Arquivo para Dezembro, 2008

31
Dez
08

Melhores de 2008: Discos – Bernardo Oliveira

fennesz_sm

Se 2008 foi um ano bom ou ruim, isso já não importa. Talvez este veredito dependa somente de uma escolha. Com a dinâmica vertiginosa com que se produz e divulga música hoje, a relação entre experiência e pensamento acaba por sofrer sobressaltos para os quais, imagino, um crítico de música de 40, 50 anos atrás não estaria propriamente preparado. O fato de que um disco adorado em março possa rapidamente se converter em um álbum apenas bom não sugere simplesmente uma mente confusa; deve-se atentar para o fato de que manter o foco numa suposta totalidade não só é impossível, como também improdutivo e, às vezes, desprazeroso. Uma lista de lançamentos musicais não deveria ser tratada como objeto de um ciência especulativa, o que, na melhor das hipóteses, a remeteria a uma recensão instrumental, para fins de pesquisa e memória. Por outro lado, se a totalidade é um mito, sejamos duros: é a labuta, o ouvido calejado, persistente, que dá conta ao menos de uma totalidade aberta, uma totalidade possível. Assim, o The Bug e o Dusk & Blackdown tão adorados respectivamente em junho e setembro deste ano, entram quase como um adendo à coletânea de singles da Skull Disco: a experiência prolongada me mostrou, em relação ao primeiro, que suas melhores faixas foram lançadas em 2007 (“Skeng”, “Jah War” e “Poison Dart”) e, em relação ao segundo, que o descaso que marca o fim do disco compromete as intenções dos produtores. Já o terceiro se impôs sobre os outros dois por conta da enorme admiração que tenho por todas as suas faixas. E, neste caso, foi simples assim: o corte foi dado pela imposição de um artista genial como Shackleton, que tanto cativou pelo prazer, como pelo frescor de suas soluções e conceitos. Conceitos esses que justificam o adendo a Persistent Repetition of Phrases, de The Caretaker: para mim, embora sejam diferentes em muitos aspectos, este disco assemelha-se ao genial Masque Femine, de Christina Carter. Ora, perguntará o leitor, então porque não colocar o álbum de Carter à frente de Fennesz, Drumm, entre outros bem colocados? Para compor um corte, um painel certamente limitado, mas consciente de que a contribuição mais fecunda advém das conexões e meandros suscitados pela experiência e pela reflexão. Um outro exemplo: alguns poderão estranhar a segunda posição deste álbum de The Caretaker, devido à ausência de qualquer faixa sua na lista de tracks, mas penso que ele deve ser ouvido como uma obra inteira… Pois bem, a lista abaixo reporta a esta selva de relações e possibilidades que passam por leituras, audições, por uma quantidade doentia de downloads e pelo convívio com os companheiros deste espaço de pesquisa e reflexão que é a Camarilha dos Quatro.

Lado A

1. Porstishead – Third

A grande obra-prima, a grande reviravolta do ano. Das palavras em português que marcam “Silence”, a faixa inicial, até a mais desbragada declaração de amor ao doom dos últimos tempos que é “Threads”, Third é um disco impressionante. Sua forma enxuta e soturna impressionou alguns que, como eu, não gostavam nem um pouco do grupo. Mas para muitos de seus fãs foi uma decepção e tanto – aliás, tenho o triste palpite de que esta decepção atesta a grandeza do trabalho… Mas o que teria acontecido ao som do grupo? Bem distante da sonoridade de seus dois primeiros álbuns, um soft-pop metido a chic que usurpava do Massive Attack suas virtudes menos entediantes, o Portishead cunhou uma obra rigorosa, se utilizando de elementos do rock dos últimos 30 anos, do kraut ao pós-punk, mas que dialogam de forma objetiva com as melodias lindamente entoadas por Beth Gibbons. E justamente no paradoxo reside o trunfo do disco: a parcimônia inteligente da concepção e da execução (reparem na estrutura de “Machine Gun”, na bateria de “Magic Doors”, na trama de guitarras em “Threads”) contrasta com canções surpreendentes tais como a já citada “Machine Gun”, mas também “The Rip” e “We Carry On”. Após uma longa época onde a síntese foi largamente praticada e valorizada como sintoma de modernidade, talvez tenha chegado o momento de celebrar a arte agônica do contraste. Third talvez seja um de seus mais claros e contundentes sintomas.

2. The Caretaker – Persistent Repetition of Phrases
Christina Carter – Masque Femine

O trabalho de James Kirby, aqui sob o pseudônimo The Caretaker, prima por dois elementos que parecem balizar seus procedimentos: privilégio do conceito em detrimento da “música” e provocação. Da primeira, a preocupação em situar os experimentos musicais fora do discurso musical “auricular”, apelando para outros sentidos, para a fotografia, e até mesmo para as neurociências. É claro que o segundo conceito está relacionado diretamente ao primeiro: atento a elementos externos à música, mas, ainda assim, fazendo música, The Caretaker desafia o ouvinte ordinário, propondo-lhe uma outra experiência. O valor da reminiscência e da memória, bem como seus mecanismos neurológicos, são postos em jogo quando, pela trigésima vez, o tema de “Persistent Repetition of Phrases” se repete, possibilitando ao ouvinte outros tipos de apreensão. Se Third indica a reviravolta de um grupo, este álbum aponta para o futuro da música, mas não estou me referindo à sua forma de criação, nem de emissão. Me refiro ao horizonte de expectativa que se têm da música, tanto do ponto de vista do criador, como do fruidor. Masque Femine, de Christina Carter, evoca esta visão extra-musical, através do aproveitamento acústico realizado entre seus gemidos e o microfone. Ambos caracterizam uma guinada de alguns artistas nos últimos 30 anos: a inclinação a um pensamento musical em que os procedimentos encerram uma dimensão criadora, e não simplesmente fruidora, onde boa parte da estética moderna se situou equivocadamente.

3. Fennesz – Black Sea

Fennesz é um artista decisivo, escrevi recentemente na Camarilha. E como todo artista decisivo, que dispõe de um território próprio de ação, por vezes ele se repete. Ou pelo menos podemos dizer que, ao se repetir, Fennesz inova, porque dispõe de ferramentas as quais nenhum outro artista tem acesso. E o que espanta em Black Sea é a capacidade inegável de conjugar a criação de um vocabulário e de manipulá-lo abertamente. Em cada faixa, entrevemos o Fennesz de Venice e Endless Summer, mas, ainda assim, trata-se de um outro Fennesz. Em Black Sea, temos aquelas texturas inacreditáveis, em que se pode ouvir uma espécie de orquestra danificada; as guitarras e teclados indecifráveis; o convívio equilibrado entre o noise e a melodia; e, especialmente neste álbum, os temas “musicais” executados ao violão, particularmente na faixa título. Apesar de familiares, esses sons são apresentados de forma a constituir uma porção satisfatória de novos experimentos, de boas novas que emergem do planeta de onde Christian Fennesz veio. Black Sea consolida sua posição como um dos artistas mais interessantes da atualidade.

4. Kevin Drumm – Imperial Distortion
Machinefabriek – Dauw

Assim como Fennesz, Kevin Drumm é guitarrista e manipula aparelhos eletrônicos; assim como Fennesz, Drumm também possui seu lugar no panteão da música contemporânea. Mas em virtude de quê e o que o diferencia de Fennesz? Bem, esta última pergunta só pode ser respondida com a audição e respectiva comparação, mas posso adiantar que perto do que realiza Drumm neste Imperial Distortion, a música de Fennesz chega a ser até “palatável”, quero dizer: vez ou outra ainda vislumbramos nela uma escala temperada, enquanto no trabalho de Drumm trata-se da imersão em uma gama de sons que não são absolutamente redutíveis aos esquemas teóricos da música ocidental tradicional (leia-se Bach). Não que isso o faça melhor ou pior, é só uma observação que procede. Drumm cria um universo sonoro tão cavernoso, que chegamos a imaginar que não se trata de um trabalho revestido de cultura musical, mas de uma perspectiva ao mesmo tempo selvagem e cerebral do som. Digo selvagem porque o inusitado está sempre à espreita, assim como em Dauw de Rutger Zuydervelt, responsável pelo projeto Machinefabriek. Ainda que em menor intensidade que o álbum de Drumm, Zuydervelt opera no mesmo campo, criando no ouvinte um suspense constante pelo que virá.

5. Department of Eagles – In Ear Park

Fala-se muito em Bradford Cox, em Sufjan Stevens, em Will Oldham… Mas eu discordo de quem alça esses artistas ao nível de verdadeiros autores. Para mim, são beletristas rebeldes como Billy Idol, no máximo (“Eyes Without a Face” é uma grande canção…) Com In Ear Park, Daniel Rossen mostrou que não está brincando, como a maioria dos “autores” propalados pelas listas das grande publicações. Não que ele não seja irônico o suficiente, como parece querer mostrar quando lança um disco de remixes com o Grizzly Bear e, no ano seguinte, transfigura seu projeto eletrônico em uma sucursal (brilhante!) do mesmo Bear. Mas porque, em primeiro lugar, é de fato um grande compositor, no sentido tradicional do termo. Seu trabalho está muito à frente de todos os outros songwritings de sua época (se “No One Does It Like You” e “Teenagers” não confirmam imediatamente esta suposição, já não há argumentos…). Em segundo lugar por ser um instrumentista genial e por conferir as suas canções arranjos esplendorosos, criativos e, ao mesmo tempo, vintage. Comparo o trabalho de Rossen ao de Bob Dylan, não pela obra em si (o que seria absurdo), mas pelo modo descompromissado com que ele opera sobre o campo do folk e do rock, transformando-o com uma liberdade que impressiona e deleita.

6. Flying Lotus – Los Angeles

O que mais admira no trabalho de Steven Ellinson é o modo bem humorado e, ao mesmo tempo, rascante com que ele opera sobre o campo do hip hop experimental. As batidas, os timbres, tudo leva a crer que Ellinson é tributário das colagens desconjuntadas de Scott Herren e Madlib. Sim, é. Mas com Los Angeles este jovem produtor e Dj mostrou maturidade incomum para balizar seu campo de ação, bem como os elementos que dispõe para interagir e até mesmo abrir caminhos nesta seara. Já em 1983, seu disco de estréia, Ellinson se destacava por situar sua sonoridade entre a tradição do jazz e da black music americana e a gama de possibilidades aberta pela influência das condições atuais de disseminação de gêneros e estilos. Assim, encontrou algumas soluções surpreendentes, como se pode observar na irônica e genial “Parisian Goldfish”, na abrasividade de “Brainfeeder”, nos tambores de “Melt!” ou nas duas canções soul mais belas do ano, “RobertaFlack” e “Testament”. Um álbum para ser ouvido de cabo a rabo, por muitas e muitas vezes.

7. Crystal Antlers – EP

Não é todo dia que se pode indicar um EP entre os melhores álbuns do ano sem justificar milimetricamente o porquê. É claro que neste caso a veia roqueira congênita falou mais alto. Assim que “Until the Sun Dies (Part 2)” ecoou nas caixas de som eu tive a mesma sensação de quando ouvi Nevermind ou The Bends pela primeira vez, pois tive a certeza de que se tratava de mais uma grande banda conferindo longevidade a este gênero sempre moribundo, o rock’n’roll. E o Crystal Antlers cumpre esse papel de duas maneiras. Trazendo toda a carga de irresponsabilidade sônica que o gênero exige, mas também sintetizando texturas repletas de detalhes que, em grande parte, constituem seu diferencial. Mesmo no rock’n’roll gritado de “Arcturus”, no barulhento diálogo com o hard rock e o rock progressivo em “A Thousand Eyes” e “Owl” e nos ataques impiedosos de “Vexation” pode-se perceber que, por trás da quebradeira, opera uma mentalidade doentia, a criar composições minuciosas, mas cheias de viço. Um disco que põe no chão as predições mais pessimistas e os mais tenebrosos diagnósticos quanto ao destino do rock.

8. Ilyas Ahmed – The Vertigo of Dawn

Talvez se possa dizer que Ilyas Ahmed chegou à perfeição no que diz respeito à utilização solitária de home studios. Mas isso ainda é pouco: se a comparação com o primeiro álbum de John Frusciante (Niadra Lades And Usually Just a T-Shirt, de 95) é inevitável, isto se justifica mais por conta do pioneirismo do autor, do que em relação à excelência do trabalho. Enquanto o álbum de Frusciante padece de um sessentismo inócuo, Ahmed extrai momentos de absoluta sublimidade de seu 8-Track studio (nem sei se é este o equipamento que ele usa, mas a péssima qualidade das gravações levam a crer…). A diferença é que, além das habilidades de produção, este jovem paquistanês radicado em New Jersey é também um compositor especial, cujas canções exprimem uma relação diferenciada entre rock, folk e música paquistanesa: seu canto diáfano sobrepõe inflexões do rock e elementos microtonais da música oriental; o instrumental, geralmente criado em cima de violões e percussões rudimentares, resvalam em uma expressiva imperfeição sonora, que embora vigorosa, é capaz de evocar introspecção. As oito faixas do álbum impressionam, mas reparem espcialmente no admirável rigor com que ele conduz a faixa em “Phantom Sky”, com aqueles poéticos sons de vendaval no final; ou a impressionante sobreposição de sussurros em “Moon Falling”; ou ainda a perspectiva conltraniana na maravilhosa “Golden Universe”…

9. Guizado – Punx
Lindstrøm – Where You Go I Go Too

A música instrumental brasileira parou na década de 80; desde lá, além dos gênios de sempre (Época de ouro, Hermeto, Gismonti, etc) vimos emergir somente a Itiberê Orquestra Família e a dupla Silvério e Zé da Velha. O restante ficou paralisado entre a lembrança do samba jazz, do Som Imaginário, da Black Rio e do Azymuth. Assim, Guizado e Punx representam um sopro de vida, um frescor novo para a música instrumental brasileira. Punx não é só o melhor disco brasileiro do ano, mas é também representa um desafio e um problema. O desafio é a esta paralisia da música instrumental realizada no país, apesar da boa quantidade de lançamentos e eventos ocorridos em 2008. Não é somente porque explora outras sonoridades, ritmos e timbres que Punx é desafiador, mas em virtude da incomensurável ousadia e inteligência de seus arranjos. Este talento implica, no entanto, na assunção de que a música de Guizado, estruturada através de ritmos e padrões harmônicos e melódicos diversificados, na verdade é uma releitura muito avançada do jazz, comparável tanto às Coisas, de Moacir Santos, como ao On the Corner de Miles Davis, para citar dois álbuns polêmicos, mas que foram diversas vezes situados no terreno do jazz. O fato é que estes álbuns podem ser considerados jazz, mas um jazz esfacelado, cubista: em suma, trata-se do jazz como um conceito, uma liberdade para o trato com certas estruturas de composição. E é isso que Punx traz, uma criativa reapropriação de cânones oriundos do funk, do afrobeat, do rock, etc., mas recompostos na dinâmica aberta do jazz. Lindstrøm e seu Where You Go I Go Too se utilizam de procedimento semelhante, mas em outra escala. Recompondo a sinfonia middle-tech de Manuel Göttsching, E2-E4, ele a recria com impressionante esmero timbrístico e noção de modulação. Dois álbuns que alçam a música instrumental a um dos grandes destaques do ano.

10. William Parker – Double Sunrise Over Neptune [At Vision Festival XII]
Anthony Braxton, Milford Graves, William Parker – Beyond Quantum

Pelo mesmo motivo que Punx é talvez o melhor disco de jazz do ano, Double Sunrise Over Neptune de William Parker pode ser considerado o disco de anti-jazz, no sentido novaiorquino de experimentação e alargamento de horizonte. Digo isso porque penso que o álbum exprime a tentativa quase desesperada de ampliar o discurso jazzístico, sensibilizando o que ele tem de mais oriental, isto é, sua relação com a música modal. Parker é um grande seguidor de Coltrane e Miles, mas seu gênio criativo não se esgota nas suas referências. De seus mestres, ele conserva a valorização da liberdade do músico: as quatro composições são guiadas pelo baixo seguro de Parker, que repete inúmeras vezes o mesmo tema, enquanto a série de instrumentos se entrelaçam sobre a percussão nervosa de Hamid Drake. Esta simplicidade favorece o instrumentista a se abrir para uma dimensão realmente colaborativa do processo musical, o que no álbum não só fica claro, como soa de forma impressionante. E apesar de constituir-se como uma big band, o grupo é minucioso até na hora do barulho, parcimonioso nas dinâmicas, impressionante no vigor e na energia. Noto somente a presença da cantora Sangeeta Bandyopadhyay, que tanto reforça o laço com a música oriental, como se inscreve nas dinâmicas do free jazz novaiorquino. Mais nervosa e desorientada, a parceria com Anthony Braxton e o excepcional baterista Milford Graves, Beyond Quantum, se assemelha a alguns experimentos pregressos do mesmo Parker, nos quais se desenvolve uma perspectiva muito em voga nos anos 60, mas que agora ganhou o rótulo free-improv. Ambos os discos, no entanto, demonstram que a cada ano, Parker se firma como o grande nome do jazz mundial.

Lado B

11. Mestres Da Guitarrada – Música Magneta

Mais uma prova de que a vitalidade da música brasileira se concentra na maioria dos casos nas diversas periferias, sejam as periferias das cidades ou mesmo as do país. Digo periferia porque são locais onde os recursos financeiros e o incentivo à cultura não são tão eficazes e presentes como deveriam, bem como sua divulgação para o resto do país. Mas quando ouvimos Música Magneta, sobrevém a questão: se todo o aparato de incentivo e manutenção dos aspectos culturais, com suas majors e “advanceds”, aportasse por essas bandas, será que Mestre Vieira desenvolveria uma mentalidade musical tão aberta e criativa, capaz de formular um gênero rico como a guitarrada, gênero este que dialoga no mínimo com o samba, a salsa, o jazz e a música de cabaret, entre outras? Música Magneta concentra não somente estes gêneros numa levada festiva e envolvente, como encerra ainda duas escolas musicais nativas, uma da guitarra paraense, e a outra do banjo, desenvolvida pelo Mestre Curica. Só isso já valeria, mas o disco traz muitas outras surpresas. Altamente recomendável.

12. Shackleton And Appleblim – Soundboy’s Gravestone Gets Desecrated by Vandals
The Bug – London Zoo
Dusk + Blackdown – Margins Music
Zomby – Where Were U in ‘92

Esta foi talvez a escolha mais problemática, embora esteja em perfeita conformidade com aquilo que expus na introdução: me interessa traçar uma perspectiva, e, para isso, se faz necessário eleger os álbuns que constituem os desenhos mais proeminentes de uma cena, ou de um contexto. É o que tento construir nesta colocação: quatro álbuns fundamentais da atual cena dubstep, ou que pelo menos se relacionam de forma decisiva ou crítica em relação a ela. Apesar de ter indicado dois deles, The Bug e Dusk & Blackdown, fico com a coletânea da Skull Disco, muito por conta das faixas produzidas por Shackleton, tais como “Shortwave” ou “In the void” (além da number one “Death is not final”), e alguns remixes interessantes capitaneados por gente boa como T++ e Rupture. Aos poucos, o álbum do The Bug se revelou inconsistente em relação às faixas lançadas em 2007, mas mesmo assim destaco “Angry”, “Murder we” e “You and me”. Ao passo que o de Dusk e Blackdown foi perdendo sua força conforme eu percebia que a segunda metade não estava à altura da primeira. Estas conclusões foram retiradas após audições prolongadas, ao contrário do álbum de Zomby, cuja urgência matadora – e até um pouco tosca – me chamou a atenção de cara. Na viagem crítica, em nada nostálgica, de Where were u in 92′, o produtor opera com o vocabulário da música eletrônica dos anos noventas, reinterpretando-o através de incursões a um minimalismo muito bem sacado, embora às vezes um tanto juvenil. De um modo geral, quatro grandes álbuns, que deram o que pensar em 2008 e consolidam a turma do dubstep como a ponta da música eletrônica.

13. Philip Jeck – Sand

Sand é um álbum desafiador, que exige de seu ouvinte uma certa paciência, uma disposição para momentos áridos, excessivamente instáveis e dispersos. Sua composição, como muitos dos álbuns indicados nesta lista, atende a um predicado conceitual, isto é, que parte, em primeiro lugar, de um elaborado pensamento não-musical, que exprime e se exprime no resultado propriamente sonoro. No caso de Sand, o que está em jogo é a possibilidade de borrar as fronteiras que separam o que é e o que não considerado sob o rótulo (ou marca) “música”. Aliando elementos musicais stricto senso a sonoridades que ainda não foram codificadas num discurso sonoro convencional, Jeck põe em jogo a própria idéia que as pessoas fazem da música. Para isso, o autor lançou mão de sua experiência de artista plástico, compositor, experimentador (com a utilização de toca-discos) para produzir uma sonoridade ao mesmo tempo rústica e sofisticada que, tal qual a areia que batiza o álbum, escapa às significações mais imediatas. Um disco para ser ouvido no fone, para ser decifrado e digerido parcimoniosamente.

14. Evangelista – Hello, Voyager

Após gravar três álbuns estranhíssimos, combinando country rock e música experimental, Carla Bozulich batizou sua banda com o nome do terceiro álbum, Evangelista, levando seu trabalho a uma outra fase, mais próxima do rock e do shoegaze. Hello Voyager é o resultado mais contundente desta empreitada, e, de fato, este álbum me cativou mais pelo aspecto rock’n’roll que por suas incursões abstratas. “Smooth jazz”, “Truth is dark like outer space”, “Lucky Lucky Luck” e ” Winds of saint Anne” constituem rocks desconjuntados e barulhentos, capazes de superar qualquer expectativa decorrente do já interessantíssimo Evangelista, de 2006. Outras faixas também são atraentes, como a etérea “The frozen dress”… Mas a característica que alça Hello Voyager a um dos melhores discos do ano relaciona-se à aproximação mais direta com o rock e com as guitarras e gritos assustadores que atravessa todo o trabalho.

15. São Paulo Underground – The Principle of Intrusive Relationships

O que acontece quando Rob Mazurek encontra Maurício Takara? O primeiro lançou recentemente o esquisito Abstractions On Robert D’Arbrisse, e esteve por dentro de projetos ligados a releituras ousadas do free jazz de Don Cherry e Ornette Coleman, como o Mandarin Movie e o Chicado Underground. O segundo vem se firmando a cada ano como um dos nomes mais instigantes da música instrumental brasileira, quiçá mundial. Juntos formam o São Paulo Underground, uma dupla que consegue equilibrar de forma quase heróica elementos extremamente díspares, numa miríade polirrítimica e polifônica sem precedentes no cenário da música brasileira atual. The Principle of Intrusive Relationships, o segundo álbum da dupla, demonstra esse potencial sônico de forma convincente, com punch rock e minúcias equacionadas de forma a constituir uma sonoridade ao mesmo tempo sui generis e rica em referências.

16. The Very Best: Esau Mwamwaya And Radioclit Are The Very Best
Diplo / Santogold – Top Ranking
João Brasil – Big Forbidden Dance

As duas mixtapes que mais ouvi esse ano estabeleceram uma relação especial com os mash ups. Diplo aliou-se ao potencial pop de Santogold, situando-a entre as referências do pós-punk e da música eletrônica dos anos 80, e criando remixes perfeitos de seu primeiro álbum. Por sua vez, João Brasil demonstrou feeling e humor inigualáveis para sintetizar sucessos e flashbacks, acionando na memória do ouvinte brasileiro velhas canções como “Chorando se foi” do Kaoma, ou exibindo um remix tamborzão de “D.A.N.C.E.”, do Justice. Mas considerando o caráter irônico que envolve os mash ups, o álbum mais impressionante do ano, tanto pela contribuição específica das partes envolvidas, como pelo frescor das soluções alcançadas, é o da parceria entre o cantor do Malawi, Esau Mwamwaya e a dupla Radioclit, o The Very Best. A voz sinuosa e inacreditável de Mwamwaya combina perfeitamente com as batidas e arranjos da dupla, a partir de revisões de M.I.A. e Vampire Weekend, mas também em faixas geniais como “Kamphopo” e “Wena”. O que se percebe nos três lançamentos é a relação inegociável do mash up com o humor e com a festa, quesito no qual o trabalho do The Very best sobressai com todas os méritos.

17. El Guincho – Alegranza

A esfacelada cultura musical da década que já se vai estimulou nos artistas uma imaginação mais aberta para burilar formas e, no mesmo passo, tornou-os mais cultos e cientes do espaço histórico que habitam. Em relação ao catalão Pablo Díaz-Reixa, o El Guincho, essa premissa atua indiscriminadamente, operando recortes sobre as mais variadas tendências e revivals. Autor e pesquisador, blogueiro contumaz, Días-Reixa é o caso já clássico do autor que tem pavor da solidão, e traz toda sua bagagem consigo. O resultado é um som vigoroso, rico, repleto de momentos puramente festivos. Ouça, por exemplo, “Antillas”: um looping indecifrável, algo como uma caixinha de música, sobre o qual o autor lança percussões e uma linha melódica vocal repetitiva que vai modulando sobre a batida. Assemelha-se a uma lambada, a uma guitarrada, a música caribenha, hispânica e tudo o mais que se pode supor. Apesar de ser indistinto em termos culturais, Alegranza e a música de El Guincho demonstram o rigor de um verdadeiro artista. Um grande disco.

18. Kasai Allstars – In the 7th Moon, the Chief Turned Into a Swimming…
Lou Reed / Laurie Anderson / John Zorn – The Stone: Issue Three

Dois discos e contextos bem diferentes, mas que têm em comum uma habilidade especial para lidar com a produção do êxtase. O primeiro, meu escolhido, é do Kasai Allstars, grupo congolês lançado no segundo Congotronics, que reúne vinte e cinco músicos oriundos de cinco diferentes etnias locais, cada qual com sua própria língua e tradição musical. O resultado é hipnótico, certamente o lançamento mais “difícil” da Congotronics, com sua polifonia radical, suas inusitadas sobreposições de toques, harmonias e cantos. The Stone: Issue Three também hipnotiza, mas por conta de sua concentração extrema, seu virtuosismo conceitual, sua cacofonia juvenil. Dois álbuns excelentes, muito diferentes entre si, repito. Mas que traduzem uma dimensão contemporânea do êxtase, algo que por si só já encerra grande interesse.

19. Tom Zé – Estudando a Bossa
Zeca Pagodinho – Uma Prova de Amor
Jards Macalé – Macao

Talvez pudéssemos adicionar alguns outros nomes nesse sentido, mas penso que aqui residem três histórias, três personagens tão fundamentais quanto anômalos no cenário musical brasileiro. Tom Zé que, depois de amargar severo ostracismo no Brasil da Nova República, conheceu a glória e o reconhecimento internacional; Zeca Pagodinho, que depois de amargar o preconceito, impôs sua música a contragosto da mesma indústria que o alçou à condição de artista mais popular do Brasil; e Macalé, que depois de amargar a inscrição no rol dos “malditos”, foi redescoberto pela geração MP3, tornando-se uma espécie de guru da música experimental carioca. Em 2008, os três lançaram discos, mas, estranhamente, confirmaram mais que surpreenderam. Ainda assim, note-se em Tom Zé a capacidade de inovar dentro do esquadro da canção, em Zeca, o canto apurado e o repertório enxuto e, em Macalé, a constante renovação formal, através da valorização de sua interpretação idiossincrática. Mas elejo Estudando a Bossa não só por constituir mais um volume da série de “estudos”, mas também por oferecer uma interpretação irônica e sagaz de um dos eventos mais patéticos de 2008: a comemoração dos 50 anos da bossa nova.

20. Fuck Buttons – Street Horrrsing

Como fazer barulho, soar estridente, fora dos andamentos e sonoridades convencionais, mas trazendo um sabor que quase poderíamos chamar pop, de tão adorável? O primeiro álbum do Fuck Buttons parece responder a essa questão, pois nele os teclados singelos coabitam o mesmo território dos sons abrasivos, do noise, etc. E esta é a característica que mais chama atenção em Street Horrrsing: o convívio pacífico (e palatável) entre sonoridades díspares, geralmente combinadas em uma estrutura produzida com perfeição. O álbum deve ser ouvido como uma só faixa, e eu diria que, apesar de estar colocado na vigésima posição, possui os primeiros 30 minutos mais instigantes do ano: de “Sweet Love For Planet Earth” a “Race You To My Bedroom/Spirit Rise”, o Fuck Buttons consegue soar tão atordoante quanto cativante, o que definitivamente não é pra qualquer um.

Vale citar…
Kieran Hebden & Steve Reid – NYC
Basic Channel – BCD-2
Animal Collective – Water Curses
Pocahaunted – Chains
The Cool Kids – The Bake Sale
Juana Molina – Un día
Machinefabriek – Rusland
Buraka Som Sistema – Black Diamond
Nick Cave & The Bad Seeds – Dig!!! Lazarus Dig!!!
Curumin – Japan Pop Show
Femi Kuti – Day by Day
Stephen O’Malley & Attila Csihar – 6°Fskyquake
Santogold – Santogold
Erykah Badu – New Amerykah: Part One (4th World War)
Fun Dmc – People Under The Stairs
Food for Animals – Belly
Arthur Russell – Love Is Overtaking Me
Preston Ari Swirnoff – Maariv: Four Pieces of Electroacoustic Music
The Hospitals – Hairdryer Peace
The Fun Years – Baby, It’s Cold Inside
Blank Realm – Mind Peril
Brethren of the Free Spirit – The Wolf Also Shall Dwell With the Lamb
David Grubbs – An Optimist Notes the Dusk
Gang Gang Dance – Saint Dymphna
Headhunter – Nomad
Jacob Kirkegaard – Labyrinthitis
Paavoharju – Laulu Laakson Kukista
Eric Copeland – Alien In A Garbage Dump
Yo Majesty! – Futuristically Speaking
Vivian Girls – Vivian Girls
Keiji Haino & Tetsuya Yoshida – Uhrfasudhasdd e Hauenfiomiume
TV on the Radio – Dear Science
Thousands – Devious Sieve
Shed – Shedding the Past
Ryoji Ikeda – Test Pattern
Alva Noto – Unitxt
Carlos Giffoni – Adult Life

30
Dez
08

Melhores de 2008: Discos – Marcus Martins

  1. Kevin Drumm, Imperial Distortion (Hospital Productions)
  2. Portishead, Third (Universal Island/Mercury)
  3. Gang Gang Dance, Saint Dymphna (Warp/Inertia)
  4. Philip Jeck, Sand (Touch)
  5. Machinefabriek, Dauw (Dekorder)
  6. The Caretaker, Persistent Repetition of Phrases (Install)
  7. Deerhunter, Microcastle / Weird Era Cunt (Kranky/4AD)
  8. Nico Muhly, Mothertongue (Bedroom Community)
  9. Paavoharju, Laulu Laakson Kukista (Fonal)
  10. Emeralds, Solar Bridge (Hanson)
  11. The Bug, London Zoo (Ninja Tune)
  12. Erykah Badu, New Amerykah Part One (4th World War) (Universal Motown)
  13. Fennesz, Black Sea (Touch)
  14. Flying Lotus, Los Angeles (Warp)
  15. Lindstrom, Where You Go I Go Too (Smalltown Supersound)
  16. Preston Swirnoff, Maariv: Four Pieces Of Eletroacoustic Music (Last Visible Dog)
  17. Beach House, Devotion (Carpark)
  18. Aufgehoben, Khora (Holy Mountain)
  19. Richard Skelton, Marking Time (Preservation)
  20. Andrea Belfi, Knots (Die Schachtel)

***

A função de listas de melhores do ano é quase que restrita a sua capacidade de indicar o que melhor representou aquele universo naquele período de tempo para quem elaborou a lista. Assim, serve tanto como indicativo de lançamentos significativos no período quanto uma mostra de quem é aquela pessoa enquanto apreciador ou estudioso da música, que é do que estamos tratando. Não sei se minha lista seria a mesma daqui a alguns dias, mas é certo que o ano ainda não acabou e não tive oportunidade de me familiarizar com alguns lançamentos de dezembro, ou que só agora tive contato para que os pudesse incluir, talvez não tenha havido nada que pudesse alterar o panorama que já se desenhava desde novembro, o que não elimina a sensação de que muito ficou para trás, ou não foi devidamente apreciado.

De qualquer forma, foi um ano em que meu interesse no drone e no noise se aprofundou, o mesmo ocorrendo com a produção de música “clássica contemporânea”. Isto talvez seja reflexo de minhas próprias experiências durante o período e a forma como meu cotidiano se desenvolveu. O próprio fato de ter passado boa parte dos dias confinado em salas de trabalho ou tentando me isolar de um ambiente muitas vezes inóspito, isolado em meu quarto, sem muita paciência para o convívio com os outros favoreceu audições de gêneros que valorizam especialmente os climas e formas, a “construção de um ambiente” que vai muito além dos conceitos clássicos da música ambiente.

O número de discos de drone/noise na lista nem mesmo reflete a quantidade de discos do gênero que gostei e isto ocorreu por decisão de limitar o número de discos de uma mesma linha. Assim, mesmo que o Imperial Distortion do Kevin Drumm, como já comentado em resenha, seja um verdadeiro monumento, a lista poderia ser bem diversa e incluir outros títulos. Na verdade poderia fazer tranqüilamente uma lista exclusivamente composta por ‘ruídos’, e isto não falsearia minha lista, apenas demonstraria o que foi 2008 para minhas audições e o que acredito ser mais relevante na produção atual.

Uma posição interessante em tal meio é ocupada por Rutger Zuyderveldt e seu Machinefabriek, pois ele não apenas lançou um dos melhores discos do ano como vem produzindo nos últimos tempos com uma freqüência e velocidade tamanha que é necessária uma atenção mais detida a sua música e ao que significa acompanhar e absorver sua avalanche sonora. Uma pista estaria no próprio nome do projeto e outra seria uma atualização do conceito de música ambiente, onde a música não seria dissolvida em segundo plano, quase imperceptível, (como nos conceitos desenvolvidos por Brain Eno que remetem à música-mobília de Satie) como transformaria o ambiente ou interagiria com a própria forma como lidamos com o ruído. A produção de Zuyderveldt é ampla e variada o suficiente para não ser reduzida a tais idéias e o crescimento de projetos em colaboração apenas tornou mais complicado compartimentalizar sua música. Se a camarilha elegesse um nome para 2008, meu voto iria para Zuyderveldt.

Caretaker e Emeralds trouxeram discos que não apresentam grande novidades ao já conhecido panorama, mas demonstram a grande maturidade de seus realizadores, de forma muito semelhante trabalharam dois titãs que, se não precisam provar mais nada, nos trouxeram discos inesquecíveis. Fennesz esteve prodigiosamente prolífico em 2008, participando de um maravilhoso disco de Gavin Bryars, colaborando com diversos músicos e lançamento sua incursão no mar negro acompanhado de alguns singles inesperadamente belos, vez que sua música tende a ser mais eficaz em álbuns e em produções de fôlego mais longo. De forma semelhante, Philip Jeck, que também participou do álbum de Bryars, continuou a trabalhar nos mesmos elementos que lhe deram fama na música experimental, adicionando a isto um conceito que passou desapercebido em muitas análises e que aproximou seu disco do de Kevin Drumm como dos mais representativos não apenas da música como do estado de coisas em 2008.

Enquanto isso, o Aufgehoben, em sua opulência caótica, provou que os limites para a invenção no noise ainda podem ser muito expandidos e Andrea Belfi proporciona impacto semelhante de forma inversa ao usar o campo negativo e o silêncio para elevar suas investigações percussivas a outro patamar, cada vibração sonora tem espaço e destaque ressaltado – pena que o disco foi muito breve.

Nico Muhly pode ser pupilo de Philip Glass ou amiguinho da Björk, mas importa que em 2008 se firmou como uma das poucas vozes que conseguem relevância ao transitar entre o meio “clássico”, pop, eletrônico, experimental, ou folk com desenvoltura e poder de criação invejáveis, deixando aberta a possibilidade de sua jovem carreira enveredar para o caminho que ele desejar. Os choques entre cada um destes elementos foram responsáveis por alguns dos momentos mais brilhantes do ano e a cada audição, novos prazeres foram revelados. De forma mais atrelada à tradição eletroacústica, Preston Swirnoff mostrou grande maturidade em suas composições austeras que nunca resvalam para o estéril, o que poderia causar surpresa diante de seu interesse disperso no campo artístico.

No ano em que os melhores nomes da música acústica como James Blackshaw decepcionaram, apenas Richard Skelton, em seu primeiro álbum sob seu nome de batismo, conseguiu de forma simples e luxuosa, realizar uma verdadeira síntese das melhores qualidades de seus pouco reconhecidos A Broken Consort e Riftmusic, apoiado na intensidade da execução e na capacidade em criar peças evocativas e arrebatadoras.

Em meio a este oceano sonoro alguns poucos discos baseados em canções me chamaram atenção em ano em que a reciclagem(ou a ‘fonocrofilia’) deu o tom, seja para ressuscitar até o que não estava completamente morto, como o indie rock dos anos 90, para lembrar dinossauros que não cansam de fazer turnês de “reunião”, ou incensar formas musicais que parecem anacrônicas fora de seu contexto como o punk, travestido de novidade.

Fugindo da terra arrasada, o Portishead preencheu de forma surpreendente o clichê da reinvenção, abandonando a precisão dos primeiros discos para formas abertas, sujas e industriais. Na verdade seu disco mereceu pouca atenção na Camarilha, o que poderia explicar como a inabilidade de falar em demasiado daquilo pelo que se tem reverência sem soar tolo e desnecessário. No caminho contrário, mas para encontrar sucesso semelhante, o Gang Gang Dance incorporou influências, fez falsas aproximações com o formato pop e criou um disco cheio de texturas inusitadas. Tomando um caminho mais místico, o Paavoharju trouxe de volta seus detritos de world music.

No mais, o Deerhunter foi dos poucos a conseguir usar fórmulas batidas para compor canções vitais e únicas – verdadeiras. Cada uma de suas influências é óbvia e tomadas de forma tão pessoal quanto as letras autobiográficas de Brdaford Cox. Sejam as texturas kraut-lounge roubadas do Stereolab, sejam as paredes de guitarras à My Blood Valentine, o resultado foram três discos em 2008 (contando com o Atlas Sound) que confirmaram sua posição como grandes cantores/compositores. No caminho oposto o Beach House limpou o som, que agora brilha como aquela jóia da qual tiramos a poeira do tempo. Tenho dúvidas se eles conseguiram soar tão especiais em mais discos sem mudanças profundas, mas agora apenas cabe me refastelar com as melodiais mais doces do ano.

Na seara mais eletrônica, o ano foi do dubstep em suas múltiplas variações e misturas. Testemunhamos um número significativo de álbuns que vieram libertar o gênero da limitação dos singles e eps. Ainda assim, o que se verificou foi muita inconsistência e os melhores momentos ainda continuaram nos pequenos lançamentos de um Martyn ou TRG como no passado já estiveram com Rustie & Co. A exceção ficou com o veterano The Bug que dá uma lição de construção de álbuns: mesmo que nem todas as faixas tenham o mesmo nível, a coesão do projeto e a forma como ele utilizou o idioma do dubstep dentro de seu próprio estilo, sem ceder aos modismos que levavam à Alemanha e músicas engessadas. Artistas como Dusk + Blackdown e Zomby fizeram álbuns que apenas servem para destacar pérolas isoladas, não tendo fôlego para audições inteiras.

Em terreno parecido, mas ainda devendo seus méritos à tradição do hip-hop instrumental, o Flying Lotus mostrou suas cartas para ser muito mais que mero herdeiro de J Dilla ou sucessor de Madlib/Scott-Herren.

Já tinha esquecido quão bela é a voz de Erykah Badu. Suas pretensões a diva mística sempre me cansaram em demasia mas em 2008 ela voltou como desconstruindo funk, soul, R&B e hip-hop em faixas pungentes e fraturadas, tomando de vez o título de grande dama da música negra contemporânea sem precisar macaquear as cantoras do passado para ganhar destaque.

Em meio a tanto minimalismo no tecno e na house, apenas Lindstrom, conseguiu transformar em álbum suas habituais coleções de faixas. Digno de nota foi ter alcançado isto quando ele expandiu suas composições de forma supostamente perigosa, como se faixas que pareciam tímidas e insípidas em curta duração ganharam ressonância e vitalidade ao se prolongar no tempo. Convicção que ele deve ter alcançado em algumas de suas remixes de seu próprio trabalho.

***

Pela própria limitação da lista, nomes fortes ficaram de fora, merecendo destaque as canções de Juana Molina, Kasai Allstars, Atlas Sounds, High Places, Kanye West, TV On The Radio e Lil Wayne; as desconstruções do Fuck Buttons, Gavin Bryars, Aethenor, Ryoji Ikeda, Astral Social Club, Bird Show, Kingdom Shore, Koen Holtkamp, (VxPxC), A. Jarvis e da Blevin Blectum; para não esquecer do ruído do Dead Letters Spell Out Dead Words, Xela, Cloaks, Burning Star Core, Datashock, Fessender, The Stranger, Kyle Bobby Dunn, Stephan Mathieu, The Fun Years; a classe do Charlemage Palestine, as sinfonias espaciais do Murcof, o Brasil solar dos Mestres da Guitarrada e por último, mas muito importante, a coletânea Soundboy’s Gravestone Gets Desecrated By Vandals que serviu para provar que Shackleton ainda vai lançar um grande álbum. Que 2009 siga na mesma toada, pois foi revigorante acompanhar tantos bons sons neste primeiros meses de Camarilha dos Quatro. (Marcus Martins)

29
Dez
08

Melhores de 2008: Discos – Thiago Filardi

flying-lotus-21

(em ordem de preferência)
1. Flying Lotus – Los Angeles (Warp)
2. Portishead – Third (Universal Island/Mercury)
3. The Caretaker – Persistent Repetition of Phrases (Install)
4. Dusk + Blackdown – Margins Music (Keysound)
5. William Parker – Double Sunrise Over Neptune (AUM Fidelity)
6. John Butcher – Resonant Spaces (Confront)
7. Zomby – Where Were U in ’92? (Werk Discs)
8. The Bug – London Zoo (Ninja Tune)
9. Evangelista – Hello, Voyager (Constellation)
10. Ilyas Ahmed – The Vertigo of Dawn (Time-Lag)
11. Kevin Drumm – Imperial Distortion (Hospital Productions)
12. Tom Zé – Estudando a Bossa (Biscoito Fino)
13. Autistic Daughters – Uneasy Flowers (Kranky)
14. Lil Wayne – Tha Carter III (Cash Money/Universal Motown)
15. Fuck Buttons – Street Horrrsing (ATP)
16. Guizado – Punx (Diginóis/Urban Jungle)
17. David Grubbs – An Optimist Notes the Dusk (Drag City)
18. Philip Jeck – Sand (Touch)
19. Machinefabriek – Dauw (Dekorder)
20. Antony and The Johnsons – Another World [EP] (Rough Trade/Secretly Canadian)

Ainda é possível falar no formato álbum em pleno 2008? Desde meados da década de sessenta, o LP deixou de ser uma coleção de canções e gravações para se tornar o parâmetro e objetivo fonográfico de qualquer músico ou cantor que, através de um disco de trinta a quarenta e cinco minutos de duração, teria a chance de mostrar sua visão artística por meio de um apanhado de dez ou doze canções, que seguiriam uma narrativa linear, com início, meio e fim. Pelo menos foi esse o conceito de álbum instituído pelos Beatles, Bob Dylan e os Mothers of Invention de Frank Zappa. De lá pra cá, aconteceram basicamente modificações no suporte, como o surgimento do CD e da mp3, que permitiram o armazenamento da música em formatos cada vez mais compactos. O CD estendeu a duração de um disco para até ointenta minutos, enquanto a mp3 trouxe possibilidades indefinidas de tempo, a exemplo do último EP do Autechre, Quaristice.Quadrange.ep.ae, lançado somente em formato digital e que abrange quase duas horas de música. O que 2008 demonstrou é que, mesmo com a crescente demanda de downloads e lançamentos digitais, o álbum ainda perdura como a forma mais completa e eficaz de um artista se exprimir musicalmente e de ter sua obra escutada e analisada por outros. Baixado, comprado ou emprestado, o disco é a maneira mais cômoda de se conhecer a música de alguém: não é preciso sair de casa e as mp3s trouxeram maior flexibilidade para o ouvinte, podendo este desfrutar as músicas em qualquer situação, munindo-se de um player ou iPod.

Os discos que mais chamaram minha atenção em 2008 foram aqueles que, além de trabalharem perfeitamente com o conceito de álbum – seja referente à narração ou a uma unidade sólida e coesa -, transfiguraram gênero, formas e fórmulas. Como, onde e quando encaixar as músicas de Flying Lotus, Portishead e The Caretaker? Talvez um dos textos da Camarilha que mais gostaria de reescrever é o de Los Angeles, do Flying Lotus (AKA Steven Ellison). Não que eu não tenha entendido o disco à época, mas Los Angeles é uma obra que exige audições repetidas e uma ligação afetuosa. Eu errei quando disse que sua música não parecia com a de Madlib, J Dilla e Prefuse 73. O que há de mais genial no projeto de Ellison é o fato dele tomar como ponto de partida a estética hiphopiana fragmentada desses produtores e levar ao extremo a utilização de samples e colagens. Eu acertei quando disse que Ellison era um dos produtores mais distintos da nova geração: sua batida, única, eclética e vigorosa, se encaixa perfeitamente às evocações atemporais dos samples e das texturas sonoras. Los Angeles pode servir também como uma resposta à onda oitentista que toma conta da música contemporânea: o disco é permeado de sintetizadores e tanto a arte gráfica quanto o conceito musical remetem a um universo futurista. Mas ao contrário da corrente atual, Los Angeles engloba estilos diversos (hiphop, eletrônica, funk, soul, jazz, samba, etc) dentro de um caldeirão musical rico e complexo, sempre posicionado em direção ao futuro e à novidade. Los Angeles é também, ao lado de outros dessa lista, como Resonant Spaces e Sand, o disco que mais estuda o bojo de texturas propiciado pela tecnologia vigente. São chiados de vinil somados a batidas concisas e malemolentes, samples ecléticos e vocais singelos, que criam uma profusão densa e quase impenetrável de sons belos e inefáveis. Los Angeles é o meu disco do ano não apenas porque, dentre todos, é o que mais me tocou e me emocionou, mas também porque audições subseqüentes revelaram novas inflexões e reflexões, novos encaixes musicais e novos detalhes.

Outro disco que dialoga com Los Angeles no âmbito da textura, mas de um modo diferente, é Persistent Repetition of Phrases do Caretaker. Em que gênero inscrever a música do Caretaker? Assim como Philip Jeck, James Kirby (que também lançou o soturno e intrigante Bleaklow pelo epíteto The Stranger) explora e sampleia vinis antigos e seus sons mais remotos e recônditos para efeito aterrador, transportando o ouvinte para lugares passados e dimensões ocultas – um disco feito de memórias antigas e alheias para impregnar na nossa. No quesito hauntology, Persistent Repetition of Phrases é o maior feito porque além de ter criado uma música totalmente nova através de 78 rotações esquecidos e que remontam ao período entreguerras, Kriby montou um disco que é brilhante do início ao fim, com melodias que colam na mente do ouvinte. O álbum de Philip Jeck é tão bonito e assustador quanto Persistent, porém deixa claro que sua maior preocupação é em relação a textura e ao efeito auditivo que a mesma pode causar no ouvinte. Sand é cheio de cortes abruptos e, ao contrário de Persistent, está menos enfocado na beleza que na pura qualidade sensorial da música. Já Other Channels, do Advisory Circle, dá continuidade aos lançamentos esporádicos do selo Ghost Box e também se situa numa esfera mais grudenta da hauntology, reportando a uma época bem específica: os anos 60 na Inglaterra. Portanto, muita library music e vozes importadas de programas extintos da BBC. Assim como Flying Lotus, essa tríade se utiliza de uma música do passado para criar sons novos, indefiníveis e ampliar o leque de combinações e contrações musicais do século XXI.

Das voltas mais aguardadas, o Portishead foi a que trouxe resultados mais inesperados. Partindo de sua lógica do passado, que consistia em cruzar a batida do hiphop com a voz soturna de Beth Gibbons e a pegada rock da guitarra de Adrian Utley, o Portishead foi além: Geoff Barrow buscou timbres e programações de bateria nos discos inovadores do Silver Apples e Utley timbres de guitarra no Sunn 0))) e no OM. Pouco restou dos scratches e das batidas letárgicas dos álbuns anteriores – só permaneceu a sempre bela e melancólica voz de Gibbons. Para os saudosistas do trip hop, Third foi uma decepção; para aqueles que ansiavam por uma renovação estética da banda e da música pop, um dos grandes discos do ano. Ainda na seara do pop/rock, Carla Bozulich deu prosseguimento ao seu projeto Evangelista e gerou um dos discos mais perturbadores e viscerais do ano: Hello, Voyager. Acompanhada de uma banda, ela destilou canções poderosas e autodestrutivas, através de uma voz única e um estilo de roqueira machona e mal-amada, lembrando cantoras e cantores do porte de Patti Smith, PJ Harvey e Nick Cave.

No jazz, 2008 proporcionou, pelo menos, dois discos de tirar o fôlego: Resonant Spaces do John Butcher e Double Sunrise Over Neptune do William Parker. O primeiro é mais um estudo aprofundado e impressionante do saxofonista inglês pelo mar de texturas cabíveis ao seu instrumento e os diferentes modos como o mesmo pode ser gravado e processado. Se na eletrônica, quem vem trazendo novas dimensões espaciais para a música é Martyn e Flying Lotus, no jazz e na música de improvisação, o nome é John Butcher. O segundo é possivelmente o disco mais poético, empolgante, pluralista e bonito do ano. William Parker fez dessa apresentação um grande encontro de culturas, formas musicais e visões artísticas distintas; o resultado é inigualável, uma união inesperada de sons e gêneros que transpira música e exsuda belíssimas melodias – algo que só a mente genial e congregadora de Parker seria capaz de conceber. Outros lançamentos a destacar: o homônimo disco do quarteto francês-norueguês de improvisação, Dans Les Arbres, e 17 Musicians in Search of a Sound: Darfur, de Bill Dixon, que, assim como Double Sunrise, também foi gravado no Vision Festival.

2008 foi o ano do dubstep se firmar também como um gênero de álbum e isso se deu graças aos discos de Benga, Scuba, iTal tEk, Distance, Starkey e outros. Foi igualmente o ano em que o gênero assimilou definitivamente a estética dub-techno do Basic Channel, com Aerial do 2562 e Nomad do Headhunter. Mas o grande destaque do dubstep foi mesmo Margins Music da dupla Dusk + Blackdown, que fez um disco resumitivo de toda a cena underground londrina, dando mais vazão à cultura indiana e ao grime. Com programações de bateria alucinantes, participações inspiradíssimas, arranjos espetaculares e um ecletismo admirável, Dan Frampton e Martin Clark produziram uma verdadeira odisséia marginal da música londrina. Quem dialogou diretamente com Margins Music foi London Zoo do The Bug, porém priorizando a conexão Jamaica, com muito dancehall, e com tendências ao mainstream – o que não tira absolutamente nenhum mérito seu. London Zoo e Margins Music foram meus coqueluches desse ano e funcionaram como barris de pólvora, prontos para explodir a qualquer momento que eu quisesse vibrar, dançar ou simplesmente mexer a cabeça. Foram os discos que, mesmo com suas pequenas irregularidades e imperfeições, se mantiverem grandes o suficiente para me cativarem e pedirem audições atrás de audições. O mesmo aconteceu com Where Were U in ’92? do Zomby, um produtor diretamente ligado ao dubstep, mas que fez esse disco calcado no jungle e no hardcore, e que é vibrante e criativo do início ao fim – por isso sua inclusão. Quem poderia ter entrado facilmente na lista é Shackleton e cia. com o lançamento derradeiro da Skull Disco, Soundboy’s Gravestone Gets Desecrated by Vandals, que só não fez parte da lista por causa de critérios pessoais, já que se trata de uma compilação de EPs previamente lançados. E compilação, na minha lista, infelizmente não vale.

O formato singer/songwriter me parece cada vez mais desinteressante, porém, esse ano deu à luz três discos que transgridem completamente essa tradição. É o caso de The Vertigo of Dawn de Ilyas Ahmed, Uneasy Flowers do Autistic Daughters (AKA Dean Roberts) e An Optimist Notes the Dusk do David Grubbs (ex-Bastro, Bitch Magnet, Gastr del Sol, Squirrel Bait e Red Krayola). O primeiro foi construído a partir de células melódicas e riffs de violão que são repetidos infinitamente pela voz frágil e as mãos habilidosas de Ahmed. The Vertigo of Dawn é uma mistura perfeita da espiritualidade oriental com sensibilidade de cancioneiro blues ocidental. Os dois últimos vêm de outra tradição: a do pós-rock. Dean Roberts é neozelandês e mais conhecido por sua carreira solo e sua ex-banda, o Thela. O Autistic Daughtes trabalha em torno da estrutura da canção, mas de uma maneira completamente distinta de como é feita atualmente no rock. Uneasy Flowers é altamente experimental, possui produção detalhista e edição diligente; as melodias de Roberts são esquisitas e quase desconexas, mas de uma beleza ultrajante, assim como sua voz, triste e flutuante. A percussão é jazzística e tanto o clima geral quanto o uso da guitarra remetem ao pós-rock de Bark Psychosis e Piano Magic do início. Reparem na última e maravilhosa “Hotel Exeter Dining Room”, que cresce e se torna mais intensa a cada segundo, mas nunca chega a um ápice – nesse ponto, a fórmula inversa do pós-rock. An Optimist Notes the Dusk é mais um trabalho poético e delicado de David Grubbs – talvez um dos poucos nomes confiáveis no rock contemporâneo -, que sempre encanta com seu estilo único, extremamente melódico, sereno e paciente.

No ambient, noise e drone sempre muita coisa interessante e os grandes destaques do ano foram Imperial Distortion do Kevin Drumm, Street Horrrsing do Fuck Buttons e Dauw do Machinefabriek, três discos completamente diferentes entre si, mas que têm o apreço por sonoridades estranhas em comum. Imperial Distortion foi o disco mais exigente do ano, requerendo paciência e resignação ao ouvinte, já que é feito de dois discos de setenta minutos em que, muitas vezes, pouca coisa acontece. Mas quem se atreve a penetrar nesse universo, descobre uma infinidade de sons bonitos, misteriosos e assustadores. “We All Get It in the End”, última faixa do segundo disco é um dos grandes momentos do ano, com sua variação de drone que vai ficando cada vez mais bonito até ser tomado por um chiado quase insuportável; e no momento em que estamos nos acostumando a esse chiado, outra interrupção brusca: o silêncio. Street Horrrsing segue a tradição do Black Dice de fazer música noise grudenta e quase “acessível”. A dupla Fuck Buttons criou um turbilhão denso de sons estruturados em várias camadas de drones, motivos rítmicos estimulantes, vocais agressivos e melodias singelas, até infantis, como na extraordinária “Sweet Love for Planet Earth”. Machinefabriek (AKA Rutger Zuydervelt) se mantém como um dos artistas mais prolíficos da contemporaneidade, totalizando esse ano um número aproximado de quinze lançamentos, entre CDs, LPs, CD-Rs, splits, sete polegadas, etc. Não só isso: Zuydervelt vem afirmando uma das estéticas mais singulares e criativas da atualidade e fazendo música de todas as maneiras possíveis: seja através de instrumentos acústicos, elétricos, processadores eletrônicos, laptops, cassetes, objetos do dia-a-dia, field recordings, etc. A edição acabou sendo tão importante quanto os materiais e os resultados foram os belíssimos Dauw e Rusland – este último tão bom e fascinante como o disco aqui presente. Outros lançamentos a considerar: Solar Bridge do Emeralds, Radioland do Stephan Mathieu, Kiri No Oto do Lawrence English, Barn do Blacksand, que por pouco não entrou na lista, e Second Live Salvage do Russell Haswell, outro forte candidato, mas que foi deixado de lado por conter apresentações de até oito anos atrás.

No rap é preciso mais uma vez reiterar que o ano foi de Lil Wayne e de mais ninguém. Pouca coisa ouvi do gênero e pouca coisa chamou a atenção, a não ser Wayne, que mesmo sendo um grande estereótipo do rapper americano comum, possui um talento fora do normal e fez esse tour de force de puro vigor e genialidade chamado Tha Carter III. Com uma percussão fortíssima, hits instantâneos, letras sacanas, rimas perfeitas e interpretações que perpassam o lugar-comum do hiphop contemporâneo, regadas de feeling e energia, Lil Wayne gerou um disco que há muito tempo não se ouvia no rap mainstream americano: intenso, pesado, inteligente, robusto e poderoso. Tha Carter III contém, inclusive, a grande balada rock do ano, “Shoot Me Down”, com participação de D. Smith. O sucesso lhe é mais que merecido. Outro lançamento notável e surpreendente foi New Amerykah de Erykah Badu, que migrou do R&B e Neo-Soul irritantes de seus discos anteriores para um hiphop-soul-funk da melhor estirpe, contando ainda com a produção de Madlib em algumas faixas.

Na eletrônica, a raster-noton continuou seu reinado de selo mais inovador da década e ofereceu dois dos lançamentos mais instigantes do ano, unitxt do alva noto e Test Pattern do Ryoji Ikeda, ambos realizados inteiramente através de um programa que transforma dados do computador em arquivo de áudio. Autechre, Fennesz e .snd retornaram com discos igualmente consistentes e estimulantes, mas que comparados às suas discografias, não trazem muita novidade. Claro Intelecto lançou o bom Metanarrative, com fortes influências do Basic Channel, assim como quase tudo do selo Modern Love. Mika Vainio do Pan Sonic, novamente sob a alcunha de Ø, produziu o interessante Oleva. Neil Landstrumm e Shed fizeram discos ótimos, mas um pouco cansativos, que dialogam com o dubstep e conjecturam novas formas de fazer techno e música eletrônica. Dois nomes a continuar acompanhando de perto.

A música brasileira viu mais uma vez as forças criativas se concentrarem em São Paulo, na crescente cena eletrônica. Além de Curumin e São Paulo Undergound, a cena deu à luz o que é, possivelmente, seu melhor álbum até hoje e uma das estréias mais revigorantes da música brasileira em muito tempo: Punx do Guizado, projeto do trompetista Gui Mendoça, e que conta com a participação do já citado Curumin, Maurício Takara, Maurício Alves do Mestre Ambrósio, e Régis Damasceno e Ryan Batista do Cidadão Instigado. Ou seja, une todos os nomes mais talentosos do Brasil dos últimos anos. Mas o mérito dessa pequena pérola deve ser creditado também ao próprio Gui, que além de arregimentar um excelente grupo, destilou belas melodias em seu trompete e realizou uma produção quase impecável, cheia de esmero, texturas interessantes e batidas concisas. Outro grande disco foi Estudando a Bossa, do genial Tom Zé, que se aproveitou do ensejo de comemoração da Bossa Nova para criar um álbum cheio de referências ao movimento, rimas impagáveis e brincadeiras em torno da estrutura da canção bossanovista. É aquele disco que só Tom Zé poderia fazer e que, se feito por outro, poderia gerar um fracasso cabal. Vale mencionar também o álbum duplo Música Magneta dos Mestres da Guitarrada, que vem em época propícia, quando grupos como Do Amor e Cravo Carbono revitalizam gêneros do norte brasileiro, a exemplo do carimbó. Uma triste notícia em 2008 foi o fim do grupo Os Subterrâneos, que foi um dos grandes nomes a despontar no underground carioca nos últimos anos, transpirando ecletismo e bom gosto. Apesar da perda inestimável, 2009 ainda deixa fortes expectativas para a música brasileira. (Thiago Filardi)

27
Dez
08

Melhores de 2008: Discos – Ruy Gardnier

kevindrumm2

essenciais:
Crystal Antlers, EP (sem gravadora)
Department of Eagles, In Ear Park (4AD)
Fennesz, Black Sea (Touch)
Kevin Drumm, Imperial Distortion (Hospital Productions)
Portishead, Third (Island)
William Parker, Double Sunrise Over Neptune (AUM Fidelity)

outros grandes discos de 2008:
2562, Aerial (Tectonic)
Anthony Braxton/Milford Graves/William Parker, Beyond Quantum (Tzadik)
The Caretaker, Persistent Repetition of Phrases (Install)
Christina Carter, Masque Femine (Many Breaths)
Fuck Buttons, Street Horrrsing (ATP)
Guizado, Punx (Diginóis/Urban Jungle)
Kieran Hebden & Steve Reid, NYC (Domino)
Maryanne Amacher, Sound Characters 2 (Tzadik)
Mestres da Guitarrada, Música Magneta (Candeeiro)
Nico Muhly, Mothertongue (Bedroom Community)
Shackleton, Appleblim, Peverelist e outros, Soundboy’s Gravestone Gets Desecrated by Vandals (Skull Disco)
Spring Heel Jack, Songs & Themes (Thirsty Ear)
Vampire Weekend, Vampire Weekend (XL)
The Very Best, Esau Mwamwaya & Radioclit Are the Very Best (Ghettopop/Green Owl)

Como encarar 2008? Olhando para a lista acima, vemos diversos artistas de áreas bastante distintas que, de alguma forma, tentam encontrar formas e/ou sonoridades novas e inventivas, quase sempre dentro de tradições já por demais saturadas de décadas e infinidades de artistas já lendários que, de um jeito ou outro, esgotaram parte do terreno. É claro que surgem novas frentes de pesquisa e criação, como está sendo com o dubstep há alguns anos, com o technodub, com o techno minimalista, em alguma medida com o noise, mas são lugares que, pelo menos olhando agora, permanecem fixos em seus campos de experimentação, confortáveis em seus guetos e criando pequenas revoluções dentro eles. No entanto, é um panorama muito distinto do final da década passada, quando a gravadora Warp, através de artistas como Aphex Twin e Autechre, foi palco de uma mudança radical de paradigma tanto dentro da música eletrônica quanto no terreno do pop/rock (a própria guinada do maior grupo de rock da atualidade, Radiohead, a partir de Kid A, deu-se em função de uma reflexão sobre a assim chamada IDM). Do outro lado da cadeia, o pós-rock questionava a estrutura da canção e propunha ambiências, instalações temporais em que timbre e intensidade valiam mais que melodia (e que, de certa forma, por seu apelo rock, abriu os olhos de muita gente do rock para campos como a música improvisada, o doom drone e diversos gêneros afins). Não é algo semelhante o que vemos hoje. O que temos atualmente é um período de consolidação e de reciclagem, às vezes de aperfeiçoamento, de algumas invenções ocorridas há alguns anos cujo frescor ainda não se esgotou. Nesse sentido, Kala de M.I.A. é o disco mais representativo desse momento – e um discaço por não apenas apresentar o impasse mas refestelar-se nele de maneira festiva, criando uma colcha de retalhos de ritmos terceiro-mundistas e prenunciar a revolução dos maltrapilhos por vir. Em 2008, dois bons discos que de certa forma se aproveitam do impasse sem dar passos à frente são Los Angeles do Flying Lotus e Baby, It’s Cold Inside do duo The Fun Years. O primeiro é basicamente uma aplicação mais soul e funky das experiências com andamento e polirritmo de artistas como Prefuse 73 e Autechre, com um inegável senso de dinâmica interna do disco e um ecletismo de proposta e repertório. O segundo é uma mistura tão perfeita de drone e pós-rock que chega até a parecer safado por momentos, o que, se não é uma crítica por si mesmo, ao menos aponta para o fato de que a reciclagem bem feita não substitui a criação.

Das duas frentes que mais fizeram a cabeça da imprensa alternativa, todas parecem situar seus campos de referência não no passado próximo, mas no revival de 20 ou 30 anos atrás. A DFA deve achar que discopunk já deu e decidiu apostar em simplesmente disco. Mas ali onde artistas como The Rapture se esforçavam para construir um novo som a partir de um antigo, Hercules and Love Affair só varia de suas referências nos padrões de produção, mimetizando o que seria uma colaboração entre Giorgio Moroder e Jimmy Somerville (ainda que Antony Hegarty seja infinitamente superior ao cantor do Bronski Beat). E o folk, que mantinha uma certa limpidez quase bossanovista que o distanciava dos retoques country mais explícitos e típicos dos anos 70, mergulhou de vez no revival do som da terra. Grupos celebrados como Fleet Foxes e Shearwater têm como referência Crosby, Stills, Nash & Young e America muito mais que grupos como Espers se baseavam no folk psicodélico britânico. E a volta com tudo do tecnopop e do synthpop, sofisticado e singelo ou podrão e divertido, macaqueia desavergonhadamente uma das facetas mais bregas dos anos 80. De alguma forma, todos esses três caminhos apostam em saturação não para combater a saturação, mas apenas para ficar na crista da onda.

Não escolhi esses discos como uma resposta a um estado de fato. Escolhi porque são discos que me acompanharam ao longo do ano e dos quais mais guardarei memórias positivas, seja pela euforia ao ouvir, pela recorrência das audições e pela lembrança das melodias, dos conceitos, das sonoridades na cabeça. Pelo menos três deles, The Very Best, Guizado e Fuck Buttons, apostam na reciclagem em alguma medida, mas o fazem sem inscrever seus sons numa seara já pré-definida. Os outros, me parece, ou desenvolvem seu som particular e tão pessoal que não faz sentido inscrever em gêneros (Fennesz, Maryanne Amacher, Kevin Drumm, Mestres da Guitarrada, Christina Carter) ou tentam alguma pulsação nova em seus terrenos de predileção (Department of Eagles, Nico Muhly, Spring Heel Jack, Vampire Weekend). Portanto, de alguma forma, estabelecem uma relação com a novidade – ainda que alguns possam não ver novidade em alguns citados, ou não achar suficiente a novidade apresentada.

Primeiro o pop, terreno ao qual todos prestam mais atenção, pela acessibilidade, pelo público mais amplo, mas também e principalmente por ser o terreno em que mais se pode equacionar invenção e popularidade. O Portishead fez com Third seu melhor disco e a grande surpresa do ano, por ressecar seu som a ponto de desapontar os fãs do grupo (mesmo Maurício Valadares, que não é nenhuma dondoca, achou Third a grande decepção do ano), por pesar seu som a ponto de parecer mais com uma banda de doom do que um megagrupo pop e em especial por apostar em batidas experimentais e arranjos mínimos, cheios de espaços que transformam silêncio em psicodelia. Não saiu de meu Sony Walkman desde que entrou. Outra presença permanente nele foi o ep dos Crystal Antlers, um ataque sônico inesperado que vai na contracorrente do rock abrasivo e aposta em arranjos luxuosos e cheios quando vários grupos dignos de nota pegam a deixa dos Liars e se articula entre lo-fi e no-wave (Sic Alps, The Hospitals) ou renovam Jesus & Mary Chain brincando com Ronettes e distorção (Vivian Girls, Crystal Stilts). Dois discos que se ouvem inteiros e fazem perder o fôlego. In Ear Park do Department of Eagles chega bem perto, apesar de funcionar melhor na primeira metade. Em todo caso, foi o refúgio de quem buscou pop elegante e elaborado, doce e levemente vanguardista. Vampire Weekend foi um dos hypes do ano, e todo hype incomoda, enche o saco até. Mas o primeiro disco do grupo, em matéria de pop-indie-juvenil, é um disco à altura do primeiro dos Strokes e do Supergrass, ou seja, um daqueles que a gente gosta inicialmente, tem birra logo depois e mais tarde volta redimido. “Walcott”, “Cape Cod Kwassa Kwassa”, “Oxford Coma”, são muitas canções boas pra teimar…

No terreno cascudo dos barulhos e dos zunidos, foi um ano muito bom. Quem gosta se fartou com Prurient, Pocahaunted, Burning Star Core, Matthew Shipp + J. Spaceman, Carlos Giffoni, Fun Years, Wolf Eyes, Merzbow, Emeralds, Stephan Mathieu e, em chave mais ambient eletrônica, com o relançamento dos quatro discos do Gas na caixa Nah und Fern. A grande graça do gueto noise é ao mesmo tempo sua limitação, a proliferação de discos e artistas e colaborações, então nunca se dá para ouvir tudo ou dar a mesma atenção a todos os discos. Mas Imperial Distortion é facilmente um destaque, por seu conceito perfeito e pela incrível sutileza dos sons conseguidos, que podem transmitir, dependendo do momento e da disposição de cada um, tanto um sentimento de calmaria quanto um terror sem precedentes. De certa forma, é um disco que caminha de mãos dadas com Third, como talvez os dois melhores do ano. Fennesz, com Black Sea, está cada vez difícil de ser encarado como noisician, dada a porcentagem de momentos eufônicos em seus discos recentes. Mas pouco importa em que área inscrevê-lo, ainda será um dos grandes artistas contemporâneos e um dos mais geniais compositores e timbristas em atividade. De Sound Characters 2 de Maryanne Amacher saíram os sons mais assustadores e os barulhos mais inusitados do ano, servindo como alternativa ao noise non-stop já meio desgastado em matéria de idéias, texturas e timbres. Christina Carter, que faz parte dessa área, fez um disco quase unicamente só com voz, Masque Femine, é o que conseguiu foi simplesmente um dos mais inventivos e ainda assim vulneráveis registros da voz feminina. Transforma canções conhecidas em narração, em fala, mas usa volume e as modulações de sua voz de uma maneira tão incrível e frágil que o que a gente considera como não-música passa instantaneamente a música. E, claro, em matéria de sons fantasmáticos de vinil, tivemos Philip Jeck, mas a estrela do ano foi a volta de The Caretaker, com a pepita que é Persistent Repetition of Phrases, um disco que quase se odeia, de tal forma que as melodias trabalhadas grudam na cuca como se fosse o som de nosso subconsciente, sempre latente, de vez em quando atualizado.

Quatro discos que podemos colocar sob a designação ampla de jazz. Primeiro, o melhor e mais tipicamente jazz, Double Sunrise Over Neptune. É um disco de beleza radiante e instantânea, e a surpresa não é porque une tradições do leste e oeste de forma tão coesa, mas simplesmente como ele consegue existir e exalar tanta exuberância, tanto frescor. Se esse disco já não fosse suficiente para William Parker ser o nome do ano em matéria de jazz, ele ainda participou de um encontro lendário e supremo de free jazz, atuando como relativo coadjuvante para os talentos de improvisação de Anthony Braxton e Milford Graves em Beyond Quantum, um disco que nos lembra como a instrumentação simples e básica do jazz (um metal, baixo e bateria) pode criar tanto barulho e pressão. Em chave mais suingante, temos a estréia em disco do brasileiro Guizado e a nova, e talvez definitiva, colaboração entre Steve Reid e Kieran Hebden. Os dois discos se ouvem muito bem, porque misturam jazz dançante com eletrônicos, talvez a partir da mesma matriz conceitual de Hebden com seu Four Tet: groove forte, batidas muito presentes, elementos de barulho e algumas belas melodias para contrabalançar. Por fim, em chave mais amena, o Spring Heel Jack (ajudado mais uma vez por um dream team de músicos de jazz) fez com Songs & Themes seu disco de beleza mais contida, mas tão emocionante quanto seus melhores momentos free, e extremamente inventivo nas diferentes formulações de composição e de dinâmica entre instrumentos.

A passagem para o álbum é sempre um drama para os ritmos mais dançantes, e com o dubstep não é diferente, mas esse ano viu alguns bons discos, como as estréias em LP de Dusk + Blackdown, Scuba (que deve no entanto ser lembrado mais pelos remixes que seu disco teve do que pelo próprio disco), Benga… Mas o ano é sobretudo do talhadíssimo Aerial, do projeto 2562, do holandês Dave Huismans, e da coletânea final da Skull Disco, Soundboy’s Gravestone Gets Desecrated by Vandals. Aerial é um desses discos que se ouve de cabo a rabo, cativando atenção sentado, pelas minúcias de construção, ou dançando, pelo pique que inicia a partir de “Morvern” e só acaba quando o disco chega ao final. Para variar, Shackleton é o grande destaque de Soundboy’s Gravestone…, mas cada vez as faixas de Appleblim se tornam mais interessantes, além de que alguns dos remixes presentes no disco 2 são bastante bons. O mesmo não se pode dizer do disco de remixes de Música Magneta, dos Mestres da Guitarrada, em que os produtores mais erram do que acertam ao tentar fazer batidas para tornar MAIS empolgantes as melodias de guitarra dos mestres. Mas o disco 1 é só beleza, dançante ou não, mas sempre com vivacidade surpreendente. Completando os discos em que o ritmo e a dança são predominantes, temos The Very Best, uma dupla que lançou uma mixtape surpreendente no final do ano, que nos fez rir sampleando Vampire Weekend e devolvendo a melodia de guitarra de “Cape Cod Kwassa Kwassa” de volta à África, ou tomando toda a base de “Paper Planes” e “Boyz” de M.I.A., ou relendo “Birthday” dos Beatles ou dando tchau com Michael Jackson. Certamente o disco mais musicalmente bem-humorado do ano.

Duas quase anomalias completam minha lista: Mothertongue de Nico Muhly e Street Horrrsing da dupla britânica Fuck Buttons. O primeiro por trabalhar, e de um jeito muito estranho, formas musicais totalmente heterogêneas e conseguir deixá-las fazer sentido umas com as outras apenas no nível do conceito e da composição. Que outro disco poderia ao mesmo tempo parecer Alva Noto (a primeira trilogia) e folk (a terceira)? Os Fuck Buttons estão escancarando a mesma porta aberta pelo Black Dice, estruturando o noise em formas mais definidas e acessíveis, modelando o free form até achar modelos de composição novos e surpreendentes. Street Horrrsing não chega a Load Blown, mas é um grande disco com proposta e som autênticos e cheios de desenvoltura.

Lista é lista e não tem por que chorar a seleção de 20, mas gostaria de mencionar o disco do Beach House como forte competidor (sobretudo diante da produção folk do ano) que ficou sobrando no corte final, assim como Faces in the Rocks, de Mariee Sioux, que certamente estaria entre os essenciais de minha lista caso tivesse sido lançado em 2008 e não em outubro de 2007 numa gravadora pouco badalada. E, claro, a bela coletânea Love Is Overtaking Me. de inéditos de Arthur Russell, lançados esse ano mas gravados muitos e muitos anos atrás. Alguns EPs dignos de respeito: Animal Collective, The Field, Samiyam, Antony & the Johnsons, Four Tet, Zomby… (Ruy Gardnier)

27
Dez
08

Melhores de 2008: Músicas – Lista Geral

antonyshackleton2

Aqui está um apanhado de músicas presentes em mais de uma lista individual, e que para todos os fins conta como lista coletiva de melhores da Camarilha dos Quatro:

4 citações
Antony & the Johnsons “Shake That Devil” (Rough Trade/Secretly Canadian)
Shackleton “Death Is Not Final” (Skull Disco)

3 citações
Darkstar “Need You” (Hyperdub)
Department of Eagles “No One Does It Like You” (4AD)
Mestre Curica “Carimbó pra Maria” (Candeeiro)
Portishead “Machine Gun” (Island)

2 citações
2562 “Morvern” (Tectonic)
Animal Collective “Water Curses” (Domino)
The Bug “Insane” (feat. Warrior Queen) (Ninja Tune)
Clouds “Elders” (Jahtari)
Clouds “Timekeeper” (Ramp)
Deerhunter “Agoraphobia” (Kranky/4AD)
Evangelista “Truth Is Dark Like Outer Space” (Constellation)
Fennesz “Glass Ceiling” (Touch)
Flying Lotus “Robertaflack” (feat. Dolly) (Warp)
Food for Animals “Shhhy” (HOSS)
Hercules and Love Affair “Blind” (DFA)
Juana Molina “Un día” (Domino)
Lil Wayne “A Milli” (Cash Money/Universal Motown)
Lykke Li “Dance, Dance, Dance” (LL)
Madonna “Candy Shop” (Warner)
Martyn “Suburbia” (Apple Pips)
Ricardo Villalobos “Enfants (Chants)” (Sei Es Drum)
TRG “Time Is Now” (Immerse)

25
Dez
08

Melhores de 2008: Músicas – Bernardo Oliveira

juana_dia_site_400

Ao compilar o que de melhor escutou no ano, acho que o crítico não deveria se render à paranóia da totalidade, nem à régua do tempo, pois ambos os critérios são negligentes: ora porque o “melhor” não emerge necessariamente da quantidade, ora porque o esquadro do “ano” não dá conta da pluralidade. Não um ano em faixas, mas as faixas de um ano… Por isso resolvi expor minha lista da seguinte maneira: primeiro, 10 textos que analisam brevemente 10 tracks lançadas em 2008, absolutamente indispensáveis; depois, as 15 restantes são analisadas em textos menores. São 25 escolhas pessoais, mas que buscaram como princípios básicos a novidade, a criatividade e o arrojo formal em relação ao que foi produzido em 2008. Escolhi também uma segunda (e até mesmo terceira) faixa que completa ou se relaciona de alguma forma com a faixa escolhida. A lista está disposta por ordem de preferência.

1. “Machine Gun” – Portishead
“The Rip” – Portishead

Nunca me rendi ao Portishead, nem a Dummy, na minha opinião um álbum superestimado que, na melhor das hipóteses, pode ser considerado um bom álbum, nem ao segundo e epônimo disco. Mas dizem as más línguas que Geoff Barrow se internou em casa junto a seus discos de krautrock, pesquisou, estudou, criou… E obteve como resultado não só o melhor disco do ano (a ver), como também uma track que é, desde já, candidata a uma eminente lista da década. O curioso é observar que a idéia não é inédita: em 69, Jimi Hendrix gravou sua “Machine Gun”, cujo conceito musical também remetia à onomatopéia do som das armas. Mas o ritmo marcial, as modulações de timbre da bateria, a belíssima melodia que recorta docemente o instrumental bárbaro, tudo em “Machine Gun” demonstra duas habilidades admiráveis: excelência musical e vigor conceitual. Se a letra da canção ainda cincunda o universo deprê-chic com o qual o trio se impôs nas paradas underground do mundo, envolvida pela música grandiosa ela adquire outra perspectiva, mais própria, eu diria… “The Rip”, do mesmo álbum, também se destaca por motivos semelhantes: como canção, é das mais belas, mas seu arranjo não fica atrás, com o violão meio tosco em crescendo, bateria e teclados minimalistas. Duas faixas que se interpenetram, simbolizando o que de melhor se produziu no ano.

2. “Un día” – Juana Molina
“The Healer” – Erykah Badu

Quando indiquei o álbum de Juana Molina para o mês de novembro, o Ruy se admirou que eu escolhesse uma cantora cujo trabalho estaria ligado a uma exploração eletrônica do folk, graças a uma suposta antipatia de minha parte em relação a este gênero tão decantado e cultivado. Ele estava certo quanto ao trabalho de Molina e quanto à minha antipatia. Mas eu nunca tinha ouvido nenhum álbum desta bela argentina até que Un día chegasse às minhas mãos. O fato é que, na primeira audição, a música que entra é esta “Un día”: uma voz esganiçada e imponente grita que “un día voy a ser otra distinta” e nos faz supor que algo de muito estranho está para acontecer. Uma segunda voz, sintética, repete “one day, one day”, enquanto uma quebradeira de percussões, sopros, apitos e outros elementos criam uma textura sonora imersa tanto no caos quanto na candura, distilando ameaças e carícias como pouquíssimas vezes ouvimos durante o ano. Será que Molina decreta o fim do folk em sua carreira? O restante do álbum mostrará que não, mas tendo a concordar com o Ruy de que “Un día” é daquelas canções que valem o ano, o álbum, a carreira, a família e a propriedade. Podemos até dizer que “Un día” é uma canção anômala no repertório da argentina, assim como a ótima “The Healer”, produzida por Madlib, destoa de tudo o que Erykah Badu fez em seus mais de dez anos de carreira.

3. “Golden Universe” – Ilyas Ahmed
“Nattúra” – Björk (com Thom Yorke)

Outra anomalia: mesmo considerando o extremo prodígio de Ahmed, com suas texturas calcadas em violão de aço, sua voz diáfana e modos estranhíssimos que fazem de The Vertigo of Dawn um dos álbuns do ano, “Golden universe” sobressai. Um entrelaçamento soturno de sopros, tremores extremamente graves e detalhes de kalimba e sons industriais, equilibrados com sutileza até o final inesperado, com os violões saturados, à semelhança de pratos de bateria. Mesmo comparando o trabalho de Ahmed com os primeiros discos de John Frusciante, aqui ele se destaca radicalmente de qualquer comparação. Mas vale afirmar que “Golden Universe” se parece às vezes com uma peça coltraniana, extraída dos álbuns mais difíceis como Meditations ou Stellar Regions, embora se trate de um experimento solitário, calcado na relação do artista com um arsenal de instrumentos e equipamentos de gravação e uma sensibilidade aguçada para criação de texturas sonoras. Habilidade esta que faltou a Björk em seu último álbum, mas que sobrou em “Nattúra”, faixa que dividiu com Thom Yorke, Mark Bell, Matthew Herbert e Brian Chippendale. Os rompantes percussivos, combinados a intervenções sutis dos participantes, reiteram o profundo compromisso da moça com a produção da novidade, assim como também indica o trabalho de Ahmed.

4. “João nos Tribunais” – Tom Zé
“Where You Go I Go Too” – Lindstrøm

Já me referi na Camarilha a uma certa implicância com o modo meio indiscriminado com o qual Tom Zé toca problemas de natureza teórica (por vezes, acadêmica…) em seus discos. E também de como o conceito dos últimos álbuns resvalava por vezes num anti-americanismo juvenil, ou ainda, num esquerdismo estéril (a doença infantil, como escreveu Lênin…). Ainda assim, álbuns como Com Defeito de Fabricação mantêm sua graça em virtude não só da ousadia do autor para questões propriamente musicais, como também de sua habilidade como pensador da canção e compositor. “João nos Tribunais” é uma pérola que condensa perspicácia crítica em relação ao problema que aborda, separando João como “a grande gema, a grande jóia”, mas realizando esta crítica dentro de uma formato de canção que se não pode ser chamado de original, ao menos demonstra arrojo incomum. Além de prestar esse verdadeiro serviço, desafinando o coro das celebrações estéreis em torno dos 50 anos da Bossa Nova, Tom Zé alcança momentos sublimes quando canta: “Diante do desafinado, o mundo curva-se, desova, tudo até então louvado foi jogado numa cova, o sol chocou duzentas ovas e nasceu a bossa nova.” Em outra seara, “Where You Go I Go Too” do norueguês Hans-Peter Lindstrøm demonstrou ao mundo como operar sobre um conceito muito bem definido, que tem por base outra experiência musical (no caso E2-E4, de Manuel Göttsching), à beira de se configurar como plágio, mas dando a volta por cima com a utilização inteligente dos timbres e das texturas sonoras.

5. “Timekeeper” – Clouds
“Timekeeper” – Clouds (Ras G Remix)
“Elders” – Clouds

Não sei se é motivo para comemoração, mas que o dubstep têm sido o grande bastião da experimentação nos últimos anos é inegável. Que ele tenha se expandido para territórios inesperados, como a Holanda de Martyn, só demonstra que sua linguagem não é algo propriamente inglês, mas compartilhado genericamente com artistas que de alguma forma se relacionam com a música jamaicana – não é à toa que os alemães do Rhythm & Sound são considerados precurssores do gênero… Nesta maravilhosa “Timekeeper”, produzida pelos finlandeses Tails e Dead-O, integrantes do Clouds, destacam-se tanto o amor pela música jamaicana como a fissura pela experimentação. Espectros do ritmo jamaicano, bem como de seus elementos característicos como a escaleta, misturam-se a sons de cristais tão desordenados quanto singelos, enquanto modulações inesperadas de timbre e ritmo delineiam um carrossel sonoro dos mais instigantes do ano. Tão ou mais instigante é o remix realizado pelo enigmático Ras G, que este ano lançou o inatingível Guetto Sci-Fi (possivelmente um álbum a ser reconsiderado em 2009). Noto que, além de “Timekeeper”, o Clouds produziu “Elders”, um dos riddims mais adoráveis do ano. Mas, de qualquer forma, “Timekeeper” fica sendo a minha faixa de dubstep do ano.

6. “Death Is Not Final” – Shackleton
“Rolling Raj Deep” – Dusk + Blackdown

Sam Shackleton: não há mais dúvidas que este nome marca e marcará ainda por muitos anos as listas de fim de ano. Quem se dispuser a estudar a sério o que aconteceu em termos musicais na primeira década do século XXI, deverá necessariamente se debruçar sobre o trabalho deste iconoclasta do ritmo, das texturas, do trabalho com percussões… Com nome de explorador inglês, Shackleton pode até ser arrolado na onda dubstep, mas é muito mais que isso. A cada nova track, a cada novo trabalho, ele confirma sua preponderância no cenário atual. “Death Is Not Final” é mais uma prova de sua independência radical: tambores orientais que se debatem selvagemente, até a emersão de um ritmo mais próximo do house. Quando se imagina que a faixa se tornará mais palatável, ele manipula os volumes do andamento e dos tambores, fazendo-os dialogar. Em suma, não se trata de uma faixa de dubstep: trata-se simplesmente de Shackleton. Na mesma seara, mas com menor intensidade, destaco “Rolling Raj Deep”, um bangra produzido pela dupla Dusk + Blackdown que, abusando das percussões e deslocando-as do eixo, produziram uma peça histérica e digna de nota.

7. “RobertaFlack” – Flying Lotus (com Dolly)
“Testament” – Flying Lotus (com Gonja Sufi)
“Make the Road by Walking” – Menahan Street Band

Aqueles que compactuam e aprovam a boçalidade da onda nu-soul (nu-jazz, nu-afrobeat, ou algo que corresponda a esses rótulos) não esperavam que alguns artistas mais preocupados em seguir em frente, como Flying Lotus, também se entregassem ao passado, ou melhor dizendo, a uma certa inflexão do passado, mais especificamente da soul music. Mas esta viagem ao passado não é uma viagem qualquer: ela se reveste de todas as vozes, incorporando a época, vocalizando o caos da época, os ruídos da época… “RobertaFlack” é uma faixa curta e sutil, repleta de sonoridades ao mesmo tempo palatáveis e inovadoras, mas sobretudo caóticas. A voz suave de Dolly contrasta maravilhosamente com a indistinção dos sons, sugerindo um paradoxo dos mais ricos do ano. A certa altura, faltando cerca de vinte segundos para terminar, o produtor insere a harmonia como uma guitarra distorcida, em um daqueles breves momentos que valem o ano. “Testament”, do mesmo autor, segue o mesmo caminho, desta vez contando com a voz andrógina de Gonja Sufi. Estes dois exemplos de reavaliação criativa do soul contrastam com o retrô descarado de “Make the Road by Walking”, da Menahan Street Band, sampleada por Jay Z em “Roc Boys”. Enquanto Flying Lotus recria, Menahan conserva; mas esta conservação se afigura com tanta cumplicidade e competência que fica difícil não citá-la entre as faixas do ano. Embora se deva observar que competência é adjetivo para engenheiro, não para artista…

8. “Shhhy” – Food for Animals
“Creator” – Santogold (com Switch & Freq Nasty)

Mais um animal para a extensa família: Vulture V, Rick Ra e Hy formam o trio Food for Animals, que produzem desde 2003 um hip hop iconoclasta, extremamente barulhento, saturado nos samplers e efeitos. A perspectiva do grupo sobre o hip hop soa da forma mais obtusa que ouvi em 2008, e “Shhhy” representa um corolário de seu temperamento irascível. Quero dizer: me parece que aqui está a faixa de hip hop do ano, com seu vandalismo glitch, suas pausas inacreditáveis, seu teclado repetitivo e carregado nos efeitos, além do rap certeiro de Hy. Da mesma forma, os estilo toaster de Santogold também se rende a uma dimensão glitch em “Creator”, faixa anômala dentro do contexto pop de seu álbum de estréia. Ela também conta com elementos transbordantes, mas possui um refrão bem acabado, o que não a faz mais interessante do que “Shhhy”, mas igualmente importante.

9. “Enfants (Chants)” – Ricardo Villalobos
“Sweet Love for Planet Earth” – Fuck Buttons

Assim como Shackleton, Ricardo Villalobos vem, ano a ano, se afirmando como um dos grandes artistas da música hoje. Esse ano ele não produziu tanto como gostaríamos, mas o pouco (?) que fez já se afigura como excesso de talento e criatividade. Se utilizando de uma track da banda francesa de progressivo Magma, “Baba Yaga la Sorcière”, Villalobos criou dezessete minutos que se não remetem às peças sublimes de Sei es drum e Fizheuer Zieheuer, ainda assim intrigam. Um tanto quanto tosca e mal acabada, “Enfants (Chants)” traz, no entanto, um frescor irresistível: seja através da repetição do canto coral das crianças, seja pela combinação jazzística da levada de piano e bateria. Mas, no que diz respeito à excelência do trabalho com a duração, ressalto também a primeira faixa do excelente álbum de estréia do Fuck Buttons: embora melhor produzida, ela também reporta à utilização parcimoniosa da duração que Villalobos desenvolve com tanta perspicácia. Mas, no caso de “Sweet Love…”, desta vez para ressaltar uma dimensão noise tão instigante quanto palatável. “Enfants”, por sua vez, é uma odisséia lúdica que inicia e termina de forma abrupta e meio fora do tempo, mas que se impõe, ora porque reafirma o trabalho que Villalobos desenvolve com a duração, ora porque pode ser considerada uma faixa à parte em sua carreira.

10. “Rinkisha” – Guizado
“Truth Is Dark Like Outer Space” – Evangelista

Gui Mendonça e sua turma não só fizeram um dos melhores discos de jazz do ano (junto aos de William Parker), como também alcançaram momentos sublimes em diversas faixas como “Miragem”, “Vermelho”, “Afroka”, etc. Talvez uma das características mas contundentes deste jazz de proveta que o projeto Guizado criou seja o equilíbrio entre pegada rock, sensibilidade melódica e harmônica e arrojo timbrístico. Mas, além dessas características mais técnicas que criativas, pode-se dizer que o som do Guizado não é frio, conceitual. Ao contrário, soa exatamente o oposto de um som frio: é quente, enérgico, repleto de momentos que transcendem a mera audição e invadem o espaço do deus Dionísio, sem dó nem piedade. Por isso elegi “Rinkisha” para representar este trabalho: no mesmo passo em que ela traz uma levada eletrônica repleta de ruídos e estratégias, nos leva a uma absoluta sensação de catarse, quando o riff de guitarra à la Black Sabbath se coaduna com o trumpete rascante à la Miles Davis para produzir um som à la Guizado. E exatamente esta propriedade que faz com o que ambos, disco e faixa, mereçam todos os nossos aplausos e reconhecimento. E como se trata de barulho e emoção, nada mais justo que homenagear esta belíssima Carla “Evangelista” Bozulich e sua canção venenosa, “Truth Is Dark Like Outer Space”.

***

11. “Time Is Now” – TRG
“Time Is Now” começa com um sample que lembra os bons tempos do jungle, com aquela mistura de caixa e hi-hat e uma voz de criança. Mas rapidamente o andamento reggae característico do dubstep se inicia; uma flauta, algumas vozes até a primeira virada: timbres abrasivos e uma percussão chacoalham a faixa, alçando-a a uma das grandes pérolas do ano. Não é à toa que na décima primeira colocação inclui-se aqui mais uma faixa de dubstep: foram elas que literalmente tiraram o fôlego em 2008 e “Time Is Now” é um de seus exemplos mais consistentes.

12. “Kalemba (Wegue Wegue)” – Buraka Som Sistema
Se o kuduro chegou a se tornar um ritmo mundialmente conhecido, foi da mesma forma que o funk carioca se impôs: através de zonas de aproximação e repulsa, geralmente estimuladas por diferenças sociais, culturais e econômicas. “Kalemba (Wegue Wegue)” é daquelas faixas que ou aproximam ou afastam imediatamente. Um tema seco, uma levada híbrida de techno e kuduro, e uma rapper angolana cantando versos imponentes como “Quando eu entro o povo se move, talento aqui chove” fazem a alegria de algumas pistas de dança. Ame ou odeie, impossível ficar indiferente.

13. “Carimbó pra Maria” – Mestre Curica
Curica puxa os versos: “Ê Maria, vem pra cá não fica só, deixa a tristeza de lado, vem dançar o carimbó”, ao passo que o grupo entra numa espécie de transe rítmico, onde o dedilhar das guitarras como que se enrodilham, produzindo um balanço inigualável. Este é o “Carimbó pra Maria”, interpretado por Mestre Curica no álbum dos Mestres da Guitarrada. Dentre suas muitas virtudes, gostaria de destacar duas delas: a de tornar alegre e festivo até mesmo o ambiente mais hostil; e a de exemplificar não só as peculiaridades relativas à esta verdadeira escola da guitarra brasileira, a guitarrada, mas também o modo curioso como Mestre Curica empunha seu banjo, formando uma segunda escola do banjo no Brasil – a primeira seria a criada por Almir Guineto. Virtudes que garantem sua presença nessa lista.

14. “Kamphopo” – The Very Best
Esta faixa poderia estar entre as dez melhores, mas veio parar aqui por razões que até eu mesmo desconheço… Isto porque, aos quarenta e cinco do segundo tempo, apareceu o álbum do The Very Best, a parceria entre o Radioclit e o cantor do Malavi Esau Mwamwaya. Não o digeri ainda, mas isto não impede a compreensão de que “Kamphopo” é uma obra-prima, por vários motivos. Por remeter a uma concepção melódica diferenciada, graças ao aporte de Mwamwaya, oriundo da África oriental; pela construção formal, pelo arranjo, com sua batida recortada, salpicada; pelo teclado estridente que, a certa altura, toma completamente a audição. Um trabalho primoroso, mas do qual ainda esperamos uma compreensão mais adequada, quem sabe indicando-o para o primeiro mês de 2009.

15. “Bacative” – Tricky
Quem foi rei nunca perde a majestade: como todo ditado popular, poucas são às vezes em que se comprova sua mensagem. E, de fato, Knowle West Boy foi uma decepção, pelo menos para mim. À exceção de duas ou três faixas, o álbum se mostrou uma repetição de procedimentos outrora geniais, mas que agora revelam somente um artista que busca, a qualquer custo, reaver o lugar de onde, sabe-se lá por quê, pediu licença. Mas “Bacative” é uma faixa admirável, que faz crer no futuro, que empolga… Cordas, uma bateria desconjuntada e o flow do rapper Rodigan, além da nova Martina, Hafnis Huld, contribuíram para a criação de uma faixa estranha e palatável ao mesmo tempo.

16. “Sincopado Ensaboado” – Zeca Pagodinho
Em seu último álbum, Zeca Pagodinho gravou mais uma canção do chamado Trio Calafrio, formado por Barbeirinho do Jacarezinho, Mauro Diniz (filho do baluarte Monarco) e deste compositor absolutamente genial que se chama Luís Grande. Mas desta vez, algo liga os pontos de forma contundente. A faixa fala de um “maravilhoso samba sincopado que sempre foi e será nota dez”. Ora, mas se não foi justamente na seara de Geraldo Pereira, Ciro Monteiro e Jorge Veiga que se especializou o trio e, particularmente, Luís Grande? Com sambas sincopados divinos como “Na Boca do Mato” e “Maria Rita”, ambos gravados pelo saudoso João Nogueira, Luís Grande fez seu nome no meio. O elogio perfeito do samba sincopado na voz de Zeca, com um arranjo repleto de metais, a lembrar os arranjos de gafieira de Severino Araújo, emocionam, comovem e fazem de “Sincopado Ensaboado” uma das faixas mais perfeitas do ano.

17. “Candy Shop” – Madonna
Já me referi na Camarilha à excelência desta faixa produzida por Pharrell Williams e seu comparsa Chad Hugo, como quem formou The Neptunes. O talento da dupla e, sobretudo, de Williams não deixa pairar duvidas de que “Candy Shop” é a faixa pop do ano: groove matador, suingado até a medula, refrão pegajoso, metáforas safadinhas e todo aquele aparato de produção que enrubesce até o mais aguerrido anti-americanista. A loira sabe se movimentar nas vielas do pop urbano, e permanece dando provas desta habilidade. Até quando, perguntam os jornais, reiterando seu papel, que é o de fazer as perguntas erradas nas horas mais equivocadas…

18. “Glass Ceiling” – Fennesz
E quando um disco é tão bom, mas tão bom que torna-se uma tarefa ingrata eleger apenas uma faixa entre as melhores? O que fazer? É o caso de Black Sea, do guitarrista e compositor Christian Fennesz. Mas então por que eleger “Glass Ceiling” entre outras faixas tão ou mais surpreendentes que compõem seu último álbum? Aqui terei que ser raso, pois é o coração quem manda: são esses sininhos, esses cristaizinhos que delineiam algo como uma melodia trôpega sobre a suave textura de teclados, que encanta e, por assim dizer, dá um sentido peculiar à expressão “experiência estética”. “Glass Ceiling” é nada mais nada menos que uma track indispensável de um artista decisivo.

19. “No One Does It Like You” – Department of Eagles
E mais uma vez, o coração: já não bastasse a obra-prima Yellow House, de sua outra banda, o Grizzly Bear, o irônico e genial Daniel Rossen surpreende mais uma vez ao recriar o Department of Eagles à imagem e semelhança das feições folk do Bear. Ora, se se trata daquelas canções perfeitas, daqueles arranjos engenhosos, então In Ear Park é um dos grandes discos do ano e “No One Does It Like You”, a grande balada. Desaconselhável para o mal de amor; recomendável porém para casais apaixonados.

20. “Shake That Devil” – Antony & the Johnsons
Devo admitir que nunca curti o trabalho de Antony, mesmo após seu belo concerto no Tim Festival ano passado. Não sei bem justificar o por quê, mas devo ressaltar que sua voz é, de fato, um achado. Sempre cogitei a hipótese de que, combinada a um instrumental mais ousado, suas canções e bela voz poderiam um dia me convencer. Pois bem: alguns dias chegam mais rápido do que imaginamos, desta vez através de um EP e de uma faixa chamada “Shake That Devil”. Uma interpretação estilosa do rock’n’roll no estilo Chuck Berry, mas que traveste seus elementos com uma inflexão mais agressiva e abstrata, por assim dizer: lá estão a guitarra barulhenta, a bateria marcada, o saxofone bêbado e a maravilhosa voz de Antony ousando outras alturas. Oxalá The Crying Light, seu próximo álbum, trilhe estes novos e saudáveis caminhos…

21. “Need You” – Darkstar
Já escrevi aqui na Camarilha sobre a qualidade específica dessa faixa: a de, junto a “Reminissin’” de Geiom, indicar um raio consistente de possibilidade pop para este gênero tão vinculado à experimentação que é o dubstep, graças sobretudo a sua batida, próxima ao que chamei de electro-dixieland. Mas aqui gostaria de enfocar um outro aspecto, que é a riqueza com que a faixa modula, ora alterando apenas o timbre, ora anexando elementos, mas sobretudo quando, aos quatro minutos, o electro-dixieland se torna mais seco e pesado, e todos os elementos retornam aos poucos até o fim. Certamente um das faixas mais viciantes e saborosas do ano.

22. “Arcturus” – Crystal Antlers
E por falar em vício, eis que surgem os Crystal Antlers, responsáveis por um dos álbuns que mais ouvi em 2008. Também já escrevi sobre eles aqui na Camarilha, justamente sobre esta marretada que é “Arcturus”. Se tocada ao violão, ela se revela até uma canção saborosa. Mas emoldurada por uma zoeira tão atordoante quanto sutil, corroborada por teclados e percussões inacreditáveis, “Arcturus” estimula um vandalismo generalizado, uma sensação espiritual de destruição, movimento, instabilidade… E pensar que estes americanos de Long Beach, California, lançaram somente um EP, como que para nos fazer desejar um álbum o quanto antes…

23. “Cuando maravilla fui” – El Guincho
El Guincho fez um dos álbuns mais fortes do ano. Quero dizer: percebe-se em Alegranza a assinatura de um pesquisador que não está brincando em serviço, de um artista que vive daquilo do qual se alimenta, e, sobretudo, que sabe transformar tudo o que consome a seu favor. É claro que comparações com o Person Pitch de Panda Bear serão inevitáveis, graças às modulações e repetições que fazem a graça do álbum. Em “Cuando maravilla fui”, podemos apreciar essas modulações, muitas vezes reiteradas por sua própria voz, dobrando outras vozes. Mas o que é bacana da faixa é que El Guincho sintetiza seu trabalho com o sampler a uma canção, mais especificamente um rock’n’roll meio anos 80, meio new wave. Uma faixa enérgica, que fica ainda mais empolgante quando está lado a lado com as outras faixas do álbum.

24. “Water Curses” – Animal Collective
“Water Curses” é uma valsa muito, muito estranha. Faz a alegria não só de quem curte o Animal Collective, mas também de quem gosta das colagens histéricas do XTC, do tom auto-irônico do Devo, de uma doçura ameaçadora que perpassa as faixas e emerge sobretudo quando o canto de Avey Tare se desgarra do andamento em 3/4. Basicamente, se é possível falar assim, “Water Curses” é composta por um violão alucinado, uma miríade de sons os mais estapafúrdios, além de um sampler de cordas e flautas que percorre as estrofes, e se resolvem em acordes de Hammond e mais elementos sonoros, que produzem uma confusão sonora dos infernos. Faixa deliciosa, mas que só reforça a lembrança de que Merriwheather Post Pavillion está a caminhho…

25. “Never Be Afraid” – Yo Majesty

Este é o segundo hip hop que escolho nesta longa lista. Ao lado da faixa do Food for Animals, esta faixa do Yo Majesty me parece que foi o melhor feito no gênero este ano (obviamente considerando que “Bacative” não é um hip hop). E aqui quero deixar claro qual o critério: quanto mais o hip hop absorver a capacidade transfiguradora do grime, do dubstep, das experiências advindas do drone, da música eletrônica, da eletro-acústica, mais ele terá argumentos que sustentem sua existência tanto fora do mainstream, quanto como uma experiência formal em si. Neste sentido, “Never Be Afraid” é uma faixa que inova em termos de ritmo, timbre e, de quebra, lá pelos três minutos e tal, a voz inacreditável de Jewel Baynham (Jwl B para os íntimos) nos brinda com um canto na melhor tradição gospel. Uma faixa arrepiante, que vale o álbum e a colocação.

Vale citar…

“American Boy” – Estelle
“What Up Man” – The Cool Kids
“Messenger” – Boris
“Kyoto” – Curumin
“Dançando no Escuro” – Curumin e Marku Ribas
“Suburbia” – Martyn
“Grounded” – Headhunter
“Dance, Dance, Dance” – Lykke Li
“25th Street” – Kieran Hebden & Steve Reid
“Morning Mantra” – William Parker
“Angry” – The Bug Ft Tippa Irie
“Boose Sweep” – Shed
“I suoi brillanti anni ottanta” – Bachi da Pietra
“Agora Eu Sou Solteira” – Gaiola das Popozudas
“Brainwave” – Nomo
“Mulher Elétrica” – Racionais MC’s
“Ape Lost” – The Hospitals
“Bebey” – Gang Gang Dance
“Dancing Choose” – TV on the Radio
“Love Lockdown” – Kanye West
“Fountain of Youth” – Christina Carter
“Holy Fool Music” – David Grubbs

22
Dez
08

Melhores de 2008: Músicas – Thiago Filardi

kevin-martin-the-bug1

2562 – “Morvern” (Tectonic)
Alexander Tucker – “Veins to the Sky” (ATP)
Antony and The Johnsons – “Shake That Devil” (Rought Trade / Secretly Canadian)
The Bug Ft Warrior Queen – “Insane” (Ninja Tune)
Clouds – “Elders” (Jahtari)
Cult of the 13th Hour – “Way of the Gun” (Planet Mu)
David Byrne & Brian Eno – “Strange Overtones” (Todomundo)
Deerhunter – “Agoraphobia” (Kranky / 4AD)
Department of Eagles – “No One Does It Like You” (4AD)
Erykah Badu – “Soldier” (Universal Motown)
Evangelista – “Truth Is Dark Like Outer Space” (Constellation)
Flying Lotus – “RobertaFlack (Feat. Dolly)” (Warp)
Food for Animals – “Shhhy” (HOSS)
Geiom Feat. Marita – “Reminissin’ (Skream’s ‘Time Traveller’ Refix)” (Berkane Sol)
Hercules and Love Affair – “Blind” (DFA)
Joker & Rustie – “Play Doe” (Kapsize)
Lil Wayne – “A Milli” (Cash Money / Universal Motown)
Madonna – “Candy Shop” (Warner Bros.)
Martyn – ”Natural Selection” (3024)
Mestre Curica – “Carimbó pra Maria” (Candeeiro)
Portishead – “The Rip” (Universal Island / Mercury)
Santogold – “L.E.S. Artistes” (Downtown Music / Lizard King)
Shackleton – “Death Is Not Final” (Skull Disco)
TRG – “Broken Heart (Martyn’s DCM Remix)” (Hessle Audio)
Unknown Artist – “BBQ” (Thriller)

A lista acima está organizada em ordem alfabética pelo primeiro nome do artista e os critérios que utilizei são os mesmos descritos pelo Marcus [ver post abaixo]. Portanto, evitei colocar faixas que não funcionassem fora do álbum ou seguissem um fluxo contínuo dentro do mesmo. É o caso de algumas favoritas como “First Communion” do Gang Gang Dance, “Sweet Love for Planet Earth” do Fuck Buttons, várias do LP Los Angeles do Flying Lotus e do Where Were U in ’92? do Zomby. Outro fator decisivo foi o tamanho da lista, estabelecido em 25 itens. Embora algumas músicas de Tom Zé, Dusk + Blackdown, Dungen, Ilyas Ahmed, Autistic Daughters e David Grubbs tenham feito minha cabeça durante esse ano, preferi omiti-las, já que todos estão assegurados na minha lista de discos; por outro lado, quis favorecer os artistas que operam no formato do compacto de 12”, o que é muito comum no dubstep, por exemplo. Alguns nomes aparecerão nas duas listas, como Portishead, Evangelista, Flying Lotus, The Bug e Lil Wayne. Esses, no caso, merecem todo o destaque possível, porque além de terem feito grandes álbuns, também fizeram músicas bem acima da média e que merecem o devido destaque.

2008 viu a ubiqüidade de uma canção chamada “Beautiful Girls” do rapper mirim Sean Kingston. Querendo ou não, a música fez parte da trilha sonora do ano, pois esteve presente em todos e quaisquer alto-falantes espalhados pela cidade, sejam estéreis de carros e casas, rádios, festas e toques de celular. Mesmo sendo pegajosa, melosa e irritantemente ruim, “Beautiful Girls” é sintomática em relação ao estado atual da música pop. Kingston alterna versos rapeados e um refrão melódico cantado através do Auto-Tune. Esse processador eletrônico existe há algum tempo, porém é usado cada vez mais na música pop e na eletrônica, a contragosto de críticos e especialistas. De fato a sonoridade do vocoder não é das mais bonitas, no entanto o uso deste foi um meio encontrado pelos produtores, principalmente de hiphop, de driblar a falta de criatividade vigente na música pop, e não apenas suprimir limitações técnicas, como é dito por aí. A questão principal é como o Auto-Tune deve ser utilizado. Kanye West o incorporou com grande efeito no seu último disco, 808s & Heartbreak, reinventando sua linguagem e buscando novos caminhos para o pop e o hiphop. “See You in My Nightmares”, com a participação de Lil Wayne, mostra como esse plug-in pode soar poderoso se usado da maneira correta.

Pessoalmente, 2008 foi um ano de muitas descobertas, de um alargamento do meu gosto musical e de um desenvolvimento maior do meu senso crítico, graças a esse blog. A Camarilha dos Quatro também fez com que eu entrasse em contato com inúmeras bandas e artistas que desconhecia completamente e me estimulou a pesquisar com mais afinco as áreas relacionadas ao meu gosto. Foi igualmente importante que eu estivesse atento às muitas novidades no mundo da música, sem ficar restrito a nenhum gênero específico. O dubstep foi o ritmo que mais me embalou e que mais tomou tempo nas minhas pesquisas. Tive a honra de ver alguns nomes importantes da cena tocando ao vivo, como Martyn, 2562, DJ Hatcha e Silkie e sentir essa música para além dos alto-falantes caseiros, do carro ou iPod. Todos parecem concordar até o momento que Martyn foi o grande nome da cena esse ano, e de fato foi. Com dois compactos maravilhosos e variados remixes, Martyn, juntamente com Flying Lotus, reinventou a dimensão de espaço na música contemporânea. Detentor de uma batida precisa, porém cheia de quebras, sons gasosos e melancólicos, ele levou o dubstep a novos patamares, com sua produção detalhista, sem ficar preso a fórmulas óbvias.

Esse ano o dubstep assumiu de vez a influência do Basic Channel, a exemplo dos discos de estréia de 2562 e Headhunter. E por mais que a incorporação do dub-techno tenha valorizado a estética do dubstep e sua capacidade de ambientar o ouvinte em uma esfera espaçosa e ecoante, ela também trouxe restrições à criatividade de alguns produtores. Isso influiu para que uma nova geração buscasse novos ritmos e possibilidades dentro do gênero e daí, portanto, a criação do chamado wonky, no qual estão subscritos Rustie, Ikonika, Joker e o selo Thriller. Alguns até retomaram sonoridades antigas, como o polivalente Zomby, seu Where Were U in ’92? e o selo Hate. Shackleton se confirmou como uma das maiores promessas do dubstep e lançou uma dupla de EPs maravilhosos, dois splits com o Mordant Music e a coletânea Soundboy’s Gravestone Gets Desecrated by Vandals, junto com Peverelist e seu comparsa Appleblim. A compilação marca o fim de um dos selos mais inovadores da década, a Skull Disco, que infundiu uma estética nova na música eletrônica, ao cruzar o dubstep com o techno, a percussão tribal e efeitos e vozes sombrios. Outros destaques foram o grupo finlandês Clouds, com o dub vigoroso e grudento “Elders”, Pinch, que só parece evoluir, Ramadanman e o onipresente Skream, que fez um remix sensacional para “Reminissin’” de Geiom, emprestando a vitalidade que faltava à música e adicionando uma seqüência percussiva perfeita, que fez com que a música crescesse e tomasse proporções de hino. Além desse remix, ele teve um ano bem prolífico e lançou um excelente compacto pela Tectonic, um novo volume da Skreamizm pela Tempa e uma mixtape pela série Watch the Ride. Quem despontou como uma das forças mais criativas desse ano foi The Bug [foto], que além de duas faixas lançadas através do Cult of the 13th Warrior (“Weirdness” em 12” pela Soul Jazz e “Way of the Gun” inclusa na coletânea da Mary Anne Hobbs), projeto que leva a frente com o Spaceape, ele lançou seu segundo trabalho, London Zoo, que é o álbum representativo de toda uma cena underground londrina, mesclando magistralmente estilos como o dancehall, grime e dubstep. As melhores faixas do disco foram lançadas no ano passado em 12”, como “Skeng”, “Poison Dart” e “Jah War”, mas há outras tão boas quanto, como “Angry”, “Murder We”, “Too Much Pain” e “Insane”.

Cada ano que passa fico com a impressão de que o pop, o rock e o hiphop estão agonizando. No pop, a onda oitentista continua tomando conta e há poucas coisas a se salvarem. Nesse sentido, a DFA ainda é o selo mais confiável, pois mesmo que originalidade não seja seu forte, o selo de James Murphy é capaz de nos dar discos totalmente hedonistas, que é o caso do Hercules and Love Affair (que também conta com a ajuda de Antony Hegarty). Já Madonna chamou os melhores produtores do momento e fez um disco impecável e impressionante na sua produção, porém com um songwriting muito fraco e pouquíssimo inspirado. Há de se salvar “Candy Shop”, com uma programação de bateria perfeita e ótimos arranjos. Santogold foi outra menina que mereceu atenção, pois mesmo que tenha feito um disco sem consistência e foco algum, compôs um dos maiores hits do ano, a explosiva “L.E.S. Artistes”, com um riff de guitarra picareta, vocais esganiçados e um refrão mais que empolgante. O maior trunfo pop do ano foi a pérola metalingüística “Strange Overtones” dos veteranos e geniais Byrne e Eno, que fizeram um disco bem aquém do esperado, mas capaz de proporcionar momentos sublimes, como essa música, que faz uma brincadeira com o revival oitentista através de uma letra poética e sarcástica, uma melodia contagiante e um refrão inspiradíssimo. É como se eles quisessem dar uma resposta para essa onda nostálgica, utilizando seus mesmos artifícios, mas fazendo-o de uma maneira correta e inteligente. Outros acontecimentos importantes no pop foram o lançamento do tão aguardado segundo disco no Gnarls Barkley que, longe de ser ruim, foi decepcionante por não trazer nenhum hit tão marcante e imediato quanto “Crazy” e por soar melancólico demais. Wiley finalmente assinou com uma grande gravadora e esse pareceu ser seu grande ano, com dois LPs e um mega-hit no Reino Unido, a simplérrima mas contagiante “Wearing My Rolex”. E aí fica a pergunta se foi o pop que ganhou com isso ou o grime que perdeu, já que o gênero tem sido cada vez menos importante no mainstream britânico e, por conseguinte, no cenário mundial. O Hot Chip, onipresente na cena musical inglesa, lançou o constrangedor e farofeiro Made in the Dark, que possui, ao menos, uma grande canção, “Ready for the Floor”.

No rock, as bandas mais interessantes continuam restritas ao circuito undergound e às cenas experimentais. Duas estéticas parecem se opor: uma, mainstream e revivalista, e outra, underground e barulhenta, flertando com o noise e querendo soar lo-fi. Boa parte das grandes canções do gênero está inclusa no álbum Hello, Voyager do Evangelista, projeto de Carla Bozulich, e quis destacar “Truth Is Dark Like Outer Space”, uma música que me pegou em cheio no início do ano, como uma porrada mesmo. E se há os nostálgicos em relação aos anos oitenta, há Bardford Cox e seus Deerhunter e Atlas Sound, presos a um tipo de sonoridade dos anos noventa, que remete a Pavement, Spiritualized, My Bloody Valentine e tudo referente ao shoegaze. Por mais que não preze a originalidade e seus discos deixem muito a desejar, Cox é apto a criar canções belas e singelas, como “Recent Bedroom” e “River Card” do Atlas Sound e “Agoraphobia” do Deerhunter, que como bem atentou o Bernardo, lembra um pouco “Come Live With Me”, do Marvin Gaye, o que, todavia, não tira seu mérito e sua beleza. Outras que quase entraram para lista foram “Angels” e “Wucan” do grupo de rock psicodélico Black Mountain e “On Board”, do Friendly Fires. Mas nada que não tenham feito antes em outra época… O Tindersticks teve a belíssima “Yesterday Tomorrows”, que, no entanto, não acrescenta nada de especial à obra do grupo. A corrente de resgate ao folk se desgastou e com ela o próprio folk, que não deu à luz sequer um nome interessante este ano, se destacando apenas artistas já conhecidos, como Josephine Foster e suas lindíssimas “The Lap of Your Lust” e “Lullaby to All”, Mount Eerie, que junto com Julie Doiron e Fred Squire, fizeram as frugais e belas “Lost Wisdon”, “Voice in the Headphones”, “Who?” e “What?”, e ainda Alexander Tucker com a divina “Veins to the Sky”. Quem não opera exatamente nem no rock nem no folk, mas transgride a essência dos dois é o Department of Eagles, que fez essa pérola pop chamada “No One Does It Like You”. O que é maravilhoso nela é a espera pelo refrão, que, a princípio, parece inexistente. E ele vem somente uma vez, lá pro final da música. É esse tipo de estrutura, calcado na espera e na tensão harmônica que não se vê mais na música pop e, nesse ponto, Daniel Rossen é mestre, sabendo empregar como ninguém os elementos constituintes de uma canção. Outro mestre é Antony Hegarty, que deixou uma enorme expectativa para o ano que vem com o EP Another World, mais uma coleção de canções tristes e majestosas. “Shake That Devil” é a mais inventiva, com arranjos experimentais, voz frágil mas inabalável de Antony e uma irrupção brusca da bateria, que proporciona um dos momentos mais extasiantes do ano.

No hiphop, o ano foi de Lil Wayne (no mainstream) e Flying Lotus (no underground) e mais uma vez a profecia de Nas se confirmou: o gênero está morto. Se não fosse por esses dois e a tentativa de Kanye West de salvá-lo, não sobraria muita coisa. Teve o brilhante Food for Animals, com um disco pesadíssimo e a sensacional “Shhhy” e Madlib deu continuidade a sua discografia prolífica, com lançamentos do Beat Konducta, a segunda parte do Madvillainy (só de remixes dos originais) e o projeto Jackson Conti, junto com Mamão do Azymuth. E como Sean Kingston, Lil Wayne foi ubíquo no Rio de Janeiro, emplacando os hits “Lolipop” e “Got Money”. Destaco, todavia, “A Milli”, com baixo, programação de bateria e rap de tirarem o fôlego. Sobre o Flying Lotus devo comentar mais no texto que acompanhará a lista de discos, já que ele fez um grande álbum, que engloba grandes faixas, mas que não devem ser retiradas de seu contexto unitário e coeso. “RobertaFlack” saiu tanto no LP quanto no primeiro EP dos Los Angeles, editada e com fade out no final, por isso a inclusão. Outro grande destaque foi Erykah Badu, que surpreendeu a todos com seu disco New Amerykah. Poderiam entrar facilmente na lista “The Healer” e “The Cell”, mas preferi colocar a incrível “Soldier”, de batida contagiante, ar melancólico e a voz celestial de Badu. Já a trupe do trip-hop voltou com tudo. Tricky fez um disco irregular, mas de momentos inspirados como “Bacative”, e o Portishead se firmou novamente como um dos nomes mais relevantes da música contemporânea. Não faltaram boas músicas ao Third, mas, pra mim, a mais bonita e tocante é “The Rip”, uma canção como não ouvia há muito tempo. Começa lenta, com Beth Gibbons quase sussurrando a melodia e um violão delicado fazendo a harmonia e os arpejos. Depois cresce espantosamente com um teclado bem pesado tomando o lugar do violão. O que mais me chama atenção nela é sua ambigüidade harmônica, que não deixa a melodia nem feliz nem triste, mas algo a ser decidido por nós. Uma verdadeira epifania.

O techno foi outro gênero que não me envolveu muito durante esse ano e acabou não tendo nenhuma representante na lista. A mencionar: Claro Intelecto com a ótima “Before My Eyes”, “I Want to Sleep”, do DJ Koze, que quase entrou, mas acabou me brochando com aquele texto falado no meio, um remix interessante de Andy Stott para “Recovery Idea” do Vladislav Delay, “Warped Mind” e “Estrange” do Shed e o techno-pop “Free to Ask” do Matthew Dear, que fez uma das minhas músicas favoritas do ano passado, “Deserter”.

Na música brasileira também não há muita coisa a destacar no que concerne faixas. Apenas o disco Música Magneta, dos Mestres da Guitarrada, que contou com um punhado de boas músicas, como “Carimbó pra Maria” do Mestre Curica, “Saudade do Pará” do Mestre Vieira e “Parácateado” do Mestre Aldo Sena. Poderiam fazer parte da lista canções de Tom Zé, do álbum Estudando a Bossa, mas preferi deixá-lo intacto, assim como o Punx do Guizado.

Foi quase impossível escolher apenas 25 faixas e muita coisa ficou de fora. Dei ênfase ao dubstep, pois, dos estilos musicais em voga, é aquele que resgata e insere sonoridades diversas na sua linguagem, sempre olhando pra frente e fazendo uma mistura totalmente fresca e inusitada. É também o gênero que mais experimenta com a batida 4/4, dando-lhe novos ares para respirar, ao contrário das limitações impostas pelo techno, house e rock. Faixas como “BBQ” do artista desconhecido da Thriller, o último EP do Zomby, “Play Doe” do Joker e Rustie e tudo que foi lançado pelo Shackleton, apontam novos caminhos para esse gênero, que parecem tão interessantes quanto os atuais. Só nos resta esperar 2009 e ver onde essas correntes irão desaguar. (Thiago Filardi)

22
Dez
08

Melhores de 2008: Músicas – Marcus Martins

(Algumas considerações: resolvi não apontar mais de uma faixa de um artista/banda, apenas escapando a esta regra as músicas de Bradford Cox, pelo fato do Atlas Sound ser um projeto solo e o Deerhunter uma banda. Algumas faixas que possivelmente entrariam na lista não o fizeram por funcionarem melhor no contexto do álbum que individualmente. Na maior parte destes casos, os álbuns estarão na lista da próxima semana. As 25 faixas aparecem listadas na ordem em que entram no texto.)

“Machine Gun” Portishead
“Quarantined” Atlas Sound
“Agoraphobia” Deerhunter
“Wedding Bell” Beach House
“Palmitos Park” El Guincho
“Shake That Devil” Antony & the Johnsons
“African Rhythms” Mi Ami
“Dance, Dance, Dance” Lykke Li
“Elders” Clouds
“Suburbia” Martyn
“Death Is Not Final” Shackleton
“Need You” Darkstar
“Darker Than East” Dusk + Blackdown Feat. Target (Roll Deep Entourage)
“Wearing My Rolex” Wiley
“Insane” The Bug Feat. Warrior Queen
“Where You Go I Go Too” Lindstrøm
“Enfants (Chants)” Ricardo Villalobos
“Collapsing at Your Doorstep” Air France
“Blind” Hercules and Love Affair
“Sound of Kuduro” Buraka Som Sistema
“The Healer” Erykah Badu
“A Milli” Lil Wayne
“The Kramer” Wale
“Love Lockdown” Kanye West
“Carimbó prá Maria” Mestres da Guitarrada

Se Third é o disco do ano ainda veremos, mas tenho por certo que nenhuma outra faixa me afetou de forma tão direta – até mesmo física – quanto “Machine Gun” do Portishead. Um dos símbolos da virada estética da banda, a faixa mistura um tênue drone vocal, uma musculosa batida industrial e um baixo bem sintético, tentando inutilmente sufocar o lamento de Beth por uma salvação improvável que culmina em linhas de sintetizadores quase épicos (desconfio que mais por um reforço da visão distópica do disco que por algum alento) … Bradford Cox é um dos nomes inescapáveis de 2008: sua figura incongruente, sua incapacidade de manter a boca fechada e sua estatura como símbolo de blogueiro enquanto astro de rock. Mas nada disso é significativo próximo de suas qualidades como compositor, e o fato de ter lançado três belos discos em 2008 apenas serve para comprovar que por baixo da obviedade de suas referências está um fino criador de climas e melodias, desde o relato do confinamento tornado doçura pelo filtro dos anos de “Quarantined” do Atlas Sound até a beleza absurda de “Agoraphobia” e “Nothing Ever Happened” … Ainda na praia do rock e seu mundinho indie, o que se verifica é que tivemos um excesso de bandas recebendo uma atenção despropositada e em meio a isso algumas pérolas que correram o risco de passar desapercebidas. O já excelente Beach House lançou seu segundo disco e se existia o temor de que não houvesse para onde escapar na fórmula shoegaze delicada do disco de estréia, a solução encontrada foi simples e luminosa: limparam quase completamente o som e fizeram resplandecer a qualidade das composições, da execução e dos vocais – a começar pela perfeita “Wedding Bell” que abre o disco. Outros como o Of Montreal não foram completamente bem sucedidos para equilibrar a ambição com a execução, mas ainda emplacaram algumas pepitas como “Women’s Studies Victims”. Outros não entraram na lista por falta de espaço e não tenho muitas dúvidas que posso mudar de idéia em pouco tempo e me arrepender por não ter incluído faixas como “Golden Age” do TV On The Radio ou “Cape Cod Kwassa Kwassa” do Vampire Weekend, para citar apenas duas das melhores faixas de bandas que cometeram excelentes discos em 2008 e deixam a expectativa sobre suas possibilidades para o futuro. O Animal Collective mesmo apenas lançando um EP esteve presente em 2008 – além de uma faixa como “Water Curses” ser excelente, provando que poderia facilmente integrar o já fantástico Strawberry Jam, ainda tivemos prévias do aguardado álbum de 2009, e “Brothersport” poderá ser uma das faixas do próximo ano … E nenhuma delas entrou no corte das 25 porque o disco à Panda Bear do El Guincho nos trouxe colagens latinas cheias de personalidade com “Palmitos Park” … Agora, que o Animal Collective é uma banda de potencial ilimitado já acreditava a algum tempo, mas que o Antony & the Johnsons poderia prometer muito mais que a voz perfeita de Hegarty é algo que “Shake That Devil” apenas confirma e ressalta … O que faltou a muitas destas grandes faixas que não entraram na lista foi o que sobrou em “African Rhythms” do Mi Ami: energia, abandono e inventividade para tratar de um gênero que não parece mais oferecer muitas novas possibilidades … É claro que a leveza e a fórmula pop sempre podem revelar canções das quais não podemos nem queremos escapar e Lykke Li tem em “Dance, Dance, Dance” o docinho do ano.

Junto com o drone e o noise, o dubstep foi o que mais ouvi no ano e confesso que fiquei um pouco decepcionado. Não que tenham faltado bons discos/EPs/singles, mas a aproximação com o techno e a house tem deixado a impressão de engessar os produtores que ou pecam por ceder facilmente aos apelos da pista de dança, ou privilegiam o volume e os tons excessivamente graves para simular contundência. Claro que em meio a isso tivemos momentos de revelação, como os alienígenas finlandeses que respondem pelo Clouds e que lançaram uma das músicas que não me saíram da cabeça em 2008 – “Elders” é daquelas faixas que nos surpreendemos a cantarolar. A invasão estrangeira ainda continuou com o TRG cometendo faixas absurdas como “Broken Heart”. Mas o produtor do ano no dubstep foi indubitavelmente Martyn, que além de remixes que verdadeiramente adicionaram ao original, lançou a dupla “All I Have Is Memories/Suburbia” e “Natural Selection/Vancouver”. Concorrendo muito perto tivemos Shackleton e sua obra-prima “Death Is Not Final” (ainda que Shackleton venha se firmando como um grande produtor de música eletrônica e o dubstep seria apenas o idioma com o qual ele tem maior intimidade, longe de estar limitado a ele). O dubstep se espalhou pelo mundo, mas de sua terra natal ainda vieram perfeições como “Need You” do Darkstar e “Darker Than East Ft. Target (Roll Deep Entourage)” do Dusk + Blackdown, que talvez ganhe em estatura por saber passar o clima de clandestinidade e urgência que sempre foi um dos elementos mais vitais do gênero … e assim deixamos ainda de incluir Benga, Headhunter e tantos outros. O grime teve um ano bem tedioso apesar do petardo pop que é “Wearing My Rolex” do Wiley – curioso, tenho dúvidas se uma música tão descaradamente pop como tal vai trazer mais fãs a Wiley ou fazer com que os mais ortodoxos percam o respeito pelo chefão do gênero. O que importa é que a faixa é viciante. Ah, The Bug ouviu os jovens, achou bacana e sem abandonar suas características criou dinamites que poderiam romper o gueto do dubstep e “Poison Dart” é apenas uma delas, que foi escolhida por ainda ter uma vocalista tão poderosa quanto Warrior Queen.

Na praia eletrônica, as formas longas, usadas de maneiras bem distintas garantiram o sucesso de Lindstrøm e sua “Where Do You Go I Go Too” e Ricardo Villalobos e sua “Enfants (Chants)”. Mas ainda existe espaço para o Air France trazer brisas suaves com sua “Collapsing at Your Doorstep”. O Hot Chip veio bem, veio “Ready For The Floor”, que realmente funciona na pista, mas também não foi tanta coisa. Em especial no ano em que uma das principais concorrências para “Machine Gun” foi a destilação disco de “Blind” do Hercules an Love Affair – talvez sua maior riqueza seja o fato de tornar o hedonismo disco em memória e vislumbre para algo maior, usando o gênero para aquela rachadura no tempo em que se produzem os clássicos.

A dita música negra, agora fora da Europa, ainda continua a dominar a indicação das faixas. Um ano rico para a produção da música africana, mesmo que nem sempre de forma pura, como em “Sound of Kuduro” do Buraka Som Sistema. Na mesma linha tivemos a mixtape do The Very Best, com destaque para “Kamphopo”. Da África ‘autêntica’ tivemos o ótimo disco do Kasai Allstars, e citar apenas uma faixa, como “Kafuulu Balu”, é um pecado. Nos EUA, apesar de poucos admitirem, o grande nome da música negra foi Erykah Badu, e seu disco é daqueles que servem bem a clichês como “melhora a cada audição”. “The Healer” é o exemplo perfeito, sua forma aberta e expansiva é das coisas mais belas e inesperadas do ano. O hip-hop não teve dos anos mais brilhantes, e Lil Wayne reinou sem muitas dificuldades, e apenas “A Milli” já serve para provar por que ele esteve muito à frente da concorrência em 2008. O ano teve uma ótima faixa de Big Boi, membro do Outkast menos badalado, que mostrou com estilo seu “Royal Flush”. Em meio à avalanche de mixtapes, Wale surpreendeu pela leveza e inteligência de suas apropriações de Seinfeld, em especial pela poderosíssima “The Kramer”, conseguindo dar grande ressonância à cagada racista do ator que fez o personagem. Para não dizer que o Brasil não aparece aqui, é digna de alegria a descoberta de que o Costa a Costa é o melhor grupo de hip-hop do país e sua mixtape é uma finura. Kanye West esteve presente e com força em área inesperada: apesar de todos os senões e seus muitos defeitos, West criou em “Love Lockdown” uma daquelas obras onde as escolhas estéticas refletem à perfeição seus propósitos narrativos… O Flying Lotus não fez nem hip-hop instrumental nem dubstep, mas fez faixas excelentes como “Roberta Flack” e “Golden Diva”. Ainda cabendo algum destaque ao potencial que Santogold mostrou em faixas como “L.E.S. Artists” e “Creator”. Do outro lado temos a diva Beyoncé e seu fracasso em replicar o sucesso de seu álbum anterior e saber fazer alguma coisa do conceito idiota com o qual resolveram amarrar a coisa toda – nem “Single Ladies”, boa faixa, salvou a tragédia.

Gostei de pouca coisa de música brasileira e não é nenhuma condescendência incluir o “Carimbó Pra Maria” que o Mestre Curica fez para os Mestres da Guitarrada e apenas não incluo música de Aldo Sena porque confio que apenas uma faixa já serve para representar este disco que em sua simplicidade afastou a nuvem negra do tédio que pairou sobre a música brasileira em 2008 e seus camelos e Mallus que não são Maders. O Chica Libre parece ter apostado na mesma alegria e faixas como “Gnossiene No. 1″ e “The Hungry Song” mostram que não tratamos apenas de uma bandinha de colorações latinas.

Em um ano em que fora os álbuns para a Camarilha ouvi muito pouca coisa além de noise/drone, não foram poucas as ótimas faixas que deixei de fora e isso apenas serve para provar que basta afastar os olhos da mesmice que tentam nos empurrar para descobrir um mundo fascinante e cheio de possibilidades. (Marcus Martins)

20
Dez
08

Melhores de 2008: Músicas – Ruy Gardnier

martynmelhores

“Need You” Darkstar (Hyperdub)
“Suburbia” Martyn (Apple Pips)
“Morvern” 2562 (Tectonic)
“Timekeeper” Clouds (+ remix de Ras G) (Ramp)
“Time Is Now” TRG (Immerse)
“Death Is Not Final” Shackleton (Skull Disco)

“No One Does It Like You” Department of Eagles (4AD)
“Bag of Hammers” Thao with the Get Down Stay Down (Kill Rock Stars)
“Walcott” Vampire Weekend (XL)
“Dance, Dance, Dance” Lykke Li (LL)
“Beliscando” Mestre Aldo Sena (Candeeiro)
“Saudade do Pará” Mestre Vieira (Candeeiro)

“Perfume for Winter” Fennesz (Touch)
“The Blue Room” Evangelista (Constellation)
“Wedding Bell” Beach House (Carpark)

“A Thousand Eyes” Crystal Antlers (Touch and Go)
“Truth Is Dark Like Outer Space” Evangelista (Constellation)
“We Carry On” Portishead (Island)
“Machine Gun” Portishead (Island)

“Shake That Devil” Antony & the Johnsons (Rough Trade/Secretly Canadian)
“Water Curses” Animal Collective (Domino)
“Lost Language” Monade (Too Pure)

“Sweet Love for Planet Earth” Fuck Buttons (ATP)
“Un día” Juana Molina (Domino)
“Glass Ceiling” Fennesz (Touch)

O que foi o ano de 2008? Ao menos pelas listas de melhores do ano já publicadas, parece que foi um concurso para ver quem melhor reciclava o pop do final dos anos 70 e dos anos 80, entre disco, new-romantic, pop de sintetizador, pop mauricinho (tipo Spandau Ballet e Hall & Oates, a checar Sébastien Tellier) e shoegaze. Tive a minha overdose antes mesmo de ser contagiado em excesso, portanto não estarão na minha lista Hercules & Love Affair, M83, Cut Copy, Crystal Castles, Hot Chip e outros. Talvez “a onda” nos circuitinhos indie representados por Pitckfork, Les Inrockputiles, Fact etc. e pelos seguidores ao redor do globo, essa passou batida por mim como um flerte muito perigoso com o retrô e o elogio do descartável, restringindo a invenção a um plano ínfimo no equilíbrio dos jogos de força. “A onda”, para mim, permaneceu sendo o dubstep, que em 2008 ganhou contornos continentais para além da Inglaterra nativa, experimentou andamentos mais ligeiros, tomou as pistas de dança e, mais que tudo, misturou seu vocabulário com repertório de outros gêneros, em especial o techno. Veio dubstep da Finlândia (Clouds), da Romênia (TRG), da Holanda (2562, Martyn), não só para acrescentar mas para ocupar espaços lá no topo do que se faz na área. Os ingleses não ficaram atrás, com lançamentos significativos de Appleblim, Peverelist, Kode9, Ramadanman, Coki, Benga, Scuba, Headhunter, Dusk + Blackdown, e a descoberta de novos nomes, em especial Darkstar, Cotti, Samiyam e Zomby. Isso sem contar os “não-exatamente-dubstep”, como The Bug, Flying Lotus, Shackleton. Este último teve um 2008 singular, fazendo remixes sensacionais para Ricardo Villalobos e Geiom, além de compor algumas das coisas mais soturnas e cheias de graves do ano em seus eps pela Skull Disco, compilados no fim desse ano num disco duplo que marca aparentemente o fim do selo dividido por Shackleton e Appleblim. Deixemos 2562 para os álbuns. “Need You” de Darkstar pode ter sido a grande faixa dubstep do ano, mas Martyn [foto], com “Suburbia” e com o remix de “Broken Heart” do TRG, além de mais alguns singles e remixes, merece ser destacado como figura decisiva no ano.

Vamos para a segunda parte da lista, músicas pop: as canções são aquelas que te carregam durante o ano, com seu quê necessário de vício, de grude, e portanto existe o desafio automático de prenderem na sua cabeça e de querer ouvi-las sempre. E, também necessário, de resistir ao tempo e ao cansaço (ou seja, não serem pop demais que enjoem). É certo que mais algumas poderiam estar na lista, duas de Estelle, “American Boy” e “No Substitute Love”, mas ambas têm momentos geniais misturados com enjoativas. Num ano em que o indie rendeu poucas pérolas pop, Department of Eagles, Thao Nguyen, Vampire Weekend e Lykke Li vieram para salvar o clima de sub-Pavement e sub-Yo la Tengo de Deerhunter, Atlas Sound e congêneres. O noise bubblegum de Vivian Girls, Crystal Stilts, etc. é bacana, mas não a ponto de listar. E duas faixas dos Mestres da Guitarrada ainda parece pouco para o quão essas melodias são preciosas, laboriosamente lapidadas e transformadas em pura beleza. Dá pra ouvir no shuffle junto com os fragmentos politeístas de Sir Richard Bishop.

Em seguida, baladas. “The Blue Room” é a mais apropriada da lista: Hello Voyager se aventura tanto na versatilidade que se embanana por vezes, mas esse não é um deles. É uma autêntica balada, doce e vulnerável mas com hybris, lembrando algo de PJ Harvey mas com estilo bastante pessoal. Que Carla Bozulich, aqui travestida com o nome Evangelista, possa emendar essa beleza com a fusiosa “Truth Is Dark Like Outer Space” (checar parte de rock ríspido), só mostra como ela é capaz de alternar registros e ainda manter-se dona do jogo. “Perfume for Winter” não é nem canção, nem estruturalmente balada, mas transmite com excelência esse arroubo sentimental que define esse tipo de formato. Como “A Year in a Minute”, é Fennesz em seu estado mais lírico. “Wedding Bell” do Beach House veio nos 45 do segundo tempo, depois de eu ficar boa parte do ano brigando com o disco por não repetir nenhuma “Saltwater”. Bobagem de minha parte.

Estranho ver o Portishead listado junto com Crystal Antlers e Evangelista, mas é isso aí. “We Carry On” e “Machine Gun” são as coisas mais dark, carregadas, ameaçadoras que eles já fizeram, e uma usina de invenção de grandes batidas decoradas com vocais de Beth Gibbons soando mais noiva-cadáver do que nunca. Mas o protagonista dessas músicas é o espaço criado entre um e outro, raras vezes preenchido por algum outro instrumento (e que só faz aumentar o impacto quando entra). “One Thousand Eyes”, ao contrário, é totalmente preenchida. E é um sonho supor que algum dia surgiria uma banda sexy-selvagem-barulhenta como os Stooges e lírica-barroca como o Elton John de “Goodbye Yellow Brick Road” filtrado pelo hard rock. Alto, gritado, incrivelmente bem arranjado, o som dos Crystal Antlers em seu ep de estréia já veio completo.

O grupo seguinte chamar de quê, avant-pop? Duas faixas de eps, um que aponta para um disco de 2007 (Strawberry Jam do Animal Collective), um que aponta para 2009 (o próximo LP de Antony). “Water Curses” é hit total, mas 2009 espera muito mais do AC, que daqui a pouco lança disco novo e que, só por “Brothersport”, já é totalmente obrigatório. Pensei muito entre “Shake That Devil” e “Another World”, mas a última já tem modelos melhores em “The Lake” e “Hope There’s Someone”, ao passo que a primeira é algo mais inédito para Antony. E “Lost Language” persegue uma trilha de pop-barroco-progressivo que aparentemente o Stereolab desistiu de continuar e a que Lætitia Sadier dá vazão com o Monade.

Os três últimos, a bem da verdade, nem avant-pop são. O Fuck Buttons bebe do Black Dice e faz a peça de noise acessível mais cativante do ano. Juana Molina alcança a maioridade com uma peça sem paralelos em sua carreira até então, em que a gente ouve Steve Reich e Animal Collective. E, last but not least, “Glass Ceiling” tem os sons mais sutis e lindos do ano, aqueles barulhinhos de cristais que se o mundo fosse justo seriam pano de fundo para toda nossa existência.

Noto as enormes ausências de folk e hip-hop. Nada entusiasta de Fleet Foxes ou Mt. Eerie, o folk teria passado 2008 em branco para mim não fosse a descoberta de Mariee Sioux e seu Faces in the Rocks, que tecnicamente não entra na lista porque o disco foi lançado no final de 2007. Fosse lançado meses depois, “Two Tongues at One Time” e “Wild Eyes” estariam tranqüilamente entre as músicas do ano. E de hip-hop a única faixa que me impactou mais fortemente foi “Show Me How To Hustle”, da Re-Up Gang, que estaria numa lista de 30, mas foi cortada na de 25. De resto, Kanye, Lil Wayne, Young Jeezy, nada que fizesse uma impressão mais forte em mim. Poderia listar algumas coisas que ficaram dolorosamente de fora, como The Very Best, Guizado, a genial “Elders” do Clouds (o riddim de Cocoa Tea, “Young boy, won’t you go home, go home to your mumma, your mumma, you’re too young to play that sound” não sai da minha cabeça desde que ouvi pela primeira vez), mas lista é isso, tem que jogar o jogo. O ano é muito mais que uma lista, mas que haja excesso e não falta, só mostra o quanto o ano produziu de coisa boa e instigante… (Ruy Gardnier)

19
Dez
08

Fuck Buttons – “Sweet Love for Planet Earth” (2008; ATP, Reino Unido)

fuckbuttons1

Nesse final de ano a Camarilha sairá de suas habituais postagens de dois discos por fim de semana, mas por um bom motivo: como todos ou quase todos os veículos de cobertura artística, faremos também nossas listinhas de melhores do ano. A partir de sábado, diariamente teremos a publicação de uma das listas de nossos quatro fiéis escudeiros. Essa semana, serão as músicas do ano, e cada um terá que escolher 25 entre as que mais emocionaram/instigaram/alegraram/fizeram seguir o ano. Na semana seguinte, seguindo o mesmo protocolo, é a vez da seleção de 20 álbuns (eps valem) por escriba. Cada lista será acompanhada de texto contextualizando as escolhas, listando inelegíveis & menções honrosas e analisando como cada um viu 2008 na música.

E para terminar o ano, que tal uma musiquinha? Algumas passaram batidas aqui pela Camarilha (afinal, somos apenas quatro), algumas foram mesmo esboçadas mas a postagem não se concretizou. “Sweet Love for Planet Earth” apareceu no ano quando ainda estávamos esboçando a estrutura atual de nosso veículo (inicialmente sem a música de meio de semana), e apareceu com imponência. Ela começa como música de caixinha de música envolvente e delicada. Lá pelo primeiro minuto desce uma chuva de barulho sintetizado que cria uma das dinâmicas entre eufonia e abrasividade mais bonitas ouvidas esse ano. A música progride com surpresas: uma nota em delay que se transforma em principal motivo, umas camas de tecladinho e sobretudo um vocal ensandecido e distorcido que lembra Gibby Haynes dos Butthole Surfers gritando em “Jesus Built My Hotrod” do Ministry. Uma hora, acertadamente, a parede de barulho some, logo antes da entrada do vocal… mas é só para quando ela entrar de novo criar a sensação de que o inferno está comendo solto. “Sweet Love for Planet Earth” são definitivamente alguns dos dez minutos mais inacreditáveis que ouvimos esse ano. Que os anos vindouros revelem muitas mais composições primorosas do Fuck Buttons… (Ruy Gardnier)

P.S. Acompanhe a partir de sábado, 20/12, nossas listas individuais de preferidos do ano.