
BJ Nilsen é Benny Jonas Nilsen, artista multimídia nascido na Suécia. Lançou seu primeiro cassete em 1991, aos 15 anos, pelo nome de Morthound. Também trabalhou sob os pseudônimos Hazard e Tape Decay. No início da década assinou com o renomado selo britânico Touch, pelo qual gravou regularmente até 2007. Já colaborou com artistas aclamados da cena experimental como Chris Watson, Christian Fennesz e Z’ev.
Stilluppsteypa tem origem islandesa e começou como um trio de rock experimental, formado por Sigtryggur Berg Sigmarsson, Helgi Thorsson e Heimir Björgúlfsson. Em meados da década de 90 se mudaram para a Holanda, onde estudos sonoros de computador e um conselho de Bruce Gilbert, o fizeram modificar bruscamente sua estética, abandonando as guitarras e operando exclusivamente no campo de pesquisas eletrônicas. Em 2002, o então trio passou a ser uma dupla após a saída de Heimir Björgúlfsson. Também colaboraram com nomes importantes da música experimental como Melt-Banana, The Hafler Trio, Ryoji Ikeda, Nurse With Wound e Zoviet France.
Man From Deep River é a quarta colaboração conjunta dos dois e a estreia de ambos no selo Editions Mego. (TF)
* # *
Um dos grandes interesses deste Man From Deep River é o método utilizado para compô-lo: a partir de uma fita achada de 1975, contendo sons de floresta, Nilsen e Stilluppsteypa adicionaram drones, barulhos eletrônicos, outros sons ambientes e vozes. É como se o ponto inicial fossem as pesquisas de field recording de Francisco López e Chris Watson, processadas e reavaliadas por Kevin Drumm ou Machinefabriek.
Quanto à utilização de sons naturais de florestas e animais, nenhuma novidade na sua apropriação e recontextualização. O problema surge na justaposição das gravações. É muito fácil e cômodo pegar um material bruto, editá-lo e modificá-lo dentro do conforto de uma casa ou um estúdio. Dever-se-ia ter, no mínimo, um respeito por aquilo que foi registrado, deixando o som tal como é, ou um empenho maior em fundir as duas gravações, criando algo orgânico e coeso. Não é o caso de Man From Deep River.
O termo isolacionista é um tanto apropriado para este álbum, pois o que os artistas querem discutir é a relação do homem com a natureza, a condição solitária do primeiro em meio ao primitivismo do segundo. Mas não seria equivocada a abordagem desse assunto através de uma técnica intervencionista? Pois o que Nilsen e a dupla islandesa fazem, ao contrário de Watson ou López, é dar substância ao som gravado, como se os sons da floresta ou dos pássaros não fossem substanciais o suficiente e, portanto, removem a qualidade intrínseca dos mesmos. O isolamento do homem perante a natureza é real e desolador, mas se é exatamente este sentimento que os artistas querem expressar, não se deve intervir tão bruscamente no som natural como em algumas passagens.
Outro fator negativo de Man From Deep River é a falta de coesão demonstrada em grande parte do álbum. A música não segue um fluxo contínuo, assim como os trechos são mal justapostos, o que invalida o propósito da experiência. Os momentos esteticamente desconcertantes são, ironicamente, aqueles de ruptura, como as percussões (meio fora de lugar até) do início da primeira parte e a sequência melódica do final da mesma parte. O que conta a favor de Nilsen e do duo islandês, contudo, é a real experiência que o ouvinte obtém ao entrar em contato com sua obra: são despertos sentimentos de mistério, descoberta e… isolamento; tudo aquilo que grandes manipuladores do som são capazes de engendrar. Talvez se o projeto fosse incipiente (esta já é a quarta colaboração mútua), mais fragmentado e procurasse mascarar um conceito equivocado (que, paradoxalmente, é um dos interesses desta obra), o resultado poderia ser mais satisfatório. (Thiago Filardi)
* # *
Confesso que os nomes me eram completamente desconhecidos até o Thiago propô-los para a Camarilha. Na pesquisa, notei que ao menos o Stilluppsteypa é muito bem credenciado, já tendo trabalhado com Melt Banana, Nurse With Wound e Zoviet*France. Mais interessante é saber que eles fazem parte de cena escandinava de artistas sonoros de drone/noise/ambient e que já fizeram parte de coletâneas para que também foram chamados Merzbow, Keith Rowe e Acid Mothers Temple. A somar com o fato de que esse disco foi lançado pela Emego, uma das gravadoras mais importantes da atualidade e tarimbada por lançar alguns dos mais significativos discos de artistas de noise (Sheer Hellish Miasma de Kevin Drumm, Endless Summer de Fennesz, tudo do KTL). Mas certamente não será por Man From Deep River que eles, junto com BJ Nilsen, que eles ganharão um lugar entre os significativos de qualquer gênero. Trata-se de um disco feito a partir de gravações de natureza e floresta feitas na década de 7o. E a estratégia é utilizar os registros de campo como um instrumento principal, acrescendo a ele alguns drones, blipzinhos de sintetizador e algumas sonoridades que podem evocar clichês de “sons primitivos”, como o gamelão no começo do disco. O problema é que a maior parte do que acontece sonoramente no disco é redundante, os registros de campo não fazem nada além de mimetizar o ambiente natural, os timbres nada apresentam de mais significativo e os drones especialmente são de uma angustiante falta de imaginação em suas texturas soturnas light. O fato de serem apenas três faixas é de coçar a cabeça, porque nenhuma delas apresenta homogeneidade sonora e tampouco se beneficia da longa duração. Ao contrário, elas são subdivididas em vinhetas e funcionariam melhor assim: ao menos tenderiam a cansar menos o ouvinte. Mas o pior de tudo talvez seja o título do disco, em como ele de alguma forma já preconiza todo o universo de sons do disco e transforma a audição num jogo associativo dos mais vagabundos. De todas as maneiras de se utilizar dos onipresentes field recordings, essa é certamente uma das piores. (Ruy Gardnier)
* # *
Um dos indícios de que é possível pensar um novo horizonte para a música é a evolução da história do registro, manipulação e diálogo com sons orgânicos, que ainda nos surpreenderá com muitas reviravoltas, devido a sua ampla gama de possibilidades. Considerando desde os field recordings até as possibilidades de emulação e de sua consequente manipulação musical, muito se realizou em favor de um espaço sonoro musical relativamente independente dos cânones da música ocidental tradicional. Para além da melodia, do ritmo e da harmonia, me parece que Man from deep river vem juntar-se a outras tantas manifestações como os registros de John Lomax, as manipulações de Pierre Schafeur, as “brincadeiras” decisivas de John Cage, as pavarosas sondagens telúricas de Iannis Xenakis e Stockhausen, mas também aos artistas mais recentes como Philip Jeck, Kevin Drumm e Daisuke Miyatani, que buscam, cada um a seu modo, outras lógicas culturais do som através da aculturação. Não que Bj Nilsen e Stilluppsteypa estejam no mesmo nível dos já citados. Mas eles participam sem dúvida da mesma convicção de que a música é mais do que reiteração de procedimentos em curso ou de crença ocasionada pela formação cultural. De Bj Nilsen já havíamos nos surpreendido com alguns álbuns realmente interessantes nesta seara, dos quais se destacam Wood c/w Bridge/Field, de seu projeto Hazard, e o curioso The Short-Night, um álbum de 2008, descoberto em 2009. Pouco sei do islandês Stilluppsteypa, mas já me certifiquei da capacidade plástica que o grupo tem de alterar sua perspectiva musical. Juntos, BJ Nilsen e Stilluppsteypa gravaram quatro álbuns, sendo o último este Man from deep river.
O álbum está longe de ser impecável, preenchido que é por muitos trechos em que aquela cama sonora, plácida e contínua, modula e conecta as partes mais interessantes. Ao contrário do poder sintético de Imperial distortion, onde Kevin Drumm distila uma delicadeza extraordinária no trato com a mímese, interceptando qualquer interpretação ordinária de seu trabalho, este Man from deep river lida mais com francas e desabusadas interações entre retratos naturais e manipulação digital. Neste sentido, advirto para o fato de que embora dignas de interesse, as duas primeiras faixas não são tão interessantes como a última, pois simplesmente intercalam os field recordings com as intervenções do computador. Em “Man from deep river part 3” a brincadeira parece atingir um grau mais complexo, com um colorido maior entre as partes, e sobretudo com uma manipulação menos óbvia das gravações, como na parte inicial, onde o som da chuva se confunde com o som de algo queimando, ou as vozes fantasmagóricas que volta e meia emergem do espiral sonoro caótico que a faixa delineia.
Interessante, mas um tanto óbvio, este álbum no entanto pode servir de base para compreender que a intenção não é tudo. Mesmo aqueles que buscam produzir um discurso “para além”, acabam por redundar no “bem aquém”, mas porque talvez não tenham se apercebido o quanto seus métodos e concepções devem ainda à Música com m maiúsculo, o quanto os grilhões de uma formação musical rigorosa podem atravancar a busca por outros caminhos. Não que eu esteja querendo indicar à Bj Nilsen e Stilluppsteypa que mudem de profissão, o que seria absurdo, mas que tratassem de assumir se de fato querem borrar fronteiras ou simplesmente brincar ingenuamente de sondar o inominável. (Bernardo Oliveira)
* # *
A maior parte da música que ouço é composta por drones e noise, isso não deve ser novidade pela quantidade de álbuns dessa seara que já propus aqui. A maior parte dos discos de drone/noise que ouço termina por adquirir menos individualidade que formar um espeço véu que encobre a memória de minhas audições. Muitas vezes gosto de alguns desses artistas prolíficos do gênero e tenho dificuldade de lembrar exatamente como são seus discos. Apenas após repetidas audições tenho condições de, em alguns casos, fazer associações que me permitam reconhecer alguma assinatura sonoro – caso de nomes como Fennezs, Kevin Drumm, Stars of The Lid ou William Basinski. Este não é, nem de longe o caso dos artistas aqui analisados. Primeiro, para ser justo, devo isolar o Stillupsteypa, do qual nunca tinha ouvido falar e não me sinto muito propenso a aprofundar a tênue noção que tive com este disco. Mas o caso de BJ Nilsen é emblemático. Seus nome é corriqueiro nos meios experimentais, muitas vezes associadas a alguns dos mais renomados artistas e ainda assim não consigo lembrar de um único de seus discos que ouvi que seja memorável, ou mesmo que instigado investigação mais profunda de sua produção.
Man from Deep River não faz muito para mudar isso, formado por meias idéias, muitos field recordings e pouca criatividade. Ao fazer as audições de praxe, tive dificuldade em apreender pontos aos quais pudesse remeter posteriormente. No lugar de noise eles criam aquele pior pesadelo da música ambiente: a música se dissolve em segundo plano por sua inanição e apenas nos lembramos dela com uma certa irritação – ah, ela ainda está tocando.
O problema do disco não está nos field recordings. O problema nunca está na matéria-prima, mas em quem a usa e como o faz. Em 2008 Chris Watson, um papa do field recording criou um lindo disco (Cima Verde) onde se abre muito espaço para a discussão de seu papel criador – diria que ele toma o lugar de um “cometedor” de ready-mades com tendências, mas ainda teremos oportunidade de voltar a Watson, não esqueçamos do elefante no meio da sala!
A máquina de lavar daqui de casa está com defeito e fora não conseguir lavar as roupas a contento, ainda produz alguns ruídos bem intrusivos. Meus sobrinhos de menos de três anos ficam nervosos após longas sessões de lavagem. Pois é, o contraponto ao Man from Deep River é que o ruído da máquina dava um field recording muito superior e pronto para ser editado e lançado. (Marcus Martins)








