15
Set
08

Rolan Vega – Documentary (2007; Community Library, EUA)

Rolan Vega transita entre as atividades de cineasta, especialista em curta-metragens no suporte Super-8, e criador de trilhas-sonoras, caracterizadas pelo utilização de sintetizadores antigos, para seus próprios filmes e de outros cineastas, em especial os documentários para o canal norte-americano PBS. Vega também grava sob a alcunha de Ariisk, projeto voltado ao som eletro-pop. Documentary é seu primeiro álbum e consiste de uma coletânea de tais criações, cobrindo um razoável período de tempo. (MM)

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Duas características chamam a atenção ao ouvirmos Documentary. Primeiro, apesar de ser efetivamente uma coletânea e ser constituída por faixas com características diversas, o álbum é coeso e prazeroso de ouvir. Outro fato é que apesar de serem, na maioria, criadas para atender a função de trilha sonora, as faixas constantes do álbum não apenas atendem aquele pré-requisito para justificar o interesse e o lançamento independente das imagens, que é a capacidade de sustentar-se exclusivamente como objetos sonoros, mas principalmente, fogem do clichê das trilhas sonoras “cinematográficas”, que possuem aquela qualidade de transmitir imagens específicas e dentro de um universo sonoro tediosamente formulaico. Sejamos francos, poucas trilhas sonoras “eletrônicas” obtiveram êxito como objeto independente desde, hã, a trilha de Laranja Mecânica ou Forbidden Planet.

A coesão do álbum poderia ser explicada pelos procedimentos adotados por Vega: o extenso uso de sintetizadores antigos, a predominância de loops na construção das faixas e algo mais amplo: o artista que não é um simples cineasta, pois cria suas próprias trilhas; nem sendo músico alheio ao processo de construção das imagens. Curioso é que lendo uma entrevista com Jim O’Rourke e esse, quando perguntado sobre os boatos de que abandonaria a música para tornar-se cineasta, nega a procedência das informações, apesar de reconhecer interesse em filmes e uma grande atração pela criação de acompanhamento sonoro para os mesmos. Porém, o que chama atenção é sua queixa quanto a falta de tempo para desenvolver um trabalho mais profícuo de interseção entre imagem e som e a separação dos processos criativos. Diante disso, a posição de Vega justamente apresenta uma das soluções possíveis, com a sua acumulação das funções (algo que nem sempre seria possível na produção de longas metragem). Claro que não posso julgar a competência de sua música enquanto trilha para sua produção visual, pelo simples fato de que nunca pude assistir a qualquer de seus vídeos.

Assim, temos a apresentação do trabalho de Vega como músico e mesmo não tendo sido produzida de forma auto-suficiente, percebemos que desde sempre houve uma forma de pensar a produção e uma preferência pelo idioma experimental/música ambiente, caracterizado pelo constante uso de drones, loops, sintetizadores antigos e ruídos captados em fitas por um gravador de quatro pistas. Em alguns momentos as faixas são abstratas para em outros aproximarem-se curiosamente do território das referências, em especial a trilhas sonoras para ficção científica e programas de televisão, como a dita library music, em especial o trabalho de Deuter no álbum Soundtrack (Library Music) [que nunca foi lançado comercialmente e não deve ser confundido com seu trabalho krautrock e posteriormente de música nova erística] e de outros projetos kraut como o Tangerine Dream. Do mesmo modo, é identificável a proximidade com o esquema adotado nos laboratórios do BBC Radiophonic Workshop por luminares como Delia Derbyshire, Daphne Oram e John Baker. Tal fato seria uma das explicações para a alegada filiação de Documentary à hauntology por ressonâncias quanto a memórias perdidas e resgates de sonoridades supostamente obsoletas, mas acredito que isso é apenas uma forma de tentar limitar o alcance da música e esquecer sua evidente atualidade, independente da evocação que alguns dos instrumentos escolhidos fazem. Em especial nas faixas que contam com bateria eletrônica, o trabalho de Vega aproxima-se daquele som dos primeiros discos do Boards of Canada, apenas com maior ênfase nos sintetizadores e no emprego de ruídos mais próximo dos de Tim Hecker e GAS.

Quando fiz menção à capacidade de proporcionar uma audição agradável foi para chamar a atenção para o fato de que, à despeito de suas experimentações, das pretensões acadêmicas e da riqueza de referências musicais que nem de longe foram esgotadas nesse texto e certamente muitas outras serão suscitadas nas resenhas que acompanham a presente postagem, a música constante de Documentary não necessita de qualquer das informações mencionadas, o que nem sempre é possível em lançamentos do gênero, valendo-se preponderantemente da capacidade de criar empatia e convidar à audição atenta com o emprego de escassos recursos e grande noção de composição. (Marcus Martins)

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Documentary me passou completamente despercebido no ano passado e agradeço ao Marcus por sua escolha astuta, nos obrigando a tomar contato com este belo trabalho, que foi lançado há pouco mais de um ano pela Community Library, selo cujo presidente é Paul Dickow, que através de seu projeto principal, o Strategy, leva à frente um dos nomes mais interessantes da música contemporânea. Partindo desta premissa é óbvio que artistas com o seu aval e advindos de sua gravadora não poderiam decepcionar.

As semelhanças não estão confinadas apenas ao compartilhamento de estúdio, mas também se situam na esfera musical: tanto Strategy quanto Rolan Vega evocam influências do dub-techno da Basic Channel e do ambient techno do GAS. Aparentemente, as vinhetas aqui apresentadas foram feitas para filmes em Super-8 e curta-documentários. Outras tiveram como ponto de partida melodias e trechos retirados de séries televisivas da BBC e filmes diversos, o que nos remete diretamente a Ghost Box. Tem algo de nostálgico em Documentary, que nos faz pensar em tempos remotos, mas nada que comprometa a qualidade destas vinhetas, tão criativamente compostas e texturizadas.

Textura, aliás, é uma das explorações principais do disco. De sintetizadores com efeito oitentista, Vega passa por programações de bateria pesadas e bem marcadas, à la techno minimal, teclados esparsos com efeitos dubby, chegando a abstrações entranhadas de diferentes camadas e efeitos, lembrando bastante o trabalho de Wolfgang Voigt, mais recentemente evidenciado na caixa Nah und Fern.

Documentary é um disco que não pode passar despercebido e merece grande atenção por parte de todos aqueles interessados nos rumos, andamentos e indagações da música do novo século. É um álbum imenso, centrado, que explora ao máximo as capacidades sonoras de seu instrumento e que, principalmente, dialoga com seus contemporâneos. (Thiago Filardi)

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“Painted by Children” é a primeira. Som forte de sintetizador antigo. Remissão automática a “Schottkey 7th Path”, clássica dos Selected Ambient Works, 87-92, do Aphex Twin. Mais no timbre e na melodia do loop do que propriamente na composição. “Motion Crisiis”, a seguinte, carrega mais no sintetizador e remete diretamente a uma possível fusão entre Tangerine Dream e Vangelis. Já “Surface Cleanse” tem o pendor do Pop de Wolfgang Voigt para trabalhar sons que lembram ar ou vento. Aqui, eles são modulados de forma a parecer uma melodia marcial. “Viva Myria” mexe com sons de sininho e coro feminino, e lembra um pouco aquelas trilhas de filmes do leste europeu dos anos 70. Tudo é executado com um amor evidente ao projeto e com um cuidado inequívoco. O espectro musical ainda vai passar por ambients com marcação dance (“Playlite”, “4 Autiim”) que são, mais uma vez, derivativos de Voigt. O problema do disco não é nem a infinita referencialidade de cada faixa a mil coisas que já conhecemos (e que sentimos vontade de ouvir, largando o disco) nem a flagrante inconsistência de climas e épocas sugeridas, mas o fato de não seguir adiante nenhuma das idéias que traz à tona. É como se, em Documentary, Rolan Vega quisesse antes de tudo se inscrever num território sonoro e conceitual já bem demarcado, sem adicionar nada de próprio ou novo ao meio. Quer dizer, para não dizer nada, cabe dizer que “Surface Cleanser” em algum momento parece uma mistura ainda não tentada entre a abrasividade do Black Dice e os aconchegantes loops ambient de Voigt, e que essa faixa já garante um elogio, mesmo que discreto, ao disco. No mais, ficamos estupefatos pela diferença na duração das músicas. Das 15 existentes, algumas são quase vinhetas, enquanto outras duram 5 minutos, em boa parte dos casos sem evolução sonora dos loops. O que determinou na cabeça de Rolan Vega onde cada música acabava permanece um mistério, ou pura deliberação voluntariosa do artista. O que não é um grande mal, apenas contribui ao clima algo frouxo que domina Documentary. (Ruy Gardnier)

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Os inusitados recortes metodológicos que caracterizam certas manifestações musicais contemporâneas, refletem uma perspectiva comum à hibridização dos processos de composição. Constituem aquilo que já apelidei aqui como “música de procedimentos”, isto é, uma música que tende mais à reflexão sobre a interação do som com outros meios do que propriamente à música. Segue-se que a interferência dos mais diversos ramos do saber sobre a produção musical, bem como de interesses periféricos, ocasiona a hiper-fragmentação do discurso sonoro. Resulta deste processo uma extrema dificuldade de se classificar a música contemporânea em termos de rótulos ou movimentos, graças às conseqüências desse processo radical de singularização. Por outro lado, a interferência de outros meios e métodos ocasiona a extrapolação do discurso musical: artistas como The Caretaker, Phillip Jeck, Alva Noto, como tantos outros, elaboram seus respectivos universos musicais para além da dimensão “auricular”, manifestando uma preocupação precípua com a interatividade através da qual criam suas “obras” (e aqui, já situo esses trabalhos no contexto das artes plásticas…). Precisamente aqui, a porca torce o rabo. Primeiro porque nem sempre o arrojo formal e conceitual se traduz numa sonoridade minimamente… arrojada. E, segundo, porque, inscrita na dinâmica multimídia das artes plásticas contemporâneas, a música passa a compartilhar também da auto-indulgência do artista plástico contemporâneo, preso à condição de ter que “explicar” a obra ou, no mínimo, a contextualizá-la num campo de questões… Parece que quando a sonoridade não se basta, o artista carece indicar uma propedêutica, ou um campo de ação, como forma de justificar a expressão sonora. Mas a música tanto manifesta o discurso que o autor imprime na obra, como também é autônoma em relação a ele. Com relação à coleção de gadgets sonoros batizada como Documentary, o primeiro álbum de Rolan Vega, temos o conceito, o contexto, o recorte: considerado um “analogue synthesizer fetishist”, o cineasta e trilheiro Vega opera sobre equipamentos vintage e library music, no sentido de evocar a materialidade do som. Mas o resultado propriamente sonoro não só me parece insosso, como remete, de forma pálida, a uma série de outras experiências, como o GAS de Wolfgang Voigt em “Surface Cleanser “ e “4 Autiim”, e a ambient music de Brian Eno em “Viva Myria”. A despeito do relativo interesse que seu trabalho conceitual pode sugerir (e sugere!), Documentary não consegue criar, de fato, uma música que lance desafios e alcance seu verdadeiro objetivo. (Bernardo Oliveira)


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