19
Jan
09

Tim Hecker – An Imaginary Country (2009; Kranky, EUA)

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Tim Hecker começou sua carreira nos anos noventa com o projeto de minimal techno Jetone, que alcançou algum reconhecimento crítico e formou uma pequena e fiel base de apreciadores. A partir de 2001, com o lançamento de Haunt Me, Haunt Me Do It Again, Hecker passa a usar seu próprio nome para lançar discos que transitam entre o noise, a escultura sonora e a música ambiente, fazendo livre uso das mais diversas fontes para suas experimentações, passando das field recordings de Radio Amor aos infames samples do Van Halen em My Love Is Rotten to the Core. An Imaginary Country é seu quinto álbum. (MM)

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Tim Hecker é daqueles criadores que por mais que sua música seja experimental, nunca ficamos alienados na audição de sua obra, apesar de toda artificialidade de seu método, suas composições são tão ricas (ou mais) quanto as lamentações do último de Elliott Smith. Mesmo quando seu som é abrasivo, nunca deixamos de vislumbrar outras sensações que não sejam a agressividade ensurdecedora de muitos cultores do noise (assim ele resolveu alguns dos problemas de Aidan Baker no lançamento conjunto de 2008, Fantasma-Parastasie).

Cada um de seus discos aponta para caminhos muito diferentes, mas ainda bem distante de prodígios da prolixidade como Rutger Zuydervelt ou o próprio Aidan Baker. No lugar de tentar apreender o ‘processo’, Hecker, à semelhança de Fennesz e Philip Jeck, pretende criar uma obra imbuída de algum significado. Ele parece sempre apontar ao mesmo tempo para o núcleo central de uma obra coesa e para o vazio – nunca estando em busca do silêncio, mas da constante mutação que não apaga por completos os traços originais.

Não há qualquer ponto de forte ruptura em sua discografia: cada um de seus lps, eps e colaborações apontam para terrenos familiares e ainda assim lançam nova luz sobre as formas já visitadas, nunca cedendo à facilidade da mera progressão que matou pós-rock dos anos 90 (quem ainda suporta estas músicas cheias de ápices que não são mais altos que as terras holandesas?). Sua base são o ruído, os samples irreconhecíveis e as intervenções de sintetizadores e Melotron que colorem e dão pulso às faixas. Seu trabalho se mostra cada vez mais distante de qualquer forma de música ambiente. Sua capacidade criadora apenas encontra rivalidade na obra de um Christian Fennesz ou um Keith Fullerton Whitman. A batida que toma forma de pulso, consegue em alguns momentos conter a tendência “oceânica” do noise comum em sua obra para que esta corra no leito de um rio caudaloso.

An Imaginary Country sugere o possível retorno às formas definidas de seu projeto de início de carreira, Jetone. Mas isso não significa que ele renegou todo o monumento ruidoso de discos como Harmony in Ultraviolet ou Haunt Me, Haunt Me, Do It Again; apenas, à semelhança de Harmony, sua atenção parece voltada à construção de espaços sonoros que evoquem estruturas complexas, como as miragens que deram título a um de seus discos.

Aliás, a mesma capacidade de criar miragens de formas que não existem, e nem mesmo foram imaginadas, é registrada na presença de diversos elementos da composição tradicional que ameaçam mas nunca se apresentam, desde a harmonia explicitada no disco anterior até melodias que aparecem insidiosas e sempre em fuga, formando motivos que se repetem, nos deixam em estado de suspensão e quando retornam nunca são os mesmos. Estes fantasmas de melodias às vezes parecem líricos, outras vezes perturbadores, nunca constantes. Como amantes a se conhecer: durante muito tempo vemos diversas pessoas no mesmo espaço, até que reunimos elementos suficientes para o reconhecimento confortável, mas sem impedir os sustos – cheios de doçura ou perplexidade. Em resumo, uma obra inestimável. (Marcus Martins)

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A musica de Tim Hecker é de uma beleza avassaladora. Seu novo disco, An Imaginary Country, segue o fluxo do anterior e belíssimo Harmony in Ultraviolet, com faixas que ora funcionam como um platô, de som contínuo, cujo volume é constante na sua intensidade, ora funcionam como rizomas, de camadas que se entrecruzam e se interpenetram.

Fennesz e GAS são as duas influências mais óbvias para Hecker. O primeiro por causa das texturas desgastantes e da melancolia perene transmitida; o segundo pela estrutura rizomática das faixas, com ramificações quase infinitas de estratos sonoros e linhas de fuga. Mas enquanto o projeto de Voigt leva ao extremo as teorias de multiplicidade deleuzianas e guattarianas, Hecker apenas flerta com as mesmas. Por mais que sua música seja baseada em fluxos contínuos de som, ainda é possível idenficar um começo, meio e fim em suas faixas, ao contrário dos experimentos do GAS, nos quais é impossível apontar para estruturas lineares: a música sempre se encontra no meio, no intermezzo.

A capa de An Imaginary Country também não remete a um platô e, sim, a um declive: duas pessoas descendo a encosta de um morro e prestes a cair num vale, num “país imaginário”, de detritos, pulsações, rizomas, fluxos e refluxos, de sombras feitas de sombras, ultrópicos, cascatas de acordes, pontos paragônicos, terras fronteiriças e margens interiores; um país no qual não existe linha de tempo: cem anos atrás era igual a duzentos anos atrás; um país cuja expressão maior é a música, bela, apaixonante e devastadora. (Thiago Filardi)

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Há pequenas coincidências interessantes no mundo. No mesmo momento em que Fennesz abdica dos ruídos mais associados ao glitch do começo da década em nome de um som mais focado e limpo, Tim Hecker vem e faz mais ou menos a mesma coisa. Ouvindo Radio Amor e Mirages, os discos que deram maior visibilidade a seu trabalho, ouvimos uma pletora de sons aproveitando “defeitos” sonoros, como repetições causadas por cds arranhados, barulhos abruptos ou abafados que lembram plugues com mau contato, sons de sala que passariam por deficiências de gravação etc. A habilidade de Hecker, assim como a de Christian Fennesz, consistia em misturar esses sons com texturas ambient extremamente carregadas de sentimento, criando dinâmicas de abrasividade/emotividade soberbas e uma densidade de som muito singular. Por alguma estranha razão – provavelmente o esgotamento de interesse e de novas possibilidades desses glitches, ou o risco de soar repetitivo e datado –, Hecker, como Fennesz, reduz e quase suprime os sons intermitentes, buscando uma formulação mais épica e centrada de sua música.

Assim, não é de se estranhar quando as duas primeiras faixas de seu disco novo, An Imaginary Country, são baseadas em notas alongadas de sintetizador ou órgão, criando texturas densas, com poucos detalhes ou camadas suplementares – no caso de “Sea of Pulses”, naturalmente, excetuando a pulsação de graves de sintetizador que dá nome à faixa. “Sea of Pulses”, aliás, parece um possível remix do Fuck Buttons para uma música do Angelo Badalamenti. Aproveitando o nome do disco, a audição parece uma viagem turística por esse país imaginário feito de tempo, saturação e sonoridades evocativas que chamam imagens. As faixas se emendam umas nas outras, provocando uma sensação de continuidade que aumenta essa sensação de viagem a um país desconhecido. Mas, aproveitando algo que eu já tinha mencionado quando escrevi sobre Black Sea do Fennesz, as paisagens evocadas são sentimentais, interiores, não exteriores. Daí nomes de faixas como “The Inner Shore”, a margem interior, ou “Utropics”, trocadilho propondo um trópico utópico, ou metáforas sensoriais/geográficas: cascatas de acordes em “A Stop at the Chord Cascades”, horizonte negro em “Her Black Horizon”, correntes de eletrostática…

No entanto, a lapidação do som e o interesse especial de Hecker por paisagens sonoras aproxima An Imaginary Country menos de Black Sea do Fennesz do que de Persistent Repetitions of Phrases do Caretaker, com sons que remontam a épocas remotas (o disco começa com “100 Years Ago” e termina com “200 Years Ago”) e um ambient que associa drones com melodias fragmentárias, construindo texturas fantasmáticas, etéreas a despeito da densidade das texturas. O álbum atinge o clímax na longa (oito minutos e meio num disco cujas faixas variam entre três e quatro minutos) e pronunciadamente mais barulhenta “Where Shadows Make Shadows”, que parece sumarizar todos os sons do disco: pulsos graves, órgãos cheios de efeito, camadas de ruído de sala, ruídos graves intermitentes. A faixa final retoma o tema da primeira, emoldurando o fim da viagem e encerrando o ciclo. Se ainda resta a impressão de que Tim Hecker ainda não conseguiu delimitar sua área de atuação sonora com tanta clareza e personalidade quanto Fennesz, An Imaginary Country é não obstante um suntuoso exercício de flutuação através de paisagens e espaços criados pela música. (Ruy Gardnier)

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Um dos artifícios mais manjados para descrever uma sonoridade qualquer é lançar mão de adjetivos sinestésicos como “gasoso”, “solar”, etc. Diante do cenário contemporâneo, esta é uma solução útil, que indica a dimensão “material” sobre a qual muitos autores se concentram. A música de Fennesz constitui um bom exemplo onde este artifício serve à perfeição, muito por conta da timbragem especialmente abrasiva que este artista confere a seus trabalhos. Tim Hecker não me permite escapar a esta fórmula: a forma das faixas que ele produz neste álbum evoca uma série de sons que poderíamos deduzir de elementos naturais, como a estridência do canto dos pássaros e o aspecto “gasoso” de alguns sons identificados ao ambient e ao drone. Mas o que me incomoda neste álbum especificamente é uma certa negociação com uma dimensão musical, no sentido clássico do termo, que implica em algumas passagens que, tal como o Fordlandia, de Johann Johannsson, ou ainda o Treny de Jacaszek, dialogam de uma forma um tanto burocrática com determinadas linhas harmônicas e melódicas. Em An Imaginary Country, convivem sons abrasivos produzidos com a competência de um Fennesz, mas com guitarras, baixos e teclados não tão intrincados e admiráveis como o do guitarrista austríaco – neste caso, ouçam a faixa-título de seu último álbum, Black Sea. Faixas como “The Inner Shore” e “Paragon Point”, que me parecem as mais interessantes de todo o disco, se perdem em incursões melódicas banais. Isso quando não ocorre, como em “200 Years Ago”, uma comparação imediata e um tanto incômoda com o Gas, de Wolfgang Voigt. Não que o álbum seja de todo desinteressante, como considero os supracitados Fordlandia e Treny; mas às vezes as viagens de Tim Hecker se tornam excessivamente burocráticas, provocando mais a antipatia que a audição atenta que seus precursores demandam. (Bernardo Oliveira)


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