22
Dez
08

Melhores de 2008: Músicas – Thiago Filardi

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2562 – “Morvern” (Tectonic)
Alexander Tucker – “Veins to the Sky” (ATP)
Antony and The Johnsons – “Shake That Devil” (Rought Trade / Secretly Canadian)
The Bug Ft Warrior Queen – “Insane” (Ninja Tune)
Clouds – “Elders” (Jahtari)
Cult of the 13th Hour – “Way of the Gun” (Planet Mu)
David Byrne & Brian Eno – “Strange Overtones” (Todomundo)
Deerhunter – “Agoraphobia” (Kranky / 4AD)
Department of Eagles – “No One Does It Like You” (4AD)
Erykah Badu – “Soldier” (Universal Motown)
Evangelista – “Truth Is Dark Like Outer Space” (Constellation)
Flying Lotus – “RobertaFlack (Feat. Dolly)” (Warp)
Food for Animals – “Shhhy” (HOSS)
Geiom Feat. Marita – “Reminissin’ (Skream’s ‘Time Traveller’ Refix)” (Berkane Sol)
Hercules and Love Affair – “Blind” (DFA)
Joker & Rustie – “Play Doe” (Kapsize)
Lil Wayne – “A Milli” (Cash Money / Universal Motown)
Madonna – “Candy Shop” (Warner Bros.)
Martyn – ”Natural Selection” (3024)
Mestre Curica – “Carimbó pra Maria” (Candeeiro)
Portishead – “The Rip” (Universal Island / Mercury)
Santogold – “L.E.S. Artistes” (Downtown Music / Lizard King)
Shackleton – “Death Is Not Final” (Skull Disco)
TRG – “Broken Heart (Martyn’s DCM Remix)” (Hessle Audio)
Unknown Artist – “BBQ” (Thriller)

A lista acima está organizada em ordem alfabética pelo primeiro nome do artista e os critérios que utilizei são os mesmos descritos pelo Marcus [ver post abaixo]. Portanto, evitei colocar faixas que não funcionassem fora do álbum ou seguissem um fluxo contínuo dentro do mesmo. É o caso de algumas favoritas como “First Communion” do Gang Gang Dance, “Sweet Love for Planet Earth” do Fuck Buttons, várias do LP Los Angeles do Flying Lotus e do Where Were U in ’92? do Zomby. Outro fator decisivo foi o tamanho da lista, estabelecido em 25 itens. Embora algumas músicas de Tom Zé, Dusk + Blackdown, Dungen, Ilyas Ahmed, Autistic Daughters e David Grubbs tenham feito minha cabeça durante esse ano, preferi omiti-las, já que todos estão assegurados na minha lista de discos; por outro lado, quis favorecer os artistas que operam no formato do compacto de 12”, o que é muito comum no dubstep, por exemplo. Alguns nomes aparecerão nas duas listas, como Portishead, Evangelista, Flying Lotus, The Bug e Lil Wayne. Esses, no caso, merecem todo o destaque possível, porque além de terem feito grandes álbuns, também fizeram músicas bem acima da média e que merecem o devido destaque.

2008 viu a ubiqüidade de uma canção chamada “Beautiful Girls” do rapper mirim Sean Kingston. Querendo ou não, a música fez parte da trilha sonora do ano, pois esteve presente em todos e quaisquer alto-falantes espalhados pela cidade, sejam estéreis de carros e casas, rádios, festas e toques de celular. Mesmo sendo pegajosa, melosa e irritantemente ruim, “Beautiful Girls” é sintomática em relação ao estado atual da música pop. Kingston alterna versos rapeados e um refrão melódico cantado através do Auto-Tune. Esse processador eletrônico existe há algum tempo, porém é usado cada vez mais na música pop e na eletrônica, a contragosto de críticos e especialistas. De fato a sonoridade do vocoder não é das mais bonitas, no entanto o uso deste foi um meio encontrado pelos produtores, principalmente de hiphop, de driblar a falta de criatividade vigente na música pop, e não apenas suprimir limitações técnicas, como é dito por aí. A questão principal é como o Auto-Tune deve ser utilizado. Kanye West o incorporou com grande efeito no seu último disco, 808s & Heartbreak, reinventando sua linguagem e buscando novos caminhos para o pop e o hiphop. “See You in My Nightmares”, com a participação de Lil Wayne, mostra como esse plug-in pode soar poderoso se usado da maneira correta.

Pessoalmente, 2008 foi um ano de muitas descobertas, de um alargamento do meu gosto musical e de um desenvolvimento maior do meu senso crítico, graças a esse blog. A Camarilha dos Quatro também fez com que eu entrasse em contato com inúmeras bandas e artistas que desconhecia completamente e me estimulou a pesquisar com mais afinco as áreas relacionadas ao meu gosto. Foi igualmente importante que eu estivesse atento às muitas novidades no mundo da música, sem ficar restrito a nenhum gênero específico. O dubstep foi o ritmo que mais me embalou e que mais tomou tempo nas minhas pesquisas. Tive a honra de ver alguns nomes importantes da cena tocando ao vivo, como Martyn, 2562, DJ Hatcha e Silkie e sentir essa música para além dos alto-falantes caseiros, do carro ou iPod. Todos parecem concordar até o momento que Martyn foi o grande nome da cena esse ano, e de fato foi. Com dois compactos maravilhosos e variados remixes, Martyn, juntamente com Flying Lotus, reinventou a dimensão de espaço na música contemporânea. Detentor de uma batida precisa, porém cheia de quebras, sons gasosos e melancólicos, ele levou o dubstep a novos patamares, com sua produção detalhista, sem ficar preso a fórmulas óbvias.

Esse ano o dubstep assumiu de vez a influência do Basic Channel, a exemplo dos discos de estréia de 2562 e Headhunter. E por mais que a incorporação do dub-techno tenha valorizado a estética do dubstep e sua capacidade de ambientar o ouvinte em uma esfera espaçosa e ecoante, ela também trouxe restrições à criatividade de alguns produtores. Isso influiu para que uma nova geração buscasse novos ritmos e possibilidades dentro do gênero e daí, portanto, a criação do chamado wonky, no qual estão subscritos Rustie, Ikonika, Joker e o selo Thriller. Alguns até retomaram sonoridades antigas, como o polivalente Zomby, seu Where Were U in ’92? e o selo Hate. Shackleton se confirmou como uma das maiores promessas do dubstep e lançou uma dupla de EPs maravilhosos, dois splits com o Mordant Music e a coletânea Soundboy’s Gravestone Gets Desecrated by Vandals, junto com Peverelist e seu comparsa Appleblim. A compilação marca o fim de um dos selos mais inovadores da década, a Skull Disco, que infundiu uma estética nova na música eletrônica, ao cruzar o dubstep com o techno, a percussão tribal e efeitos e vozes sombrios. Outros destaques foram o grupo finlandês Clouds, com o dub vigoroso e grudento “Elders”, Pinch, que só parece evoluir, Ramadanman e o onipresente Skream, que fez um remix sensacional para “Reminissin’” de Geiom, emprestando a vitalidade que faltava à música e adicionando uma seqüência percussiva perfeita, que fez com que a música crescesse e tomasse proporções de hino. Além desse remix, ele teve um ano bem prolífico e lançou um excelente compacto pela Tectonic, um novo volume da Skreamizm pela Tempa e uma mixtape pela série Watch the Ride. Quem despontou como uma das forças mais criativas desse ano foi The Bug [foto], que além de duas faixas lançadas através do Cult of the 13th Warrior (“Weirdness” em 12” pela Soul Jazz e “Way of the Gun” inclusa na coletânea da Mary Anne Hobbs), projeto que leva a frente com o Spaceape, ele lançou seu segundo trabalho, London Zoo, que é o álbum representativo de toda uma cena underground londrina, mesclando magistralmente estilos como o dancehall, grime e dubstep. As melhores faixas do disco foram lançadas no ano passado em 12”, como “Skeng”, “Poison Dart” e “Jah War”, mas há outras tão boas quanto, como “Angry”, “Murder We”, “Too Much Pain” e “Insane”.

Cada ano que passa fico com a impressão de que o pop, o rock e o hiphop estão agonizando. No pop, a onda oitentista continua tomando conta e há poucas coisas a se salvarem. Nesse sentido, a DFA ainda é o selo mais confiável, pois mesmo que originalidade não seja seu forte, o selo de James Murphy é capaz de nos dar discos totalmente hedonistas, que é o caso do Hercules and Love Affair (que também conta com a ajuda de Antony Hegarty). Já Madonna chamou os melhores produtores do momento e fez um disco impecável e impressionante na sua produção, porém com um songwriting muito fraco e pouquíssimo inspirado. Há de se salvar “Candy Shop”, com uma programação de bateria perfeita e ótimos arranjos. Santogold foi outra menina que mereceu atenção, pois mesmo que tenha feito um disco sem consistência e foco algum, compôs um dos maiores hits do ano, a explosiva “L.E.S. Artistes”, com um riff de guitarra picareta, vocais esganiçados e um refrão mais que empolgante. O maior trunfo pop do ano foi a pérola metalingüística “Strange Overtones” dos veteranos e geniais Byrne e Eno, que fizeram um disco bem aquém do esperado, mas capaz de proporcionar momentos sublimes, como essa música, que faz uma brincadeira com o revival oitentista através de uma letra poética e sarcástica, uma melodia contagiante e um refrão inspiradíssimo. É como se eles quisessem dar uma resposta para essa onda nostálgica, utilizando seus mesmos artifícios, mas fazendo-o de uma maneira correta e inteligente. Outros acontecimentos importantes no pop foram o lançamento do tão aguardado segundo disco no Gnarls Barkley que, longe de ser ruim, foi decepcionante por não trazer nenhum hit tão marcante e imediato quanto “Crazy” e por soar melancólico demais. Wiley finalmente assinou com uma grande gravadora e esse pareceu ser seu grande ano, com dois LPs e um mega-hit no Reino Unido, a simplérrima mas contagiante “Wearing My Rolex”. E aí fica a pergunta se foi o pop que ganhou com isso ou o grime que perdeu, já que o gênero tem sido cada vez menos importante no mainstream britânico e, por conseguinte, no cenário mundial. O Hot Chip, onipresente na cena musical inglesa, lançou o constrangedor e farofeiro Made in the Dark, que possui, ao menos, uma grande canção, “Ready for the Floor”.

No rock, as bandas mais interessantes continuam restritas ao circuito undergound e às cenas experimentais. Duas estéticas parecem se opor: uma, mainstream e revivalista, e outra, underground e barulhenta, flertando com o noise e querendo soar lo-fi. Boa parte das grandes canções do gênero está inclusa no álbum Hello, Voyager do Evangelista, projeto de Carla Bozulich, e quis destacar “Truth Is Dark Like Outer Space”, uma música que me pegou em cheio no início do ano, como uma porrada mesmo. E se há os nostálgicos em relação aos anos oitenta, há Bardford Cox e seus Deerhunter e Atlas Sound, presos a um tipo de sonoridade dos anos noventa, que remete a Pavement, Spiritualized, My Bloody Valentine e tudo referente ao shoegaze. Por mais que não preze a originalidade e seus discos deixem muito a desejar, Cox é apto a criar canções belas e singelas, como “Recent Bedroom” e “River Card” do Atlas Sound e “Agoraphobia” do Deerhunter, que como bem atentou o Bernardo, lembra um pouco “Come Live With Me”, do Marvin Gaye, o que, todavia, não tira seu mérito e sua beleza. Outras que quase entraram para lista foram “Angels” e “Wucan” do grupo de rock psicodélico Black Mountain e “On Board”, do Friendly Fires. Mas nada que não tenham feito antes em outra época… O Tindersticks teve a belíssima “Yesterday Tomorrows”, que, no entanto, não acrescenta nada de especial à obra do grupo. A corrente de resgate ao folk se desgastou e com ela o próprio folk, que não deu à luz sequer um nome interessante este ano, se destacando apenas artistas já conhecidos, como Josephine Foster e suas lindíssimas “The Lap of Your Lust” e “Lullaby to All”, Mount Eerie, que junto com Julie Doiron e Fred Squire, fizeram as frugais e belas “Lost Wisdon”, “Voice in the Headphones”, “Who?” e “What?”, e ainda Alexander Tucker com a divina “Veins to the Sky”. Quem não opera exatamente nem no rock nem no folk, mas transgride a essência dos dois é o Department of Eagles, que fez essa pérola pop chamada “No One Does It Like You”. O que é maravilhoso nela é a espera pelo refrão, que, a princípio, parece inexistente. E ele vem somente uma vez, lá pro final da música. É esse tipo de estrutura, calcado na espera e na tensão harmônica que não se vê mais na música pop e, nesse ponto, Daniel Rossen é mestre, sabendo empregar como ninguém os elementos constituintes de uma canção. Outro mestre é Antony Hegarty, que deixou uma enorme expectativa para o ano que vem com o EP Another World, mais uma coleção de canções tristes e majestosas. “Shake That Devil” é a mais inventiva, com arranjos experimentais, voz frágil mas inabalável de Antony e uma irrupção brusca da bateria, que proporciona um dos momentos mais extasiantes do ano.

No hiphop, o ano foi de Lil Wayne (no mainstream) e Flying Lotus (no underground) e mais uma vez a profecia de Nas se confirmou: o gênero está morto. Se não fosse por esses dois e a tentativa de Kanye West de salvá-lo, não sobraria muita coisa. Teve o brilhante Food for Animals, com um disco pesadíssimo e a sensacional “Shhhy” e Madlib deu continuidade a sua discografia prolífica, com lançamentos do Beat Konducta, a segunda parte do Madvillainy (só de remixes dos originais) e o projeto Jackson Conti, junto com Mamão do Azymuth. E como Sean Kingston, Lil Wayne foi ubíquo no Rio de Janeiro, emplacando os hits “Lolipop” e “Got Money”. Destaco, todavia, “A Milli”, com baixo, programação de bateria e rap de tirarem o fôlego. Sobre o Flying Lotus devo comentar mais no texto que acompanhará a lista de discos, já que ele fez um grande álbum, que engloba grandes faixas, mas que não devem ser retiradas de seu contexto unitário e coeso. “RobertaFlack” saiu tanto no LP quanto no primeiro EP dos Los Angeles, editada e com fade out no final, por isso a inclusão. Outro grande destaque foi Erykah Badu, que surpreendeu a todos com seu disco New Amerykah. Poderiam entrar facilmente na lista “The Healer” e “The Cell”, mas preferi colocar a incrível “Soldier”, de batida contagiante, ar melancólico e a voz celestial de Badu. Já a trupe do trip-hop voltou com tudo. Tricky fez um disco irregular, mas de momentos inspirados como “Bacative”, e o Portishead se firmou novamente como um dos nomes mais relevantes da música contemporânea. Não faltaram boas músicas ao Third, mas, pra mim, a mais bonita e tocante é “The Rip”, uma canção como não ouvia há muito tempo. Começa lenta, com Beth Gibbons quase sussurrando a melodia e um violão delicado fazendo a harmonia e os arpejos. Depois cresce espantosamente com um teclado bem pesado tomando o lugar do violão. O que mais me chama atenção nela é sua ambigüidade harmônica, que não deixa a melodia nem feliz nem triste, mas algo a ser decidido por nós. Uma verdadeira epifania.

O techno foi outro gênero que não me envolveu muito durante esse ano e acabou não tendo nenhuma representante na lista. A mencionar: Claro Intelecto com a ótima “Before My Eyes”, “I Want to Sleep”, do DJ Koze, que quase entrou, mas acabou me brochando com aquele texto falado no meio, um remix interessante de Andy Stott para “Recovery Idea” do Vladislav Delay, “Warped Mind” e “Estrange” do Shed e o techno-pop “Free to Ask” do Matthew Dear, que fez uma das minhas músicas favoritas do ano passado, “Deserter”.

Na música brasileira também não há muita coisa a destacar no que concerne faixas. Apenas o disco Música Magneta, dos Mestres da Guitarrada, que contou com um punhado de boas músicas, como “Carimbó pra Maria” do Mestre Curica, “Saudade do Pará” do Mestre Vieira e “Parácateado” do Mestre Aldo Sena. Poderiam fazer parte da lista canções de Tom Zé, do álbum Estudando a Bossa, mas preferi deixá-lo intacto, assim como o Punx do Guizado.

Foi quase impossível escolher apenas 25 faixas e muita coisa ficou de fora. Dei ênfase ao dubstep, pois, dos estilos musicais em voga, é aquele que resgata e insere sonoridades diversas na sua linguagem, sempre olhando pra frente e fazendo uma mistura totalmente fresca e inusitada. É também o gênero que mais experimenta com a batida 4/4, dando-lhe novos ares para respirar, ao contrário das limitações impostas pelo techno, house e rock. Faixas como “BBQ” do artista desconhecido da Thriller, o último EP do Zomby, “Play Doe” do Joker e Rustie e tudo que foi lançado pelo Shackleton, apontam novos caminhos para esse gênero, que parecem tão interessantes quanto os atuais. Só nos resta esperar 2009 e ver onde essas correntes irão desaguar. (Thiago Filardi)


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