Camarilha dos Quatro

Revista de crítica musical.

Omar Souleyman – Leh Jani (2011; Sham Palace, EUA)

Omar Souleyman começou a tocar por volta de 1994 e até hoje faz apresentações com a mesma banda de seu início de carreira. Seu sucesso pode ser considerado meteórico e já em 1998, o lançamento de Leh Jani foi um marcante sucesso. Acostumado a tocar em festas de casamentos, boa parte de seus discos são justamente a gravação ao vivo de tais festas, que posteriormente são vendidas em fitas cassetes. Souleyman já lançou cerca de quinhentos discos e passou a ser conhecido no ocidente após o lançamento de algumas coletâneas pelo selo Sublime Frequencies. Leh Jani foi lançado em novembro de 2011 pelo selo Sham Palace, um subsidiário do Sublime Frequencies especializado em vinis. (M.M.)

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A música da Síria é pouco conhecida/explorada no Ocidente e por este motivo temos pouco objeto de comparação com a música de Omar Souleyman. Sabemos que ele é muito popular em seu país e que sua discografia já ultrapassou quinhentos lançamentos(seus álbuns são lançados exclusivamente em cassete e vendidos em quiosques). Desde que o selo Sublime Frequencies lançou o revelador e cativante Highway to Hassake: Folk and Pop Sounds of Syria em 2007 e depois, o quase tão impressionante Dabke 2020(que recebeu o mesmo subtítulo e foi resenhado aqui) passamos aos poucos a acompanhar esse fenômeno que ultrapassa as fronteiras do estilo musical e das regionalidades, a música de Souleyman é universal em sua exuberância sem deixar de falar das mesmas coisas que lhe são familiares. Nos últimos anos tivemos a oportunidade de ouvir mais alguns discos, ele levou sua banda a alguns festivais como Glastonbury e no ano passado mostrou um pouco o alcance de seu lirismo ao injetar vida em uma música um tanto apática da Björk, que acabou entre minhas favoritas de 2011.

Faltava conhecermos melhor um das principais expressões da popularidade de Souleyman: suas apresentações em festas de casamento, que representam um ponto histórico da música contemporânea da Síria e consistem na maior parte de suas fitas, que em geral são gravações do que tocaram em festas de casamento e depois presentearam os noivos. Daí fomos agraciados no final de 2011 com o lançamento em vinil de Leh Jani, uma das fitas mais populares de Souleyman e que originalmente havia sido lançada na Síria em 1998.

A faixa título já havia aparecido em forma reduzida na coletânea Highway to Hassake, mas nada que se compare à glória de seus quase trinta minutos divididos em duas partes, e segundo informações do encarte, o álbum foi gravado ao vivo direto para a fita no estúdio caseiro do produtor Zuhir Maksi.

Ouvir toda a vibração de uma faixa como “Mawal” ou a obra-prima do transe e urgência que atende pelo nome de “Salamat Galbi Bidek (My Heart In Your Hands)” é uma experiência inigualável. Pouca coisa na música dançante contemporânea pode ombrear com o monumento erigido por “Salamat Galbi Bidek”, o diálogo ensandecido entre os vocais de Souleyman, o bouzouki elétrico e um impossível teclado, sustentados por batidas eletrônicas que em muito transcendem o funcional. O virtuosismo é derramado em todo o seu excesso e não surpreende que tamanha celebração ao poder da música seja escolhida como trilha para as exultantes cerimônias de casamento sírias. Sua música extrapola os limites do estilo dabke e adiciona elementos e inflexões ocidentais sem deixar de soar completamente particular.

A urgência e a paixão da execução conduzem àquele tipo de esquecimento que não é muito comum à música ocidental e que deixa tímida a mais extravagante faixa disco. Fora a curta introdução, nenhuma das faixas tem menos que treze minutos e em nenhum momento identifiquei uma exata repetição de trechos anteriores, sempre existe uma modulação, o encaixe de um groove, uma variação entre os instrumentos que sugere uma constante força propulsora. “Leh Jani” termina com se a gravação tivesse simplesmente sido interrompida, por que a festa não termina nunca. Até pensei em casar, apenas para tocar Leh Jani do começo ao fim em um loop que apenas acabaria quando todos estivessem desmaiados no chão, exaustos em regozijo. (Marcus Martins)

Ouça “Salamat Galbi Bidek (My Heart In Your Hands)”

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Publicado às 13 de janeiro de 2012 por em Dabke, folk, Uncategorized e marcado , .
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