
Hoje radicado em Berlim, Sam Shackleton é talvez o maior produtor de música eletrônica em atividade. Conhecido primeiramente por EP’s e coletâneas editados pelo selo Skull Disco, capitaneado por seu parceiro Appleblim, trabalhou com Mordant Music e remixou Pole, Harmonia ‘76, Geiom, Moderat, Jacques Palminger, Ricardo Villalobos, entre outros. Three EPs é seu primeiro álbum editado pelo selo Perlon (casa do parceiro Villalobos) e é também seu primeiro álbum solo. (BO)
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Por que Shackleton é tão adorado pela Camarilha? E não somente por nós, mas por todos aqueles que se interessam por música essencialmente aventureira e criativa, quaisquer sejam suas orientações, gêneros ou estilos? Por que Shackleton intriga, arrebata e se torna motivo de júbilo a cada remix, a cada single? Se este é o momento adequado para estas perguntas? Certamente, pois seu primeiro álbum solo acaba de sair. Há controvérsias entretanto: trata-se de um álbum triplo de vinil que somente agora foi editado em um só cd. Confuso. Mas eu proponho que esqueçamos essas dificuldades. O sanguinário Reign in Blood, álbum antológico do Slayer, com seus vinte e poucos minutos, nunca foi questionado enquanto álbum. Com uma hora de duração, Three EPs também não há de sê-lo: é sim o primeiro álbum solo de Sam Shackleton. Não se sabe se a iconoclastia do autor se reflete também na relativização do formato-álbum, a que se referiu nosso companheiro Thiago Filardi no seu post de fim de ano. Enfim, este não é o aspecto mais importante de Three EPs, embora desperte alguma curiosidade (por exemplo, ao tomarmos conhecimento de que os lados B, C e F foram impressos em 33 ⅓ RPM, ao passo que A, D e E estão em 45 RPM). Retomo então a pergunta: de onde vem essa originalidade que conquista sobretudo aqueles que se interessam por música nova e criativa?
Observando as resenhas relativas ao disco, seja em sites comerciais como a Boomkat ou em diários musicais como a Dusted, percebemos, a despeito da boa qualidade dos textos, que todos se debatem entre rótulos e categorias que variam da retomada dos elementos primordiais do pós-punk (o reggae, o dub) até o caráter soturno do dubstep e do minimal. Mas são apenas aproximações que não dão conta do trabalho de Shackleton. Tentam em vão cercá-lo de referências históricas locais como que para decodificá-lo e, assim, explicá-lo. Mas ele desenvolveu uma gramática própria, tributária sim de um contexto de reavaliação de sonoridades constitutivas do pós-punk, como quer o ótimo texto de Ben Donnelly presente na Dusted. Mas de forma alguma é possível identificar Shackleton com o dubstep, ainda que este seja o gênero mais interessante surgido nesta década. Então, a primeira constatação: Shackleton é Shackleton e nada se parece com Shackleton. Característica suficientemente imponente para que situemos o seu trabalho como um dos mais contundentes e desafiadores da atualidade, mas que ainda não basta para justificar essa diferença ao nível do discurso.
Three EPs tem tudo o que esperávamos de um álbum de Shackleton. As melodias e ritmos inspirados na música árabe e hindu. A obtenção de timbres robustos e, sobretudo, a manipulação prodigiosa dos graves. O reprocessamento harmônico das vozes e sua utilização como instrumento musical. O entrelaçamento inspirado de diversas camadas sonoras que resultam em texturas sombrias, mas ao mesmo tempo solares. A pulsação constante e a surpresa como estratégia¹. Não há nenhum elemento acima que não seja elegantemente partilhado pelas nove faixas presentes em Three EPs. E no entanto, a surpresa! Escuta-se muita coisa neste disco que de fato remete aos trabalhos anteriores, mas é uma outra pegada, um outro gosto pela variação e, novamente, pela surpresa. Ela ocorre de forma um pouco mais abrupta do que nas passagens contínuas de suas primeiras coletâneas, é verdade; mas não se quer dizer que sejam menos minuciosas e admiráveis, pelo contrário. Como não ficar absolutamente tomado pela sobreposição rítmica e as variações de “Moon Over Joseph’s Burial”? Ou pelos “AIAIAIAI” das vozes sintetizadas que irrompem juntamente com os tambores infernais em “Let Go”; ou ainda com a inacreditável “Asha in the Tabernacle”, com sua batucada de pratos e tambores eletrônicos e seu coro “gospel” (malinês? árabe?). E a trança de vozes, pratos, guizos e estalos que se ouve na genial “Trembling Leaf”? E os acordes satânicos na introdução de “Something Has Got to Give”? É simplesmente estarrecedor e põe Three EPs no topo das listas de fim de ano.
Impossível negar que o ar de Berlim e o convívio com Villalobos trouxe mais radicalidade formal à música de Shackleton e isso se demonstra à moda de uma escalada em Three EPs. Ao contrário de Goldie, na minha opinião um dos gênios da música eletrônica da década de noventa, preguiçosamente perdido dentro de sua própria megalomania, Shackleton parece ainda ter muita lenha pra queimar. O que faz dele o nome mais querido pela Camarilha na atualidade? Não posso responder por meus companheiros, mas arrisco uma hipótese: até o presente momento ele inovou dentro de seu próprio contexto, a partir de suas próprias concepções. Esta é ou não é a característica de um grande artista? Esta é ou não é a grande característica do trabalho de Sam Shackleton? (Bernardo Oliveira)
Nota:
1. Para que esta frase não se perca na aparência de um “poetismo” sem sentido, explico: trata-se de uma capacidade de conduzir o ouvinte por um caminho e, sem alterá-lo radicalmente, introduzir novos elementos de modo a alterar consideravelmente o tal caminho. Sugiro a audição de “Stalker” e “Hamas Rules” como exemplos dessa dinâmica.
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Shackleton, de novo? Já falamos da primeira coletânea da Skull Disco, já publicamos comentário sobre remix dele para Geiom, discutimos recentemente sua colaboração com Mordant Music em Picking O’er the Bones… e ainda é um imperativo falar de Sam Shackleton. O fato de sua produção ser fragmentária, preferindo EPs e LPs partilhados com outros artistas, faz com que surjam vários de seus lançamentos. Isso em si não nos força a falar, mas quando a gente bota pra tocar a música, ela aparece com uma imponência que automaticamente nos instiga a comentar. E quem vai querer moscar mais um lançamento de um dos artistas mais criativos hoje?
A criatividade da música de Sam Shackleton está nos detalhes. Ela geralmente não se articula em trechos ganchudos (como “Skeng”, The Bug com Flow Dan) ou melodias imponentes (“Need You”, Darkstar) que nos fazem comprar imediatamente a música. É nas sutilezas que se percebe a grandeza de sua música. Em especial, no modo como ele utiliza elementos percussivos, em geral atabaques e guizos ou contratempos, para recortar ritmicamente suas faixas. Observe-se, por exemplo, em “There’s a Slow Train Coming”, a forma como os guizos são inseridos espacialmente no mix, com alternância de força entre a caixa direita e a esquerda, criando uma suntuosa base rítmica para os soturnos drones que compõem a única instância “melódica” da faixa. Ou pegue então os barulhinhos que aparecem com 1min45 em “(No More) Negative Thoughts” e que provocam desorientação rítmica por efeito de um delay sutil mas preciso que soma-se (ou melhor, se choca) aos padrões de atabaque/guizo e à linha de graves sub-bass. Ou então a serenidade quase religiosa com que o “narrador” de “Asha in the Tabernacle” emite as palavras “Sense it, know it, let it be”, como se fosse uma profecia. A notar, também, o preciosismo timbrístico e a opção pela discrição. Ao invés da dinâmica tradicional bumbo/caixa/prato, Shackleton prefere elementos percussivos mais nuançados, preferindo os guizos e atabaques já mencionados, mas partindo também para tabla (como em “Mountains of Ashes”) e mesmo para palmas de mão. Tudo isso com uma economia que, ao mesmo tempo que dá às músicas um impressionante senso de espaço, também faz com que pareça que estamos ouvindo aquelas sonoridades pela primeira vez. E quando as poderosas linhas de baixo surgem, o mundo parece acabar.
Se Three EPs aponta para novas ênfases dentro do mundo-Shackleton (porque o artista já constituiu seu mundo sonoro todo próprio), a novidade é uma atenção pronunciada dada a atmosferas soturnas, em particular no lado A do segundo EP (ou seja, as faixas 4 e 5) e na última do último EP, “Something Has Got To Give”, uma rara faixa de Shackleton em que o destaque não é percussivo. Da mesma forma como a troca de remixes com Ricardo Villalobos deixou o som de Shackleton mais cortante em suas explorações rítmicas, a parceria com o Mordant Music parece levar sua música a searas mais nebulosas, quase dark ambient por momentos. Naturalmente, isso não é nenhum demérito: grandes artistas bebem na obra de outros e a traduzem para seu próprio universo. Shackleton é um grande artista do dub, e como tal, ao invés de macaquear antigos mestres, busca novos caminhos para a exploração de linhas de grave densas, padrões de baixo/bateria e utilização de efeitos típica dessa tradição. Three EPs é mais um testemunho do talento de Shackleton e de sua constante busca por simultaneamente consolidar seu território sonoro com novas faixas geniais e vislumbrar novos caminhos dentro de seu mundo. (Ruy Gardnier)
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