A imensa maioria da platéia de Erykah Badu provavelmente discordará, mas o fato é que convidar Janelle Monáe para abrir seus shows pode significar um tiro no pé sem precedentes no show business americano. Bastou o show de Badu começar para que eu me desfizesse dessa percepção. É que sua música domina a atenção dos expectadores e fãs, apesar do soft-jazz insosso à la Sade. À exceção de “The Healer”, o resto foram plumas e paetês de um estrelismo sem limites. A moça é linda, canta direitinho, mas sua música é sem graça e seu show, burocrático.
Passemos então ao que realmente importa, o tiro no pé, a ameaça: o show de abertura da Srta. Monáe. Em apenas trinta minutos de apresentação ela confirmou as expectativas. Trata-se de um furacão no palco, uma fonte abundante de talento, carisma e musicalidade, acompanhada por três instrumentitas eficazes com um repertório do melhor que o pop produziu nos últimos anos. O show começa exatamente como o disco. A abertura com “Suite II Overture”, seguida de “Dance or Die” e seu lema, repetido por todos os presentes: “all these dreams are forever!” A platéia responde com uivos e aplausos à dança hipnótica da cantora, que em muito lembra uma mistura de James Brown (pelo gingado) e Michael Jackson (pela apropriação prodigiosa do “break”). Como bem observa todos aqueles que tentam compreender o fenômeno-Monáe, ela não é uma cantora soul, nem uma promessa pop, mas extrapola essas características em direção ao indie rock, ao pop avant-garde, e ao rock propriamente dito, como na faixa seguinte, “Faster”. A banda, espetacular, responde positivamente a todas as alterações, entoando “Locked Inside”, a música mais Stevie Wonder de The ArchAndroid, cumprindo a apresentação do disco com perfeição. Janelle não pára um segundo no palco, e a platéia parece já tê-la adotado como uma artista completa, tratando-a com reverência e aplausos efusivos. A banda se retira, restando somente o guitarrista. A moça sobe na cadeira e, em pé, canta “Smile”, clássico de Charles Chaplin, no momento mais intimista da curta apresentação. Para terminar, eles entoam o disco-punk “Cold war” e o clássico instantâneo “Tighthope”. Impecável, perfeito, empolgante.
Monáe, então, mostra que não é só uma diva, como pode parecer em alguns momentos: ela bate cabeça até desfazer o coque e… se joga na platéia! Sim, um mosh, no melhor estilo punk rock, coroa sua apresentação meteórica e espetacular! Tudo misturado, como convém: soul sista, rapper, soul diva, punk, rock, dance music… “Dense” music! (Bernardo Oliveira)
Foto: Mariana Mansur.
Wow! Não to dizendo que essa mulher vai engolir a Amy?