13
Set
08

The Honeydrips – “Fall From a Height (The Field Way)” (2007; Sincerely Yours, Suécia)

Lembro bem quando os remixes começaram a ficar fora de controle. Foi no começo dos anos 90. Vale lembrar que nessa época não havia internet disponível aos consumidores comuns, que dirá os p2p que, a partir do Napster, fariam a alegria dos aficcionados de música que finalmente, através da partilha indiscriminada, poderiam conhecer aquelas músicas e artistas pelos quais penaram anos para travar contato. Quando se queria alguma novidade, o jeito era ouvir no rádio, e não no “rádio”, mas especificamente nos programas feitos por gente informada e de posse dos discos novos dos estilos que estão pegando fogo no momento. No dial do Rio de Janeiro, era José Roberto Mahr essa pessoa, e Novas Tendências o seu programa (há muito mais a se prestigiar nessa pessoa – que eu não conheço – e nesse programa, mas o tema desse escrito é outro; em todo caso, fica o obrigado). E nele eu comecei a presenciar o limite dos remixes ficando cada vez mais alargado em relação à fonte original de que eles bebiam. Vale lembrar, remix costumava ser apenas uma versão enhanced para pista de dança, uma versão alongada e ligeiramente modificada, geralmente acrescida de um toque rítmico a mais. Artistas como Aphex Twin, The Orb e Autechre iriam modificar radicalmente esse panorama, criando faixas que alteravam totalmente a estrutura das versões originais, tomando apenas alguns sons como ponto de partida e construindo um objeto inteiramente novo a partir do original – em alguns casos, inclusive, nenhum som da versão de base era utilizado, algo que já rendeu controvérsias, acusações e muita boataria. [As coletâneas 26 Remixes for Cash e Auntie Aubrey’s Excursions Beyond the Call of Duty, respectivamente de Aphex Twin e The Orb, contam uma boa parte da história). Hoje, o remix autoral é algo totalmente disseminado, e pede-se mesmo aos artistas que intervenham aplicando sua própria sensibilidade ao original. Mais que isso: hoje a apropriação é tanta que a gente nem sabe mais a linha tênue entre a composição própria e o remix (a ver a controvérsia gerada pela faixa “Fizheuer Zieheuer”, de Ricardo Villalobos, quando se descobriu o sample original; o que faria dessa faixa um remix ou um original, ou a “Enfants” já comentada nessa tribuna, em relação à poderosíssima e mui elogiada por esta camarilha “Blood On My Hands”?).

No entanto, o que permanece difícil de encontrar é o artista que, a partir de um remix, construa um trabalho inteiramente pessoal e significativo em sua própria obra. A julgar pelos remixes lançados em 2007, o produtor sueco Axel Willner, mais conhecido como The Field, é um desses. Além de lançar um dos discos mais exuberantes de 2007, From Here We Go Sublime, entregou excelentes remixes para Gui Boratto (“Hera”), Thom Yorke (“Cymbal Rush”), Battles (“Tonto”) e Honeydrips (“Fall From a Height”). “Fall From a Height (The Field Way)” talvez seja o exemplo mais completo não só do estilo de remix, mas de toda a estética que até agora desenvolve Willner: pinçar alguns sons, trabalhá-los em loops que se repetem quatro vezes, e fazer o mesmo com uma “segunda parte”, fazendo o máximo para desenvolver os contrastes estabelecidos entre os dois tipos de loops. Nesse remix, em especial, ele constrói uma primeira parte mais calminha, climática e, como sempre, nos instalando no redemoinho de transe costumeiro (sua principal referência é Manuel Göttsching). Aos 2min entra o bumbo típico do house, mas é logo depois que vem a surpresa: um novo loop, agudo, mágico, épico, irrompe na estrutura, que nesse ponto já adquiriu enormes complexidades rítmicas e tensões sonoras entre as partes, incomuns mesmo na produção “fieldiana”. Em uma carreira até agora muito curta (“Annie”, o remix não-oficial – e adorável – de “Heartbeat”, da coqueluche européia Annie, é de 2005, e seu primeiro LP é de 2007), The Field já se estabeleceu não só como uma das figuras mais proeminentes da música eletrônica contemporânea, mas também já é alguém com uma marca absolutamente própria, um território sonoro absolutamente demarcado. Que “Fall From a Height (The Field Way)” seja não só presença certa mas também um highlight de seus sets só com música própria, só mostra que o que importa realmente não é a procedência, mas o que se faz a partir dela. (Ruy Gardnier)


0 Respostas para “The Honeydrips – “Fall From a Height (The Field Way)” (2007; Sincerely Yours, Suécia)”



  1. Sem comentários ainda

Deixe uma resposta