25
Mar
09

Skullflower – Taste the Blood of the Deceiver (2008; Not Not Fun, EUA)

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Skullflower é um grupo de noise-rock formado em 1987 pelo músico britânico Matthew Bower, ao lado de Stefan Jaworzyn e Stuart Dennison. O primeiro LP, Form Destroyer, saiu em 1988 através do selo Broken Flag, e, desde então, a formação da banda mudou constantemente, tendo apenas Bower e Dennison como membros fixos, até que em 1997 o projeto foi interrompido e voltou somente em 2003 sob a tutela de Bower. Além de Taste the Blood of the Deceiver, que saiu em vinil apenas, o Skullflower teve mais seis lançamentos no ano passado, incluindo a caixa Circulus Vitosus Deus. Matthew Bower já colaborou com Richard Youngs, Neil Campbell (do Vibracathedral Orchestra e Astral Social Club), Colin Potter (do Nurse With Wound) e também possui outros projetos importantes, como o Hototogisu (junto com Marcia Bassett do Double Leopards e GHQ), o Sunroof! e os extintos Pure e Total – o último tendo originado o Skullflower. (TF)

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Os primeiros acordes de Taste the Blood of the Deceiver já indicam o que virá a ser o disco: uma grande profusão incessante de guitarras cortantes, que abusam do fuzz e criam efeitos estrondosos através, principalmente, do feedback. É claramente perceptível a limitação técnica de Matthew Bower, mas toda essa restrição no campo acadêmico é compensada pela sua habilidade em dominar com destreza as variadas possibilidades de timbre da guitarra. O efeito que ouvimos de cem ou mais guitarras, como se fosse uma composição para execução coletiva de Rhys Chatham, é feito, na verdade, com dosagens calculadas de feedback e distorção.

As raízes do Skullflowe são bastante ramificadas, mas há uma linhagem seguida por Bower que podemos traçar desde a invenção do metal pelas mãos de Tony Iommi, passando pelo krautrock mais expansivo e guitarreiro de Ash Ra Tempel e Amon Düül II até chegar ao noise-rock americano e de certo modo, pop, de Big Black, Butthole Surfers e Sonic Youth. Todavia, no meio do caminho se encontram as influências mais importantes: para falar de um disco noise feito quase unicamente de guitarras é impossível escapar a Metal Machine Music, de Lou Reed, cuja experimentação desmesurada e radical deu origem a tudo que podemos chamar de noise hoje em dia, se é que existe tal estilo. Mas não esqueçamos que as origens de Bower são inglesas e nos remontam ao início da década de 80, quando o noise começava a se consolidar nas mãos de grupos que pregavam uma estética amorfa e extrema, como Whitehouse e Nurse With Wound. O Skullflower, derivado do Pure e depois do Total, é desta mesma escola de músicos britânicos, contrários à onipresença do sintetizador e do rock melódico, apaixonados pelas texturas mais ruidosas e desgastadas da guitarra, e que cresceram ouvindo Sabbath, krautrock e tiveram sua epifania auditiva com Metal Machine Music.

O que mais chama a atenção em Taste the Blood of the Deceiver são as tensões sonoras articuladas por Bower: em todas as faixas há uma infinidade de camadas barulhentas, advindas do feedback que, enquanto dialogam entre si, por meio do minimalismo certeiro de vais-e-vens ininterruptos e timbres agudos, médios e graves, numa esfera mais sensitiva se abalroam e criam uma massa sonora áspera e perturbadora. Se não fosse pela cadência rítmica acentuada de “Mutilated Angel” ou os toques percussivos de “Church of Anguish” e “Frankenstein”, o disco seria feito apenas de guitarras e manipulações analógicas, que pedem pouco acompanhamento, ou seja, que bastam por si mesmas. Seja como for, na ausência ou presença de forma, na sonoridade mais densa e quase impenetrável, há neste álbum muito mais agressividade e razão de ser que na maioria das bandas de rock e heavy metal contemporâneas. (Thiago Filardi)

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Inevitavelmente o título e a capa já provocam predisposições diante do que será ouvido. O Skullflower já é um nome que evoca bastante coisa (apesar do contraste gritante entre os imaginários de morte e ternura que os nomes separados indicam), e o nome Taste the Blood of the Deceiver já antecipa um álbum de metal bem sangrento, da estirpe thrash, doom ou black. A capa, por sua vez, sem as figuras típicas e o preciosismo tecnicista do metal (representado por capas quase sempre buriladas e tão cheias de detalhes que abraçam em cheio o rococó), lembra a baixa fidelidade e o despojamento do hardcore e do industrial dos primeiros tempos. O Skullflower não se deixa inserir totalmente em nenhum desses gêneros. ‘Noise’ tampouco é a melhor denominação, uma vez que noise pode ser considerado como um gênero, mas não o é propriamente – quase sempre o noise surge como uma depuração de um gênero, uma filtragem do que há de essencialmente ruidoso, impactante, alto, num dado gênero ou numa prática musical. O que conduz ao paradoxo fundamental do noise, de buscar uma certa forma de pureza intensa através daquilo que é considerado unicamente como detrito para a maior parte dos ouvintes. Dos gêneros supracitados, o Skullflower não guarda a forma, apenas o propósito: é brutal, denso, confrontativo.

Taste the Blood of the Deceiver é um disco que, sem muito exagero, pode ser arrolado nessa nova onda de “pós-metal” capitaneada por Stephen O’Malley e seu projeto principal, o Sunn O))). O senso de depuração é o mesmo: mandar as estruturas de composição para o diabo e ater-se ao som da guitarra e aos efeitos provocados por ela. No caso do Sunn, é em torno de timbres, relevos e duração. No caso desse disco do Skullflower, a pesquisa é principalmente em termos de textura e ritmo. A premissa é sempre manter um som extremamente denso e massivo através de uma parede de guitarras. As diferentes faixas apenas alteram as estratégias de realização desse intento. “The Silent Beauty Of Undifferentiated Persons” trabalha com duas camadas: à frente, uma pulsação rítmica persistente transmitida por um loop de guitarra abrasiva e aguda; atrás, variações de guitarra que fornecem um padrão aos processos de repetição e diferença com que o disco trabalha, e que convidam ao transe (transe, aliás, pode ser um termo evocado quase que unanimemente para a experiência sonora provocada por muitos artistas do noise, como Merzbow ou Acid Mothers Temple – o fato de que o Black Dice faz um noise sem densidade, intencionalmente rasteiro e gratuito, contribui e muito para a singularidade do grupo diante do panorama, mas isso é outra história). “Sewing Shut The Blessed Virgin” tem uma parede de detrito como camada principal, mas seu principal problema é que ela deixa uma guitarra sozinha ao fundo dando a irritante impressão de que está fazendo um solo de blues. “Mutilated Angel” talvez seja a faixa mais interessante do disco, com uma bateriazinha eletrônica de tecnopop dark que, curiosamente, abre com sua melodia sumária um tremendo espaço para a guitarra soar forte e dominadora (e, de certa forma, até zombar da base da própria faixa). “Church of Anguish” segue um modelo mais convencional de doom, com uma bateria marcial, uma guitarra repetindo insistentemente os mesmos acordes assustadores e evocativos enquanto a outra arrebenta no feedback. “Frankenstein” apresenta como base rítmica apenas um frágil bater de contratempo, que, se dá amplos poderes à guitarra – é talvez a faixa em que a guitarra tem maior poder opressivo, com paredes mais entupidas –, acaba não criando dinâmica entre camadas. “Silver Horns Of Lilith” também é só guitarras, mas em modo mais calmo. Não exatamente calmo, porque o turbilhão sonoro se mantém, mas os agudos alcançados parecem de alguma forma flertar com o shoegaze, ao menos em sua configuração mais abrasiva com Kevin Shields circa 88 (“No More Sorry”, em especial).

A principal qualidade do disco é trabalhar com um mesmo propósito e saber variar as faixas para que a audição seja ao mesmo tempo coerente, coesa e cativante. A forma como uma faixa emenda na outra é exemplar: percebemos com clareza a variação não de decibéis mas do timbre da estática do ruído, mas é como se apenas passássemos uma página – o essencial continua. Ainda que não equacione nada de forma inédita, Taste the Blood of the Deceiver realiza com talento o que se propõe, e produz uma experiência de enorme agressão sônica. (Ruy Gardnier)

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À exceção do barulhento Some blood will stick, do barulhento Hototogitsu, até a semana passada eu pouco conhecia o trabalho de Matthew Bower. E mesmo a audição de Taste the blood of the deceiver ocorreu às escuras, pois somente mais tarde tomei ciência de que o Bower por trás do álbum era o mesmo por trás do Hototogitsu. Ciente da cepa do Hototogitsu e diante deste álbum do Skullflower, detectei aos poucos que território eu adentrava. Assim como os documentários e peças de teatro longas requerem uma determinada preparação intelectual, pois não são formas artísticas que se dão ao espírito de forma direta, tanto o drone como o noise demandam que estejamos ajustados àquilo que ele pede. Pois do ponto de vista da recepção e da fruição, noise e drone se assemelham: de uma forma geral, tanto um quanto o outro, demandam lenta, descompromissada e atenta penetração em seu universo de delicadas modulações formais e expressões musicais excessivas. E o que se ouve em Taste the blood deceiver é uma espécie de noise-rock, calcado em sobreposições e feedbacks de guitarras, mas com um inegável aspecto drone… Atenção redobrada! No entanto, um aspecto que resulta em mais flexibilidade para o som do Skullflower é a incorporação pontual de riffs e melodias, quando na verdade o melhor do trabalho reside no colorido da parede de guitarras, na habilidade em dosar e modular a massaroca de distorções em uma forma sonora coesa. Inclusive, uma comparação adequada (pois não existem boas comparações), é com a sonoridade mais abstrata que o Sonic Youth adquire nos álbuns da série SYR. Tomando estas linhas como pano de fundo, e levando em consideração o pouco conhecimento que possuo da obra de Bower, afirmo que Taste the blood deceiver é um disco que pode soar muito prazeroso para os que simpatizam com audições complexas, embora haja nele uma coesão interna que, me parece, mais facilita o trabalho do ouvinte, que o desafia. (Bernardo Oliveira)


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