Does humor belong in music? Essa frase é título de um disco ao vivo de Frank Zappa, e pode definir uma faceta bastante ampla de sua carreira. Pois, se por um lado, sempre houve o desejo de ir fundo no sincretismo de gêneros e ampliar o repertório e as pesquisas timbrísticas (patente já em Hot Rats), por outro havia o desejo de parasitar o cancioneiro popular para parodiar e conseqüentemente criticar os modos de vida mais convencionais, atingindo com especial atenção o conformismo e a felicidade hipócrita de uma classe média que através do consumismo e do individualismo alcançou seu pote de ouro. Ao lado das melodias pop mais mansas e feelgood apareciam, como não poderia deixar de ser, espaço para a selvageria e os barulhos destruidores (aspecto mais discernível em Weasels Ripped My Flesh). We’re Only in It for the Money talvez seja mais famoso por sua mitológica paródia do Sgt. Pepper’s dos Beatles e pelo extremo sarcasmo destinado à zombaria da cultura flower power que brotava nos EUA e no mundo. “”Who Needs the Peace Corps?” é a faixa 2 do disco, e talvez a mais direcionada à crítica do hippismo ainda no nascedouro. “I will love everyone, I will love the police as they beat the shit out of me” , ouvimos um narrador dizer, e sentimos Zappa rebater ao “All You Need is Love” beatle com a necessidade de injetar algum senso de agressão no recheio. O principal inimigo de Zappa sempre foi o raciocínio prefabricado, e nesse disco ele aponta para um senso de alienação e narcisismo subjacente à novíssima contracultura que surgia. Mas a energia dessa música não pára no teor sarcástico da letra. Em dois minutos e meio, o andamento vai e volta, a faixa se fragmenta, muitas vozes se acavalam, e tudo diante de uma melodia dócil e assobiável. Curiosamente, alguns acham isso ultrapassado, porque a época passou. Em matéria de invenção, no entanto, “Who Needs the Peace Corps?” está no mesmo patamar de destruição e paródia que as obras do Fluxus, de Nam June Paik, de Andy Warhol em sua forma de cooptar a cultura pop para fazer com que ela se autodestrua nos moldes de consumo fácil, torne-se ridícula e dê origem a outra coisa. (Ruy Gardnier)
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