
DOOM é um dos pseudônimos de Daniel Dumile Thompson, rapper e produtor londrino, porém criado no distrito de Long Island, em Nova York. Ele começou como Zev Love X e fez sua primeira participação em disco na música “The Gas Face” do conjunto 3rd Bass (assinado à Def Jam), em 1989. Dois anos depois viria Mr. Hood, o primeiro LP da sua banda KMD, formada juntamente com seu irmão, o DJ Subroc e o MC Onyx The Birthstone Kid. Um novo álbum, Black Bastards, estava planejado para sair em 1994, mas, na mesma época, Subroc morreu tragicamente, vítima de um atropelamento e a Elektra rescindiu o contrato do grupo. Dumile ficou recluso por algum tempo e só retornou em 1997, lançando singles sob a alcunha de MF (Metal Fingers ou Metal Face) Doom (inspirado no vilão Dr. Doom da Marvel) e utilizando uma máscara em suas apresentações. O álbum solo de estreia, Operation: Doomsday apareceu em 1999. No ano seguinte, o segundo LP do KMD foi finalmente posto no mercado e Doom lançou um disco em parceria com MF Grimm. Ele reapareceu somente em 2003 usando o heterônimo Viktor Vaughn, pelo qual lançou Vaudeville Villain e, no ano seguinte, (VV:2) Venomous Villain. Ainda em 2003 gravou Take Me to Your Leader, utilizando outro nome falso: King Geedorah. Em 2004 o rapper viveu seu ápice, com o lançamento do segundo disco solo, MM..Food e de Madvillainy, do projeto Madvillain, formado por ele e pelo produtor Madlib. 2005 viu outro projeto colaborativo, o Danger Doom, no qual se uniu ao produtor Danger Mouse para lançar The Mouse And the Mask. Depois, Dumile deu uma sumida, aparecendo esporadicamente como produtor ou rapper em discos e singles de Nas, Ghostface Killah, Dabrye, Daedelus, Talib Kweli, De la Soul, Kool Keith, Gorillaz, Shape of Broad Minds e John Robinson. A segunda parte de Madvillainy saiu ano passado, mas Doom não se fez presente nas gravações e Madlib teve que retrabalhar o material antigo. Born Like This, lançado em março, é seu primeiro trabalho solo em cinco anos e conta com participações de Raekwon e Ghostface, e produção de Madlib, Jake One e do falecido J Dilla. (TF)
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Lembro que no início da década, lá pra 2000, 2001, quando eu ouvia basicamente rock, me assustava quando assistia a programas e prêmios da MTV americana ou espiava as listas da Billboard e me deparava com a ubiquidade do hiphop e sua predominância nas paradas de sucesso. Por causa disso, comecei a prestar mais atenção no gênero e passei a gostar de algumas músicas. No entanto, ainda era incompreensível e revoltante para mim como um estilo musical conseguia ser tão imponente a ponto de afastar todos os outros do mainstream. Hoje posso dizer que não apenas aprendi a gostar do rap: eu o amo como estética musical. É verdade que boa parte do que ouço desse gênero advém do underground, de artistas que exploram ao máximo as possibilidades do sample, que procuram trazer batidas sempre frescas e inovam na produção. O hiphop mais popular, de forma alguma é desprezível e possui grandes nomes (Jay-Z, Kanye West, Lil’ Wayne), mas como toda música feita em escala comercial, tende a ser repetitivo e seguir padrões de estandardização.
Quem ligar na MTV americana hoje ou mesmo espreitar os charts da Billboard, vai notar que o hiphop ainda é o gênero que toma conta do mercado fonográfico norte-americano – em tempo de queda livre da comercialização do CD, Lil’ Wayne é um dos poucos músicos no mundo a atingir números expressivos de cópias vendidas. Mas para quem acompanhou a grande explosão criativa da cena underground do hiphop na primeira metade desta década notará que de três anos para cá já não há quase nada de interessante acontecendo. É suspeitoso indicar um marco decisivo para essa baixa criativa, mas é inevitável lembrar que o talentosíssimo produtor J Dilla morreu há pouco mais de três anos e que, nesta mesma época, foi lançado Donuts, seu álbum derradeiro e uma das últimas obras-primas do gênero a aparecer. Há, certamente, nomes talentosos, a exemplo de Flying Lotus (um gênio absoluto), Hudson Mohawke, Dorian Concept, Lukid, Joker, Rustie, mas todos esses parecem operar em outra esfera, na qual o hiphop não é o foco, mas um mote inicial para a construção das batidas, incertas e servidas de grande aparato eletrônico.
DOOM desapareceu da cena musical exatamente no ano em que J Dilla faleceu e embora haja outros nomes importantíssimos para a vertente underground do hiphop nesta década (Prefuse 73, Edan, cLOUDDEAD, Dälek, Antipop Consortium, Dabrye, Cannibal Ox, El-P, etc), a perda de J Dilla e a reclusão de MF Doom foram peremptórias para o arrefecimento criativo e produtivo do gênero, já que, ao lado de Madlib, os dois formavam a tríade mais prolífica e talentosa do rap nos anos 00 (são para o hiphop o que Bowie, Lou Reed e Iggy Pop são para o rock, e Derrick May, Juan Atkins e Jeff Mills são para o techno).
Born Like This não merece o devido destaque somente porque é uma das poucas coisas relevantes a aparecer no hiphop nestes últimos anos, mas porque é, principalmente, um grande disco, uma verdadeira volta triunfal deste mestre do flow, das rimas e da produção inventiva. Dumile continua utilizando à exaustão os samples de desenhos animados e de filmes, fazendo referências constantes ao supervilão Doom, e sua voz continua grave e agressiva, destilando as letras jocosas e de rimas longuíssimas.
O álbum marca a primeira parceria de J Dilla com Dumile, apesar de póstuma, em “Gazzillion Ear” e “Lightworks”, que possuem samples repetidos de Donuts, usados com grande efeito. Há de se levar em conta que o material exposto não possui enorme novidade e não é nenhum marco (re)inicial para o rap. Trata-se apenas de um disco com grande vigor, excelentes batidas, samples muito bem utilizados e que nos permite, acima de tudo, ouvir um dos maiores rappers de todos os tempos, com seu flow impecável e suas rimas impagáveis, ainda no auge da sua forma. E isso basta. (Thiago Filardi)
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De Doom já tinha ouvido várias coisas, em especial Madvillainy, King Geedorah e Mm… Food. E gostei de todos, mas sem me deter especificamente em nenhum deles, e isso também significa que isso se deu sem refletir sobre a figura de Doom como rapper e persona. A bem da verdade, como persona não existe muito a adicionar além das múltiplas personalidades e pseudônimos, e talvez em especial a figura de vilão de histórias em quadrinhos e séries televisivas e desenhos animados de super-heróis dos anos blau ratificada a todo momento por vinhetas e samples vintage (Doom é referência ao herói Dr. Destino, da Marvel, arquiinimigo do Quarteto Fantástico). Isso naturalmente ajuda a compor uma personalidade, uma mitologia pessoal claramente definida. Mas a característica mais marcante de Doom tem mais a ver com sua expressão como rapper do que a pose de seus personagens. Sua performance como rapper é única no senso de ataque constante, na voz grave e pesada, no modo ríspido de pronunciar as consoantes, amplificado pela constante tática de letrista em trabalhar com aliterações – mas nada que chame a demais a atenção para a manufatura em detrimento da fluência. A fluência de Doom, aliás, é coisa estranha. Ela não tem a malemolência e a boca mole dos rappers mais conhecidos por seu flow. O rapeado de Doom é duro, não muito dramatizado nem muito variado. Mas ele consegue tirar dessa constância uma virulência impressionante, fazendo da reiteração uma afirmação de energia, uma insistência nervosa e viril.
E o que falar das produções do disco? Elas mantêm o mesmo senso e a mesma conteundência dos vocais, variando com consistência as batidas pesadas e discretas mas inventivas, mas utilizando ganchos melódicos soberbos. São várias as faixas de destaque: “Gazzillion Ear” com seu belo fraseado de órgão cortesia do saudoso J Dilla, as sirenes de “Yessir!”, o sample vocal junto com o breakbeat lento e sensual de “Lightworks” (mais uma de J Dilla), a musiquinha tensa de trilha sonora de “Batty Boyz” (com direito a deliciosas alterações de volume da base instrumental), a deliciosa e grudenta melodia (cravo? órgão?) de “Microwave Mayo”, as cordas melosas e belas de “That’s That” e a soturna “Supervillainz”, com bateria eletrônica oldies em modo breakbeat meio desconjuntado que lembra pela densidade a produção de um El-P. Nos últimos anos não é toda hora que a gente se depara com um disco de hip-hop tão coeso, que em moimento algum deixa a peteca cair e sabe criar uma dinâmica efetiva entre cada faixa individual e o álbum como um todo (aliás, várias com potencial de single são mais curtas do que poderiam ser, caso Doom tivesse outros objetivos em mente). Certamente um disco notável dentro do panorama do hip-hop contemporâneo, e um disco a ser cogitado para as listinhas de melhores do habitual ritual de fim de ano… (Ruy Gardnier)
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Embora devamos assumir a pecha de críticos – até que se prove o contrário a Camarilha é uma revista de crítica sobre a produção musical – a verdade é que nem sempre é possível operar com a justa medida e o olhar preciso. No caso de Born like this, o que fazer? Como justificar tamanha adesão a um álbum que a razão identifica como “mais do mesmo”? Ocorre que Born like this traz uma série de faixas produzidas com excelência: batidas sagazes, “trepadas” ao estilo Madlib, flow adequado a arranjos estrategicamente convincentes e, não sejamos hipócritas, momentos do mais puro e grudento “hip pop”. Taí o dilema: de um lado, excelência na sonoridade; de outro, o peso da consolidação de formas e maneiras. Assim, me adiantarei em dizer que gosto muito do álbum, que não sai do mp3 player há duas semanas, etc. E, talvez, daqui pra frente não farei mais crítica, mas uma espécie de enaltecimento da suingueira esquizofrênica que o ex-MF destila neste álbum.
Da introdução fascinante até sua retomada no final do disco, Born like this convence e até mesmo encanta, embora eu deva notar que é um encanto de segunda ordem, tal como nutrimos, por exemplo, pelo soul-soft de Estelle em “American boy”. Como permanecer insensível aos apelos da quebradeira de “Microwave Mayo”, sua linha de baixo simples e eficaz, seu teclado estridente? E como não cogitar a santa hipótese de uma guinada radical para a experimentação após a audição da incrível “Fireworks”, com sampler hollywoodiano e letra terrivelmente sarcástica? E como não se render ao ritmo super-recortado de “Batty boyz”? E à melodia gregoriana que emoldura “Gazillion ear”? E ao canto malicioso de Empress Sharhh em “Still dope”? Destacam-se também a estranha “Supervillain”, e a deliciosa “Rap Ambush” – sim, pode me chamar de farofeiro, charmeiro, funkeiro, que eu não ligo.
Entre vinhetas e pedradas, trata-se de um álbum com dezessete faixas dignas de nota, além de possuir uma coesão interna que se não podemos avaliar como rara, ao menos se apresenta com notável energia. Num certo sentido, a mesma energia que já há algum tempo não experimentamos com a turma da Anticon. Tanto é assim que nem ligamos muito para a conivência de “That’s that” e “Absolutely”; ou mesmo pelo flow às vezes meio “duro”, meio emperrado de Doom. Os possíveis deslizes são como que soterrados pela impressão geral, bastante favorável. (Bernardo Oliveira)





