
OOIOO é um grupo japonês de rock experimental capitaneado por Yoshimi P-We, cantora e baterista mais conhecida por ser integrante dos Boredoms, um dos mais renomados conjuntos de rock experimental do Japão. Desde sua formação inicial, o OOIOO é composto unicamente por mulheres. O primeiro disco, com o estranho título de oo8oo – três símbolos do infinito, sendo que o do meio virado – apareceu em 1997. Seguiram-se Feather Float em 1999 e Gold & Green em 2000. Mais tarde, assinaram com a gravadora americana Thrill Jockey, pela qual lançaram Kila Kika Kila (2004) e Taiga (2006). Além desses, existe o disco de remixes Shockcity Shockers Vol. 2. Armonico Hewa é o sexto álbum do OOIOO, cuja formação oficial desde Taiga é Yoshimi (canta, compõe e toca de tudo), Kayan (guitarra), Aya (baixo) e AI (bateria). (RG)
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O OOIOO parece seguir à risca o mais incisivo dos princípios artísticos dos Boredoms: estar sempre em mutação, incorporando de forma irreverente diversas formas sonoras que contribuam à criação de um rock enérgico, que mantenha sua força de surpresa justamente por flertar com um quê de absurdo, criando uma política de choque que se insinua tanto pela maluquice quanto pela doçura. Portanto, está montado o desafio: para continuar soando consigo mesmo, o grupo precisa redefinir seu som. Em Armonico Hewa, a trupe de Yoshimi P-We amplifica as pulsações percussivas já presentes na sua própria discografia e nos crescentes interesses dos Boredoms – não só nos discos mas nos insanos “drum circles” propostos pelo grupo –, criando batidas tribais e velozes, e unindo a elas coros femininos que lembram inevitavelmente os corinhos de animadoras de torcida do esporte americano. Assim fazendo, o OOIOO soa excêntrico como sempre e pop como nunca: ainda que não exista nenhuma faixa que se credencie efetivamente como uma canção pop, existe uma intensa pegada pop ali presente, soando como um possível encontro do Gang Gang Dance com o B-52’s amplificando a insanidade à décima potência.
Armonico Hewa, o título, já indica a mistura de mundos, tirando a primeira palavra do espanhol e a segunda do swahili, querendo significar algo como “ar harmonioso”. Mas o conteúdo do disco está longe da dica “climática” que o título parece dar. Se tanto, apenas “Ulda” e “Kipepeo” evoluem em andamento calmo, e mesmo assim as loucuras de sintetizador da primeira jamais credenciam a primeira como easy listening. “Sol”, a primeira do disco, dá o tom: batida acelerada com atabaques e bateria nervosos, e feedbacks de guitarra fazendo cama para gritinhos e momentos de chamada e resposta.
A tônica instrumental do disco, aliás, está na dinâmica bastante crua desenvolvida pela relação entre percussão e guitarra. A guitarrista Kayan volta e meia surge com riffs e fraseados que jogam para um registro agudo de gingado insinuante, como uma possível mistura espacial entre Joey Santiago e Armandinho. O baixo, mantendo-se no registro habitual, não matiza o espaço deixado pela distância entre pecussão e guitarra, tornando o arranjo na maioria das vezes seco e ríspido. Em se tratando de uma banda com um indefectível senso anárquico, isso só intensifica o poder celebratório das faixas, seja quando tudo está na sexta marcha, seja quando a música se auto-implode pare recomeçar em modo um tanto distinto (tudo isso está particularmente claro em “Polacca”, um dos destaques do disco, e “Uda Hah”).
O OOIOO, na tradição dos Boredoms, atenta para um impasse comum no rock que diz respeito ao profissionalismo. Inumeráveis são as bandas que começam com todo o fogo de uma salutar indisciplina e, uma vez lapidados (por fatores de mercado ou simplesmente por um superego que teima em “ser sério”), perdem rapidamente toda graça e viço que uma vez tiveram. A sabedoria desses japoneses apaixonantes é fazer da indisciplina sua própria disciplina, traçando disco a disco uma trajetória de irreverência que nunca volta sobre os mesmos passos, usando a mestria musical para criar uma música extremamente lúdica, deliciosamente infame por vezes, mas sempre consequente e coesa em suas experimentações. Armonico Hewa, mais um acerto na carreira do OOIOO, atesta que essa filosofia está longe de ter seu interesse esgotado. (Ruy Gardnier)
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Se por um lado podemos afirmar que a impenetrabilidade caracteriza a música japonesa contemporânea, também é dada a percepção de que uma saudável liberdade, para além dos limites impostos pelo gosto ocidental, a reveste com as formas mais inusitadas. Via de regra, o que marca a música japonesa do último século e deste que se inicia é o descompromisso total com as formas consagradas, com os limites da canção, com a demarcação dos gêneros e, sobretudo, com a sisudez que geralmente manifestam os experimentais do ocidente. Esta liberdade se insinua através da ironia e, muitas vezes, do deboche mesmo; enquanto isso, nós, tomados pelo senso comum de que os japoneses não tem senso de humor, somos assaltados por diversas manifestações que demonstram o contrário. Hoje não há corrente musical mais iconoclasta que a música japonesa, com a imprevisibilidade dos Boredoms, a solidão de Merzbow, a minúcia de Asa-Chang, etc. Acredito que o OOIOO tem um papel único nesse contexto, que vem a ser o recorte e o aproveitamento crítico do turbilhão de informações musicais que explodiram com o advento do MP3. E o faz com a graça, o charme e a doçura das melhores girl bands do planeta, característica que vigora desde seus primeiros álbuns – lembrem-se que Feather Float começa com uma faixa batizada marotamente como “Be sure to loop”, mas que não possui um loop sequer…
Tá certo que podemos observar isso em todos os álbuns do OOIOO, mas neste eu sinto que aqui a coisa funciona melhor do que no último, por sua vez mais parecido com o que faz o Boredoms. Em Armonico Hewa se percebe uma dose mais forte de paródia, mas também de “fofura”, de visão feminina sobre os mais diversos estilos musicais, do ragga ao hard rock, passando por autores específicos como Kanye West, pontos fundamentais que respaldam a peculiaridade do trabalho. A faixa “Ulda”, por exemplo, opera basicamente com sonoridades e timbres comuns no trabalho de Björk – dá vontade de gargalhar com a imitação de Björk feita por Yoshimi lá pelos quatro minutos. Às vezes somos surpreendidos por peças instrumentais, com nítida carga rocker, repletas de dinâmicas intrincadas e reviravoltas estapafúrdias, mas que inseridas em meio às paródias dos estilos musicais aderem ao contexto irônico do álbum. É que a música do OOIOO e, mais especificamente, de Armonico Hewa, lida diretamente com o bricoleur cultural, mas toma sua paleta de cores a partir da interpretação do grupo para uma vasta gama de estilos da música “ocidental”, inclusive as do chamado “terceiro mundo” – como o candombe fake na abertura de “Orokai”. O resultado disso, para quem sabe ouvir, é da ordem do irresistível. Digo “para quem sabe ouvir” porque aqui o barato não é a canção, mas o deixar-se surpreender com as reviravoltas sonoras propostas pelo grupo, coisa que nem todo mundo tá a fim quando o assunto é música. (Bernardo Oliveira)
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Embora não conheça com profundidade a obra do OOIOO, audições sucessivas deste álbum me levaram a uma comparação inevitável: o Deerhoof. Ambos começaram a tocar e gravar lá para meados dos anos 90, porém ganharam maior credibilidade pelos trabalhos realizados nesta década; ambos fazem um rock cru, irreverente, utilizando, muitas vezes, somente instrumentos básicos, mas cheio de ideias e variações; ambos possuem uma vocalista japonesa de alcance timbrístico alto (o OOIOO, no caso, é um grupo essencialmente japonês); e ambos pecam pelo mesmo motivo: acoplam muitas ideias no som sem dar ao último um enfoque coeso e satisfatório.
Poder-se-ia dizer que o OOIOO desenvolve estruturas mais progressivas, evoluindo a partir de motivos melódicos e padrões de bateria insistentes, enquanto o Deerhoof faz um som, digamos, mais destrambelhado. Guardadas as devidas proporções, o OOIOO estaria para um King Crimson (a guitarra de “Uda Hah” lembra bastante algumas faixas de Larks’ Tongues in Aspic e Red, por exemplo), ao passo que o Deerhoof estaria para um Captain Beefheart. O que chama a atenção na obra dos dois conjuntos é o imediatismo e a espontaneidade expressados no som: o rock do OOIOO e do Deerhoof é para ser ouvido hoje, agora, no volume mais alto que se puder chegar – é para ser visto ao vivo o mais rápido possível.
Há vários elementos em Armonico Hewa que o caracterizariam como um álbum criativo, expansivo: a percussão forte e incisiva, os vocais melodicamente inconstantes e gravados em multicanal (embora comedidos na intensidade), a guitarra que fabrica riffs pegajosos (porém, sem originalidade alguma) e a estrutura de faixas como “Polacca”, que começam de um modo e terminam de outro completamente diferente. É lastimável apenas que, com tantas ideias interessantes, o OOIOO e sua vocalista Yoshimi recorram a práticas improvisativas tão baratas, como em “Ulda”, que surpreende com seu sintetizador inicial, destoando e se diversificando do resto do disco, mas que se deixa arruinar pela voz: esta entra e, de imediato, passa a acompanhar o instrumento em uníssono – algo que qualquer músico de baixo escalão seria capaz de pensar e executar.
Para estes ouvidos, Armonico Hewa pode soar cansativo e, quiçá, pouco imaginativo em alguns momentos. Levando em consideração a falta de inventividade e urgência no rock contemporâneo, um lançamento do OOIOO é uma bênção; mas nunca uma solução. (Thiago Filardi)








