20
Mar
09

Radiohead – “The Gloaming” (2003, Parlophone/EMI, Reino Unido)

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É uma canção inusitada para celebrar a tão esperada passagem do Radiohead pelo sudeste brasileiro. Mas é, curiosamente, uma das duas únicas músicas não-pertencente ao disco In Rainbows a tocar em todos os oito últimos shows do grupo, seis no japão em outubro de 2008 e dois semana passada no México (a outra é “Everything in Its Right Place”). É uma escolha no mínimo curiosa da parte da banda. Afinal, “The Gloaming” nem chegou a ser single de Hail To the Thief (foram “2+2=5″, “Go To Sleep” e “There There”) e, se naquele momento acenava para a completa maturidade do flerte da banda com eletrônicos, loops complexos à Autechre e glitch, o afago feito aos fãs com a volta ao rock de In Rainbows sugeriria um enterro da faixa nos set lists da banda (ou, no máximo, uma menção ocasional). Mas nada disso, ela figura como parte essencial dos shows mais recentes do grupo. Passada a fase de excesso sentimental dos três primeiros discos da banda, culminando com um disco de qualidade superior mas ainda assim derrapando na cafonice (e não é que o clímax de “Exit Music (For a Film)” lembra os arroubos de Jessé?), o Radiohead decidiu polir as gorduras fáceis e ao mesmo tempo incorporar a seu vocabulário alguns sons da explosão de eletrônica experimental (ou, ugh, IDM) que acontecia já há alguns anos, tendo como celeiro principal a gravadora Warp. A mudança desapontou os fãs menos aventurosos mas fez ganhar alguns, inclusive este que escreve esse pequeno texto. Kid A e Amnesiac não são somente a abertura da banda à eletrônica, mas acima de tudo uma guinada para formas menos convencionais, às vezes mais abstratas, de compor. Esses dois discos marcam também o momento em que Thom Yorke e cia. tomaram consciência da elegância, das maneiras de fazer mais com menos. Sob esse aspecto, Hail To the Thief é o aperfeiçoamento nas criações de atmosferas, nos esforços de síntese e na manutenção apenas do essencial. “The Gloaming” é exatamente isso: uma batida eletrônica soturna e magra, uma linha de grave de duas notas também nada cheia, um chocalho glitch e um insistente blipzinho eletrônico que compõem a única casa para o vocal talvez mais espectral criado por Yorke, aqui soando quase desencorporado, pungente e impactante sem precisar do sentimentalismo de outrora. A persistente inclusão em todos os set lists recentes talvez assinale exatamente isso: a tácita admissão de que “The Gloaming” é o momento de maturidade do grupo, um momento que, mesmo voltando a um repertório mais rock com In Rainbows, não foi esquecido – foi, ao contrário, mantido. Que venham os shows e que possamos todos conferir. (Ruy Gardnier)


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