Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Sun Araw – Off Duty + Boat Trip (2010; Woodsist, EUA)

Sun Araw é o projeto solo de Cameron Stallones, membro da banda psicodélica Magic Lantern. Apesar de apenas ter iniciado o projeto em 2008, o Sun Araw já conta com mais de dez lançamentos entre vinis, cd-rs, fitas-cassete e CDs. De modo aproximado, poderíamos dizer que Off Duty + Boat Trip é seu terceiro álbum, após Heavy Deeds e On Patrol. (M.M.)

* # *

O sucesso de determinados projetos está muito ligado a capacidade de quem os empreende em perceber o que está a seu redor. Músicos com bom ouvido tanto podem reconhecer o que é bom quanto separar o que é modismo e o que pode acrescentar à sua música,podendo largar na frente de outros mais talentosos, os melhores discos não são necessariamente os mais virtuosos.

Cameron Stallones não apresenta de forma flagrante nenhum talento excepcional, nem uma marca que o diferencie de outros músicos de sua turma como Ducktails, Pocahaunted, Magic Lantern (do qual faz parte) e outros acobertados pelo selo Not Not Fun. Stallones começou a lançar discos como Sun Araw em 2008 e rapidamente alcançou uma respeitável discografia. Seu estilo parece transitar pela psicodelia, sem fechar ouvidos para outras possibilidades, especialmente aquelas de timbre e manipulações eletrônicas. Em 2010 o Sun Araw já lançou um álbum, On Patrol, dedicado a longos mantras psicodélicos, revolvendo algumas experimentações por mais de dez minutos. As faixas ali trazem o que mais convencionalmente se espera de um álbum psicodélico acrescido de referências ao dub, de condução um tanto preguiçosa, como se a possibilidade de um álbum e suas grandes escalas reduzisse a intensidade das faixas. Um disco ‘aquático’, frouxo.

Já este Off Duty + Boat Trip consiste no lançamento conjunto dos EPs Boat Trip (“In The Trees” e “Canopy”) de 2008 e Off Duty (“Last Chants”, “Midnight Locker” e “Deep Temple”), recém-lançado em vinil. A jogada parece ter sido das mais acertadas: a música do Sun Araw é francamente mais ousada nos EPs e a coleção deste dois em um disco com maior possibilidade de distribuição funciona à perfeição. Longe está o tédio induzido pela linha tênue entre a repetição e a pasmaceira em que On Patrol caminha. Temos um disco que, sem abandonar o pendor psicodélico, base de todas as faixas, ousa pelo noise, por guitarras mais pronunciadas, pelo emprego de meios eletrônicos além do mero floreio e uma percussão que faz uso dos mais díspares elementos sem perder a precisão.

Apesar da junção dos EPs funcionar muito bem como álbum, o “lado A”, que consiste no EP Off Duty, mostra como Stallones vem evoluindo em sua capacidade como produtor. “Last Chant” começa barulhenta para em seguida tornar-se mais uma digressão timbrística, sem abandonar completamente o barulho inicial, com soluções vocais interessantes. “Midnight Locker” opta pelo drone como base, incorporando percussão, vocais e eletrônica de forma inventiva. Verdade que o disco é organizado em torno de ‘Deep Temple”, que ocupa posição central e espalha sua sombra por todo lado. Mas isso não estraga a audição, apenas toma o que a precede como uma preparação caprichada e rica e o que vem depois um “despressurizador” habilidoso.

“Deep Temple” é faixa mais longa do disco e é de longe o experimento mais bem sucedido de Stallones. Parece ao mesmo tempo fazer referência ao primeiro Animal Collective quanto ao Panda Bear de Person Pitch sem soar reiterativo ou perder o ritmo, apesar de seus mais de onze minutos de duração. Fosse apenas por essa faixa, Stallones já teria ganhado minha admiração. A forma como o cacoete dub de outros discos se transforma em abordagem de estúdio e não mais na miserável muleta de tantos produtores preguiçosos é muito feliz. A faixa consegue exibir tanto um senso de exploração quanto de encantamento. Não sei se é ele quem toca, mas o riff de guitarra que perpassa a faixa, por exemplo, traz um vigor que falta em alguns momentos dos primeiros discos do Animal Collective, e sua segurança como produtor se pronuncia quando ele consegue domar uma presença que poderia afundar a faixa, mesclando-a de forma inteligente. 2010 é o ano das faixas longas.

Da parte de Boat Trip temos o quase-dub ruidoso de “In The Trees”, que se beneficiaria de uma melhor edição (uma radio-edit cairia bem) e “Canopy” que às vezes parece funcionar muito melhor como mímica, mas faz bom uso de found-sounds e interferências eletrônicas como elementos de percussão e os sintetizadores que dão o tom final do disco de forma excelente.

Mesmo com toda a referência a estilos estabelecidos e até moribundos, Stallones ainda é um produtor em busca de seu som. O disco se revolve lindamente dentro d’água como toda a tradição psicodélica pautada pelo dub, mas a presença de “Deep Temple” parece o surgimento de uma pequena ilha vulcânica no Pacífico. O que não tira o mérito do que está embaixo d’água, mas torna a ilha ainda mais exuberante. (Marcus Martins)

* # *

A estética do Sun Araw causa sentimentos contraditórios. Por  um lado, percebe-se que a sonoridade desenvolvida por Cameron Stallones é imponente e imediatamente reconhecível, com sua guitarra cheia de efeitos, seus andamentos lentos, suas marcações percussivas e repetitivas, acompanhadas de poderosas linhas de baixo que imprimem uma sonoridade que faz lembrar dub. É uma psicodelia envolvente e insinuante, lenta e esfumaçada, construída em cima de bases repetitivas que evocam cantos ritualísticos, No meio de tanta gente fazendo jams que soam como mantras, é incrível que a música do Sun Araw soe absolutamente distinta e única. E quando todos os elementos da faixa se encaixam perfeitamente, brota uma intensa sensação de épico lisérgico. Antes de Off Duty + Boat Trip, “Heavy Deeds” parecia ser a música mais representativa do Sun Araw em sua plena potência. Por outro lado, cada disco do projeto de Stallones deixa atrás de si uma certa sensação de incompletude, como se as faixas todas fossem apenas a reiteração de um único som, primordial. O que não é um problema em si, mas, em se tratando de uma estética sonora tão estreita em timbres e variações, a música do Sun Araw parece circunscrita a limites um tanto exíguos. Um aquário, uma estufa em que todos os elementos internos são completamente controlados e dominados, mas que não se aventura em tecer relações com aquilo que está do lado de fora.

Off Duty + Boat Trip não reconfigura a música do Sun Araw em seu essencial. A diferença, se há uma, é da ordem do artesanato e da inspiração, ou seja, percebe-se que Stallones faz melhor o que já vinha fazendo. Ao fim da audição, persiste o sentimento de incompletude, mas enquanto o disco está tocando, as faixas nos impactam com todo seu poder evocativo e onírico. O destaque maior cabe sem dúvida a “Deep Temple”, uma viagem de 11min30 emoldurada por uma cozinha de atabaques e graves potentes e distorcidos, em que aos poucos vai se desenvolvendo uma guitarreira absurda, de fazer lembrar a psicodelia garageira do Spacemen 3 em seu começo. “Canopy”, outro destaque, utiliza diversos pequenos sons, de guisos a passarinhos, para matizar as viagens de guitarra, dessa vez mais melódicas e onduladas, com variações espaçadas que por momentos fazem lembrar Lúcio Maia em seu modo mais lírico.

Para uma música com levadas tão repetitivas e mínimas, é uma proeza que as faixas mantenham seu interesse por toda suas (longas) durações. Uma ou outra, de fato, poderia ser um pouquinho menor, mas que tudo funcione muito bem durante quase o disco inteiro só atenta para a incrível coesão do conceito sonoro do Sun Araw, uma música ao mesmo tempo relaxada e cheia de pressão, esfumaçada e ainda assim direta, soturna e praiana (um Om bronzeado soaria tão diferente de Stallones?). Falta talvez o passo além, de fugir das estruturas rígidas com que sua música é feita. Off Duty não parece apontar nesse sentido, mas talvez pedir isso já seja um capricho excessivo. De fato ele tem talento para pertencer ao primeiro time, mas sua vibe atual é sem pressa e descontraída. É parte do charme menor do Sun Araw: aos poucos, quem sabe, ele vai escavando uma trajetória gigantesca. (Ruy Gardnier)

* # *

Quando a música começa, pensamos: “será mais um disco de noise?” Aos poucos percebo que não se trata de uma sonoridade irascível, mas delirante, multiforme. A música do Sun Araw participa de um método que parece seguir uma dinâmica à deriva, uma “estética da inclusão”, na qual o excesso parece ditar a regra. E é claro que quanto mais elementos, mais a densidade do som se confunde com o barulho. Mas isto é só à primeira vista, pois nos meandros do aparente bolo de noiva de sua faixas, emergem formas musicais curiosas que fazem a graça do som. Nesta edição, que compila dois álbuns, um de 2008, outro de 2010, é possível perceber uma continuidade, uma intenção mais ou menos comum, que se orienta mais pela intensidade dos momentos do que pelos aspectos melódicos e harmônicos. E para que esta premissa se desenvolva no território propriamente musical, é necessário que o autor desenvolva uma série de padrões, de modo a não tornar o trabalho uma massaroca anódina e sem graça. Embora uma personalidade caótica forneça a pauta, é no desenvolvimento dessas premissas que a coisa pega mesmo. Basta ouvir “Midnight Locker” e seus diálogos imprevisíveis entre percussões eletrônicas e texturas de sintetizadores, renovadas a todo momento. Ou ainda a melhor faixa das cinco presentes no disco, “Deep Temple”, com seus bongôs sessentistas, vozes saturadas de efeitos e barulhinhos afins que culminam em uma apoteose de ruídos. Do mesmo naipe, a tribal “Canopy” também preenche o ouvinte de uma atmosfera letárgica, no melhor estilo pós-hippie californiano – lembra um pouco o The Hospitals… Ao final da audição, fica bastante claro que o Sun Araw tem personalidade, mas que só pode ser capturada se o ouvinte tiver a paciência de vasculhar por entre o amálgama de referências com as quais ele constrói seu som. (Bernardo Oliveira)

About these ads

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

Você está comentando usando sua conta WordPress.com. Sair / Mudar )

Imagem do Twitter

Você está comentando usando sua conta Twitter. Sair / Mudar )

Foto do Facebook

Você está comentando usando sua conta Facebook. Sair / Mudar )

Conectando a %s

Informação

Publicado às 2 de dezembro de 2010 por em dub, experimental, psicodelia e marcado , , , , .
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 36 outros seguidores

%d bloggers like this: