02
Fev
09

Christina Carter – Masque Femine (2008; Many Breaths, EUA)

masquefemine

Christina Carter é uma cantora e guitarrista americana nascida em Houston, no Texas, em 1968. Em 1991, formou com seu então marido Tom Carter e o duo Charalambides, às vezes com a inclusão de outros membros. Desde então, o grupo gravou cerca de 35 lançamentos entre álbums e CD-R’s, além de alguns compactos e participações em coletâneas. O som do Charalambides é freqüentemente descrito como uma incursão nas raízes da música americana, com fortes doses de silêncio, psicodelia e repetição. Alguns destaques da discografia do grupo são Union (1993, Siltbreeze), Market Square (1995, Siltbreeze), Houston (1998, Siltbreeze), IN CR EA SE (2002, Eclipse), Joy Shapes (2004, Kranky) e A Vintage Burden (2006, Kranky). Como artista solo, já lançou desde 2001 mais de vinte discos, entre álbuns, CD-R’s e fitas cassete. Entre eles estão Living Contact (2002, Wholly Other), Electrice (2006, Kranky) e Vert (2007, Many Breaths). Em 2008, afora Masque Femine, lançou também os discos A Blossom Fell, Original Darkness, Texas Working Blues, Two Nights Film e o ao vivo Message Volume One: Live Toronto DC. Além de trabalhar com música, é também poeta e artista visual. (RG)

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Muitas vezes, nossa relação com música – ou, na verdade, com qualquer outra arte – depende do estado de espírito e das circunstâncias certas para desenvolver uma compreensão mais profunda daquilo que está sendo presenciado. É o caso sobretudo com obras que demandam de seu ouvinte condições de atenção/percepção mais exigente que o usual. O caso de Masque Femine me parece algo extremo: ouvido fora de algumas condições, pode parecer um exercício vão, apressado e auto-indulgente com recriações a cappela de músicas sobre amor e fim de relacionamento amoroso. É um disco solitário, extremamente solitário, e deve ser ouvido assim: de preferência com fones de ouvido, de forma que a voz de Christina Carter entre direto pelo ouvido e pelo cérebro, sem mediação do espaço a ser percorrido das caixas de som. Os fones também aumentam significativamente os dois sentimentos que mais impregnam a audição, a intimidade e a enorme vulnerabilidade transmitida pelas vocalizações (o fato de “vocalizações” ter sido utilizado ao invés do inapropriado “canto” diz muito sobre as operações da cantora) totalmente inusitadas de Carter. Outra razão decisiva é o fato de haver tantos detalhes sussurrados, gemidos, quase imperceptíveis, que só uma audição extremamente concentrada e solitária é capaz de proporcionar uma ligação mais forte com o disco.

Masque Femine, no entanto, é muito mais que um desabafo de mulher sobre o desejo de ser amada e sobre o fim de um amor. É, num nível mais profundo, um questionamento radical do poder emotivo da voz humana e uma operação quase subversiva de desmelodização das canções. Porque aqui Christina Carter não propriamente canta. A expressão mais apropriada seria dizer que ela dramatiza sua voz, declamando faixa por faixa, quase sempre sem acompanhamento musical. O fato de serem todas composições já existentes, algumas delas standards, como “All Alone” de Irving Berlin, “Quiet Nights” de Tom Jobim (a versão americana de “Corcovado”, letra de Gene Lees), “End of a Love Affair” de Otis Redding e “I Fall in Love Too Easily” de Sammy Cahn, torna a proposta ainda mais clara, descaracterizando toda a estrutura melódica dessas canções e deixando a voz nua para afrontar com fragilidade surpreendente o sentido literal das composições.

O que Christina Carter pretende mostrar – e em meu julgamento consegue definitivamente – é que o poder de dramatização da voz, mesmo sem precisar ficar escorado na composição, pode assumir proporções avassaladoras. E as provas não são exibidas em grandes painéis mas em pequenos e fugazes momentos, como a simples maneira de falar o “t” final em “End of a Love Affair”, o eco soturno e dilacerador provocado pela voz em “Centerpiece” ou os gemidos e sussurros de “Ask Me Now”. São detalhes que, de tão diretos, de tão íntimos, provocam uma imersão grandiosa nesse mundo de amores perdidos – imersão guiada única e exclusivamente pela pungência e pela habilidade vocal de Carter.

Masque Femine pode até dar a impressão, mas não é um disco tão “subjetivo” assim. É claro que a acumulação de músicas que lamentam o fim recente e recordam o passado feliz desempenha um papel determinante, mas Christina Carter sabe utilizar isso de forma algo lúdica, porque seu problema primordial é com a música, com a voz em si, e com suas potencialidades para criar poder emotivo mesmo despida de melodia (ainda que alguns momentos do disco sejam de fato cantados, ainda que em melodias sem relação com as das versões originais. Por vezes, mesmo, a voz dá uma certa impressão de impessoalidade, o que torna a coisa bem mais interessante, substituindo os possíveis arroubos emocionais por um estilo sem extravasamento que dá uma solenidade intensa e inusitada à voz.

Christina Carter, com Masque Femine, atenta para o fato de que, na primeira década do século XXI, rodeados que estamos de tantas possibilidades oferecidas pela vida moderna, entupidos que estamos pelo culto aos truques tecnológicos mais vazios em ideias, a voz humana sozinha ainda é capaz de enorme calor, inventividade e gênio. (Ruy Gardnier)

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Christina Carter trabalhou muito em 2008. Entre CD’s, CD-Rr’s e colaborações, dois discos autorais impecáveis, Original Darkness e este, Masque Femine. Embora muito diferentes em seus respectivos propósitos, ambos têm por base a utilização inteligente do vocabulário folk, ora o desconstruindo através de detalhes sutis e dissonâncias, ora jogando com a duração das faixas, dos acordes, etc. Estes elementos até podem unir os dois álbuns no contexto da carreira de Carter e de sua banda, o Charalambides, mas não os reduzem a uma questão de procedimentos. Ao contrário, os tornam ainda mais contrastantes, já que o eixo central deste Masque Femine não é o manejo da repetição que caracteriza Original Darkness, mas o trabalho com a voz que Carter desenvolve com maestria de artista absolutamente segura do que deseja expressar. Pois a dimesão vocal explorada por ela neste álbum extrapola o canto em direção a outras possibilidades: aqui, a voz soa como instrumento musical. Carter a controla com a consciência de certas inflexões acústicas ocasionadas pelo volume da emissão e pela proximidade da boca com o microfone. Ou, ainda, explorando de forma inusitada os sussurros, ressaltando aqueles estalos que são peculiares no contato entre a língua e o palato, criando overdubs inusitados com frases melódicas imperfeitas, mas extremamente expressivas. Estas características intimistas casam perfeitamente com o aspecto confessional das canções, sobretudo nas três primeiras: a sussurrada “All Alone”; “Ask Me Now” e as oitavas que ela inclui na melodia, justamente por cantar em volume tão baixo de forma a ressaltar as imperfeições a que chamei atenção acima; e o tom grave e incômodo que prenuncia “Centerpiece”, já cantada com uma intensidade mais forte que as anteriores. Seu violão aparece em apenas quatro faixas, emoldurando interpretações que destoam um pouco do conceito como um todo, mas que no fim das contas acrescentam como que um refresco à aridez da maioria das faixas. Uma aridez sofisticada, que pode ser destacada como a grande característica de Masque Femine: pois são os mínimos detalhes que emanam da interpretação ultraeconômica de Carter que fazem deste álbum uma das experiências mais bem sucedidas de 2008. E confirma que, muitas vezes, a novidade habita de forma despretensiosa e, às vezes, invisível, a imensa gama de CD-R’s que são jogados na rede todos os dias. (Bernardo Oliveira)

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Christina Carter e seu grupo Charalambides vêm fazendo música há uns bons quinze anos e não seria exagero colocá-los no rol de grupos mais inovadores da última década e meia. O casal Carter (Tom e ela) produz uma espécie de folk de improvisação com altas doses experimentais, às vezes tendendo para estruturas bem simples de canção (Likeness, de 2007) ou para a completa abstração sonora (Joy Shapes, de 2004). Não seria exagero também considerá-los como um dos precursores do movimento folk que eclodiu em meados dessa década, cujos herdeiros legítimos seriam o casal MV & EE. Precursores porque os Charalambides executavam música folk quando poucos se interessavam pelo gênero – eles o faziam por vontade e deleite próprios e tiveram a sorte de serem acolhidos pelo visionário selo Stiltbreeze, até Tom Carter fundar o Wholly Other.

Christina Carter, além do Charalambides, mantém uma discografia regular com seu projeto paralelo, o Scorces, e desde 2005 lança incansavelmente CD-R’s através de seu próprio selo, Many Breaths, e LP’s e cassetes pelo Wholly Other ou por outros, como o renomado Kranky. E Christina é não só prolífica como altamente criativa – cada disco do qual participa é uma nova surpresa. Assim foram os últimos do Charalambides, o álbum duplo do Scorces, ou os seis LP’s que lançou em 2008 – todos diferentes entre si.

Masque Femine é um projeto ousado: canções standard de jazz ou de shows dos anos 70 apresentadas de forma minimalista, apenas com a voz sussurrante de Carter e a adição de guitarras em quatro das dezessete faixas. O resultado chega a ser previsível, mas nunca óbvio: o registro que ela usou pra entoar cada uma dessas canções é totalmente único. Christina murmura as palavras como se fossem as últimas ditas – resta apenas a respiração e quase nada; os “cantos” não chegam a ser sussurros ou murmúrios, mas sopros, exalações de um pulmão rarefeito. O efeito intimista que essa escolha provoca chega a ser assustador, pois o que ela compartilha com o ouvinte é algo tão próprio, tão particular, que não há outra solução senão se entregar totalmente à música e abdicar de todo o resto para escutá-la, senti-la e tateá-la. É nesse ponto que surge um disco sem igual e precedentes, a antítese de Patty Waters Sings, Blue, Gal, Horses e Rid of Me, próximo apenas ao trabalho solo de Beth Gibbons, Colour Green de Sibylle Baier e Wild Is the Wind de Nina Simone. Masque Femine, ao contrário de todos esses, é confessional, profundo e visceral ao expirar debilmente as palavras e os sons, sem um pingo de violência ou veemência. E mesmo que requeira um pouco mais da atenção e absorção do ouvinte, a recompensa é gratificante – um álbum para ser posto no oblívio eterno das pérolas negligenciadas ou para ser um marco das novas formas de interpretação da música moderna. (Thiago Filardi)


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