31
Jan
09

Eric Copeland – “Alien in a Garbage Dump” (2008; Paw Tracks, EUA)

ericcopeland

O loop está com tudo. OK, pode-se dizer que isso não é novo, e que o loop está por trás da maior parte das manifestações de vanguarda a partir da manipulação de fita (de Steve Reich a Wiliam Basinski), que sem o loop o hip-hop não existiria (feito em fitas ou pelo tour de force de tocar o mesmo segmento na sequência em picapes diferentes) e que a revolução da música eletrônica de pista (ou toda ela) é impensável sem ele. E tudo isso é verdade. Mas a questão de hoje é outra. De uns tempos para cá, o loop foi se tornando um elemento amigável, reconhecível, tradicional até. Virou uma técnica e um procedimento expressivo utilizado segundo lógicas já inventariadas. Mas quando aparecem discos como Person Pitch (2007), do Panda Bear, que reinventam novos lugares para o loop, ou, em outras palavras, criam loops de sonoridades inusitadas para loopar, a gente percebe que um novo caminho pode surgir. (Vale a pena lembrar que o Animal Collective, grupo de que Panda Bear faz parte, já tinha seu quinhão de experimentações no terreno antes desse disco solo divisor de água). Ano passado vimos mais alguns artistas empunharem com orgulho o bastão da renovação do loop. High Places, El Guincho, OK, mas neles a derivação é mais direta. Com Juana Molina e a magnífica “Un día” a coisa vai mais longe e selvagem (cf. nossos textos sobre seu disco). Mas no EP Alien in a Garbage Dump Eric Copeland leva a coisa a proporções inimagináveis. Na faixa que dá nome ao EP, facilmente a mais elaborada do disquiho, ele loopa curtos trechos de falas, fragmentos de melodias, barulhos de fundo,  emendando tudo com a mesma fúria e gratuidade que seu grupo, o genialíssimo Black Dice, arranca barulhos extremos e paradoxalmente palatáveis de seus apetrechos. “Alien in a Garbage Dump” parece uma retomada de “It’s Gonna Rain” de Steve Reich, só que ao invés do mesmo trecho sendo repetido, temos uma miríade de signos que nos atacam de formas e lugares diferentes, um pouco como a lógica dos samples de My Life in the Bush of Ghosts de Brian Eno e David Byrne. As BPM altas em quase toda a extensão da faixa (a “batida” sendo a duração do loop) provocam uma irritabilidade meio asfixiante, meio adorável, que Copeland utiliza como ninguém para distilar sua personalidade irreverente e amiga do bombardeio sônico mais juvenil. Mas Copeland pode fazer o que quiser: ele está imbuído de uma coisa difícil de definir mas gritante quando vemos trabalhos desse quilate, uma coisa chamada musicalidade, e que pode se exercer mesmo a partir dos materiais menos “musicais” de todos. De alguma forma, suas colagens estão na mesma linhagem de Kurt Schwitters, dos Residents, de Bruce Conner… 2009 promete: disco novo do Black Dice chamado Repo para abril (depois da obra-prima que foi Load Blown, de 2007) e disco solo de Eric Copeland para algum momento desse ano. Que mais pedir? (Ruy Gardnier)


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