Não é culpa deles. Eles continuam lançando discos dignos e canções fortes, algumas mais que outras, mas é inevitável que se pense cada disco do Tindersticks em comparação ao que eles já foram, e especificamente nos dois primeiros álbuns que lançaram, ambos sem título e soando como nenhuma outra banda no mundo. Densos, transtornados, carregados como nenhuma outra banda do mundo, e ainda assim com uma faceta de cabaré decadente, de maquiagem borrada que, associada aos climas sombrios da música, faziam dos Tindersticks o único grupo dark barroco da história, como se o Scott Walker dos quatro primeiros discos desse as mãos ao Nick Cave trovador e aos Bad Seeds das doces melodias sinistras (pense em “The Carny”) e daí surgisse uma aberração de preciosismo timbrístico, de confiança em tours instrumentais grandiosas (violinos e outras cordas de nobreza erudita) e força lírica incomum nas melodias e na impostação vocal de Stuart Staples.
“Jism” apresenta todos os traços mais marcantes dos Tindersticks em sua época mais excessiva e rasgadamente dramática. Combina perfeitamente um órgão estridente com acordes limpos, discretos de guitarra, e a grandiloquência de diversas cordas que volta e meia atacam sem piedade ou moderação. Ao contrário de uma estrutura estrofe-refrão, temos um contínuo linear de intensidade com pequenas partes, discerníveis pelas diferenças de orquestração, e apenas uma parada para respiração, quando os violinos são dedilhados. A exuberância sombria e melancólica da instrumentação coliga-se com naturalidade à amargura da voz de Staples, e a faixa se termina por uma das mais poderosas enxurradas emocionais praticadas pelo grupo, num minuto final instrumental de guitarras, cordas e órgão acumulando a densidade sonora e explodindo em clímax dramático. O ouvinte mal se sabe comovido ou soterrado em emoção, mas sabe que uma experiência dessas não acontece muitas vezes, e valoriza essa incidência rara como um tesouro a ser guardado com cuidado. Os próprios Tindersticks voltaram poucas vezes a águas tão caudalosas (“Talk To Me”, do disco seguinte, é um exemplo), mas isso só serve para mostrar quão difícil é manter esse tipo de equilíbrio e tensão. O que foi feito, em todo caso, já entrou pra História. (Ruy Gardnier)