que ouvimos são apenas ruídos e barulhos advindos do material bruto desses arquivos. Aqui Nicolai transita por um território ikediano e é como que se, para os interessados, mostrasse alguns fragmentos com os quais o disco foi construído. Ou apenas uma espécie de desmembramento, afinal, os ruídos que emanam da caixa de som lembram aqueles normalmente relacionados a defeitos do computador e de falha dos arquivos. O que Nicolai quer mostrar é que esses chamados “defeitos” ou barulhos aleatórios, que fazem parte do nosso cotidiano e denotam ruídos, sons incômodos, também podem ser interpretados como música e, dependendo da maneira como são utilizados, podem até ser transformados em um disco de música eletrônica dançante. Tem a ver com as indagações de Cage, do tipo “Um caminhão passando é música?”, “Música são apenas sons?” e “Música, o que isso comunica?”. E assim como a música industrial do Throbbing Gristle foi uma evolução em relação à musique concrète de Schaeffer e às teorias modernas de Adorno, Cage, etc, a música de alva noto e de boa parte da raster-noton é uma evolução ao glitch da década de 90 e à música de Markus Popp, como o emblemático primeiro disco do Oval, feito de pulos e defeitos no CD. Mas lá, Popp questionava o próprio suporte musical, enquanto Nicolai questiona o suporte tecnológico de comunicação do mundo moderno e suas implicações na música e na cultura do áudio. (Thiago Filardi)

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Confesso que não faz muito tempo que entrei no universo da gravadora raster-noton e que, portanto, meu conhecimento da carreira de Carsten Nicolai e seu projeto alva noto é recente e precário. Ouvi alguma coisa de sua parceria com Frank Bretschneider, Signal, alguma coisa de seus discos com Ryuichi Sakamoto e um pouco de seus discos como único artista. Em tudo que ouvi senti uma marca distintiva na utilização do glitch, sempre muito estridente, evocando ruídos de objetos eletrônicos reais, impressoras matriciais, modems e outros sons tidos como detrito informático.

Quando começa unitxt, espanto. Uma pancadaria de baticum eletrônico similar à do Rhythm de Frank Bretschneider, já anteriormente discutido por esta Camarilha. Um rigor na construção da batida e nos timbres que, como o disco de seu colega de gravadora, remete diretamente ao Kraftwerk de Computer World – porém mais “Numbers” que “Computer Love”, ou seja, há um quê de marcação agressiva da batida. A ela, estão acrescidos os glitches característicos de Nicolai, que no contexto ganham um inequívoco e inesperado senso rítmico. Juntos, o agressivo trabalho percussivo e os ruídos fazem com que o todo tenha uma aparência quase marcial, industrial: unitxt, fazendo um trabalho de abstração, pode lembrar mais artistas de eletrônico industrial, como Meat Beat Manifesto, do que seus colegas da raster-noton e do Mille Plateaux. Por 45 minutos seguidos, o que se tem é um fabuloso carnaval eletrônico pesado e ruidoso.

Em seguida, o disco é tomado por um silêncio de três minutos, e em seguida apresenta faixas que emitem ruídos curtos que por vezes parecem fornecidos por instrumentos de power electronics, por vezes parecem puro barulho do operações de computador. Lendo sobre, descobrimos que essas faixas, quase vinhetas, são resultado do processamento sonoro de arquivos de programas que qualquer usuário de computador manipula diariamente, de Word, Excel, Power Point, etc. Conceitualmente, é um exercício bastante interessante, mas auditivamente pouco recompensador; duvido que mesmo o fã do disco passe ouvindo unitxt até o fim sem parar depois dos primeiros 45 minutos que compõem a primeira parte. Em todo caso, o disco vale, e muito, pelo extremo rigor e concisão na organização rítmica do primeiro bloco. (Ruy Gardnier)

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Carstein Nicolai é músico e artista plástico. Até aí nada de novo: Duchamp fez cinema, Cildo Meireles fez música e há tempos já não é novidade para ninguém que uma tendência interrelacional toma conta da arte contemporânea. E, no que diz respeito à música, não me refiro somente à exploração descompromissada dos gêneros, mas também da interlocução entre técnicas de captação, gravação e reprodução, entre os mais diversos níveis da criação e difusão musical. Este contexto não assinala um oba-oba formal; antes, realça um campo criativo propício às expressões musicais mais singulares. Sob o pseudônimo alva noto, Castein Nicolai desenvolve um trabalho que tanto exprime esse contexto mais abrangente, como também se insere no rol das grandes assinaturas contemporâneas – tanto que para exercê-la com autonomia fundou um selo, o noton. archiv für ton und nichtton, mais tarde anexado ao rastermusic de Olaf Bender e Frank Bretschneider, transformando-se em raster-noton. Baseada na disposição musical de elementos sonoros não-musicais, a música de alva noto exprime um esmero particular no tratamento do som, através da captação e conversão, por exemplo, de ruídos de máquinas de xerox como em Xerrox vol. 1, de 2007. No caso de unitxt, trata-se de um sistema de conversão de dados digitais em sons, no caso arquivos do windows tais como programas e plug-ins. Mas o que parece simplesmente um experimento intersemiótico e uma pesquisa por novas timbragens – por si só meritória, vale dizer – se transforma em uma manipulação artística gratificante para os ouvidos mais livres e descompromissados com a música “tradicional” – quero dizer: com o tríptico melodia-harmonia-ritmo. À semelhança de seu parceiro Frank Bretschneider, que explorou uma senda mais suingada dos clicks and cuts em seu último álbum Rhythm, alva noto reforça a abrasividade dos timbres, enquadrando-os porém numa escala rítmica precisa e, eventualmente, dançante. Noto somente que as últimas faixas do álbum, que contém os clicks retirados da conversão dos dados digitais em sons, exprimem, por assim dizer, um desagradável aspecto catalográfico de “arte contemporânea”. Conforme a audição vai, aos poucos, criando uma percepção sonora apta a ultrapassar esse aspecto, vamos apreciando as qualidades “musicais” do álbum, que embora não cheguem a empolgar, mantém o interesse e a curiosidade no que virá. (Bernardo Oliveira)

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Carsten Nicolai é dos nomes mais importantes da música eletrônica do século XXI e talvez este posto tenha sido alcançado menos pela qualidade de sua produção que por seu papel como dono de selo, produtor, colaborador e agitador. Apesar de sua produção não alcançar o mesmo patamar de seus parceiros Frank Bretschneider e Ryoji Ikeda, isso não significa que sua produção seja destituída de valor, nada mais equivocado. Usando meios reduzidos e quase sempre empregando técnica que utiliza há longo tempo, sua música assemelha-se àquele produto laborioso do artesão experiente, mas ainda criativo, que se não é radical ou ousado em seu método, é sempre agudo e preciso. Nunca chegando à chatice de um Byetone (que lançou o modorrento Death of a Typewriter).

unitxt não é o melhor Nicolai de 2008, tal posto ficaria com o début de seu projeto Aleph-1, mas é certamente o mais instigante por seus problemas e soluções. Inicialmente temos ele trabalhando em seu meio mais familiar, clicks & cuts e ruídos com a novidade da adição de vocais em algumas faixas (alguns momentos o uso lembra vagamente o Plastikman). Aqui temos solidez e vigor. Demonstração de que um certo cansaço mostrado em alguns lançamentos dos últimos anos era enganoso.

Mas o interesse no álbum recai em sua segunda parte, composta de faixas curtas, repletas de ruídos e edições – parece que todo o castelo erigido nas faixas anteriores começa a ruir lentamente, o procedimento assemelha-se à desconstrução, onde os elementos básicos para a construção das faixas anteriores são expostos, evidenciando o trabalho do artista. O efeito geral da tentativa é contestável, a sensação é de que o disco acabou na faixa “unitxt code (data do aiff)” e que foram adicionados ao álbum as sobras da edição.

Assim, o interesse na audição vai balançar na escolha realizada ou na possibilidade de ignorar esses últimos minutos que não sustentam novas audições. Nicolai continuará a produzir boa música através de seu alva noto e outros projetos, e se o êxito de unitxt não é pleno, continuamos na expectativa de novos lançamentos para acompanharmos com curiosidade seu próximo passo. (Marcus Martins)


1 Resposta para “Alva Noto – Unitxt (2008; Raster-Noton, Alemanha)”


  1. 1 Tiago Campante
    Agosto 25, 2008 às 5:54 pm

    Não deixa de ser simbólico que logo em “u_07″, faixa de abertura de Unitxt, a voz do poeta Anne-James Chaton recite palavras e números em série. Reza a lenda da internet que trata-se de uma espécie de “retrato” do próprio Alva Noto, ou melhor, Carsten Nicolai, feito a partir de dados extraídos de papéis e cartões encontrados na carteira do artista. Postos no mundo através da voz monocórdia de Chaton, tais números e palavras soam aleatórios, mas nas entrelinhas apresentam o rigor matemático que é próprio deste álbum peculiar e que se desvela com mais precisão em seguida, quando a mesma voz reaparece em “U_08-1″, desta vez recitando os algarismos que formam a razão áurea, o número irracional que “mede” a proporção harmônica de dois segmentos e que regula princípios da natureza como a espiral.

    Pois Alva Noto parece justamente fazer um trabalho matemático de exploração de sons nem sempre musicais em princípio, com atenção particular às variações de ritmos. Tal como a razão áurea (que, por sinal, é o número 1,61803399…), este “Unitxt” é produto de uma divisão de dois segmentos. Depois de dez faixas “convencionais”, de intenso investimento rítmico, o disco dá uma guinada na direção de sucessivas vinhetas compostas a partir de extratos derivados de aplicativos como Excel, Word e Powerpoint. Uma sinfonia de ruídos computadorizados que consegue ser radical e provocativa, que projeta uma nova forma de se colocar diante dos sons da tecnologia, esses sons que cada vez mais preenchem nossos ouvidos e que formam a música torta do nosso cotidiano. O resultado é uma espiral de música desafiadora como um redemoinho.


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