
The Avalanches é um coletivo australiano de músicos e produtores capitaneado por Darren Seltmann e Robbie Chater. Lançaram diversos EPs entre 1997 e 2002 e o álbum Since I Left You em 2000. Consta que a primeira aparição do coletivo ocorreu sob a forma de um grupo punk chamado Alarm 115 formado por Darren Seltmann, Robbie Chater, Tony Diblasi and Manabu Etoh. Seus instrumentos foram comprados em brechós, local onde também encontraram boa parte dos 3.500 discos que forneceram a matéria-prima deste que é até então o único álbum do grupo. Desde então o grupo lança basicamente mixtapes com seleções musicais de outros artistas, a última sendo After the Goldrush. (BO/RG)
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E lá se vão quase dez anos do lançamento de Since I Left You. À época de seu aparecimento, o disco foi justamente saudado como um disco singular, diferente de tudo que havia em circulação. Hoje, reouvindo já a partir de uma perspectiva histórica (no mundo do pop dez anos são quase como dois séculos), surpreende a afinidade e a adesão dos Avalanches a alguns gêneros muito em voga à época, como o hip-hop de colagem (digamos, Coldcut) e o hoje já terrivelmente datado subgênero da eletrônica conhecido como big beat (Fatboy Slim, Chemical Brothers, o terceiro do Prodigy…), além dos claros flertes com a disco e a música negra americana dos 70/80. Eles soam, de fato, um pouco como uma mistura de tudo isso. Mas, a despeito das semelhanças, o que sai de Since I Left You, a partir sobretudo dos métodos de composição – baseadas em samples e loops de pequenos trechos – e da notável fluência com que as faixas seguem uma à outra mantendo o espírito mas mudando o clima, é pura obra de originalidade e sensibilidade, realizadas com um prodigioso descompromisso quanto à proveniência das fontes sonoras (se são conhecidas ou não, se há problemas de direitos ou não) e com a ambição de entalhadores que decidem passar a escultores fazendo de seu primeiro trabalho já uma obra-prima. De 2000 para cá, o mistério só cresceu: remix (ótimo) para Belle & Sebastian, Wolfmother, algumas mixtapes baixáveis direto do site do grupo, apresentações ao vivo… e nenhum sucessor de Since I Left You, nem mesmo um epzinho ou música nova para saciar a fome dos fãs. Causou sofrimento, mas em compensação serviu para aumentar a já grande mística em torno desse álbum precioso, perfeito, certamente um dos pontos mais altos dessa década que se encerra.
Since I Left You tem canções que sozinhas já fariam de si um grande álbum: “Since I Left You”, “Frontier Psychiatrist”, “A Different Feeling”, “Electricity”, “Tonight”… Mas o grande trunfo do disco é a forma extremamente coesa com que as faixas se seguem, como se fosse uma única grande faixa, ou, segundo a metáfora do próprio Robbie Chater, um tour ao redor do mundo em que tudo é fluido, passageiro, e as músicas constituiriam somente paragens de uma viagem maior. À ideia do músico como bricoleur de samples já desenvolvida anteriormente por gente como Coldcut ou DJ Shadow, os Avalanches introduzem uma dimensão de suíte, operando com enorme senso de variação seu coquetel de loops melódicos, chiados de discos velhos, falas retiradas de contexto e demais sons encontrados. O que mais espanta em Since I Left You é que, apesar do disco funcionar como um todo, todas as 18 faixas têm estratégias de composição distintas, e nenhuma é redudante ou tributária de outra no fim das contas (ao passo que com um Fatboy Slim, por exemplo, se você já ouviu uma, já ouviu todas). Todas têm seu charme particular, suscitando evocações e atmosferas diferentes. Poderíamos analisar minuciosamente cada faixa, destacando o uso do pianinho desafinado de “Tonight”, a pletora de samples inusitados em “Frontier Psychiatrist” (Polyester de John Waters, cavalo relinchando, violinos etc.), os jogos de repetição efetuados pelos loops e suas diferentes camadas, mas fica para outra ocasião. Não se pode explicar a vida num texto curto.
Ah! Since I Left You também é o grande álbum de festa da década. Pode-se colocar pra tocar de cabo a rabo que ninguém vai ficar enchendo o saco pedindo pra mudar. E se acontecer, é o caso de se perguntar se realmente o conviva é benvindo na casa. Impossível não amar The Avalanches. (Ruy Gardnier)
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Tomemos a capa de Since I Left You: variadas são as possibilidade de interpretação. Primeiro, as intensas camadas de tinta azul intrigam graças ao extremo descompasso que mantém com a sonoridade pop-festeira do grupo. Podemos também aventar a hipótese juvenil de que eles desejam expressar a solidariedade entre seus integrantes – que “estão no mesmo barco”. Ou que representam o momento em que deixam algo para trás, fazendo alusão direta ao título. Uma outra hipótese, me perdoem o delírio, é a idéia de que ao representarem uma cena turbulenta de navegação envolvendo dois barcos estejam se referindo às trocas culturais entre povos de variadas orientações e estilos, que bem viria a calhar para uma obra tão imbricada na dinâmica plurirefrencial que dá sentido à produção cultural contemporânea.
Hipóteses que surgem diante da capa, mas em franca conexão com o conteúdo da obra. Since I Left You é um álbum conceitual que tem por premissa uma adesão radical a cultura do copy and paste e que, por isso mesmo, opera sobre milhares de trechos colhidos de milhares de álbuns. Geralmente o grupo é reconhecido por esta façanha, como se a mera alusão ao procedimento esgotasse imediatamente as possibilidades de se pensar outra coisa para além da façanha. Ciente do conteúdo do álbum e do contexto em que nasceu, evito me referir aos procedimentos e privilegio os resultados: Since I Left You encerra, sobretudo, uma sonoridade vibrante, efusiva e extremamente bem-humorada. Talvez o melhor e mais convincente álbum de festa desta década. Resta saber como eles atingem esse grau de relevância num contexto em que a evanescência é não só comum como também vital.
É que a quantidade de recortes e sobreposições contidas no álbum, além de circunscrever uma gama de interesses musicais específicos (o hip hop, o funk, o soul), compreende ao mesmo tempo uma série de manifestações incompreensíveis, mas sem dúvida presentes. Seja uma voz, um instrumento, um acorde, não importa: a todo momento ouvimos alguma referência extra-black music que nos retira do ciclo comum ao segmento e nos conduz para algo além, seja o estranho piano de “Tonight”, seja as camadas de instrumentos de cordas, percussões sinfônicas e toda sorte de sonoridades condensadas para desconcertar o ouvinte. Aliás, é exatamente esta a característica central de Since I Left You: sua genialidade não reside no procedimento (um disco como Fear of a Black Planet não possui 3500 samplers, mas dá ao ouvinte esta sensação); pelo contrário, o que o caracateriza é a originalidade desconcertante com que os Avalanches combinam esse samplers, procurando sempre desenraizar o ouvinte de sua condição passiva e procurando estabelecer com ele uma conexão de ordem arqueológica.
Cabe ressaltar que, como nos mash ups, o que conta é a síntese, o terceiro elemento que surge da combinação, mas nesse caso há também o elemento que desloca a percepção do ouvinte, que o retira do jogo bem-humorado da surpresa e o conduz para o lado inseguro do desconhecido. E aí que o disco se torna realmente genial: Since I Left You é simultaneamente música de festa, música para arrebatar e também música para pensar. Qual o grande álbum dos anos 2000 que possui essas três características? Eu não me lembro… (Bernardo Oliveira)
Pois é Ruy.
Bom saber isso pra sanar minha ignorância da música australiana.
Agora, o cinema de lá não tem jeito