Afora os Mutantes, a história do rock psicodélico brasileiro da virada dos 60 para os 70 é muito mal contada. Não que seja uma história extensa, longe disso, mas ainda assim ela contém algumas pérolas inacreditavelmente pouco conhecidas, quando não totalmente obscuras. A Equipe Mercado é uma dessas. De mais significativo no mercado discográfico, apenas a participação com “Marina Belair” na mítica coletânea Posições, junto com Módulo Mil, Som Imaginário e A Tribo, em 1971. Além dessa faixa, apenas dois compactos simples, o que soma um conjunto de apenas cinco músicas. “Mary K no Esgoto das Maravilhas” é uma estonteante faixa de teatro musical aditivado, Broadway com LSD. Se a parte de musical corresponde à parte palatável da melodia, grudenta até não mais poder, a parte aditivada corresponde à confusão entre as duas vozes, às intervenções incidentais (há um “bye bye blackbird” repetido à exaustão num dado momento), a todas as mudanças de andamento e acompanhamento, mas principalmente pela doidivanas letra da canção, que começa com “My name is Mary K, noiva da américa/ruiva de Robin Holly Wood/A ruiva noite noiva of Mary Pickford/A piquenique noiva de Douglas Fairbanks”. Em matéria de irreverência, a canção é do nível das coisas mais irônicas dos Mutantes, como “Meu Refrigerador Não Funciona” ou a versão debochada de “Chão de Estrelas”. Mas o pique da Equipe Mercado é outro, e não se presta tanto a comparações. “Mary K no Esgoto das Maravilhas” é o amor por uma doce sabotagem da cultura pop americana (“This is the end, Mary Pickford, isso significa: acabou”) em seu próprio terreno de encantamento, as canções melosas de musical que se transformam em delírios esquizos e dissonantes. É um pouco o mesmo charme de Uma Mulher É uma Mulher de Godard, a fofura do gênero e seu making of brechtiano. Uma música e um grupo criminosamente esquecidos da música brasileira (apenas 360 audições na lastfm até o momento, NENHUMA foto disponível na internet, daí a ausência de imagem nessa postagem), mas acima de tudo uma deliciosa brincadeira levada a sério que nos carrega em sua molecagem. (Ruy Gardnier)
Fui amigo de todos e sócio de um dos componentes, mas ja faz muitos anos que não tenho noticias desta turma . Sei que sinto falta das musicas e dos amigos.
É possível conseguir as músicas dessa galera?
Até hoje me lembro de ter assistido a um show na Rádio Nacional – Rio de Janeiro – onde cantavam “My name is Mary K noiva da América…”
Ruy,procure pela revista Poeira Zine (há um site). Nela, você encontrará uma breve história da banda. e o nderground carioca.A versão mais longa da história é para um livro que estou escrevendo sobre o underground carioca.
Abs
Saiu com erro…
Eu bem me lembro de “Poensoscópio de 1940 e 15″, apresentado pela banda no Festival de Música Universitária da TV Tupi, na virada dos 60 pros 70. Os caras escovavam os dentes no palco e tudo, uma coisa bem anárquica dos bons tempos que não voltam mais. Tinha eu uns 15 anos, nunca mais ouvi ou vi. Alguém tem um registro disso?
P.S.: a música que ganhou o festival era bem bacana, aliás era esse o nome: “Que bacana”, com Eduardo e Seus Menestréis, se não me engano. Nunca mais, também.