
Romulo Fróes é cantor, compositor e violonista residente a São Paulo. Iniciou sua carreira ainda na década de 90 como membro do grupo Losango Cáqui, com o qual gravou dois discos. Lançou seu álbum de estreia, Calado, em 2004. Dois anos depois veio o sucessor, Cão. Seu disco mais recente, o duplo No Chão sem o Chão, saiu em abril desse ano e conta com a banda formada pelo próprio (voz e violão), Fábio Sá (baixo), Guilherme Helo (guitarra) e Curumin (bateria), além de participações especiais de Lanny Gordin (guitarra), André Mehmari (piano), Bocato (trombone e arranjos de metais), Mariana Aydar (voz), Nina Becker (voz) e as pastoras da Velha Guarda Musical da Nenê de Vila Matilde. (TF)
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Há algo no aspecto conceitual e estrutural de No Chão sem o Chão que o remete inevitavelmente a Something/Anything?, disco de 1972 de Todd Rundgren. A exemplo da obra de Rundgren, o álbum de Romulo Fróes é duplo e dividido da seguinte maneira: a 1ª sessão (como é intitulado cada CD), Cala Boca Já Morreu foi gravada ao vivo, no período de uma semana, dando espaço à improvisação. Já a 2ª sessão, Saiba Ficar Quieto, foi produzida nos moldes convencionais de estúdio, com maior esmero na gravação e execução dos instrumentos. A única diferença a notar em relação a Something/Anything?, é que, neste, o processo se dá inversamente: Something (a primeira “sessão”), como o título explicita, é alguma coisa, é o disco elucubrado, enquanto Anything (a segunda “sessão”), ou qualquer coisa (tradução que me permite ainda fazer uma comparação tripla, incluindo Jóia e Qualquer Coisa de Caetano na discussão), é mais relaxado, pois fruto de uma jam session.
A analogia entre os dois artistas e suas respectivas obras, no entanto, não ultrapassa o âmbito conceitual e o approach musical. Sonora e estilisticamente, os álbuns são distintos e nem caberia compará-los sob essa ótica, haja vista as propostas estéticas e contextos desiguais. Mas se cito o álbum de Rundgren, não são por motivos frívolos ou vaidosos; à exceção somente dos discos supracitados de Caetano – que também não chegam a delinear fortemente essa mesma ideia de diferentes aproximações musicais –, e do CSNZ, de Chico Science & Nação Zumbi, em nenhum momento da discografia brasileira, um músico havia oferecido um projeto tão ambicioso em termos de long player. E Romulo vai além: na contracapa do CD ele diz buscar novos caminhos para a canção brasileira, o que, convenhamos, é interesse de pouquíssimos compositores nacionais da atualidade.
A 1ª sessão, Cala Boca Já Morreu, começa arrebatadora, com a letargia cortante de “Do Ponto do Cão” e “Anti-Musa”, que utilizam a crueza instrumental da formação da banda e se permitem a longos solos psicodélicos – coincidentemente, Lanny Gordin, que parece ser a grande influência para a guitarra de Guilherme Helo, participa de duas faixas da 2ª sessão. A partir daí fica manifesta a ruptura deste álbum em relação aos anteriores do cantor, mais introspectivos e centrados no samba. Ruptura que se confirma com o rock suingado de “Destroço”. Em contrapartida, a quarta faixa, “Para Quem Me Quer Assim”, aposta num tempo mais devagar e expõe algumas proximidades perigosas com o grupo carioca Los Hermanos: as guitarras com reverb, os arranjos de metais, o timbre de voz de Romulo lembrando o de Camelo (mas que no resto do disco tende mais ao barítono) e as rimas com palavras oxítonas terminadas em “im”, à la “Cadê Teu Suín-?”, como “assim/flautim”, (em “Destroço” ele já havia rimado “cetim” com “clarim”), que acabam soando forçadas e desajeitadas por tanto quererem soar bonitas e singelas. As próprias letras do disco, embora interessantíssimas por um lado, são muito afeiçoadas ao eu-lírico, fazendo referências exaustivas à primeira pessoa do singular. E ao mesmo tempo que algumas figuras de linguagem funcionam perfeitamente, o pleonasmo, utilizado amiúde, reitera a percepção descrita acima acerca da falta de jeito com as palavras e as rimas; muitas vezes é usado para sugerir poeticidade (“na nota mais baixa do contrabaixo” em “Para Quem Me Quer Assim” ou “no topo da topografia” em “Minha Casa”).
É louvável nas letras de No Chão sem o Chão (feitas em parceria com Clima e Nuno Ramos) o descomprometimento com o sentido e a coerência do que é dito, característica que é predominante na obra de um Djavan, por exemplo. Não importa se duas frases sucessivas expressam algum tipo de ligação semântica; o primordial é que as palavras se encaixem umas com as outras e façam sentido, ao menos, quando cantadas, acompanhando as inflexões da melodia e do ritmo. Há também um número enorme de referências a outras canções populares famosas, e não obstante algumas delas sejam jogadas apenas para fazer valer uma menção (como o trecho de “Me Deixa em Paz” do Clube da Esquina repetido em “De Adão pra Eva”), certas influências são muito bem assimiladas, como é o caso de “Ela Me Quer Bem”, na qual fica evidente o concretismo poético de um Walter Franco (o cantor repete várias vezes “ela me quer bem/ela sabe o que quer/ela me quer bem”, até dizer “longe”, “morto” ou “pronto”).
No último parágrafo da contracapa, Romulo afirma caber a quem ouve o álbum uma avaliação do seu sucesso nessa empreitada. Pois bem, eis que chega a questão quintessencial de No Chão sem o Chão: o material exposto nesses dois discos traz realmente algum tipo de avanço ou evolução na canção brasileira? Se há alguma reflexão avante em torno obra, é de que a mesma, a exemplo do que coloca o autor, põe mais dúvidas que afirmações. O que ouvimos nesses dois álbuns é resultado de um projeto grandioso, que tem bojo e, por isso mesmo, não teme errar. Ao lançar dois discos concomitantes, o autor sabia que algumas faixas não seriam do agrado de todos – até mesmo uma sessão inteira, ou boa parte dela. Para pegar intimidade, apesar da simpatia imediata que algumas canções causam (as primeiras das duas sessões, principalmente), demora um tempo, pois o álbum é composto por 33 faixas e tem a duração por volta dos 120 minutos. Ele poderia lançar apenas um disco com as melhores músicas e dar um tratamento mais refinado em estúdio, mas isso entraria em contradição com a proposta do autor, de buscar algum tipo de novidade a partir de linguagens e estéticas existentes na música brasileira. Fazer um disco impecável, com produção requintada, é tudo o que atrapalharia Romulo nessa tentativa admirável de mapear novos territórios na discografia nacional; sendo assim, ele se igualaria a Rodrigo Campos, Céu, Roberta Sá, ou à própria cantora convidada do seu disco, Mariana Aydar (aliás, com base nas faixas com participações femininas, à exceção dos sambas, é preciso alertá-lo para que não resvale no lugar-comum da MPB contemporânea, cedendo suas composições a cantoras em voga que darão interpretações “limpas” e “sinceras” às mesmas).
No Chão sem o Chão me parece também o paroxismo da cena underground paulistana, que no ano passado havia gerado um de seus melhores discos (Punx, de Guizado). Mas o álbum de Romulo Fróes, além de contar com Curumin na bateria, figura importantíssima dessa nova geração de músicos, engloba vários estilos e vertentes musicais: samba, rock, ska, frevo, bossa e, principalmente, o cruzamento desses; somente a eletrônica, que caracteriza boa parte da safra atual paulistana, não está presente. Contudo, a ausência de texturas eletrônicas não representa, de forma alguma, um indício de anacronismo; se há algo que é intrínseco tanto no som do Guizado, quanto do São Paulo Underground (que abusam de aparatos eletrônicos em seus álbuns), é a organicidade do som, a qual Romulo alcança com facilidade, através de interpretações soltas, melodias cativantes, harmonias elaboradas e do balanço do grupo que o acompanha, que não só dá segurança às execuções, como é desestabilizador e criativo nas medidas certas.
Da mesmo modo que é difícil para o autor apontar um álbum favorito, é também para o ouvinte que cria afeição com o material. Mesmo assim, é inegável que a 1ª sessão seja a mais impactante e bem elaborada estruturalmente: a cada mudança de faixa, vem uma surpresa. O método de gravação também colaborou para que as canções soassem mais crus e, consequentemente, mais fortes, vigorosas. Se existe um sentimento em comum entre as duas sessões, é aquele apontado por Romulo no texto da contracapa: o de avançar sua reflexão sobre a canção brasileira, o que ele conseguiu, ao menos, esboçar. Aproveitando a expressão cunhada por Caetano Veloso em Zii e Zie, diria que Romulo Fróes não apenas almeja, como atinge o âmago, em No Chão sem o Chão, do que se entende por “transamba”. Ao buscarem um meio de transcender o samba, para além do resgate reacionário que assola a música brasileira contemporânea, Caetano e Romulo realizaram os mais belos ( e instigantes) discos brasileiros de 2009. (Thiago Filardi)
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No texto da contracapa de No chão sem o chão, Romulo Fróes relata o percurso de criação e registro deste álbum. Lá no último parágrafo, ele ressalta, em tom carregado e extremamente consciente, uma preocupação com os rumos da “canção brasileira” e sua “busca de novos caminhos pra ela”. Também escancara um individualidade exacerbada, salpicando o texto de pronomes possessivos que também povoarão as letras das 33 faixas que compõem o álbum. Para quem não conhece o som, Fróes pode parecer pretensioso e excessivamente auto-referente já a partir de suas primeiras palavras. Que compositor é esse que se dá ao luxo de transparecer amadorismo, ao incluir absolutamente todas as faixas, e sugerir um anacronismo, pela discrepância entre um CD e outro? E que pretende expandir a perspecticva sobre seu próprio trabalho através de um texto, gesto que não se coaduna com o temperamento acrítico da música produzida no Brasil hoje. O texto da contracapa fornece, sem dúvida, um diapasão adequado para adentrar o álbum: pretensioso sim, mas consciente e deliberadamente experimentador. Convém a um artista anômalo se comportar como uma anomalia, uma saudável anomalia. Sim, Fróes é pretensioso e isto só faz com que seu trabalho adquira mais força e pujança. Trata-se de uma dicção que, mal comparando, pode lembrar a singularidade de Itamar Assumpção, de Luiz Tatit, de João Donato… Não poderia ele, portanto, negociar com a imagem standard do artista modesto, mas impor-se, afirmar-se em seus próprios domínios.
A extrema consciência do texto de Fróes ilumina o caminho para a audição. Segundo ele, a primeira sessão, Cala a boca já morreu, foi realizada praticamente ao vivo, segundo um processo de releitura de antigas canções, adaptadas para uma banda de rock. O quebra-quebra do encarte, o título petulante, os arranjos viscerais, tudo favorece a visão de que se trata de um álbum de compositor raptado por uma banda de rock, tal como ele próprio admite. Já a segunda sessão, Saiba ficar quieto, foi composta especialmente para o trabalho com banda, e o requinte e a ascese do local fotografado para o encarte representam a minúcia dos arranjos e a delicadeza das letras. Mas prefiro enfocar o que paira acima desta distinção tão bem determinada, isto é, as características gerais do trabalho que fazem de Fróes e de No chão sem o chão uma das grandes surpresas musicais de 2009. Primeiro, ressalto o trabalho de compositor, não só de Fróes, mas também de seus parceiros, os artistas plásticos Clima e Nuno Ramos e dos músicos Fábio Sá e Guilherme Held, autores de melodias em nada óbvias, que se esmeram em encontrar sempre a nota perdida, aquela para a qual geralmente não se dá muita bola. E que, embora componham com um olho na “tradição” e outro na inovação, produzem peças extremamente equilibradas, que evocam o samba de Nelson Cavaquinho e um modelo de composição pós-tropicalista, bem aos estilo anos 70 (João Bosco, João Donato, Caetano…), na forma de frevos, sambas, skas, etc. Depois, as letras, que por sua vez primam por uma autonomia incomum em relação ao sub-tropicalismo que infesta a MPB diluída dos comerciais e das novelas. Ambíguas, ora irreverentes, ora barrocas, variam da apreciação expressionista do cotidiano (como em “A anti-musa”), à ironia romântica de “A caveira” e de “Qualquer coisa em você mulher”. Como se pode perceber, a base do êxito de No chão sem o chão é a assinatura singular das canções, que, agrupadas, formam um bloco consistente e revelam a sutileza do trabalho de Fróes. Um monolito gracioso, porém arredio, que requer do ouvinte tempo e atenção.
O que faz com que essas faixas não sejam apenas saborosas, mas também definitivamente marcadas na música brasileira, são os arranjos, a roupagem com que Fróes e sua banda vestem as canções. Se com os dois cds o autor quis escancarar um “amadorismo”, como destaca na contracapa, sinto em dizer que falhou, pois a sonoridade que a banda tira neste álbum é das mais interessantes e ricas dos últimos anos, superando em muito as bandas de rock que andam por aí – como se pode ouvir em “Anjo”, por exemplo. Com o auxílio de Lanny Gordin, Curumin, Bocato, do coro da Velha Guarda Musical da Nenê de Vila Matilde e muitos outros, eles constróem seu painel musical, inclusivo e rico, mas extremamente rigoroso. A gama de sonoridades extraídas pelo quarteto formado por bateria, baixo, guitarra e violão superam de longe o marasmo do rock’n'roll de hoje, através de batidas calcadas em diversos gêneros musicais, linhas de baixos inspiradas e econômicas, e guitarra com som de guitarra, mas com personalidade, sem as firulas exibicionistas que vemos por aí. Este rigor produz clássicos imediatos, como “Pierrô lunático”, “Cala a boca já morreu”, “Pra fazer sucesso”, “Ela me quer bem”, “Manda chamar” e muitas outras… Até mesmo as vozes excessivamente doces e juvenis de Nina Becker e Mariana Aydar caem muito bem, respectivamente no pout-pourri frevo-rock “O que todo mundo quer / Ninguém liga” e na romântica “De Adão pra Eva”.
Para mim, a comparação com Zii e Zie de Caetano Veloso e Banda Cê é inevitável: um artista de MPB, que na intenção de se “desgrudar” do rótulo de sambista, se alia a um ensemble de rock para extrair algumas sonoridades roqueiras, outras nem tanto… Aliás, nada mais oportuno e corajoso do que Fróes expressar claramente este desejo. Numa época em que muitos aproveitadores trilham o caminho oposto, faturando em cima da imagem parcialmente valorizada do samba, esta me parece mais que uma opção, mas um gesto de artista, daqueles inexoráveis e que serão, possivelmente, negligenciados ou esquecidos. Assim, a palavra chave para No chão sem o chão é austeridade, mas não uma austeridade sisuda e mal humorada. Pelo contrário. Trata-se de um grande trabalho, em importância e extensão, que exala a mesma leveza da turma de Caetano, mas que, ao contrário do baiano, inicia uma trilha que não sabemos bem onde vai dar. Não que Caetano seja previsível, mas sua criatividade já trilhou tantos caminhos que nossos ouvidos calejados já podem identificar certas inflexões comuns a toda obra. Por sua vez, Romulo Fróes disse a que veio, mas não o suficiente: por mais que a austeridade e a consistência de No chão sem o chão seja evidente, ele ainda transpira o frescor e a novidade dos primeiros álbuns dos grandes artistas. Se como afirma o autor no último parágrafo de seu manifesto, “cabe a quem ouvi-lo avaliar seu sucesso nessa empreitada”, o meu veredito é mais que positivo. Porém, devo frisar que uma certa inquietação diante do álbum vem menos de sua avaliação, do que da tal “busca por novos caminhos da canção brasileira”, frase que torna inevitável uma grande expectativa pelo que virá. (Bernardo Oliveira)
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Direto ao ponto: ouvindo No Chão Sem o Chão, me senti transportado não no tempo, mas a um universo paralelo em que a canção brasileira tivesse seguido com naturalidade seu curso de meados dos anos 70, incorporando – note-se bem, incorporando, não fundindo, misturando, nada disso – com enorme desenvoltura discursos musicais presumivelmente opostos como o samba e o rock, incorporando formas experimentais de arranjar e compor, que eu só não cunharia de avant-MPB porque o “avant” já era algo implícito para todos os artistas mais significativos desse período. Ao ouvir este terceiro disco de Romulo Fróes, sinto que ele desenvolve como que uma continuação cósmica dessa linhagem abortada, e de tão difícil restituição. Pode-se dizer que o Mundo Livre S/A tentou, mas se achou muito mais quando impregnou-se de músicas de apelo imediato de gêneros populares (“Seu Suor”, “Bolo de Ameixa”) ou no crossover (“Livre Iniciativa”) do que nos meandros das formas de composição mais discretas. Essa é a seara que Romulo Fróes domina em No Chão Sem o Chão: canções, nada mais que canções, feitas com esmero, com brilho, com pegada, com retoques que embelezam o conjunto, sem no entanto ficar remetendo a gêneros (dir-se-ia um Frank Jorge mais coeso e sem a remissão recorrente ao iê iê iê). É quase um mistério alquímico: havia inúmeros elementos para que o projeto sucumbisse como um parque temático em honra ao que a MPB já foi, mas pela energia destilada em cada faixa, pelo brilho das composições, parece que ela sempre existiu em grandeza e que esse é apenas mais um bom disco. No fundo, é muito mais que isso. Ele sozinho levanta o bicho de sua cova rasa.
“Cala Boca Já Morreu”, sessão nº1, é um disco de rock, com um punch soberbo. Inicia com duas músicas enormes, que se não fossem tão boas seriam um ótimo motivo para abandonar a audição ali mesmo (num disco que soma 120min, as duas primeiras contarem 15min denota um certo culhão). Nelas, a dinâmica de violão, guitarra e bateria, tudo cheio de pressão, me traz imediatamente à lembrança o primeiro disco de Jards Macalé, aquele mítico álbum com Lanny Gordin e Tutty Moreno. Mas é aí que está: o disco não faz o mínimo esforço para parecer com o primeiro do Macalé, ele simplesmente está imbuído do mesmo espírito artístico, não uma atualização da sonoridade mas do propósito. A verve é distinta: Macalé é lírico e confessional, Fróes ainda guarda uma distância no cantar que por vezes torna o canto empaticamente frio. Mas que discaço: das seis primeiras, de “Do Ponto do Cão” até “Anjo”, tudo é tão enérgico quanto econômico, como o grande rock deve ser. Em seguida, o leque varia, mas a qualidade se mantém. Aos poucos, Fróes vai revelando outra de suas matrizes composicionais, que é Chico Buarque, através de sua sofisticação em cima de gêneros populares e a criação de melodias singelas, modo modinha/valsinha.
Sobre esse último aspecto, talvez surja a maior incompreensão a respeito da obra de Fróes, uma incompreensão em que eu mesmo incorri quando ouvi pela primeira vez, que foi comparar com o Los Hermanos de Bloco do Eu Sozinho. Sem dúvida Fróes bebe em Chico Buarque de maneira semelhante a Marcelo Camelo, mas com um tipo de resultado bastante distinto. E sem dúvida com motivos inspiracionais muito mais variados.
A sessão nº2, Saiba Ficar Quieto, foca nesse aspecto mais, por assim dizer, singelo da canção brasileira, com marchinha, balada, samba, canções com vocais femininos… E ainda que Fróes também se revele um bom compositor também nesse tipo particular de música – e que consegue fugir das facilidades da singeleza MPBística habitual, vide o piano de “Ou Nada” –, algumas canções se aproximam perigosamente da MPB chique e frouxa, em geral as com vocais femininos (existe um longo comentário a se fazer sobre a ausência de uma nova cantora com personalidade e vocal imponente, mas agora não é o caso). Mas é mais um pressentimento do que uma conflagração: o disco se sai muito bem seja com a guitarra elétrica e com a bateria extraordinária de Curumin – enorme presença no álbum –, seja com arranjos mais amenos e fofinhos, metais ou sopros.
No cômputo geral, 33 músicas, vários clássicos imediatos (“A Anti-Musa”, a suprema “Anjo”, “Mochila”, “Para Fazer Sucesso”, “Deserto Vermelho”, a gafieira eletrificada de “Qualquer Coisa em Você Mulher”) e a certeza de um disco com fôlego e talento suficiente para reacender todas as esperanças num porvir melhor para esse objeto hoje inanimado que é a MPB. No Chão Sem o Chão pode ser visto como o showcase de um compositor talentoso jogando nas 11, o que é, sem dúvida (por vezes até um pouco forçado). Mas o essencial é que trata-se de uma das sensibilidades mais distintas a ter surgido no horizonte da canção brasileira dos últimos anos, e que com No Chão Sem o Chão lança um disco para assentar pé definitivamente no panorama da música brasileira. (Ruy Gardnier)