
O +2 é um trio carioca de sonoridade híbrida e liderança rotativa formado pelos cantores, compositores e produtores multi-instrumentistas Moreno Veloso, Domenico Lancelotti (ex-Mulheres Q Dizem Sim) e Alexandre Kamal Kassin (ex-Acabou La Tequila). O grupo se juntou no final dos anos 90 e lançou em 2000 o LP de estreia, Máquina de Escrever Música, com Moreno à frente. Em 2003 veio Sincerely Hot, chefiado por Domenico, e em 2006 saiu Futurismo, com a liderança de Kassin. Ímã foi composto especialmente para a trilha sonora da peça teatral homônima do Grupo Corpo e lançado este ano de forma independente. (TF)
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Um pouco antes de saber a respeito do lançamento de Ímã, me indagava sobre o futuro do +2: depois de três discos com lideranças revezadas e entremeados por precisos três anos, o que viria em seguida? Eles manteriam a rotatividade e o mesmo intervalo de tempo? Ou dariam um novo nome ao próximo trabalho, se é que haveria um? Preocupava-me, pois desde Máquina de Escrever Música, nenhum grupo tão excitante aparecera na música brasileira, com composições tão consistentes, sonoridade tão diversificada e preocupações formais tão fortes. Imediatamente após tais especulações eis que me deparo com Ímã, uma trilha quase toda instrumental feita para um grupo de teatro.
Em todo caso, Ímã não deve ser encarado como uma trilha sonora puramente: esta coleção de canções, embora concebida para um propósito específico e um contexto particular, segue uma linha evolutiva na estética do conjunto iniciada lá atrás, em Máquina de Escrever Música. Neste ainda ouvia-se uma mistura rudimentar, porém notável e particular, de canções populares com arranjos e bases eletrônicas. Em Sincerely Hot, houve um baita pulo: o trio mergulhou fundo nas referências, nos cruzamentos sonoros e no conceito geral do disco – tudo soava mais orgânico e coeso. Já Futurismo, apesar de tímido e simplista nas letras e composições, apontava para uma produção perfeita (graças às experiências acumuladas de Kassin nesse ramo) e para uma química ainda mais intensa entre os três músicos. Se o último tem carimbó (“Água”), Ímã tem afrobeat (“Sol a Pino”) e uma gama de instrumentos (e não-instrumentos) ainda mais rara e variada. Além de ferramentas sonoras mais convencionais usadas, como guitarra, baixo, teclado, bateria e programadores eletrônicos, é possível ouvir também instrumentos menos usuais como ukeleles, ocarina, queixada, balafon, ganzá, cincerro, congas, kalimba, clavinete, cítara, castanholas, rototons, etc. Ou seja, há uma busca infatigável por texturas e combinações timbrísticas distintas. Nesse ponto, o +2 nunca soou tão ousado e bem-sucedido – é como se a falta de palavras os obrigasse a ter cuidado ainda maior com o aspecto formal de suas obras.
O álbum mais “completo” e satisfatório do +2 continua sendo Sincerely Hot, no entanto Ímã atinge algo que o grupo almeja desde o início da carreira: a organicidade do som. É incrível notar que em faixas como “Jogada Infantil”, “Broto de Bambu”, “Padre Baloeiro”, “Quebrando um Galho”, “Você Reclama”, “Sopro” e “Zona Portuária” é quase indistinta a natureza dos sons e a procedência dos barulhos; não faz diferença se foram utilizados aparelhos eletrônicos ou instrumentos elétricos e acústicos – importa apenas que o acasalamento musical foi perfeito, de modo a tornar tudo muito fluido e orgânico. Esse mesmo argumento pode ser aproveitado para falar da estética do grupo, que une estilos tão diversos como jazz, bossa, funk, afrobeat, samba, rock, etc, sem se ater a nenhum especificamente, mas fazendo um cruzamento coerente e singular dos mesmos. Ímã demonstra que os ideais desse trio, entre tantas coisas, estão em perfeita sintonia com aqueles pregados por este blog e seus respectivos membros. Dito isso, não me resta outra opção senão celebrar sua existência. (Thiago Filardi)
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Mantive até hoje uma relação de sutil descompromisso com as encarnações dos projetos +2. Moreno +2 vi o show, no extinto Ballroom e achei curioso, simpatizando sem no entanto nenhum esforço em parar para ouvir o disco. Domenico +2 também vi ao vivo, no Espaço Sérgio Porto. Achei muito bom mas, sabe-se lá por quê, também não ouvi o disco, Sincerely Hot. Vi o grupo como Kassin +2 no Estrela da Lapa, e dessa vez ouvi também o disco, Futurismo. Meses depois o disco está super bem colocado entre os 50 melhores do ano da Wire, sem dúvida o mais criterioso impresso sobre música que existe. Ouvi de novo e a admiração existe, mas está muito mais próxima da simpatia que do entusiasmo. Sobretudo nos dois últimos trabalhos, já mais entrosados e circunscrevendo um domínio sonoro mais pessoal, o +2 fez discos dignos mas aos quais faltava uma marca mais incisiva nas composições, uma maior pegada. Boas ideias, boas execuções, nada ruim, nada óbvio, mas ao mesmo tempo pouco brilho. As canções parecem prender o que há de mais interessante no grupo.
E aí eles fazem Ímã, um disco instrumental sob encomenda do Grupo Corpo. Não podia ter vindo em hora melhor. Depois de uma penca de anos juntos, três discos e senhor de si, o +2 se entrega àquilo em que eles são melhores: pequenos detalhes de arranjo, timbre, texturas. O fato de tratar-se de uma trilha sonora para dança dá toda a desculpa para criar paisagens sonoras evocativas e abstratas, apoiando-se mais em atmosferas do que melodias-guia. De uma forma bastante estranha – dado que foi uma guinada determinada por uma encomenda –, pode-se dizer que o grupo nunca pareceu tão à vontade com estratégias composicionais tão variadas quanto os climas criados pelas faixas. Em “Padre Baloeiro” eles mostram que conseguem muito bem incorporar procedimentos do Four Tet a uma batida de samba. “Deixa Disso” bebe em Tom Zé no riff de sintetizador e no arranjo econômico. “Sol a Pino” faz afrobeat e gafieira parecerem dois irmãos gêmeos separados no nascimento. Mesmo o lado Marcos Valle não fica de lado, com “Você Reclama” e “Zona Portuária” (onde também entra João Donato). Citamos esses e poderíamos citar diversos pilares da tradição instrumental brasileira, porque Ímã soa profundamente imbuído simultaneamente do espírito da tradição e do vigor em renová-la. É claro que, em se tratando de Brasil e desses anos 00, a tentação mais imediata talvez seja associar Ímã a Punx do Guizado ou aos discos do Hurtmold, principalmente o homônimo de 2007. Mas isso guarda apenas uma semelhança, digamos, de espírito: são todos músicos que trabalham com instrumentação básica de rock mas estendem-na para arranjos que incorporem outros elementos, e são basicamente artistas criados pelo rock que utilizam sua inspiração mais como energia do que sonoridade. Mas são, no fundo, muito distintos. O Hurtmold trabalha mais em modo pós-rock, o Guizado em modo jazz e o +2 com um naipe mais variado, espécie de encontro de Tom Zé com Banda Cê (mas isso ainda é ridiculamente aproximativo). O que importa é que, mesmo lembrando diversas coisas (que aparecem, sem dúvida, como influências), o +2 nunca soou tão interessante, tão rico musicalmente e sobretudo tão cheio de personalidade. Ímã pode ter seus momentinhos de fofura, mas trata-se sem dúvida de um disco com enorme fluência, coerência dentro das variações utilizadas e criativas soluções de composição e timbre. Pra acabar definitivamente com o descompromisso. (Ruy Gardnier)
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“Que disquinho adorável”, tendo a pensar quando gosto muito de uma trilha sonora. Um EP ou um álbum de Natal suscitam a mesma compaixão audiófila, o que em muitos casos pode indicar apenas uma boa compilação ou um conjunto lampejos breves e “laterais” à carreira do autor. Este foi o caso dos artistas que fizeram trilhas para o Grupo Corpo: à exceção de Tom Zé, para quem o espaço sonoro é um pouco mais amplo, esses artistas se utilizaram da oportunidade de criar um balé para expor facetas nem sempre presentes em seus respectivos trabalhos. Os balés do Corpo são como que espaços livres onde se permite a brincadeira, o improviso e o inusitado inclusive a artistas que em sua carreira “oficial” nao arriscam nem um compasso fora do previsto. No caso deste álbum do +2 a coisa é mais ou menos por aí: um terreno novo para improvisar vinhetas e instrumentais os mais diversos. Para quem acompanhou os trabalhos do trio até então, reparará porém que eles estão muito à vontade. Assim, Ímã talvez seja o mais apropriado e interessante movimento musical ligado ao Corpo, Ímã é como que uma obra independente de contexto, própria ao movimento interno do grupo e, por isso, encara uma dificuldade maior como “obra lateral”. Na minha opinão, o trio fez seu álbum mais interessante sob a batuta de Domenico em Sincerely Hot. Neste álbum percebia-se uma ênfase muito maior na diversificação da composição e uma atenção menor à canção, que por sua vez tomaria de assalto o conceituado Futurismo, liderado por Kassin. E esta característica explorada por Domenico, esta ausência total de preocupações estilísticas, de enquadrar o trabalho do grupo em uma seara específica, mas, pelo contrário, operando de forma radicalmente sintética, buscando mais a sonoridade perfeita entre a maior gama possível de gêneros. Uma comparação cabível em termos conceituais seria com a música de João Donato, econômica, arrojada, sofisticada, diversificada. As harmonias e melodias de Ímã são simples e singelas, executadas no entanto com delicadeza, esmero e, ao mesmo tempo, vigor. Há um afrobeat em “Sol a Pino”, jazz dissonante à la Gil Evans em “Chorume”, instrumental brasileiro no melhor estilo Hermeto em “Sopro”, sambinha pop com um assovio difícil de esquecer em “Você Reclama”, além de alguns ET’s bem identificados à sonoridade dos três primeiros álbuns do grupo, como a dobradinha “Broto de Bambu” e “Jogada infantil”. Todas as faixas muito gostosas de se ouvir e bastante criativas e arrojadas. Em suma, um disco que não só merece mais atenção que a que geralmente dispensamos às trilhas sonoras, mas que ao mesmo tempo deixa o ouvinte curioso pelo próximo álbum de estúdio do grupo. (Bernardo Oliveira)
Estou neste momento a ouvir o disco Imã, do projecto +2. O disco foi-me enviado do Brasil (eu sou português e vivo em Portugal) e estou gostando bastante. Sou apreciador do grupo (tenho todos os seus trabalhos e já os vi 2 vezes em Portugal, ao vivo) e esperava ansiosamente por um novo disco. É uma delícia! Venham +, muitos + que 2!