24
jan
12

Lou Reed & Metallica – Lulu (2011; Warner Bros., EUA)

Lou Reed e Metallica são dois dos maiores ícones do rock de todos os tempos. O primeiro era membro, nos anos 60, do cultuado The Velvet Underground e titular de uma das carreiras solo mais complexas e diversificadas que se tem notícia. O segundo é um grupo de heavy metal, formado nos anos 80, que exerceu uma enorme influência em todas as gerações subsequentes do rock e do heavy metal. Ano passado, os dois se juntaram para gravar uma ópera-rock baseada em um conjuntos de peças, denominado Lulu, do dramaturgo alemão Frank Wedekind, que também deu origem ao filme A Caixa de Pandora, de G.W. Pabst e à ópera homônima de Alban Berg. (TF)

* # *

Conforme notou, certeiramente, um amigo ao ouvir uma faixa de Lulu, a junção de Lou Reed & Metallica soa exatamente como ela imaginava que soaria. Em uma colaboração mútua entre dois aristas (principalmente renomados), espera-se que dessa união saia algo novo, inesperado. Se por um lado, não se pode dizer o mesmo de Lulu, que não soa exatamente “novo” e talvez nem seja esta a proposta de Lou Reed e Metallica, decerto a experiência é nova para os dois e, depois de desgates e déjà vus intermináveis, a melhor maneira de encontrar uma renovação, para cada um dos lados, ou, simplesmente, um mero escape de suas rotinas, seria se associando a um parceiro tão insano quanto (ou louco em outra medida) que estivesse disposto a se aventurar na obra de Frank Wedeind e transformar a já ópera e (parcialmente) filme, Lulu, em uma ópera-rock do século XXI.

O ineditismo da parceria, que tanto foi alardeado na mídia, não é tão grande nem surpreendente para nenhum dos lados: Lou Reed já havia colaborado com o ainda mais insólito Kiss, no início dos anos 80, com algumas composições em parceria para o álbum conceitual The Elder; e o Metallica lançou, no final da década de 90, o disco S&M, gravado com a sinfonia de São Francisco e regido por Michael Karmen, que trouxe arranjos orquestrais a músicas famosas da banda – portanto, um universo ainda mais distante do punk ou rock experimental de Lou Reed. E o fato de Lulu soar exatamente como imaginaríamos que uma união entre Lou Reed e Metallica soaria, termina por destituir todo o ineditismo que ainda sombreava o álbum.

Tendo o privilégio de escrever alguns meses após seu lançamento e tendo acompanhado toda a reação de jornalistas, especialistas e fãs,a tarefa torna-se ainda mais interessante, pois há duas conclusões a se tirar do negativismo com o qual foi recebido Lulu: a primeira é que quase ninguém ouviu a obra despido de preconceito ou fanatismos, haja vista as críticas extremas e opiniões precipitadas ou infundadas, acusando o disco meramente de chato, enfadonho e decepcionante; a segunda é que tanto os ouvintes de rock quanto seus críticos parecem resvalar em um conservadorismo que remete há quase trinta anos, quando Metal Machine Music, um dos trabalhos mais inovadores e ousados no “rock” da época e dos tempos atuais também, que praticamente inventou quase tudo o que conhecemos como “noise rock”, foi rechaçado estupidamente, enquanto críticos como Lester Bangs reconheciam sua qualidade (aliás, esse foi o mesmo crítico que no disse, de antemão, que Jethro Tull não passava de uma palhaçada e o “the real thing” estava nos Stooges de Iggy Pop). O mesmo fato se repetiu com The Raven, no qual o cantor prestava uma homenagem a Edgar Allan Poe e com o Metallica (este, talvez, merecidamente), ao longo de seus últimos 20 anos de carreira, quando decidiram enveredar por uma sonoridade mais acessível.

A lição a aprender com isso tudo, tendo conhecimento do histórico de Lou Reed e de Metallica, é que nenhum movimento estranho, ou que pareça desvirtuado, será surpreendente em suas carreiras – deles, podemos esperar qualquer coisa; e que devemos escutar Lulu com ouvidos abertos – neste caso, desconsiderando o passado musical de ambas as partes e preocupando-se apenas ouvir o álbum exatamente como ele soa. Para mim, ao menos, Lulu se mostrou uma experiência visceral, perturbadora, emocionante e desafiadora – tudo o que um disco de rock deveria transmitir atualmente e, na maioria da vezes, não chega nem perto. É impossível nomear faixas de destaque, já que, por seu aspecto conceitual, uma música se encaixa na outra e todas têm como objetivo, juntas, contar uma história.

Mas desde os acordes iniciais de “Bradenburg Gate”, que começam delicadamente com um violão de aço, acompanhados da voz confortante de Lou Reed, passam, então, a ser tocados com mais força e cessam para entrar a banda toda com fúria e os backing vocals agressivos de James Hatfield até os inícios calmos de “Cheat on Me”, “Frustration” e “Dragon”, a balada “Little Dog” e o final contemplativo da derradeira “Junior Dad”, Lulu é puro vigor, pura força, puro rock’n’ roll, mas também um trabalho de esmero, delicadeza e experimentalismo. Lou Reed nunca soou tão à vontade com seus experimentos e com sua poesia falada; sua voz está solta e em plena sintonia com o instrumental executado pelo Metallica, que se faz o mesmo feijão com arroz de sempre, é com a qualidade, técnica impecável e a energia extrema de sempre. Em “Pumping Blood”, o trabalho em conjunto é impressionante – iniciando-se com staccatos de toda a parte instrumental que cessam para entrar uma guitarrinha dedilhada característica de Hatfield, lembrando sucessos como “One” e “The Unforgiven”, e depois ficar pesada novamente, iniciando um crescendo que será apenas brevemente interrompido para emendar em “Mistress Dread”, um speed metal/hardcore de arrepiar no qual Lou canta/fala quase em murmúrios arrastados – e não me lembro da última vez que ouvi um rock tão intenso e emocional como este.

Lulu fala sobre uma dançarina alemã que, após se envolver com homens ricos e ter notoriedade na sociedade alemã, entra em decadência e termina na pobreza, na prostituição. Pois essa não seria uma bela metáfora para o próprio rock’n’roll, cada vez mais decadente, mercenário e pobre de espírito? Ou para o próprio Metallica? E haveria outro poeta do rock mais indicado para contar essa história de riqueza, luxúria, subversão e prostituição? No entanto, Lulu soa triunfante e mostra dois titãs do rock, que já tiveram seus tempos de glória, em puro vigor artístico e fazendo o que podemos chamar, sim, de rock de verdade. (Thiago Filardi)

* # *

O encontro entre Lou Reed e Frank Wedekind, autor das duas peças teatrais em que está presente a personagem Lulu, depois tema de um clássico cinematográfico de G.W. Pabst, A Caixa de Pandora, é um encontro de almas afins. O jogo de poder, perversão, miserabilismo existencial e dependência psicológica é familiar ao universo de ambos artistas. Mas tudo que se pode dizer de favorável a Lulu, o disco, estaciona por aqui.  A tendência natural é culpar o Metallica, indigente há praticamente duas décadas, pelo fiasco, mas claramente essa é uma tangente óbvia demais, e no fim das contas mentirosa. Em Lulu, eles estão patentemente funcionando como uma genérica banda de heavy blues, soltando apenas aqui e acolá alguma de suas marcas de assinatura na guitarra ou na bateria (ou no vocal de James Hetfield, absolutamente risível toda hora que aparece para realçar os tons de dramaticidade). O responsável absoluto pela falência artística do projeto é mesmo Lou Reed, que não só forjou porcamente o conceito, como ainda canta/declama com uma carga dramática que excede os poderes de sua voz e, pior ainda, o tom do que está sendo dito. Ao cantar, ele parece sofrer mais do que o conteúdo das palavras que ele está entoando. O ouvinte, em todo caso, sofre mais que as palavras e o cantor, envolvido numa das maiores vergonhas alheias já sentidas diante de uma obra de um grande artista.  ”Cheat On Me” é o nome de uma das músicas, mas parece ser a própria essência de Lulu. Àqueles interessados em como tornar excelente uma fusão de declamação + barulho + fábula de deterioração, queiram fazer o favor de ouvir “The ‘Priest’ They Called Him”, fabulosa parceria entre William Burroughs e Kurt Cobain. Só a comparação já  reduz Lulu ao zero que o disco é. (Ruy Gardnier)


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