Heatsick é Steven Warwick, músico e DJ estabelecido em Berlim, que atua sob a alcunha de Heatsick e é metade do duo Birds of Delay. Há meia década, vem lançando uma série de CD-R’s e cassetes, mas seu primeiro LP oficial, Intersex, saiu somente em 2011, ano no qual ele também colocou no mercado o doze polegadas Dream Tennis. A sonoridade do Heatsick é feita, basicamente, por um sintetizador Casio, velho e com várias teclas faltando. (TF)
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A estética göttschingiana de E2-E4 ainda parece ser de alguma relevância para os músicos contemporâneos, embora tenha perdido sua força nos últimos dois anos. Se há pouco tempo o coqueluche era a repetição minimalista e o crescendo, agora, a música eletrônica tem, cada vez mais, apostado suas fichas em loops curtos e na justaposição de samples – sejam estes advindos de música concreta, de riffs, batidas, sons de filmes e comerciais e, principalmente, de vozes.
Ainda que o revivalismo oitentista tenha prevalecido na música da década de 2010 – e mesmo os artistas com propostas mais radicais, como James Ferraro e Oneohtrix Point Never, construam grande parte de sua sonoridade a partir de inúmeros samples oriundos dos anos 80 –, Heatsick e seu Intersex operam em uma esfera mais abrangente: aquela que engloba o minimalismo göttschingiano, baseado na repetição e no crescendo (“Ice Cream on Concrete” e “Tertiary”), assim como a cultura do sample de cortes bruscos e de tendência à abstração (“Von Anderen Ufer”) e, também, a utilização da voz como fio condutor (“Taxi Zum No”).
Por mais ordinárias que sejam as texturas de “Ice Cream on Concrete” – um dos destaques de Intersex, ao lado de “Von Anderen Ufer” – e sua estrutura, manjada, há algo de envolvente na sua sonoridade e de muito cativante em seu balanço. Na verdade, não passa de um house no estilo extended version, mas toda sua construção (até certo ponto desleixada no ritmo e nos timbres, porém bastante minuciosa), faz jus à teoria de Magnus Hirschfield sobre a relação entre música e sexo, na qual se baseia o título desde álbum – existe uma sexualidade latente em “Ice Cream on Concrete”.
No entanto, o aspecto mais fascinante de Intersex é o modo como foi feito: utilizando como instrumento principal um sintetizador Casio, no qual mais da metade de suas teclas estão faltando, Steven Warwick consegue alcançar uma sonoridade surpreendente; principalmente se levarmos em conta os meios precários com os quais arquiteta seus sons. Desde os anos 80, com o advento do Roland TR-808, fazer música unicamente com um sintetizador, virou lugar comum. Porém, chegar a um resultado tão redondo quanto desafiador, a exemplo deste – e com os meios expostos acima –, é para poucos. (Thiago Filardi)
Ouça aqui “Ice Cream on Concrete”.