24
Nov
08

Fennesz – Black Sea (2008; Touch, Reino Unido)

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Christian Fennesz é um músico austríaco (Viena, 1962) que faz uso de violão, guitarra e teclados, freqüentemente processando-os em computador e retrabalhando-os a fim de chegar a sonoridades nada convencionais. Depois de experiências nos anos oitenta com bandas de rock influenciadas por noise (Sonic Youth, My Bloody Valentine), Fennesz decidiu trabalhar com sons sintetizados e explorar ruídos eletrônicos (glitches). Seu primeiro trabalho é o EP Instrument, de 1995. O primeiro álbum, Hotel Paral.lel, veio em 1997. A partir do LP Endless Summer, de 2001, o artista mostrou um maior interesse para melodias de instrumentos orgânicos se relacionando com seu trabalho característico de noise. Venice veio em 2004. Black Sea é o quarto trabalho solo de Fennesz (considerando, como faz o site do artista hoje, que o disco plus forty seven degrees 56′ 37″ minus sixteen degrees 51′ 08″, de 1999, é um EP). Além de sua carreira solo, Fennesz se dedica a sessões de improvisação e desenvolve parcerias com diversos artistas, como Ryuichi Sakamoto, Jim O’Rourke, Peter Rehberg, Werner Dafeldecker, David Sylvian, Keith Rowe, Yoshihide Otomo, Oren Ambarchi, Sachiko M, Mika Vainio, Kevin Drumm, entre outros. (RG)

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As capas dos discos de Christian Fennesz podem ser um tanto enganadoras a respeito do que há a ser encontrado por trás do invólucro. Certo, o potencial evocativo dos sons de Fennesz quase nos obrigam a sugerir paisagens sonoras, odores, texturas… São experiências altamente sinestésicas, sobretudo na relação sonoro-visual, mas as músicas do compositor austríaco nada têm da acuidade objetiva das fotos que ilustram seus discos. A música de Fennesz é feita de paisagens sentimentais, com a rica intervenção de uma emotividade individual que domina a percepção e modifica os dados imediatos em nome de uma qualidade de sensação, da vibração da paisagem mais do que a paisagem mesma. Daí que, seja em sua fase mais abrasiva (os primeiros discos), seja em sua guinada mais lírica (Endless Summer para cá), os esguichos de ruídos e as notas de guitarra ou teclado evocam menos fotografias do que telas, e telas à moda Monet ou à Turner, aquelas que captam o humor e a fúria da natureza em sua aparente placidez.

Black Sea mostra um Fennesz mais sereno e econômico em relação aos sons utilizados. A dinâmica entre paredes de ruído e melodias singelas permanece inalterada, ao menos na comparação com seus últimos discos. O que difere significativamente nesse novo disco é a ausência dos glitches abruptos que, nos discos anteriores, criavam uma camada suplementar de perturbação sonora. Em Black Sea, ao contrário, Fennesz exercita em seu ouvinte a atenção a longo prazo, a construção em crescendos (“Glide”) ou em movimentos distintos (“Black Sea”, “Perfume for Winter”). A audição sem dúvida dá uma sensação mais “clássica”, mais drone, menos noise e menos “contemporânea” (ao menos no sentido em que esses glitches curtos, usados à perfeição em artistas tão distantes musicalmente quanto Fennesz e Prefuse 73, apontavam em 2001 para aquilo que era novo e vibrante no momento). Mas não se perde nada: Christian Fennesz mais uma vez se revela como o gênio colossal que é e nos instala em uma de suas maiores experiências imersivas.

“Black Sea” começa com sons de pássaros, sugerindo um perigoso mimetismo, mas já de início surgem camadas de ruído que acabam com qualquer som imitativo e nos reintroduzem a esse noise aveludado que sempre foi a característica principal de Fennesz, essa contenção (dentro de um terreno que é quase sempre excesso) e esse sentimentalismo do barulho. O ruído diminui, some, vem um dedilhado fragmentário de guitarra, dura por algum tempo, até que uma nova parede de barulho aparece, se instala e dura até o fim da faixa. “Perfume for Winter” é o primeiro grande destaque do disco, em que jorros de sintetizador sujo e doces notas sitetizadas se sobrepõem a um fundo de feedback de guitarra durante a primeira metade da faixa (que depois permanecerá surpreendente, levada primeiro pela guitarra, depois por um teclado, até voltar à harmonia inicial). “Glide”, em parceria com Rosy Parlane, é uma experiência de crescendo de volume e de construção textural como pouco se vê por aí. “Glass Ceiling”, uma das mais amenas, silenciosas e sutis faixas de toda a obra de Fennesz, tem uma introdução de violão e depois é construída toda em torno de delicados sons de cristal, como anjos ou fantasmas pisando no teto de vidro que o título da faixa evoca. “Saffron Revolution”, já antecipada em single há alguns meses, cabe perfeita como faixa de encerramento, com um crescendo de ruído branco gasoso (como gasosos eram os sons da segunda metade de “Glass Ceiling”) que afunda uma melodia melancólica de guitarra que poderia tranqüilamente ter saído de um dos momentos mais down do Cure.

Que ninguém tenha dúvidas: por mais que Fennesz tenha levado sua carreira solo tendo como objetivo a imersão, a emotividade e a construção de atmosferas, ele ainda permanece um supremo senhor do noise, criando camadas robustas e matizadas de um ruído tão potente quanto exuberante, e totalmente pessoal. Ninguém soa como ele. Depois de quatro anos de enorme ansiedade, Black Sea confirma Christian Fennesz como um dos mais decisivos músicos de hoje. (Ruy Gardnier)

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Existem muitos artistas interessantes hoje, mas a poucos podemos atribuir a qualidade de “decisivos”. Christian Fennesz é um artista decisivo não porque inaugura escolas ou movimentos, mas porque trilha um caminho único. Um artista que se desembaraça das limitações de época, gênero ou subgênero e as retorce até atingir uma perfeição que nem sempre pode ser admirada a olho nu. Por outro lado, a audição de Black Sea não denota nem ruptura, nem colorário, mas continuidade de um projeto ao mesmo tempo consistente e ousado. Sua novidade é, portanto, relativa, mas arrebatadora. Poderíamos dizer que a música de Fennesz tem como característica principal a transfiguração de sons acústicos e orgânicos com o auxílio de computadores. Mas fornecer esses dados técnicos não basta, pois trata-se sobretudo de busca incessante por “certas” sonoridades, certos achados que, combinados, soam de forma absolutamente diferentes de tudo o que ouvimos por aí. Sua inteligência musical, no entanto, não se esgota na manipulação de timbres e estruturas: Fennesz é também um músico inacreditavelmente consciente, especializado em arranjar e compor seqüências não propriamente inusitadas, mas que sintetizam vertentes sonoras com arrojo. Desta vez, o noise e o glitch emergem em comunhão radical com sons orgânicos, o que sugere que Black Sea é um álbum, sobretudo, de síntese de seu trabalho, pois traz tanto a abrasividade dos primeiros como o lirismo de Endless Summer e Venice. Todas as faixas em Black Sea sugerem esse contexto de aproximação, cada uma à sua moda, mas todas de forma exuberante. A alternância entre camadas de barulho e belíssimos acordes de violão e guitarra fazem da faixa-título uma das obras-primas do ano – inclusive, devo reforçar a atenção a esta composição e ao modo minucioso com que Fennesz explora os acordes, que me revelam, para além do bricoleur, um exímio violonista. Os sininhos gélidos em “Glass Ceiling”, mas, paradoxalmente, a melodia singela que eles entoam. Em “Saffron Revolution” Fennesz explora uma dramaticidade que, se tomarmos sua obra como um todo, percebemos que ganhou campo a partir de Endless Summer. Enfim, caberia aqui deslindar todos os meandros que as faixas de Black Sea evocam, mas podemos também afirmar que uma característica central do álbum é a síntese tranqüila, realizada por um autor à vontade para operar com o complexo vocabulário que ele próprio desenvolveu. E o que é isto se não o despontar de uma maturidade que devemos, por obrigação, acompanhar de perto? (Bernardo Oliveira)

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Já faz quatro anos e meio que Venice foi lançado e para quem se perguntou onde andou Christian Fennesz, um dos guitarristas mais transgressores dos últimos tempos, as respostas são múltiplas: ele rodou a Europa diversas vezes, gravou várias apresentações ao vivo, lançou singles em formatos digitais e analógicos, relançou seus dois primeiros discos, – e pudemos nos certificar mais uma vez que Endless Summer é um dos grandes da década -, participou de vários splits com as figuras mais renomadas da música experimental, continuou a colaborar regularmente com seu ex-chefe e parceiro de gravadora, Peter Rehberg, e lançou Cendre, o primeiro LP do projeto Fennesz Sakamoto. Vendo por esse lado, meia década não chega a ser um hiato tão grande e significativo para um artista prolífico como Fennesz, que desde seu debut, em 1997, mantém intervalos de três a quatro anos entre seus álbuns oficiais.

Christian Fennesz é um músico fascinado por temas e geografias locais, principalmente as que dizem respeito à água: na capa de Endless Summer (do verão interminável, que os europeus só conjecturam) o mar é visto sob um céu crepuscular na foto tridimensional da capa; em Venice (ou Veneza,  a famosa cidade suspensa sobre a água), a fotografia frontal mostra dois barcos estancados em superfície rasa; e, agora, Black Sea (o tão misterioso Mar Negro, situado entre o sudeste da Europa e a Ásia menor) exibe em sua foto principal uma espécie de barra, na qual se formou uma trilha que atravessa um mar escuro e raso e que, no final, dará em uma cidade.

O tema constante da água não poderia ser menos apropriado para a música de Fennesz, que através de efeitos de laptop e guitarras ultra-processadas, remonta o ouvinte às texturas aquáticas e à imensidão misteriosa e sedutora dos mares, lagos, rios e canais. Black Sea, ao partir de um pressuposto mais sombrio, é, para o bem ou para o mal, o disco de maior inclinação emocional na carreira do austríaco. O início, com a faixa-título e “The Colour of Three”, deixa um pouco a desejar em razão da falta de novidade: glitchs e drones que lembram Pole, o pessoal da Mille Plateaux e os próprios discos anteriores de Fennesz. A atmosfera delineada é demasiadamente sentimental, especialmente no que diz respeito ao uso de guitarras, bem próximo, aliás, do que Machinefabriek vem fazendo (ou seria o contrário?). Entretanto, o disco vai tomando contornos mais fortes e marcantes e, lá para a metade, com “Grey Scale” e “Glide”, passa a explorar com mais intensidade as texturas rascantes e desgastadas, que são a grande marca do guitarrista.

As faixas derradeiras, “Glass Ceiling” e o primeiro e atual single, “Saffron Revolution”, são o ápice do disco. Nesse momento o ouvinte já está embasbacado e completamente envolvido pela atmosfera enigmática e cativante de Fennesz. Mais uma vez o guitarrista alarga as possibilidades de amplitude de seu instrumento e da sonoridade laptopiana, criando uma sobrecarga sonora densa e memorável. A música de Fennesz, portanto, não é somente aquela dos mares, paisagens e verões infinitos; é, sobretudo, uma música que evoca a submersão humana dentro da sua própria existência, infinita e melancólica; é uma música que expressa toda a grandeza da alma e sua variedade interminável e inominável de sentimentos e emoções. É a trilha sonora para todo e sempre. (Thiago Filardi)


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