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Omar Souleyman – Dabke 2020: Folk And Pop Sounds of Syria (2009; Sublime Frequencies, EUA [Síria])

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Vinte anos de estrada e mais de quinhentos lançamentos no mercado de fitas cassetes fizeram do cantor Omar Souleyman uma celebridade em seu país natal, a Síria. Com a contribuição do poeta Mahmoud Harbi e do multi-instrumentista Rizan Sa’id, Souleyman criou uma sonoridade peculiar, misturando o Dabke, o Choubi iraquiano, o canto árabe “mawal”, além de sintetizar influências libanesas, turcas e curdas com sonoridades eletrônicas. Em 2007, teve seu primeiro lançamento em terras ocidentais, capitaneado pelo selo americano Sublime Frequencies: Highway To Hassake: Folk & Pop Sounds Of Syria, coletânea com faixas gravadas entre 1996 e 2006. Por ocasião de uma turnê européia com o Group Doueh, vem à tona uma segunda coletânea, Dabke 2020, composta de faixas gravadas ao vivo antes de 1999. (BO)

* # *

Com Highway To Hassake, Omar Souleyman foi apresentado ao ocidente como uma espécie de herói nacional, simbolizando algo entre a autonomia do Calipso e a apropriação inovadora de tecnologia intermediária levada a cabo no Brasil por DJ Marlboro e MC Catra. Mark Gergis, também conhecido como Porest, parceiro de Alan Bishop do Sun City Girls, pesquisador, colecionador e colaborador do selo Sublime Frequencies foi quem o descobriu, e a quem confiamos a opinião de que a música de Souleyman é algo absolutamente anômalo no contexto musical da Síria. Mas o que se ouve tanto em Highway To Hassake como neste novo lançamento, Dabke 2020, me soa anômalo independente de qualquer contexto musical. Se tomarmos a música apresentada neste álbum por uma definição abstrata não há muita novidade, pois trata-se de uma miríade sonora composta por muitos estilos e técnicas musicais encontrados no Oriente Médio, mas também integrada a práticas culturais e tecnológicas que se propagam em todas as partes do globo. A diferença está na proporção de elementos díspares (do dabke sírio, do choubi iraquiano, etc.), no modo de gravar e compor (incorporando elementos eletrônicos e acústicos) e nos resultados propriamente ditos. Neste sentido, se Dabke 2020 não é mais representativa do trabalho de Souleyman, já que a primeira coletânea era composta por uma variedade maior de ritmos, ao menos ela demonstra de forma mais concentrada o poder de fogo e a urgência de seu trabalho.

“Atabat” (“entrada” ou “limiar” em árabe) inicia o disco com um clima etéreo, temperado pelo bouzouk elétrico e pelo sintetizador, ambos executados pelo multi-instrumentista Rizan Sa’id. Então, Souleyman abre os trabalhos, entoando os versos escritos pelo poeta Mahmoud Harbi, executando com maestria os trêmolos vocais (mawal) característicos do canto árabe. Na seqüência, talvez a faixa mais impressionante do álbum: “Lansob Sherek”, um dabke eletrônico composto por timbres carregados e uma sobreposição de ritmos e improvisos que beira às raias da saturação. Aliás, os solos que se alternam entre os vocais de Souleyman são geralmente saturados de efeitos, como o delay, o que, com a batida, confere um clima caótico às faixas. Uma outra característica é a insistente inclusão de solos de percussão e instrumentos, como que reproduzindo as variações por exemplo da tabla indiana, mais um elementos que contribui para o estilo arrojado das composições. “Shift Al Mani”, um choubi veloz, com a alternância de vocais e solos de sintetizador, dá prosseguimento ao álbum. De um modo geral, Dabke 2020 é frenético e agitado. Mas a faixa final, “Kaset Hanzal”, a mais lenta e melancólica, também possui seus encantos, com seu início ralentado por obra da ação do programador, o que nos faz perguntar se foi propositadamente atrasada ou se constitui um erro de gravação. De qualquer forma, encantador.

Destaco também “La Sidounak Sayyada”, com seu suingue “malemolente”, e “Qalub An Nas”, com vocais saturados de efeito e solo de tabla, momentos brilhantes que nos conduzem ao “conceito” não do álbum, mas da própria música de Souleyman: como a de Catra e Marlboro, é música de festa, para beber e dançar até cair. Papel que esta coletânea cumpre com folgas. (Bernardo Oliveira)

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Primeiro vamos ao óbvio: não tenho, e provavelmente tampouco o leitor, por melhor informado que tente ser, um conhecimento sequer contextual acerca da música praticada na Síria. Nem a música mais tradicional, nem o pop dela derivado, e dessa forma preciso confiar nos releases da gravadora Sublime Frequencies quando ela enquadra Omar Souleyman como uma figura idiossincrática dentro da música praticada na Síria, entre a tradição poética, a tradição da música de festa, e a incorporação de eletrônicos e pop aos sons tradicionais (que não são autóctones, mas imbuídos de todo um caldo cultural multiárabe, ao menos é o que diz aqui). Isso cria inevitavelmente uma relação de novidade com a música apresentada, caracterizada por muitas coisas (empatia, talento etc.), mas em especial um misto de estranhamento e familiaridade lancinante, um exotismo adorável de “som do longe” mas ao mesmo tempo impressões que surgem aos borbotões enquanto escutamos a música e relacionamos tal melodiazinha grudenta com as melodias de videogame usadas no funk carioca (em “La sydounak sayyada” a semelhança é total), uma levada de drum machine que evoca uma certa pasteurização eletrônica presente aqui na lambada ou no brega, uma velocidade misturada com acessibilidade que é a cara da música baiana de carnaval… É claro que a saturação midiática e a onipresença já nos indispõem para diversas dessas músicas (as nossas), muitas vezes até a priori, eventualmente nos fazendo ignorar aspectos criativos, vendo um todo compacto quando na verdade há artistas e propostas distintas. Nosso esnobismo é salutar, porque de um lado se opõe ao à ideologia de consumo do mínimo denominador comum, mas também pode ser uma estratégia perigosa de auto-cegueira. E o que tem a ver Omar Souleyman com isso? É que ouvindo seus discos, coletâneas de faixas ao vivo retiradas de um total de centenas de discos lançados por Souleyman na Síria – é o rei das barraquinhas, como os ídolos do Pará –, é um pouco inevitável fazer as contas com a música popular festiva do presente brasileiro. Dabke 2020, sem estarmos diante do contexto e da hiperexposição, é uma obra de puro deleite. Muito vai na conta, claro, do talento de Souleyman e de seus asseclas. Mas muito também vai da carnalidade da música de festa, da simplicidade exagerada e por isso mesmo deliciosa de certos elementos de composição (a melodia de “Shift al mani” por exemplo), da empostação familiar do canto árabe, as percussões… Mas atribuir todo o regozijo à festa kitsch seria totalmente errôneo: as cordas de “Jamila” e de “Atabat”, parecidas com cítaras processadas, devem ser tão estranhas e belas aqui quanto acolá. A aspereza pop de “Lansob sherek”, com um uso de bateria eletrônica totalmente alucinado, jamais poderemos colocar na pecha de “exótico” e dormir com a consciência do dever cumprido. Ao contrário: são signos a respeito dos quais, por mais que não conheçamos a música da Síria, podemos intuir sem maiores dúvidas de que trata-se de um artista singular trabalhando com um repertório tradicional para ir além dele, para renovar a música de seu lugar e transformá-la em coisa viva. Por tabela, Omar Souleyman nos deixa sedentos por cavucar todas as barraquinhas do Brasil em busca de um som que partilhe a crueza e a sofisticação, a pureza e a “impureza” de forma tão alarmante e urgente quanto esse disco. (Ruy Gardnier)


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