Curved Air é um conjunto inglês de rock progressivo, que incorporou na sua sonoridade elementos do folk, da música clássica, minimalista, eletrônica e do jazz. O grupo surgiu no final da década de 60, a partir do Sisyphus, que tinha como base o baterista Florian Pilkington-Miksa, o baixista Rob Martin, o tecladista e guitarrista Francis Monkman e o violinista Darryl Way. O nome mudou para Curved Air em 1969, quando Monkman sugeriu uma abreviação nominal da composição “A Rainbow in Curved Air”, de Terry Riley. Logo depois a cantora Sonja Kristina passou a fazer parte da banda, que assinou com a Warner Brothers, para, em 1970, lançar seu primeiro LP. Desde então, a troca de baixistas foi constante e quem participa de Phantasmagoria, terceiro do grupo, é Mike Wedgwood. Após esse disco a banda se dissolveria, mudaria de formação e retornaria inúmeras vezes. Em 1990 a formação original se reuniu para um show em Londres que culminou no disco Alive 1990. Em 2008 a base original do Curved Air se juntou novamente para uma turnê na Europa e para um novo álbum de estúdio, Reborn, o primeiro em mais de três décadas, que traz gravações inéditas para clássicos do grupo. (TF)
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É inegável que a música do Curved Air tenha envelhecido e, hoje, possa soar exagerada, pomposa e maneirista. Mas, em 1972, o que o grupo inglês fazia era experimentar com sonoridades novas e gêneros adversos. Em Phantasmagoria ouvem-se incursões incipientes do rock com o moog e o violino – o último o Curved Air pode se orgulhar de dizer que foi a primeira banda de rock a utilizá-lo. como instrumento fixo. É certo que no início da década de 70 quase todas as bandas experimentavam e procuravam desbravar novos territórios e, portanto, o Curved Air não necessariamente se destacava de seus contemporâneos, mas garantiu um lugar cativo entre os grandes grupos progressivos da época.
Talvez o que empreste mais singularidade à estética do Curved Air seja a presença vocal de Sonja Kristina, algo extremamente raro para uma banda progressiva, com únicas comparações possíveis, mesmo assim forçadas, a Pentangle, Fairport Convention e Renaissance. O elemento clássico, coqueluche maior dos “progressistas”, também não é tão forte na sonoridade do Curved Air, apesar de presente. O que se nota é um flerte grande com a eletrônica, especialmente os teclados cheios de efeito, e o folk, incorporado definitivamente à sonoridade do grupo por meio das técnicas vocálicas de Sonja Kristina, caracterizadas por timbres extremamente agudos e suaves.
Phantasmagoria é decerto um disco de excessos, mas a consistência do som, que eles atingem por meio de uma dinâmica instrumental rica e segura é para poucos. Os destaques se situam especialmente no Lado A, com a belíssima faixa de abertura “Marie Antoinette”, a puramente folk “Melinda More or Less”, “Not Quite the Same”, de introdução brega do teclado, mas resolução maravilhosa e “Chetah”, na qual se faz presente um violino incessante, marca registrada do grupo. O Lado B também possui grandes momentos, como a faixa-título e a épica “Over and Above”, com participações vocais de Mike Wedgwood. Um disco para relevar os maneirismos da época e mergulhar em sua sonoridade densa e riquíssima. (Thiago Filardi)
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É chato o que acontece quando a gente se relaciona com grupos como o Curved Air e, ao invés de falar do grupo, a gente tem que falar – seja para defender ou deplorar – de todo o gênero ao qual a música pertence, no caso o rock progressivo. Geralmente se recai numa tensão aflitiva e fácil entre gênero e indivíduo, em que um responde pelas deficiências do outro. “Marie Antoinette”, a música que abre Phantasmagoria, de certa forma responde por tudo que os argumentos e as sensibilidades costumeiras elogiam e reclamam no progressivo: uma solenidade fora de parâmetros, expressa na grandiosidade do tema, na estrutura em diversos movimentos, na empostação do canto; o flerte com a música clássica e o acúmulo de proezas técnicas. Dependendo de como a gente responde a isso – ou releva –, podemos estabelecer uma relação amigável, ou ao menos descomplexada em relação ao disco (err, e ao gênero). E se ouvir Sonja Kristina Linwood cantando “Vive la nation” e prestar atenção na letra é meio ridículo, o estilo evocativo do vocal e os ataques de guitarra e bateria, em compensação, podem lembrar por vezes os Mutantes ou o King Crimson dos primeiros discos. “Melinda (More or Less)” nos faz lembrar que o Curved Air é fincado no folk britânico, o que faz a coisa pender mais para o lado leve, melódico e neoclássico do progressivo – justamente a parte que ainda não foi criticamente recuperada, ao contrário da percussiva, barulhenta e jazzística de grupos como King Crimson e Soft Machine. Mas, se formos bastante atentos, perceberemos que Phantasmagoria mantém uma pegada e uma vivacidade muito diferente da placidez que caracteriza o que há de pior no gênero (Rick Wakeman ou Emerson, Lake & Palmer). “Ultra-Vivaldi” e “Not Quite the Same” são estudos deliciosos sobre timbres de sintetizador, “Cheetah” é ritmicamente insana, “Phantasmagoria” é um rockão próximo de Jefferson Airplane, “Whose Shoulder Are You Looking Over Anyway?” é uma excentricidade futurista – não são coisas que se espera do seu grupo progressivo genérico, mas de um grupo genuinamente interessado em testar muitas coisas e trazer sonoridades novas. “Over and Above”, no entanto, de fato tem momentos de farofa jazzística com intervenções desnecessárias de guitarra e xilofone, mas a dinâmica de baixo, bateria, xilofone e metais da primeira parte da música é nada menos que soberba, e se não justifica os excessos, certamente os torna mais aceitáveis. Nada disso faz de Phantasmagoria um disco incontornável de sua época, muito menos do Curved Air um grupo de grande destaque dentro do cenário de um momento, mas não só desses é feita a música e neles há prazeres a serem buscados também. (Ruy Gardnier)
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Já me referi aqui na Camarilha a uma percepção específica do jornalismo musical dos anos setenta, reiterada pelos órgãos de imprensa da década de oitenta, que rezava ser o punk rock uma espécie de revolução contra as forças reacionárias do rock progressivo, do “art rock” de bandas como Yes, Emerson Lake and Palmer, entre outros. E me lembro que não só desqualifiquei o maniqueísmo desse pensamento, como também questionei a suposta unidade das noções de “rock progressivo” e “punk rock”. Ambas indicam grandes contextos, nem sempre redutíveis à banalidade dos rótulos. Isso não impede, entretanto, que volta e meia topemos, com tristeza e impaciência, com espécimes da mais ordinária feição, tão ordinária que se encaixam perfeitamente na representação, encarnando seus clichês e cacoetes, constituindo uma caricatura do contexto. São mais sintoma de época do que expressão musical. É o caso do Curved Air, e deste álbum, sugestivamente batizado Phantasmagoria. Ocorre entretanto que, para meu gosto pessoal, o pastiche progressivo é quase sempre mais interessante que o pastiche punk: guardadas as devidas proporções, Curved Air e Renaissance são mais interessantes que Offspring e Green Day. Isso levando em conta a questão do pastiche, claro…
Assim, é preciso reconhecer que, embora Phantasmagoria seja um disco progressivo de primeira hora, que, com seus temas e arranjos, certamente influenciou bandas como Queen, ainda assim trata-se de um trabalho que tanto fraqueja no exagero juvenil de sua concepção, como surpreende pela “séria” complexidade de peças como “Marie Antoinette”, por exemplo. Dentro desta dicotomia, entre o pastiche e a competência, o Curved Air se destaca sobretudo pelo humor, como por exemplo em “Ultra-Vivaldi”: a série melódica clássica, acelerada, converte-se no minimalismo de Terry Riley, autor da composição que dá nome ao grupo. Além de relativizar suas vazias pretensões formais, essa pitada de humor torna a audição mais suportável, mas infelizmente não impede nem a catástrofe, nem o enterro do Curved Air no limbo da história musical do século XX. (Bernardo Oliveira)
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Depois da revolução ocorrida na década de 1960, para o bem e para o mal, o rock e o pop não foram mais os mesmos, o turbilhão de novidades expandiu, ou melhor, implodiu as fronteiras e fez ressoar a idéia de que tudo era possível. Experimentações eram corrente tanto na música popular quanto no underground. Tentando acompanhar a movimentação, críticos cunhavam nomes para gêneros que observavam. Nesta corrida frenética, o excesso ganhava de longe da contenção, mas enquanto isso poderia ser bem sucedido, como atestam grupos como o Can e o King Crimson – muitos outros confundiram liberdade com indulgência. Aliando isso a uma certo movimento contrário à leve música radiofônica, muitas bandas começaram a investir em formas grandiosas, ou até grandiloqüentes, e de resultado inconstante. Aí nasciam, em resumo tosco, gêneros como o heavy metal e o rock progressivo.
Daí para confessar que nunca tive atração por qualquer um dos gêneros, nem mesmo na adolescência. Sempre desconfiei da falta de senso do ridículo de alguns dos grupos mais iconográficos. Com o passar do tempo, alguns ajustes foram feitos para abrir espaço para grupos como o já citado King Crimson, ou Pink Floyd e alguma coisa do Soft Machine e outra meia dúzia de nomes – mas, em regra, devo assumir meu profundo preconceito com música que contenha alguns dos elementos comuns ao gênero. Sei que tal antipatia termina por me deixar sempre no clichê do gênero, mas recorrendo a um dos primeiros textos da Camarilha, lembro do Bernardo escrevendo que “A superação do gosto é um dos maiores esforços a que deve se dedicar o indivíduo que se pretende crítico. O gosto, entendido como expressão de uma “insociável sociabilidade” (Kant) a universalizar critérios subjetivos, conduz geralmente a petrificação da perspectiva, com prejuízos severos para a avaliação. Mas, de um ponto de vista nietzscheano, podemos dizer que ao tomar cuidado com a influência nefasta de suas preferências, o crítico, ainda assim, reforça o conteúdo idiossincrático dessas preferências, pois não está em seu poder escapar dele“. Se ali o problema era o tal do new folk, aqui meu problema é justamente ouvir o Curved Air e identificar uma infindável lista de elementos que me reviram o estômago. É possível que eu esteja perdendo alguma coisa na minha incapacidade de “superar o gosto”, não observando o quadro maior, mas desconfio que o problema não é apenas esse. Música como a do Curved Air, ao menos neste disco, é do tipo onde se confunde quantidade com qualidade, virtuosismo técnico descontrolado (ou seja, algo pouco virtuoso) com a liberdade para perseguir sua musa. Assim, o disco é repleto de melodias que poderiam render alguma coisa caso os músicos soubessem fazer algo com elas. Os vocais são no máximo enervantes e o tratamento dos mesmos em algumas faixas, usando o sintetizador EMS Synthi 100, apenas piora a situação. A música do Curved Air parece situar-se naquela interseção onde os músicos são tomados por pretensões eruditas e no lugar de tentar escrever teenage symphonies to God, almejam ser Mozart e terminam como sub-Liberace.
Para não dizer que a repulsa foi completa, o fato de ter que ouvir o disco por três vezes me levou a gostar da faixa “Not Quite The Same” por justamente fugir da toada usual começando como um pastiche sinfônico para logo se transformar em uma deliciosa faixa pop-prog que faria inveja a muita coisa do Fiery Furnaces. Fato é que trata-se dos poucos momentos nos quais consigo identificar humor, que talvez seja motivado pela faixa tratar da masturbação de seu personagem: “So he busys himself / quite amusing himself / by abusing himself“.
Se Phantasmagoria é o grande álbum do Curved Air, sorte minha se não precisar ouvir mais nada, o que você não precisa levar em conta, vez que trata-se de opinião completamente desqualificada. (Marcus Martins)

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