Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Candeia – Filosofia do Samba (1971; Equipe, Brasil)

filosofiadosamba

Antônio Candeia Filho é um dos artistas mais peculiares de toda a história da música brasileira. Compositor, instrumentista precoce e portelense de primeira hora, integrou a escola de samba Vai Como Pode, que deu origem à sua agremiação. Em 1953 ganhou seu primeiro samba na escola. A partir de 1957 se torna policial, mas recebe um tiro que o encerra numa cadeira de rodas para sempre. Este evento alterou profundamente sua visão de mundo e, portanto, sua música. Em 1975, preocupado com os rumos excessivamente comerciais do samba e das escolas, Candeia funda o Grêmio Recreativo Arte Negra Escola de Samba Quilombo (Granes Quilombo), agregando o apoio de compositores da envergadura de Nei Lopes, Wilson Moreira e Noca da Portela. Pouco antes de sua morte, em 78, Candeia publicou, em parceria com Isnard, o livro “Escola de Samba – A Árvore que Esqueceu a Raiz”. Em Raiz (ou Filosofia do Samba) é seu segundo disco solo. (BO)

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Numa carta a Carlos Teixeira Martins, presidente da Portela nos idos de 1975, Candeia escrevia:

“Escola de samba é povo em sua manifestação mais autêntica. Quando se submete a influências externas, a escola de samba deixa de representar a cultura de nosso povo. Essas influências externas sobre as escolas de samba provêm de pessoas que não estão integradas no dia-a-dia das escolas. Não é mais possível continuarem os integrantes da escola sem acompanhar de perto tudo que se passa na Portela”.

Palavras e expressões como “autêntico”, “influências externas” e “nosso povo” podem estimular a compreensão de um pensamento aparentemente sectário, cujo tom aguerrido e renitente corroboraria a fama de durão, herdada dos tempos em que integrava a Polícia Militar. Mas esta carta está revestida, desta vez, por uma capa ideológica mais afinada com seu talento de compositor e poeta. A carta marca o início de uma revolução que não se deu propriamente, mas que se fazia necessária nas ideias de Candeia: o combate a todas as formas de degeneração do samba, do negro e do sambista. A fundação do Grêmio Recreativo Arte Negra Escola de Samba Quilombo (Granes Quilombo) constitui um dos pilares desta revolução, acompanhado de outros elementos que Candeia cultuava como poucos: declarações proferidas com  uma certeza imponente, uma atitude forte, um modo didático de “explicar” o samba, tão bem retratado por Leon Hirzsman no curtametragem Partido Alto e, sobretudo, as letras que ele compunha com uma naturalidade quase mediúnica – inclusive alguém já notou como somente Candeia fazia samba com a palavras como “subconsciente” sem parecer pedante ou exagerado, como em “Outro recado”. Essa naturalidade automática, por vezes rústica, por vezes amarga, mas sempre afirmativa, a mesma com que angariava simpatia e ódio, adquiria por vezes uma tonalidade ideológica problemática, que justificava inclusive o epíteto nacionalista ou até mesmo xenófobo. E, de alguma forma, sem que essas palavras fossem por ele utilizadas, a fama de Candeia se orientou nesta direção, para o bem e para o mal. Se hoje os arautos do “samba de raiz” o tem em alta conta, como um líder indiscutível e até mesmo demiúrgico, isso ocorre por conta da rigidez com que defendia seus argumentos e do rigor com que compunha suas canções. Samba de raiz é uma expressão em pleno curso, que não se sabe bem o que quer dizer, mas que hoje tem como um de seus mais seguros fiadores o nome de Antônio Candeia.

Mas se nos distanciarmos dos argumentos, do tom e do vocabulário, isto é, se nos posicionarmos para além das aparências, e encararmos a matéria propriamente dita, isto é, a música e a agitação cultural, veremos que uma saudável e polêmica confusão se dá de forma muito característica. Raiz (ou Filosofia do Samba, não sei o porquê desta ambiguidade) é um álbum composto e gravado às antípodas de toda a opinião e toda a mitificação que vigora hoje em relação a Candeia. E talvez, de seus discos, seja o mais “autêntico”, se adotarmos como critério sua verve criadora e doadora. O disco se chama, estranhamente, Raiz, embora o seu segundo título (ou apelido) fosse mais condizente com o conteúdo. Porque o que Candeia distila neste álbum, através de sua música, é o mais alto, altivo e afirmativo pensamento musical de que se tem notícia na história do samba. Em primeiro  lugar, pelo hibridismo musical que permeia cada faixa, desmentindo de saída qualquer preceito purificador e, portanto, qualquer possibilidade de se pensar a “raiz” como um elemento originário: samba-enredo, samba de partido alto, jongo-funk, balada soul, samba jazz, choro, e outros ritmos e gêneros são misturados indiscriminadamente, com uma habilidade que infelizmente não percebemos mais hoje. Em segundo lugar, pelas letras, arte na qual Candeia se especializou como bom partideiro. Elas primam não exatamente pelo conteúdo, mas sobretudo pelo modo prodigioso como ele entrelaça as palavras, deslocando sentidos e criando nexos que não vigoram necessariamente na língua culta. Reparem em “Filosofia do Samba”, quando ele diz que “pra cantar samba, não preciso de razão, pois a razão, está sempre com os dois lados”: trata-se de uma nítida referência à razão científica ou filosófica, alocada em um sentido bélico comezinho, como se as duas “razões” estivessem no mesmo plano. Em terceiro lugar, os arranjos criados para as canções: especificamente neste quesito, Raiz é um álbum que até possui alguns paralelos, como os discos de João Nogueira ou Clementina de Jesus, mas permanece como um exemplar único de ousadia formal. Reparem na utilização da bateria em “Vem É Lua” ou no samba-canção “Quarto Escuro”: na primeira, a bateria está filtrada por um efeito que fornece a sensação explosiva de festa, no segundo ela doa uma agressividade anômala a um samba suave e tranquilo. Ou ainda na inacreditável “Saudação a Toco Preto”, uma faixa que eu reputo como uma das mais inovadoras de toda a música brasileira. Um jongo rasgado, com tema religioso, mas executado com teclado, metais no melhor estilo funk 45’s. O resultado é sensacional, mas estimulou mais a imaginação da MPB do que do samba propriamente. Sem contar a clássica parceria com Paulinho da Viola, “Minhas Madrugadas”, canção poderosa e evocativa. Mistura de ritmos, letras sagazes e arranjos inteligentes fazem de Raiz uma obra-prima artística e filosófica de primeira ordem.

Mas o que teria ocorrido com a reputação de Candeia? Por que, apesar de toda essa perspectiva multifacetada e inclusiva do samba, ele ficou conhecido como um aguerrido xenófobo, um símbolo de luta e resistência, quando, na verdade, esta força não “resiste”, mas se impõe, se afirma? Candeia até falava em resistência, mas sua atitude não era temerosa das “influências externas”, pelo contrário. Contam até que ele enviou uma carta para os Black Panthers, para obter uma prensa de discos de vinil e fundar uma gravadora independente. Afinal, quem tem medo das influências externas evita a mistura, faz da mistura uma espécie de demônio que embota uma suposta independência. Tenho uma opinião a respeito disso: assim como, nos idos de 1940, o terreiro foi transformado em “escola”, como que para revestir o samba de uma respeitabilidade necessária, o pensamento do sambista nos últimos 30 anos agarrou-se a uma perspectiva fundadora, aparentemente radical, mas frágil, pois irrefletida. Não há nem nunca houve samba de raiz. O que ocorre é a reprodução impensada de mecanismos ideológicos em favor de sobrevivência e posicionamento social. Mecanismos que buscam identificar o samba a uma história que o separaria, por exemplo, do samba paulista dos anos 90. A respeitabilidade perante uma sociedade classicamente racista se constitui a partir da fundação de uma “história”: é preciso abrir o passado nebuloso a machadadas, o que nem sempre resulta em bom veredito. Raiz, ou mais precisamente, Filosofia do Samba, é um álbum para além de todo o receio, de toda desconfiança, um disco forte para espíritos fortes, mas leve também. Nutre o pensamento, o corpo e o espírito, característica precípua das grandes obras de arte. (Bernardo Oliveira)

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Quem gosta de samba e pesquisa sobre o assunto sabe que grande parte de suas gravações clássicas foi realizada na década de 70. Ainda assim, há de se perguntar o porquê, já que o gênero foi trazido para o Brasil em meados do século XIX e o primeiro registro fonográfico, “Pelo Telefone”, de Donga, data de 1917. De 1917 a 1970, ano do primeiro álbum de Candeia, foi quase meio século de negligência e marginalização da elite cultural brasileira em relação ao samba. Como suas raízes se concentravam nos morros, o samba não era bem visto pelas classes médias e altas – era tido como uma música de pouco valor, feita por vagabundos e negros (com muito preconceito embutido aí). Na década de 60 alguns intelectuais e compositores universitários passaram a frequentar gafieiras estudantis e o restaurante Zicartola e, portanto, passaram a apreciar a música de grandes gênios olvidados como Cartola, Nelson Cavaquinho e Zé Kéti. Foi nesse período que começou a restauração do samba, através das promoções dos espetáculos Opinião e Rosa de Ouro, que serviram para arregimentar um grande número de músicos e unir a intelligentsia ao morro.

Mas foi somente na década de 70, com o esvaziamento da cultura nacional, empobrecida e esterilizada pelas repreensões implacáveis e persistentes da censura, e cada vez mais invadida pelos ritmos estrangeiros, que o governo não viu outra solução senão divulgar um gênero autenticamente nacional e de fácil aceitação popular, o que também minimizaria os riscos da indústria fonográfica. Assim como o emblema “Ame-o ou deixe-o” utilizado na década de 70 pela máquina estatal, estabelecendo ideais fascistas e repressivos no subconsciente do povo, a repentina revalorização do samba gerou atrocidades como os dois volumes de Pedrinho Rodrigues e Os Nacionais, intitulados “Brasil… Sambe ou se Mande”. Foi nesse ensejo – que ao menos teve o aspecto positivo de propagar pelo país inteiro e incrustar no gosto popular esse gênero maravilhoso que é o samba – que sambistas de velha guarda e até fundadores de escolas de samba, como Cartola, Donga, Mano Décio da Viola, Dona Ivone Lara e Nelson Cavaquinho, gravaram seus primeiros LP’s. Nessa mesma década Martinho da Vila, Beth Carvalho, Alcione, João Nogueira e Clara Nunes se tornaram ídolos populares, superando as vendagens de Roberto Carlos e fazendo do samba uma cultura de massa, exatamente como planejaram os governantes.

Não é coincidência, então, que o primeiro LP de Candeia, compositor desde 1953 para a Portela, tenha saído somente em 1970, e o segundo, em 1971, ano que deu início a um turbilhão de lançamentos ligados ao samba. Todavia, o gênero só atingiu o auge como produto comercial em 1975, quando a indústria fonográfica teve seu maior faturamento e as escolas de samba se filiaram de vez à Riotur. Mas afora as questões políticas, estratégicas e comerciais de um governo que reprimiu e retrocedeu a criação artística do país, trazendo consequências irreversíveis, a soberania do samba como linguagem nacional pura e autêntica, deixou um legado discográfico extenso e maravilhoso, que compreende verdadeiras pérolas da música brasileira. (Thiago Filardi)

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Não parece exagero afirmar que os discos de Candeia permanecem segredos bem guardados. Fisicamente, os exemplares são difíceis de se achar, em vinil e cd. Se eletronicamente, através dos instrumentos de partilha de dados de internet eles se tornam novamente acessíveis, isso não os torna necessariamente mais populares.  Como indicador definitivamente impreciso, mas significativo de algo, o last.fm aponta hoje menos de 40 mil audições para músicas cantadas por ele. Só “O Mar Serenou”, canção de Candeia popularizada por Clara Nunes em 1975 e hoje elevada a patamar de standard, tem 15 mil audições na versão da cantora. “Preciso Me Encontrar”, samba de Candeia eternizado por Cartola no disco de 1976, tem mais do que o dobro de audições de todas as gravações de Candeia somadas. A própria “Filosofia do Samba”, que abre e dá nome a este disco, tem em Paulinho da Viola seu intérprete mais popular, numa versão gravada no mesmo ano de 1971. É certo que seu estilo de cantar não tenha o brilho e a desenvoltura dos melhores do samba, e é também certo que seu timbre não tem a força e a singularidade de outros dois mestres que estrearam em disco no começo dos anos 70, Cartola e Nelson Cavaquinho. Mas também é certo que eles estão longe de atrapalhar as versões presentes em seu disco. Conferem, no mínimo, honestidade e austeridade às canções.

Mas há um nível mais profundo em que os discos parecem segredos bem guardados. É o nível em que eternizou-se a postura pública de Candeia como purista da música e da cultura, sem no mínimo atentar para o fato de que seus próprios discos contêm provais cabais de versatilidade e diálogo insistente do samba com outras manifestações musicais. Ainda mais: visto de hoje, Filosofia do Samba é um disco extremamente interessado em realizar diversos experimentos com arranjos e volumes de instrumento no mix, fazendo cada faixa soar única, muito longe de uma ortodoxia da forma que considera que há uma maneira “certa” de se tocar e arranjar samba. Estranhamente, esse disco parece apontar mais rumos para o samba do que boa parte do panorama de samba da década em que vivemos, muito mais dogmático e homogêneo do que seu suposto ideólogo.

A variedade e a riqueza dos arranjos são o grande trunfo de Filosofia do Samba. Isso, claro, aliado ao grande talento de compositor de Candeia. Uma faixa como “Silêncio Tamborim”, com dinâmicas de parada e entrada de tamborim, pandeiro e cuíca (cuíca, aliás, sempre prsente e inventiva no disco inteiro) para anunciar a volta da mulher amada, exemplifica o cuidado com a instrumentação. Em geral, é um disco extremamente cioso do aspecto rítmico do samba, com os instrumentos melódicos no mesmo nível ou ligeiramente mais abaixo na mixagem, conferindo um som mais cru e incisivo às composições, alçando-as a um sentimentalismo estóico. Há samba abolerado em “Quarto Escuro”, há jongo protoafrobeat na excelente “Saudação a Toco Preto”, balada quase jovem guarda em “Imaginação”, samba de partido alto em “Vai pro Lado de Lá”… E há os tributos ao samba, belíssimos, que justificam o ambicioso título do disco: “Filosofia do Samba”, “De Qualquer Maneira”, “A Hora e a Vez do Samba” e “Saudade” são celebrações aguerridas do samba vivido como profissão de fé, um tema caro a Candeia não só na hora de compor. Tirando o deslize de “Imaginação”, menos pela influência do que pela pouco inspirada prece ao criador, Filosofia do Samba é um disco todo bom, e sintoma de uma época em que mesmo os que mantinham discurso conservador se sentiam impelidos a inovar. (Ruy Gardnier)

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2 comentários em “Candeia – Filosofia do Samba (1971; Equipe, Brasil)

  1. Elizeu Marques de Farias
    14 de outubro de 2010

    Gostaria de obter a letra da musica Saudade autoria de Candeia/Artur Poerne.

    • bernardo
      15 de outubro de 2010

      Saudade dos chorinhos e os chorões
      Que entre prismas e bordões
      Embriagavam de harmonia os corações
      Toda noite era de festa
      E se ouviam as serestas pelas ruas
      Sob o clarão da Lua
      Saudades do famoso Zé com Fome
      Um sambista de renome
      Que o meu povo não esquece

      Saudades de Paulo da Portela
      Esta melodia singela
      É meu samba, é minha prece

      Saudade…

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Publicado às 10 de fevereiro de 2009 por em samba e marcado , , , , .
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