
Broadcast é um grupo inglês de pop/rock, eletrônico e experimental, fundado em Birmingham no ano de 1995. Começou como um quinteto, mas à época de Tender Buttons (2005), seu terceiro LP oficial, já se resumia a uma dupla: Trish Keenan (vocais) e Tim Felton (guitarra). Em 2009 eles quebraram um silêncio de quatro anos e lançaram o álbum em questão + o EP promocional de turnê Mother Is the Milky Way.
The Focus Group é um projeto de Julian House, co-fundador do selo Ghost Box, especializado em colagens e bricolagens de sons oriundos de séries de TV e library music dos anos 60 e 70. Além dos três discos lançados sob esse epíteto, Julian House também atua como designer gráfico e já concebera capas do Broadcast antes de juntar-se a eles para esse projeto colaborativo, cuja arte do álbum foi criada pelo próprio. (TF)
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Não poderia haver confluência mais natural na música contemporânea que essa entre Broadcast e Focus Group. Embora tenham surgido em contextos bem diferentes – o Broadcast na Birmingham da década de 90, no encalço de grupos como Stereolab e Pram, a cujas vocalistas Trish Keenan guarda grande semelhança no timbre e no registro; e o Focus Group, quase dez anos depois, em meados dessa década, dentro do bojo da Ghost Box, gravadora voltada a composições baseadas em samples e sons fantasmagóricos –, os dois sempre tiveram o mesmo apreço pelos anos 60, período de grande experimentação na música, quando permitiu-se grande avanço tecnológico e estético tanto no rock quanto na música eletrônica. Foi nessa época que a BBC Radiophonic Workshop – um programa desenvolvido para atender às demandas da sua própria estação de rádio, que precisava de efeitos novos para compor seus programas – viveu um de seus momentos mais frutíferos. Lá trabalharam grandes pesquisadores sonoros, como Delia Derbyshire e John Baker, possibilitando um enorme avanço dentro do campo da eletrônica. E muitos desses experimentos servem de matéria-prima para os samples do Broadcast e do Focus Group.
O Broadcast nunca escondeu sua predileção pelos anos 60 e pelo grupo The United States of America, no entanto desde os primeiros singles, já se notava um diferencial na sonoridade da banda, que a diferenciava também do Stereolab e Pram: eles não estavam interessados em imitar o USA, mas trazer de volta a atmosfera perdida dos 60 mais experimentais e psicodélicos, utilizando instrumentos com trimbragem semelhante e aproveitando as novas inserções proporcionadas pelo avanço da música do final de século, como o sample. Mas enquanto o quinteto (atual dueto) de Birmingham quase sempre canalizou suas experimentações e regressões na forma da canção, o Focus Group move e combina os samples de maneira arisca, sem qualquer resquício de canção. Contudo, sempre foi latente nos dois projetos o amor pelos anos 60 e seus sons mais esquisitos, mais recônditos – alguns remetendo até a universos infantis e canções de ninar, como se os artistas tivessem crescido nessa década, a exemplo da safra atual de grupos americanos, chamados de pop hipnagógico (referente ao estado entre ficar acordado e adormecido), como Emeralds, Pocahaunted e Skaters, que vivenciaram ainda muito pequenos o final da década de 80 e introduzem elementos relativos a recordações distantes desse período na sua estética.
Broadcast and The Focus Group Investigate Witch Cults of the Radio Age não é exatamente uma coleção de canções nem um álbum desprovido destas, mas uma mistura de samples com vocais de Trish Keenan e outros instrumentos gravados em estúdio. A maioria das faixas é bem curta e há, na verdade, poucas canções (a única que irá satisfazer completamente os fãs antigos de Broadcast é “The Be Colony”), o que torna o álbum mais próximo dos trabalhos anteriores do Focus Group, sensação corroborada pelos cortes bruscos e quase aleatórios entre as faixas. A tentativa aqui é criar um universo musical de recordações e sons passados, obscuros, daí o título do LP, que menciona ritos xamanistas da era do rádio; é como se eles interceptassem sinais bizarros e sombrios de alguma frequência sonora e os registrassem num suporte qualquer, rigorosamente do mesmo modo como foram captados. Alguns podem reclamar da falta de coesão e ligação entre as faixas, porém as músicas na nossa memória também não funcionariam dessa maneira, sem conexão prévia umas com as outras e, principalmente, sem linearidade? (Thiago Filardi)
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Nunca imaginei o Broadcast como um grupo retrô. A graça do grupo, hoje duo, sempre consistiu – além de um inegável talento para composições pop – em aliar uma sensibilidade contemporânea com um amor dos sons vintage do passado… tão mais interessantes porque eram sons meio underground. E então eles se unem com o Focus Group, cuja estética, apesar de curiosa, é apenas uma mistificação regressiva em torno de um repertório anos 60 que envolve jingles, comerciais e pop bizarro, desenvolvendo um tipo de sonoridade que parece derivar mais de um “banco de sons” (da mesma forma que os designers e publicitários se utilizam de “bancos de imagem”) do que de uma estratégia de colagem propriamente dita – a colagem sempre utiliza o choque dos contrastes como elemento dinâmico. Daí que, ouvindo Focus Group, sempre role aquele efeitinho-Audrey: um sentimento um tanto difícil de definir, mas que está imbuído daquele perfeccionismo assexuado e remetente à moda dos 50/60. No Broadcast, por assim dizer, o efeitinho-Audrey também está, mas coligado sempre a coisas distintas que o relativizam e o tornam mais interessantes.
Aí os projetos se reúnem e criam esse Broadcast and the Focus Group Investigate Witch Cults of the Radio Age. O conceito, mesmo solto, é excelente, e parece bastante apropriado tanto a Broadcast quanto a Focus Group. Mas quando a gente vai ouvir de fato o disco, parece simplesmente que os três ficaram enfurnados num apartamento tentando emular com seus instrumentos eletrônicos vintage tudo que Tom Dissevelt e Kid Baltan fizeram há 45 anos. Nenhuma ideia nova, apenas emulação de timbragem e procedimentos. O resultado são quase duas dúzias de faixas subcompostas, cujos únicos atrativos são gimmickzinhos melódicos ou timbrísticos requentados e sempre nostálgicos, em que raramente sobressai algo digno de nota – e 80% desse “digno de nota” acontece quando Trish Keenan abre a boca. Da mesma forma que alguns artistas experimentais se estrepam quando tentam fazer algo mais pop, alguns artistas pop (mais frequentemente) dão com os burros n’água quando decidem fazer seus álbuns experimentais, confundindo os fios condutores mais tênues das composições experimentais com fio condutor nenhum, e é o caso de … Investigate Witch Cults of the Radio Age. Tirando Trish Keenan soando como Julee Cruise ou Nico eventualmente, nesse disco não há nada que você não possa encontrar realizado de forma muito melhor em discos do Silver Apples, do United States of America ou dos já citados Tom Dissevelt e Kid Baltan, assim como de toda florescente primeira geração de “cientistas loucos” que decidiram trabalhar com sonoridades eletrônicas fora do registro erudito. Para os interessados em conhecer Broadcast, recomendamos o EP Work and Non-Work e Haha Sound, a provável obra-prima do grupo. Jamais esse aqui. (Ruy Gardnier)
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Guarda-me-ei de ressaltar a qualidade do trabalho do Broadcast, pois neste caso definitivamente não se trata de lembrá-lo. Trish Keenan e sua turma criaram uma sonoridade absolutamente diferente da que ouvimos nesta investigação da bruxaria na era do rádio, com a colaboração do soporífero The Focus Group. Em seus primeiros EPs e em HaHa Sounds toda uma gama de sonoridades mais ou menos conhecidas (psicodelia, Stereolab…) se configuram como um recorte pop mas a mesmo tempo ligeiramente ousado, sobretudo no que diz respeito à criação de batidas e camas de teclados e efeitos. Já era de se supor que o Broadcast dispunha de uma série de samplers e suportes, mas não sei quem teve a idéia de domesticá-los sob a supervisão desse mauricinho da library music chamado Julian House. Quando soube dessa colaboração, cogitei a hipótese do Broadcast dar consistência aos experimentos anódinos de House, mas o improvável infelizmente acontece. Pois o resultado sequer pode ser chamado de ruim, mas sem graça e sobretudo (como se dizia antigamente), cacete. A que se deve essa característica? Retomo portanto alguns argumentos de meses atrás, quando resenhamos Hey Let Loose Your Love do Focus Group: a sonoridade é até interessante, mas vazia, sem viço, sem força e, para usar um argumento que o Filardi odeia, “sem sangue”. O fato é que nesta parceria quem saiu perdendo foi o Broadcast, diluído na montanha de besteiras perpetradas por House e seu grupo imaginário. Um pena. (Bernardo Oliveira)
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