29
Mai
09

Tortoise – Beacons of the Ancestorship (2009; Thrill Jockey, EUA)

tortoise

O Tortoise surgiu em Chicago, Illinois (EUA), no ano de 1992, a partir do grupo Mosquito, então formado por Doug McCombs (baixo), do Eleventh Dream Day, John Herndon (bateria, vibrafone e teclado), do Precious Wax Drippings e John McEntire (produção, bateria e vibrafone) e Bundy K. Brown (guitarra), do Bastro. Após a entrada do percussionista Dan Bitney, gravam o LP homônimo de estreia, que sai em 1994. O segundo e mais aclamado álbum da banda, Millions Now Living Will Never Die, é lançado em 1996, com um novo guitarrista, David Pajo, que permanece até a finalização de TNT, em 1998. Embora rotulado de post-rock, por ter surgido paralelamente a outras bandas que traziam novas texturas e incorporavam sonoridades e influências diversas dentro do rock, a exemplo de Stereolab e  Gastr del Sol, o Tortoise se destacou como um dos grupos mais originais e importantes dos últimos vinte anos – misturando dub, música eletrônica, rock progressivo, jazz, minimalismo, krautrock e ambient – e que nunca se encaixou a nenhum gênero ou subgênero em especial. Beacons of Ancestorship, seu novo álbum e o primeiro de estúdio em cinco anos, será lançado mês que vem. (TF)

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Beacons of Ancestorship é o disco que ninguém esperava do Tortoise, pois há cinco anos o grupo lançava It’s All Around e demonstrava sinais de enfraquecimento, com uma sonoridade mais confortante que desafiadora, menos híbrida que unitária. Dois anos depois, com os lançamentos de A Lazarus Taxon – uma caixa tripla maravilhosa que faz jus à grandiosidade musical do Tortoise, mas montada a partir de sobras de estúdio e remixes de todas as épocas – e The Brave And the Bold, gravado juntamente com Bonnie “Prince” Billy – e eles servindo como banda de apoio para releituras pouco ou relativamente inspiradas de canções antigas –, e a incursão no projeto Don’t Look Back, no qual eles executaram ao vivo Millions Now Living Will Never Die de cabo a rabo – cujo único show pude presenciar – provaram que a banda, apesar de ativa, já não estava mais no seu auge, e se não vivia do passado, não fazia muito para acrescentar ao presente.

Talvez o lançamento de Mirrored, do Battles, tenha mexido com o Tortoise, afinal, o primeiro lançou um disco mais interessante do que qualquer coisa que o segundo havia feito há mais de meia década e, em performances ao vivo, é realmente espantoso. Além de influenciar o Battles com seu rock-jazz-dub, o Tortoise também passou sua coroa de rei do post-rock – mesmo que o termo sirva melhor a grupos como Bark Psychosis e Main -, o que depois deve ter lhe causado uma certa inveja. E Beacons of Ancestorship, ao mesmo tempo em que pode ser visto como uma resposta ao Battles, é também uma retomada e uma nova guinada na carreira do Tortoise.

A mudança, de certo modo brusca, que acomete esse álbum e o difere do restante da discografia do grupo, é o uso do sintetizador como instrumento condutor, em vez da guitarra, que apesar de onipresente no disco, já não tem mais a mesma importância como nos discos com David Pajo. O sincretismo sonoro de Beacons aponta para novas direções na estética do Tortoise. Nunca eles haviam feito faixas como “High Class Slim Came Floatin’ In”, de tom divertido, mas que resulta num experimento estupendo, com o sintetizador guiando e mudanças na levada que acentuam o lado dub da banda; “Northern Something”, de batida dancehall; e as mais rápidas e dinâmicas “Prepare Your Coffin” e “Yinxianghechengqi”, nas quais a guitarras está bastante distorcida. “Gigantes“ revela o lado Battles do disco e se apresenta como um dos grandes destaques devido à edição e mixagem primorosas, que formam um ritmo minimalista e altamente hipnótico, ao qual são acrescentados pequenos efeitos até a faixa se transformar em algo completamente diferente do início. “Charteroak Foundation” é aquela para cativar os fãs mais antigos, com o dedilhado abafado da guitarra que lembra o Tortoise de Millions Now Living, mas não é por isso que deixa de ser bela e uma excelente escolha para terminar o disco, com seu clima melancólico e envolvente.

Beacons of Ancestorship é a prova de que o Tortoise ainda é uma das maiores bandas da atualidade (seja do rock, da eletrônica ou de qualquer outra coisa) e daquelas sempre dispostas a seguir novos caminhos e reinventar o próprio som, sem esquecer sua assinatura própria. Battles da vida precisam crescer muito musicalmente para chegarem numa equação sonora tão bela, perfeita, plural e refinada. (Thiago Filardi)

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O som do Tortoise tem uma inatualidade curiosa: consegue ser datado, contemporâneo e atemporal ao mesmo tempo. E o mais curioso é que seus discos permanecem tendo todas essas características ainda que mudem bastante de estilo. Há um quê de fusion, um quê de trilha sonora daqueles com blues minimalista tipo Ry Cooder, um quê de easy listening anos 60. E, ainda assim, o grupo esteve, na segunda metade dos anos 90, no vórtice do que veio a ser chamado de pós-rock. Na verdade, até mais que isso: o Tortoise, de todos, era o único grupo que se podia aproximar com desenvoltura seja do rock, seja da música eletrônica experimental em expansão naquele momento. Não é à toa que gente como Autechre e Nobukazu Takemura remixou faixas do grupo. E, por fim, há uma pureza, um refinamento na criação de melodias e num tom épico ora dado a elas que faz com que algumas de suas músicas tenham essa forte impressão de que elas já estiveram sempre por aí, mesmo antes de serem compostas (“Glass Museum” e “The Taut and Tame” sendo os exemplos mais patentes disso).

Curiosamente, o tempo faz das suas. Se o rock instrumental estava totalmente fora de moda quando o Tortoise começou, hoje ele é visto com atenção e mesmo interesse, chegando até os holofotes. Caso do Battles, que teve repercussão meteórica logo em seu disco de estreia. Portanto, o Tortoise parece pertencer a seu tempo mais hoje do que ontem… inclusive nas modificações trazidas por esse Beacons of Ancestorship, bem mais pesado e veloz do que qualquer dos discos do gupo, mais cheio de sintetizadores – parece uma obrigação usá-los para estar in hoje – e mais variado no approach sonoro. Se existem duas coisas a celebrar neste novo disco, são a versatilidade e o punch. As três primeiras faixas já o demonstram suficientemente: “High Class Slim Came Floatin’ In”, um progressivão com variações de andamentos e melodias repetidas em diferentes instrumentos; “Prepare Your Coffin”, um power-rock agitado e cheio de linhas melódicas ganchudas; e “Northern Something”, um ragga-xaxado com sintetizador que não é exagero evocar o wonky para tecer comparações.

Em 43 minutos e onze faixas, o Tortoise recupera o foco e a coesão de seus melhores trabalhos, criando um disco de audição fluida, em que a variedade de andamentos e ritmos dá relevo às estratégias de composição já características do grupo. Para os fãs mais nostálgicos, existe “The Fall of Seven Diamonds Plus One”, levada por uma guitarra atmosférica e bluesy. Para os que se deleitam com as incursões do grupo na eletrônica, há a bela vinheta “Penumbra”, feita em cima de loops, e “Monument Six One Thousand”, que pode evocar Prefuse 73 nos atrasos do tempo forte ou Four Tet na dinâmica entre melodia e percussão. Mas talvez o grande destaque do disco sejam as envolventes melodias de “Minors”, grudentas em sua limpidez absoluta. O único senão fica com umas guitarrinhas meio firulentas na segunda e em um momento da quarta faixa. Fora isso, Beacons of Ancestorship é pura beleza produzida por uma banda que, disco a disco, consegue se renovar, manter sua relevância e criar novas dinâmicas de tradicionalismo e invenção. (Ruy Gardnier)

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Beacons of ancestorship é talvez o melhor disco da carreira do Tortoise. Para começar a defesa desta ideia um tanto quanto extremada, que pode causar um certo mal estar nos fãs dos trabalhos clássicos do grupo, devo dizer que nunca gostei deles. Acho os primeiros discos chatos, uma espécie de sucursal da Berkley em Seattle… Mas Beacons of ancestorship me cativou, pelo menos em parte. E isso por uma razão relativamente simples.

Parece que algumas faixas desse álbum, em primeiro lugar, substituem o foco nas guitarras pela pesquisa de timbres e ritmos: percebe-se a relativização do trabalho das guitarras em favor de uma pesquisa sonora mais interessante e interessada. Em segundo lugar, os momentos em que eles pareciam mais experimentais, que na maioria das vezes se configuravam como momentos acessórios, residem no centro das atenções. As guitarras não se coadunam com a timbragem jazz-rock que inundava TNT – à exceção talvez de “Prepare your coffin”, ainda assim uma faixa bastante divertida. E aí, me parece, o som do grupo ganha uma consistência mais condizente com sua fama de “experimentador”.

A julgar por faixas como “Northern Something”, um ragga (!) com ênfase em sonoridades sintéticas, e o rockão lo-fi, meio Hospitals, “Yinxianghechengqi”, o grupo está se entregando de fato ao suposto ecletismo que lhe imputavam em meados dos anos 90. Mas que, no entanto, não evitava a comparação com uma certa inflexão sub-jazzística, com seus temas, patterns e virtuosismo infundado. Em Beacons… pode-se ouvir composições com menor duração, que manifestam idéias musicais mais coesas e diretas, evitando os rodeios masturbatórios que marcaram sobretudo as faixas dos anos 2000.

Mesmo a primeira e mais longa faixa do disco, “High Class Slim Came Floatin’ In”, que sintetiza dub, reggae, eletrônicos, etc, e periga cair num desses limbos, conduz o ouvinte por ideias musicais que se não fogem da redundância instrumental, possuem ao menos a característica intensiva da expressão. Antes, as modulações harmônicas buriladas excessivamente, adocicadas demais, causavam até uma certa irritação… Mas em Beacons… elas foram substituídas por idéias mais “pobres”. Econômicas, mas eficazes.

Como nem tudo são flores em se tratando de antipatia, lá pelo fim, o álbum desanda um pouco. “Monument Six One Thousand”, “Charteroak Foundation” e “Minors” constituem exemplos do som pregresso, lembretes nem sempre agradáveis, para não dizer insuportáveis. Mas, no cômputo final, Beacons… é um bom disco. “The Fall of Seven Diamonds Plus One” é uma das faixas que me faz acreditar nisso: aquela batida eletrônica reggae, mas retrabalhada no campo de interesses do grupo. Ela pode até lembrar demais o Tortoise dos primórdios, mas indica uma mudança de vibe, de clima. Os temas parecem manifestar uma abertura para um som mais “orgânico”, por assim dizer.

Resta saber se, após cinco anos de reclusão, Beacons… representará uma guinada. Ou apenas um espasmo, que não evitará o retorno à pasmaceira de The Brave and the bold e It’s all around. Torço pela primeira opção. (Bernardo Oliveira)


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