30
Out
08

Björk – “Náttúra” (2008; One Little Indian, Reino Unido)

Afora as questões ideológicas, que marotamente me furtarei a comentar, posso afirmar que “Nátttúra” remete a um aspecto do trabalho de Björk que transbordou em Medúlla, mas foi praticamente esquecido em Volta: um certo diálogo com a música contemporânea, com sua inclinação para os sons complexos e imprecisos. Ao contrário do que acontece nos discos mais palatáveis como Post, Medúlla, Homogenic e este single se orientam por uma tendência salutar em desafiar a consciência e o gosto do ouvinte, tornando a audição trabalhosa, comprometendo a sacrossanta fruição imediata e, consequentemente, causando espanto. E “Náttúra” espanta, sem dúvida. Gravada com Thom Yorke nos vocais, Mark Bell nos beats, Matthew Herbert no baixo e sintetizador, e o impressionante baterista do Lightning Bolt, Brian Chippendale, “Náttúra” tem um aspecto beligerante, de poucos amigos. É uma metáfora do caos, ou pelo menos de uma concepção caótica da natureza, representada por modulações rítmicas realizadas por uma bateria alucinada, pontuadas por intervenções dos sintetizadores, sussurros de Yorke e pelo canto exuberante de Björk. Reforço a excelência da bateria, que num certo sentido estrutura a faixa, determinando os pontos de virada onde ela se torna mais “abstrata” – como, por exemplo, lá pelos 1’49’, quando a bateria cessa para que soe uma campainha, ou algo parecido… “Náttúra” também abarca uma vertente da música contemporânea que privilegia os sons orgânicos, tendência vinculada à música eletrônica, mas que aqui se manifesta através da sobreposição do ritmo e dos sintetizadores. Não que “Náttúra” seja uma surpresa fulminante, mas depois de um disco morno como o último, indica a possibilidade de que um próximo álbum possa nos comover novamente, como fizeram Medúlla e Homogenic. (Bernardo Oliveira)

* # *

Música nova da Björk não é lançamento, é evento. Baixei assim que ficou disponível e não ouvi. Acessei a Camarilha e vi o texto do Bernardo; como não tenho escrito nada para as faixas da semana, li a resenha e corri para ouvi a faixa. Minha Nossa Senhora dos Geisers. Eu tinha quase esquecido do que Björk era capaz. Não, não deixei de gostar nem um pouquinho de Homogenic e Médulla, ou do Post, Debut, Vespertine ou Selmasongs. Mas depois do desapontamento que foi o Volta não esperava uma grande canção tão rápido. O grande problema de Volta era que em quase todas as canções, inclusive as com Timbaland, era fácil perceber a ebulição de grandes idéias estragadas por uma execução desconjuntada, algo raro em Björk, tão senhora de suas canções. Talvez as “grandes idéias” tenham ofuscados as grandes canções de sempre.

Uma das grandes frustrações de Volta foi o desperdício de boa parte das colaborações, músicos fabulosos como Brian Chippendale tiveram contribuição limitada ou invisível. Corta para “Náttúra”. Festejada como mais uma colaboração entre Björk e Thom Yorke, depois da estupenda “I’ve Seen It All”, a participação de Yorke parece ficar limitada a alguns gemidos e grunhidos ao fundo e junto a Björk, os grandes astros da faixa são Brian Chippendale com sua bateria possessa e Matthew Herbert com um assalto de sintetizadores que não tem sido usual em sua própria obra.

Aqui temos a força ausente de Volta, onde em seu último álbum tudo era excessivamente estudado e mal acabado, aqui temos uma faixa onde as arestas estão salientes mas a serviço da contundência da faixa.

Talvez seja a canção mais violente de Björk, no lugar de um lamento pelas questões ecológicas que tanto tem lhe movido nos últimos tempos, temos uma ameaça. O melhor contraponto talvez seja Homogenic e sua violência e desconforto sempre projetados para dentro, canções que tratam de questões íntimas da cantora. Um disco de feridas sob a pele. Agora temos formas livres e algo como um ataque. A confiar por uma tradução para o inglês da letra em islandês, toda a carga de significação foi empregada nos sons; as letras são crípticas e a única coisa que leva a pensar em qualquer coisa ligada à natureza é a repetição da palavra náttúra.

Talvez seja uma posição que não vai agradar a muitos de seus fãs pelo mundo, não há nada “aldeia global” aqui, apenas caos global. Aguardemos ansiosos pelo próximo álbum. (Marcus Martins)


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