
Baseado em Cleveland, Ohio, o Emeralds é formado por John Elliott, Steve Hauschildt and Mark McGuire. Desde 2006, o grupo vem lançando uma série de CDR’s, trabalhando basicamente sobre o improviso, incorporando instrumentos acústicos, eletrônicos, field recordings, guitarras, vozes e uma série de outras sonoridades para compor texturas densas, que remetem ao trabalho de grupos como Tangerine Dream, Ashra, Coil, Terry Riley and Popol Vuh. Em 2008 o grupo lançou sete álbuns. What Happened é o primeiro lançamento em 2009. (BO)
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Muitas condições hoje levam a crer que o álbum enquanto formato fechado começa a enfrentar não exatamente um declínio, mas algo como uma readequação à dinâmica de produção vertiginosa dos artistas em atividade. Hoje um álbum pode representar simplesmente uma etapa de experimentações, ainda mais se levarmos em conta as possibilidades trazidas pelo incremento dos equipamentos digitais, como por exemplo os CDr’s. E isso de tal forma que mesmo a noção de “grupo” começa a se relativizar, pois se alguns álbuns podem flagrar momentos específicos da criação artística, nem sempre o “grupo” está reunido integralmente, nem sempre todos os membros se envolvem no jogo… Reparem o caso do Animal Collective, ou até mesmo o Sonic Youth, em que muitas vezes não se apresentam como um grupo fechado, com membros egoicamente dispostos, a disputar a atenção do público e da mídia. Hoje, malgrado o aspecto corporativo do conceito, os grupos se parecem mais com “projetos” do que propriamente com a ideia fechada de “grupos”. Penso que um projeto é algo definido conceitualmente, mas ao mesmo tempo aberto a guinadas radicais, ao passo que um grupo pode se delinear sob um mesmo tema por anos.
O caso do Emeralds é daqueles em que projeto e grupo se confundem em uma sucessão de trabalhos nem sempre coesos, mas certamente alinhados conceitualmente. Isso faz com que o mero ato de referir-se a um álbum deles seja, por si só, um problema, já que o barato do grupo está em faixas e até mesmo momentos que podem ser pinçados de seus vários álbuns. Em vista desta característica, devo notar um outro aspecto, duro e verdadeiro: e as faixas não pinçadas, o que fazer delas? São sobras que, por força das dinâmica atuais de produção são alçadas a faixas oficiais? É claro que no hip hop, por exemplo, são raros os exemplos onde os discos são completamente interessantes, mas esse é um reflexo da mesma volatilidade de produção a que me referi, já que muitos deles preferem compartilhar o álbum entre diversos produtores, nem sempre atingindo uma coesão interna. Acho que todo esse contexto de volatilização da produção propulsiona projetos como o Emeralds, trazendo problemas e soluções na mesma medida. Porque se consideramos o trabalho do grupo, álbum a álbum, talvez não detenhamos imediatamente o substrato experimental que caracteriza seu trabalho, basicamente improvisacional e calcado na criação de texturas etéreas e fortemente marcadas por guitarras, sintetizadores e sons eletrônicos. Neste sentido, o melhor que há em What Happened pode ser descrito como “momentos”, acontecimentos: guitarra e sons eletrônicos em “Alive In The Sea Of Information”, uma abrasividade pulsante em “Disappearing Ink”, uma certa espontaneidade timbrística nas guitarras danificadas de “Damaged kids”… E não muito mais que isso…
Mas se essas são as condições atuais, e se certos projetos como o Emeralds acabam por construir um patrimônio artístico que inclui até mesmo suas sobras e restos, então cabe ressaltar a principal qualidade de What Happened: sua característica de registro criativo, a capacidade de reportar ao acontecimento da criação in loco, ou pelo menos a uma determinada fase criativa de um projeto que, me parece, está longe de esgotar suas possibilidades no culto a sonoridades setentistas. Ao observar isso, me flagro preso a uma dicotomia entre o que é o projeto e o que são as condições, mas me parece que isso não importa muito: de fato, a música do Emeralds é ainda sintoma, e não causa. Vejamos na seqüência. (Bernardo Oliveira)
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Um disco perdido do Tangerine Dream da década de 70? Quem dera se fosse. É o novo álbum do Emeralds, cultuado trio norte-americano de Ohio, aclamado em todos os cantos por emular um tipo de som referente aos anos 60 e 70, feito, especialmente, na Alemanha, com muito uso de sintetizadores analógicos e guitarras cheias de efeito. Mas até aí o que há de interessante, de novo? Já não basta a referência explícita e pouco imaginativa a sons passados (seja aos anos 80 ou à faceta mais ambiente do krautrock) que permeia esse final de década? What Happened existe para nos perguntar “o que aconteceu”; o que aconteceu com a música contemporânea? Por onde anda a criatividade e a vontade de explorar sonoridades inauditas? É o que o Emeralds quer fazer-nos pensar erroneamente, ou pior, através deste disco, contar-nos uma historinha de mistério utilizando-se de uma música “abstrata” e de títulos “sugestivos” como “Damaged Kids”, “Living Room” e “Disappearing Ink”.
Por mais que se procure, não adianta, não há sequer um elemento em What Happened que não escape à obviedade, a um terreno mais que solidificado por seus antecessores. Juntam-se camadas de sintetizador, uma guitarrinha que abusa do delay e dos timbres de Manuel Göttsching, e já é o suficiente para o Emeralds e os críticos acharem que a banda está fazendo algo de novo, diferente do que é produzido hoje em dia, relevante, importante até. Há pouquíssima coisa em What Happened, senão uma mistura mal feita, sem tato, coesão e fluidez de sons analógicos e eletrônicos. E o pior: que ainda tem a pretensão de se comparar à estética dos geniais e visionários alemães do Tangerine Dream, Ash Ra Tempel e Cluster. O máximo que o grupo consegue é criar uma ambiência interessante e progressões envolventes, a exemplo de “Damaged Kids” (de longe a melhor do disco), porém falta o apreço pelas texturas, pela própria duração e existência dos sons, sobrecarregados de muita informação desnecessária (leia-se timbres horrorosos). Mas que não se engane o leitor que se deparar com a música experimental revivalista (ui) e os drones do Emeralds: há muito mais vida lá fora. (Thiago Filardi)
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A primeira vez que ouvi falar no Emeralds foi no final do ano passado, quando vi o disco Solar Bridge em diversas das listas de final de ano que apareceram no final de novembro e começo de dezembro. Ao ouvir o disco, não entendi a razão de tal alarde. Em audição única, me pareceu apenas um exercício drone curioso com sintetizadores que jogam o imaginário direto para os anos 70. O passadismo levava a crer que o Emeralds se tratava de um correlato cabeçudo aos revivals de disco e tecnopop no pop alternativo. What Happened, de começo, desconcerta essa impressão. “Alive in the Sea of Information” começa o disco com alguns preciosos sons agudos cuja placidez é interrompida por uma torrente de fragmentos do que parecem ser sons de saxofone. Esses sons vão crescendo até dominar totalmente a percepção, até que ao chegar os quatro minutos de duração entram dois sons meio clichê, um de sintetizador saturado e um outro que parece um coro etéreo. E, ao final da faixa, chega aquele sonzinho que já tinha conferido a eles, ao menos na minha percepção, a categoria de recicladores de Tangerine Dream e dos artistas eletrônicos/espaciais dos aos 70. Mas “Damaged Kids”, em sua segunda metade depois de um começo bastante frouxo, revela o pós-rock como uma das matrizes para as ambiências que o grupo deseja construir, sobretudo pelos drones de guitarra. A sensação só aumenta com “Living Room”, que começa emulando os timbres de Terry Riley no começo da carreira e deságua em outro momento numa dinâmica de guitarra e teclado parece ser uma colaboração do guitarrista do Mogwai com o Hiroshi Higashi, do Acid Mothers Temple, em modo mais contido, fazendo os sonzinhos cósmicos dele. O final acaba esporrento como Mogwai, mas na verdade a sensação é saudade de ouvir o disco de estréia do Fuck Buttons.
É um tanto fácil chamar de auto-indulgente a propostas desses artistas de lançar mais de 5 discos por ano, como além do Emeralds, por exemplo, um Machinefabriek, um Acid Mothers Temple, um Pocahaunted, Prurient, Wolf Eyes, etc. Essa vontade de chamar assim deriva mais de uma preguiça e da falta de tempo em acompanhar tudo que esses artistas fazem, ou acompanhar tudo que eles fazem e não ter tempo de acompanhar mais nada. Por certo, essa busca por ambiências, dinâmicas e timbres justifica o lançamento de diversos álbuns ao ano, seguindo um padrão similar ao do jazz em chamar a atenção para o caráter de improvisação e “ao vivo” da música sendo executada. No caso do Emeralds, no entanto, talvez um pouco mais de foco e coesão faça bem ao grupo, lapidando as idéias musicais ao invés de lançá-las quando elas parecem ainda em gestação, e dando mais personalidade sonora a um grupo que decerto já desenvolveu alguns cacoetes, mas ainda precisa singularizar seu approach. (Ruy Gardnier)
Acho Fuck Buttons os verdadeiros fazedores de música horrível, como uma isnsistia no prazer impossivel de, num momento, controlar e ser livre”. Gosto da música dos Emeralds mas de uma forma suspeita pois o primeiro disco foi editado na Hanson e penso que Aroon Dilloway participa com field recordings em algumas musicas, para mim o trabalho de Aaron é enigmático e algo que não consigo descodificar por completo o que me estimula ainda mais, como o trabalho de Luigi Rossolo terá sido para algum jovem na década de 30 e 40. Acho que fazer um disco não tem de ser sempre grandioso e a 100%, como algum caderno de rabiscos de Pollock ou os apontamentos de Burroughs que podem ser muito interessantes e belos apesar de inacabados, imprecisos e erráticos. As referências aos anos 70 e 80 de que a música de Emeralds é mais que óbvio seguidora é na minha opinião intencional, como o são o uso das pinturas de De Kooning nos últimos trabalhos de Richard Prince.